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Peixes, pintores e poetas

Peixes, pintores e poetas. O ambiente dos peixes é a água. Nela,  eles nascem, respiram e morrem. Os pintores precisam das imagens. Nelas, se expressam, se transformam, se transcendem. Os poetas vivem entre as estrelas. Nelas, os sentimentos brotam, pousam e se escondem.

Seguem dois poemas e dezessete pinturas. De peixes criados por poetas e pintores.

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“Natureza Morta com peixes”, de Guignard. 1933.

 

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“Natureza morta com peixes”, de Renoir. 1916.

“Pescaria”, de Cecília Meireles

Cesto de peixes no chão.
 Cheio de peixes, o mar.
 Cheiro de peixe pelo ar.
 E peixes no chão.

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“Natureza morta com peixes”, de Gauguin.

Chora a espuma pela areia,
 na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
 as mãos do mar pela areia
 onde os peixes estão.

 As mãos do mar vêm e vão,
 em vão.
 Não chegarão
 aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
 a espuma da maré cheia.

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“Sol poente”, de Tarsila do Amaral. 1929.

 

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“Arenques defumados em um pedaço de papel amarelo”, de Van Gogh. 1889.

“O livro sobre nada”, de Manoel de Barros

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“Mulher com peixes”, de Ivan Blin. 1957.

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“Natureza morta com peixes dourados”, de Goya.

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“Natureza morta com peixes”, de Frédéric Bazille. 1866.

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“Natureza morta com peixes”, de Vlaminck.

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“Natureza morta com peixes vermelhos”, de Matisse. 1911.

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“O peixe”, de Magritte. 1933.

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“Peixe”, de Aldemir Martins. 1968.

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“Peixes”, de Portinari.1961.

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“Peixes e garrafas”, de Picasso. 1908.

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“Sem título”, de Basquiat. 1981.

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“O peixe dourado”, de Paul Klee. 1925.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
 Tudo que não invento é falso.
 Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
 Tem mais presença em mim o que me falta.
 Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
 Sou muito preparado de conflitos.
 Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que  a revelou.
 O meu amanhecer vai ser de noite.
 Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
 O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
 Meu avesso é mais visível do que um poste.
 Sábio é o que adivinha.
 Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
 A inércia é meu ato principal.
 Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
 Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
 Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
 Peixe não tem honras nem horizontes.
 Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar  nada, faço poesia.
 Eu queria ser lido pelas pedras.
 As palavras me escondem sem cuidado.
 Aonde eu não estou as palavras me acham.
 Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
 Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
 A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos  mais fundos desejos.
 Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
 Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
 Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada.  Só se compara aos santos.
Os santos querem ser os vermes de Deus.
 Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
 O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
 Por pudor sou impuro.
 O branco me corrompe.
 Não gosto de palavra acostumada.
 A minha diferença é sempre menos.
 Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
 Não preciso do fim para chegar.
 Do lugar onde estou já fui embora.

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“Tuna Fishing”, de Dali. 1967.

 

Após escrever este post, percebo que os peixes interessam mais os pintores que os poetas.  São mais imagens do que versos. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

Fraudes: o lado avesso da Arte

Não é de hoje que obras de arte estão envolvidas em escabrosos episódios históricos envolvendo fraudes, corrupção, roubos, falsificações e afins. É o lado avesso da Arte. E o que sai na mídia, o que é difundido, é a ponta do iceberg.

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“O grande altar de Ghent”, de Jan van Eyck. 1432, óleo sobre madeira, 350 x 461 cm.

Pelo que já pude pesquisar, parece que a primeira transação suspeita com uma peça de arte, foi aquela que envolveu o famoso Altar de Ghent, na Bélgica. Desde que o pintor Jan van Eyck (1390-1441) fez sua última pincelada, em 1432, os 12 painéis do quadro foram desmontados, adulterados, saqueados, contrabandeados, escondidos, censurados, vendidos ilegalmente, danificados pelo fogo, envolvidos em discussões diplomáticas, procurados tanto por Napoleão quanto  pelos nazistas…

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“Girassóis”, de Van Gogh. Obra sob investigação de falsificação.

Com relação a falsificações de obras de arte, todos os artistas nacionais e estrangeiros que têm mercado sólido são falsificados. Um dos pintores mais falsificados é Vincent van Gogh (1853-1890), com cerca de 45 obras, entre desenhos e pinturas, sendo questionadas de autenticidade. Uma delas seria “Os Girassóis“, vendida à empresa japonesa Yasuda Fire & Marine Insurance Co Ltd, em 1987 por US$ 41,46 milhões. Quanto aos artistas brasileiros, um dos mais falsificados é Cândido Portinari (1903-1962), com mais de 700 obras já investigadas. Mas aqui no Brasil, do contrário que no exterior, muitas dessas obras pecam pela falta de sutileza nas imitações, sendo reproduções de baixa qualidade, dotadas de falhas bastante grotescas.

Milhões de reais em quadros apreendidos ou recebidos como pagamento de dívidas também recontam histórias de fraudes, falências e liquidações das últimas décadas no Brasil. Muitas estão espalhadas em órgãos públicos como o Banco Central (BC) e a Caixa Econômica Federal, onde foram parar devido à legislação da época em que foram retomadas dos proprietários.

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Obras expostas no BC, apreendidas como pagamento de dívida de bancos liquidados. Foto de Jeilton Alves.

Em decorrências de fraudes bancárias, falências e dívidas em atraso, o BC reúne 554 obras de fazer inveja a muitos museus. Na lista estão nomes consagrados da pintura brasileira como Candido Portinari, Alfredo Volpi (ítalo-brasileiro), Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti.

Outra forma de fraude é a lavagem de dinheiro através do investimento em obras de arte para dar uma fachada legal à propina recebida de contratos com grandes empresas. É uma prática muito antiga.

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Obras de Nelson Leiner e Miguel Rio Branco, apreendidas na Lava-Jato. Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba

Durante a Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014, que investiga um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro, envolvendo a Petrobrás, grandes empreiteiras e políticos, a Polícia Federal apreendeu cerca de 132 obras de arte. Mas esse acervo pode ser considerado minúsculo se comparado às 12 mil telas do acervo particular do banqueiro e controlador do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira, preso em dezembro de 2006, condenado a 21 anos de prisão por lavagem de dinheiro, crime organizado e formação de quadrilha.

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Sala da casa de Edemar Cid Ferreira, ex-controlador do Banco Santos: um belo museu com esculturas, pinturas a óleo e fotografias raras

 O acervo de Edemar que ornava sua mansão tinha estátuas romanas e tesouros de arte datados dos séculos 14 a 11 a.C. Havia esculturas, pinturas a óleo, fotografias raras, achados arqueológicos e obras contemporâneas de artistas consagrados.

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“Hannibal”, de Jean-Michel Basquiat

Boa parte destas obras que compõem estes acervos apreendidos tem histórias muito interessantes. É o caso da obra “Hannibal”, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que aportou no aeroporto internacional de Londres num caixote em que se declarava obra sem nome, no valor de 100 dólares. Só mais tarde é que os investigadores federais descobririam ser de Basquiat e valer 8 milhões de dólares. A pintura era parte de uma coleção de 12 mil peças montada por Edemar Ferreira enquanto controlava o Banco Santos – algumas expostas em museus como o Guggenheim, em Nova York.

Moral (ou será imoralidade) da história: o que se tem observado, através da criminalidade organizada no contexto do mercado de arte, é que a compra de uma obra não é norteada pela sua qualidade e sim pelo valor que atinge no mercado nacional, em franca expansão, e internacional. Em outras palavras, as fraudes incrementam a valorização da obra de um artista. E vice-versa.

Autor: Catherine Beltrão