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Era uma vez o impressionismo de Renoir

A luz da manhã, o movimento da vida acontecendo, as cores desabrochando, tudo me fez pensar que hoje é dia de falar sobre o Impressionismo. Mais especificamente, sobre o impressionismo de Renoir: “Numa manhã um de nós já não tinha preto, e assim nasceu o Impressionismo“.

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“O Camarote”, de Renoir. 1876.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) passou pelo Impressionismo no período de 1870 a 1883. Pintou várias paisagens mas preferia  retratar a vida social urbana. E foi isso que o levou a pintar “L’avant-scène” (“O Camarote“), em 1876, em seu apartamento de Montmartre. A imagem descreve um casal burguês sentado no seu camarote do Opéra de Paris, já prenunciando os vários retratos que iria pintar no decorrer de sua existência.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1876.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1874.

Renoir pintou muitos retratos. E teve vários modelos. Um deles foi a atriz de nome Madame Henriot, que trabalhava na Comédie Française. Os retratos de Mme Henriot, pintados por Renoir, são hoje considerados os mais belos e encantadores do movimento impressionista.

Sem trocadilhos, estas obras são de uma beleza que impressiona, cuja luz que emana das telas chega mesmo a ofuscar os olhos de quem as contempla.

Também em 1876, Renoir pinta “La balançoire” (“O balanço“). A pintura mostra uma jovem em um balanço, conversando com um homem. Ao pé deles, está uma menina e um segundo homem apoiado numa árvore. Os modelos são Edmond, irmão de Renoir, o pintor Norbert Goeneutte, e Jeanne, uma jovem de Montmartre (pode ser a filha de Mme Henriot).

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“O balanço”, de Renoir. 1876.

A obra “Le bal du  Moulin de la Galette” é a mais célebre e significativa obra de Renoir. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. Embora o rosto de alguns dos seus amigos apareçam na imagem, como o cubano Cárdenas à esquerda dançando com uma moça, e Frank Lamy, Norbert Goeneutte e Georges Rivière sentados à mesa, a intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, nas imediações do Moulin, hoje celebrizado pela tela.

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“Le bal du Moulin de la Galette”, de Renoir. 1876.

Assim Renoir representou a Belle Époque (1870-1914) de Paris na França, um período de grande florescer artístico e econômico. A obra foi adquirida por Gustave Caillebotte que a deixou ao estado francês, juntamente com toda a sua coleção. Porém, Renoir fez uma pequena cópia desta tela, que se tornou uma das telas mais caras já vendida. (Mais “Moulin de la Galette“, clique aqui).

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“La liseuse”, de Renoir. 1876.

Mais uma obra de 1876 e a minha preferida de Renoir. Trata-se de “A liseuse“. Renoir gostava muito do tema de uma mulher deleitando-se com a leitura. Pintou várias liseuses… Mas essa tem uma luminosidade invulgar e o sorriso mais belo do impressionismo.

Nada se sabe sobre a jovem modelo. Mas ela continua lá, no Musée d’ Orsay, indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta e persistente. Os olhares de admiração de quem a contempla não a afetam, ela sabe do seu sorriso e acredita na luz de seu criador e mestre. (Mais “liseuses“, clique aqui).

 Em 1883, Renoir disse: “Por volta de 1883, eu tinha esgotado o Impressionismo e finalmente chegado à conclusão de que não sabia pintar nem desenhar“.

 Autor: Catherine Beltrão

Centésimo post: a estrada da felicidade

E eis que chega o post de número 100. E agora, o que escrevo?

Pensei nos cem anos de Edith Piaf, um dos grandes ícones da França, que faria seu centenário este ano. Também pensei nos cem anos que  o nosso pequeno grande ator Grande Otelo completaria em 2015. E pensei naTeoria Geral da Relatividade,  do grande  Albert Einstein, publicada há cem anos.  Só neste parágrafo, usei quatro vezes a palavra “grande“.  Não vou mudar. Todos eles foram – e continuam sendo – grandes: Edith Piaf, Grande Otelo, Albert Einstein.

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Obras de Ligia Pape, Edith Blin e Ron Mueck.

Só que não. O tema deste centésimo post é a Felicidade. A felicidade em percorrer esta estrada de escritos. Sobre Arte e Ciência. Ou somente sobre Arte.

Desde o primeiro post, “A Arte faz bem” , publicado em 6 de fevereiro de 2014, até o de número 99, “Da série “Quase cinzas de uma obra permanente“: França livre“, publicado em 15 de maio de 2015, o blog foi sendo enriquecido com textos produzidos  por quem fica feliz em partilhar pedaços de sua trajetória ou de suas pesquisas. Neste primeiro lote de cem, a maior parte dos textos, a bem da verdade, é minha. Mas Eduardo Vieira também colocou algumas lindas pedras na estrada, como este seu post “Você já viu Ron Mueck no MAM – RJ?“.

Foi bom demais escrever sobre amigo(a)s artistas. Luiza Caetano, Lenagal, Chico Joy, Ronaldo Miranda.  “Luiza e Fernando, DNA de almas” para Luiza (entre outros posts), a excelência em arte naïve,  “Lenagal, o feminino pleno” para Lenagal, que pinta o infinito pleno das mulheres,  “Presépios de Chico Joy: um elo perdido na tradição natalina“, para Chico, o grande artesão artista, e “Feliz Aniversário, Ronaldo Miranda!“, para o Ronaldo, um dos maiores compositores brasileiros da atualidade. Sou realmente abençoada em ter estas lindas amizades…

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Obras de Luiza Caetano, Lenagal e Chico Joy. Foto de Ronaldo Miranda comigo e com Bibi Ferreira e Clara Nunes

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Obras de Ivan Blin, M. C. Escher e Leonardo da Vinci

Fico particularmente feliz quando escrevo posts juntando Arte e Ciência. Muitos me deram esta felicidade, como “Ciência pelo Caminho das Artes” (parte I e parte II), onde escrevo sobre a trajetória e a produção pictórica de meu pai, Ivan Blin, “Arte Anamórfica, um caso de micro versus macro?“, focando obras de Bernard Pras e os dois posts sobre Leonardo da Vinci, o maior de todos os que tomaram as rédeas da Ciência e da Arte: “O Homem Vitruviano e o n• Phi: a matemática da beleza” e a “Da Vinci: Monalisa, Homem Vitruviano, ornitóptero, CVT“.

Mas a relação da Ciência com a Arte é um caminho infindável para ser explorado. Também escrevi “O número Pi na Arte“,  apresentando trabalhos matemáticos com a arte de Mondrian, “Escher: mais Matemática na Arte“ com trabalhos de aplicação da isometria na Arte  e “O Projeto Portinari e a Inteligência Artificial” e “Inteligência Artificial na Arte“, dois textos focando a IA, tendo Portinari, Mondrian e Kandinsky à frente da pesquisa.

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Obra Bernard Pras e estudos de Inteligência Artificial com obras de Mondrian

O blog ArtenaRede também está empenhado no resgate da obra de Edith Blin (1891-1983), pintora francesa que deixou um legado histórico e inestimável de pinturas realizadas em quatro décadas de produção. Além dos posts sobre as diversas fases e temas de sua obra, foi iniciada em fevereiro de 2015 a série “Quase cinzas de uma obra permanente“, cujo objetivo é a associação das obras que tiveram registro mediático na imprensa em várias épocas. Desde o início da série, foram publicados os posts “Carnaval e quase cinzas… de Edith Blin” (que deu início à série), “Da série Quase cinzas de uma obra permanente”: Piétà” (parte I e parte II), “Da série Quase cinzas de uma obra permanente”: Piétà“, “Da série Quase cinzas de uma obra permanente”: Marquesa“, “Da série Quase cinzas de uma obra permanente”: Junho 40” e “Da série Quase cinzas de uma obra permanente”: França livre“. Resgate de cinco obras. Por enquanto.

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Obras de Edith Blin, da série “Quase cinzas de uma obra permanente”

Nesta seleção feita entre os cem posts escritos, termino com  três deles, que chegaram bem perto, praticamente tocaram meu coração. O primeiro foi escrito em 25 de setembro de 2014, ao iniciar da primavera neste lado sul do Equador. Eu havia acabado de voltar de uma viagem à França, onde fui dispersar as cinzas de minha mãe, falecida dois meses antes. Nesta viagem, conheci os Jardins de Monet, em Giverny. Por 40 anos, esperei por este encontro. Ao retornar, escrevi o post “As flores de Giverny“.

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Obras de Monet, Beth Moon e Picasso

O segundo post, publicado em 7 de fevereiro de 2015, é “Lua eterniza árvores milenares” e fala sobre o projeto da fotógrafa Beth Moon, que resultou no livro “Ancient Trees: Portraits of Time” (Árvores Antigas: Retratos do Tempo”). São registros de árvores centenárias, algumas milenares, que teimam em existir ainda em vários países. Fiquei particularmente sensibilizada com o projeto pois, nesta época, ocorreu a destruição de parte da Catedral de Eucaliptos que existia na praça Getúlio Vargas no centro de Nova Friburgo, cidade onde moro no Rio de Janeiro.

E o terceiro post, bem mais recente, publicado em 8 de maio de 2015, homenageia as mães de todo(a)s nós, não importa quem sejamos. Escolhi fazer um buquê com as “Mães de Picasso“.

De vez em quando é muito bom fazer um balanço, uma retrospectiva. É um olhar pra trás construtivo, producente. Sobretudo se a gente caminha feliz pela estrada que escolheu. E se esta estrada está sendo pavimentada com pedras de Arte.

Autor: Catherine Beltrão

Post nº50: vale uma retrospectiva

O primeiro post deste blog – “Arte faz bem” – foi publicado em 6 de fevereiro. De lá pra cá, já se passaram 7 meses e 49 posts. Nada mal: média de 7 por mês e um quadrado perfeito. Vejam só, até no primeiro balanço estatístico dos escritos do blog encontro relação da Arte com a Matemática…

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Primeira imagem do cabeçalho do blog, feita de zooms de parte de obras de meu pai, Ivan Blin

Nesta primeira abordagem de retrospectiva, resolvi classificar os posts em 8 grupos distintos. O primeiro, sem dúvida o de tema mais recorrente, é o que agrupa os posts sobre a artista Edith Blin (1891-1983), a “peintre d’âmes“. Sobre ela, foram publicados os posts “Os 129 retratos“, “De como o pintor andarilho fez nascer a pintora da alma“, “Edith Blin e a Resistência Francesa“, “As flores de Edith“, “As maçãs de Cezanne e a uvas de Edith” e “Os Pierrôs de Edith Blin“. Estes escritos saíram diretamente de dentro de mim, do meu coração e das lembranças de convivência que tive com esta mulher extraordinária, que me mostrou os caminhos da vida e da Arte.

O segundo grupo dos escritos é o que relaciona a Arte com a Ciência, iniciado com o legado de meu pai: “A Ciência pelo Caminho das Artes-parte I” e “A Ciência pelo Caminho das Artes-parte II“.  Mais recentemente, foram publicados os posts relacionando a matemática com a música – “Música e Matemática, amigas de longa data“, a matemática com a harmonia e a beleza – “O Homem Vitruviano e o número Phi: a matemática da beleza” e a matemática com as artes plásticas - “Escher, mais matemática na arte“. Escrevi estes posts baseada na minha característica bastante eclética, que não aceita a dicotomia entre Arte e Ciência. Como está escrito em minha apresentação no blog, sempre consegui transitar livremente  com a Matemática e a Física, gosto de ler Dostoievsky e Fernando Pessoa e me emociono com uma fuga de Bach ou uma Bachiana de Villa Lobos.

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Segunda imagem do cabeçalho do blog, um mosaico de imagens dos primeiros 3 meses de posts publicados

O grupo número três reúne os posts que fazem parte de uma série que poderia ser chamada “histórias de obras“. Neste grupo constam “Maquis, de Edith Blin“, “Retrato de Adèle Bloch-Bauer I, de Gustav Klimt“, “Eterno Campeão, de Theta Miguez“, “A Sagração da Primavera, de Luiza Caetano” e “O quarto em Arles, de Van Gogh“. Também inseri neste grupo o post “Uma obra de arte vale mais que uma vida humana?“, que foi escrito sobre o filme “Caçadores de obras-primas” ( “Monuments Men“).  Sempre achei que a história de uma obra valoriza esta obra. Quando se conhece a trajetória, o caminho percorrido por uma determinada obra desde que foi criada, aumenta sua importância no contexto histórico e mercantil.

No grupo número quatro, resolvi agrupar os posts que estão relacionados com o Museu ArtenaRede, 1º museu real a ser criado a partir de um espaço virtual. Neste grupo estão “Museu ArtenaRede: do virtual ao real“, “Luiza Caetano, simplesmente a excelência na arte naïve“, “Luiza e Fernando, DNA de almas” e o último post escrito, “Lena Gal, o feminino pleno“. A ideia do Museu é criar um espaço físico com obras doadas de artistas que catalogaram obras no site do artenarede.com.br.

O próximo grupo, o de número cinco, reúne escritos sobre exposições ou notícias internacionais, escolhidas a dedo: “Você já viu Ron Mueck no MAM-RJ?“, “Guerra e Paz, de Cândido Portinari“, “Dali visto daqui – Parte I“, “Dali visto daqui – parte II“,  “Quadros roubados de Gauguin e Bonnard estiveram 40 anos na cozinha de trabalhador da FIAT“, “Obras da brasileira Lygia Clark são expostas no MoMA, em Nova York” e “Exposição com desenhos e gravuras de Miró chegou ao Rio de Janeiro“. Neste grupo, o blog contou com a colaboração do excelente designer Eduardo Vieira para a escrita dos posts.

Uma das grandes alegrias que tenho ao escrever os posts deste blog é quando faço pesquisa sobre um determinado tema. No grupo de número seis, reuni estes escritos que envolveram bastante  pesquisa. São eles: “Recordes de obras em leilões de arte“, “As liseuses na pintura“, “Arte anamórfica, um caso de micro versus macro?“, “Arte erótica não é pornografia“, “Monet e suas ninfeias milionárias“, “Pintores do Rio“, “O cenário dos anos 40 nas artes plásticas do Brasil” e os dois textos sobre a relação de selfies e autorretratos, “Autorretratos, os selfies eternos – parte I” e “Autorretratos, os selfies eternos – parte II“, até hoje os posts que tiveram mais acesso no blog.

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Terceira imagem do cabeçalho do blog, um mosaico de imagens dos meses 4 a 7 dos posts publicados

Devido a minha grande paixão pela Música, de vez em quando escrevo textos sobre esta Arte. Eles fazem parte do grupo sete: “Magda Tagliaferro, dama eterna da arte pianística brasileira“, “Glenn Gould, um gênio” e “Liszt e o inverno de Nova Friburgo“. Neste grupo, incluí também o escrito sobre dança, “Três divas da dança“, tendo em vista que comecei a ter contato com a música através da dança.

No último grupo, o de número oito, ficaram os posts sem classificação. Seria a classificação “outros”, que podem ser considerados as entrelinhas de todos, aqueles que servem para azeitar os compartimentos estanques. São eles: “Chico Joy, o artesão que faz arte“, “Píndaro, uma tatuagem na alma“, “Primeiro contato com Inhotim“, “Wambach, o pintor andarilho“, “Guignard, filho de Nova Friburgo” e o post que escrevi logo após a morte da minha mãe, “Mãe: quando a terra vira pó“.

7 meses. 50 posts. 69 comentários. Analisando este primeiro balanço do blog ArtenaRede, pode até parecer que o acesso ao blog e, sobretudo a interação com os leitores, é bem pequena neste primeiro momento. Com certeza é. Mas a alegria em escrever os posts e a felicidade em ler os comentários – mesmo não sendo muitos, por enquanto – é tão grande que a vontade de continuar na estrada persiste. São poucas as flores colhidas, mas cada uma delas vale um jardim.

 Autor: Catherine Beltrão