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Paletas e autorretratos (Parte II)

Inicio esta parte II da mesma forma que a parte I:

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.”

Henri Matisse (1864-1959) e Edgar Degas (1834-1917)

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Em cima, paleta e autorretrato de Matisse (1906). Embaixo, paleta e autorretrato de Edgar Degas (1863).

Numa carta a seu irmão Theo, em 1882, Van Gogh escreveu: “É impossível dizer a infinidade das cores compostas. Há uma infinidade de cinzas que podemos criar. Alguém que sabe como encontrar os cinzas da natureza, em sua paleta, é um colorista“.

Paul Cézanne (1839-1875) e Wassily Kandinsky (1866-1944)

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Em cima, paleta e autorretrato de Cézanne (1875).
Embaixo, paleta e autorretrato de Kandinsky.

É de Pablo Picasso a seguinte frase: “Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu numero é serem postas no seu justo lugar.

Joan Miró (1893-1983) e Georges Seurat (1859-1891)

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Em cima, paleta e autorretrato de Miró (1917). Embaixo, paleta e autorretrato de Seurat.

E nosso incrível poeta Manoel de Barros disse: “Sou livre para o silêncio das formas e das cores.

Paul Gauguin (1848-1903) e Édouard Manet (1832 -1883)

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Em cima, paleta e autorretrato de Gauguin (1889). Embaixo, paleta e autorretrato de Manet (1879).

Essa frase tem tudo a ver com o seu criador Francis Bacon:  “Todas as cores concordam no escuro.

Piet Mondrian (1872-1944) e Gustave Moreau (1826-1898)

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Em cima, paleta e autorretrato de Moreau (1850). Embaixo, paleta e autorretrato de Mondrian (1918)

Por fim, um belo dia Nicolas Poussin proferiu: “As cores na pintura são como chamarizes que seduzem os olhos, como a beleza dos versos na poesia.

Existem muito mais paletas. E muito mais autorretratos. O que seria mais representativo de um pintor? Sua paleta? Seu autorretrato?  Quem achar que pode responder, que o faça.

Autor: Catherine Beltrão

Paletas e autorretratos (Parte I)

Para um pintor, a paleta é seu camarim. É ali que ele se prepara, prepara sua obra, veste suas cores, do dia ou da noite.

Neste post, decidi apresentar a paleta acompanhada de um autorretrato de cada pintor. Nada mais íntimo de sua alma.

Vincent van Gogh (1853-1890)

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Paleta Van Gogh

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Autorretrato Van Gogh. 1889

 

Nesta parte I, junto às paletas e autorretratos de doze artistas, é apresentado um texto sobre a paleta de Renoir, escrito pelo seu filho Jean Renoir, no livro “Pierre-Auguste Renoir, meu Pai” , págs 336 a 338, 2005, Ed. Bizâncio, Lisboa.

 

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

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Paleta Renoir

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Autorretrato Renoir. 1879

A paleta de Renoir era limpa como uma moeda nova. Era uma paleta quadrada que se encaixava na tampa do estojo, que tinha a mesma forma. Num dos godés duplos, punha óleo de linhaça puro e no outro uma mistura de óleo de linhaça com essência de terebentina, em partes iguais. Numa mesa baixa, colocada ao lado do cavalete, tinha um copo cheio de essência de terebentina em que enxaguava o pincel, praticamente após cada aplicação de cor.

 

Salvador Dali (1904-1989)

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Paleta Dali

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Autorretrato Dali. 1941

 

Na caixa, e em cima da mesa, tinha alguns pincéis de reserva. Nunca tinha em uso mais do que dois ou três ao mesmo tempo. Mal começavam a ficar gastos, esborratavam, ou por qualquer outra razão deixavam de lhe proporcionar uma absoluta precisão de pincelada, deitava-os fora. Exigia que destruíssem os pincéis velhos, não fosse ele pegar em algum deles por engano enquanto trabalhava.

 

Marc Chagall (1887-1985)

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Paleta Chagall

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Autorretrato Chagall. 1913

Na mesinha havia também panos limpos, com os quais secava de vez em quando o pincel.

A caixa, tal como a mesa, estavam sempre perfeitamente arrumadas.

Os tubos de tintas eram enrolados a partir da dobra, de forma a obter, ao espremê-los, a quantidade exata de tinta pretendida.

 

Eugène Delacroix (1798-1863)

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Paleta Delacroix

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Autorretrato Delacroix. 1837

 

No princípio da sessão de trabalho, a paleta, que tinha sido limpa no fim da sessão anterior, estava imaculada. Para a limpar, começava por raspá-la, vertendo os resíduos para um papel, que atirava logo para o lume. Em seguida, esfregava-a com um pano embebido em essência de terebentina até que não houvesse o mínimo resquício de tinta na madeira. O pano ia também para o lume.

 

Claude Monet (1840-1926)

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Paleta Monet

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Autorretrato Monet. 1886

 

 

Os pincéis eram lavados com água fria e sabão. Recomendava que esfregassem suavemente os pelos na palma da mão. De vez em quando encarregava-me desta operação, o que me enchia de orgulho.

 

 

Edvard Munch (1863-1944)

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Paleta Munch

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Autorretrato Munch. 1923/24

 

Renoir descreveu pessoalmente a composição da sua paleta numa nota que a seguir transcrevo e que data, evidentemente, do período impressionista:

 

 

 

 

 

 Francis Bacon (1909-1992)

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Paleta Bacon

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Autorretrato Bacon. 1969

Branco de prata, amarelo de cromo, amarelo-de-nápoles, ocre amarelo, terra-de-siena natural, vermelhão, laca de garança, verde-veronês, verde-esmeralda, azul-cobalto, azul-ultramarino, espátula, raspadeira, essência, tudo o que é necessário para pintar. O ocre amarelo, o amarelo-nápoles e a terra-de-siena são meros tons intermédios que são dispensáveis, pois podem fazer-se com outras cores. Pincéis redondos de pelo de marta, pincéis chatos de seda.

Registre-se a ausência do preto, “a rainha das cores”, como ele próprio iria proclamá-lo no seu regresso de Itália.

Pablo Picasso (1881-1973)

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Paleta Picasso

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Autorretrato Picasso. 1907

À medida que se aproxima do fim da vida irá simplificar ainda mais a sua paleta. A ordem de que me lembro na época em que pintava “As Grandes Banhistas” do Louvre, no ateliê de Les Collettes, era a seguinte: começando de baixo, junto da abertura para o polegar, o branco de prata, em quantidade generosa, o amarelo-de-nápoles num montículo minúsculo, tal como todas as cores que se seguem – o ocre amarelo, a terra-de-siena, o ocre vermelho, a laca de garança, a terra verde, o verde-veronês, o azul-cobalto, o negro-marfim.

 

 

 William Turner (1775-1851)

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Paleta Turner

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Autorretrato Turner. 1824

 

Esta seleção de cores não era inalterável. Eu vi Renoir, embora em raras ocasiões aplicar vermelhão chinês que punha na paleta entre a laca de garança e a terra verde. Nem Gabrielle nem eu o vimos usar o ocre de cromo.

 

 

 

 

Frida Kahlo (1907-1954)

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Paleta Frida Kahlo

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Autorretrato Frida Kahlo. 1940

 

Esta exiguidade de meios era impressionante. Os montículos de tinta pareciam perdidos na superfície de madeira, rodeados de vazio. Renoir encetava-os com parcimônia, com respeito. Era como se achasse que iria ofender Mullard, que lhe tinha preparado meticulosamente aquelas cores, se atafulhasse a paleta com elas e depois não as usasse até à mais pequena parcela.

 

 

 Toulouse Lautrec (1864-1901)

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Paleta Lautrec

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Autorretrato Lautrec. 1880

 

 Quase sempre misturava as tintas na tela. Preocupava-se muito em que o quadro mantivesse, ao longo de todas as fases do trabalho, uma impressão de transparência.”

 

 

Continua na Parte II, a ser publicado na próxima semana.

Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh: 40 autorretratos e 800 cartas

Vincent van Gogh, sem dúvida o mais conturbado e valorizado pintor do século XIX, pintou mais de 40 autorretratos somente no período 1886 a 1889. Ele também teria escrito mais de 800 cartas, a maioria para o seu irmão Théo.  Por que Van Gogh tinha esta imensa necessidade de expor seu mundo interior?

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O último autorretrato de Van Gogh. 1889
Vídeo com alguns dos autorretratos.

Este post apresenta 17 destes autorretratos, além de trechos de algumas de suas cartas.

Em sua última carta, escreveu: “[...] em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte [...]”

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“Autorretrato, com orelha enfaixada e cachimbo”. 1889

VanGogh_autorretrato3Algumas vezes Vincent se referiu a Paul Gauguin, seu grande amigo: “Eu por mim acredito que Gauguin tinha se desanimado um pouco com a boa cidade de Arles, com a casinha amarela onde
trabalhamos e, sobretudo, comigo. De fato, tanto para ele quanto para mim, aqui ainda existiriam sérias dificuldades a vencer. Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte. Em suma, por mim eu acredito que ou ele vai decididamente partir, ou ele decididamente ficará aqui.”

E após decepar sua orelha, também se preocupou com Gauguin:

“Falemos agora de nosso amigo Gaugin, eu o assustei? Afinal porque ele não me dá nenhum sinal de vida? Ele deve ter ido embora contigo. Aliás, ele precisava rever Paris, e em Paris talvez ele se sinta mais em casa do que aqui. Diga a Gauguin que me escreva, e que sempre penso nele.”

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“Autorretrato”. 1889

Escreveu sobre ‘bondade’. E sobre ‘loucura’.

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“Autorretrato, dedicado a Gauguin”. 1888

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“Autorretratoi sem barba”. 1889

“Devo dizer que os vizinhos etc. são de uma bondade particular comigo, como todo mundo aqui sofre seja de febre, seja de
alucinação ou loucura, entendemo-nos como gente de família [...] Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo [...] Peço-lhe, portanto, que não diga que eu não tenho nada, ou não teria nada.” 1889

O que me consola um pouco é que estou começando a considerar a loucura como uma doença qualquer, e aceito a coisa como ela é, enquanto que, durante as crises, parecia-me que tudo o que eu imaginava era real [...] Poupe-me das explicações, mas peço a você e aos Srs. Salles e Rey que ajam de maneira que fim do mês ou começo de maio eu vá para lá como pensionista internado.” 1889

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“Autorretrato”. 1888

E o “ser vagabundo”…

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“Autorretrato”. 1888

VanGogh_autorretrato4“Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.

Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.

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“Autorretrato”. 1887

VanGogh_autorretrato11Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”

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“Autorretrato”. 1887

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“Autorretrato”. 1887

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

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“Autorretrato”. 1886/87

E as cores. Benditas cores.

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“utorretrato com cachimbo”. 1886

VanGogh_autorretrato16“… As cores se sucedem como que sozinhas e ao tomar uma cor como ponto de partida me vem claramente a cabeça o que deduzir, e como chegar a dar-lhe vida. Não posso entender, por isso, a grosso modo, que um pintor faz bem quando parte das cores de sua palheta em vez de partir das cores da natureza. Interessa-me menos que minha cor seja precisamente idêntica, ao pé da letra, a partir do momento em que minha tela ela fique tão bela quanto na vida. A cor, por si só, exprime alguma coisa, não se pode prescindir disso, é preciso tomar partido. O que produz beleza, beleza verdadeira, também é verdadeiro e isso realmente é pintura e é mais belo que a imitação exata das próprias coisas.”E depois, como você bem sabe, gosto muito de Arles, embora Gauguin tenha uma tremenda razão em chamá-la de a mais suja cidade de todo o Midi. E encontrei tantas amizades já entre os vizinhos, junto ao sr. Rey, e aliás entre todo mundo no hospício, que realmente eu preferiria continuar a ficar doente aqui, que esquecer a bondade destas mesmas pessoas que têm os mais incríveis preconceitos para com os pintores e a pintura. 1889

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“”Autorretrato”. 1886

E, novamente, a “bondade”:

Esses dias, mudando, transportando todos os móveis, embalando as telas que lhe enviarei, foi triste, mas me parecia muito mais triste o fato de que isso me foi dado com tanta fraternidade por você, e que durante tantos anos foi no entanto você sozinho quem me sustentou, e afinal ser obrigado a vir lhe contar toda esta triste história; mas me é difícil exprimir isto como eu o sentia. A bondade que você teve para comigo não se perdeu, pois você a teve e isto permanece sendo seu, e mesmo que os resultados materiais fossem nulos, é razão a mais para que isto permaneça sendo seu [...]. 1889

Todas as suas bondades para comigo, hoje eu as achei maiores do que nunca, não consigo dizer-lhe como eu o sinto, mas eu lhe asseguro que essa bondade foi de um bom quilate, e se você não vê seus resultados, meu caro irmão, não se atormente por isto, sua bondade permanecerá.

O que fazer com tanta bondade, tanta loucura e a sensação de “ser vagabundo”? Pintar? Escrever? As duas coisas, sem dúvida alguma.

Autor: Catherine Beltrão

 

 

 

David Bowie: autorretratos

O mundo está consternado. Vitimado por um câncer de fígado, lá se foi David Bowie (1947-2016), um dos maiores artistas de música popular de todos os tempos, tendo influenciado gerações por mais de cinco décadas de constantes inovações em suas criações artísticas.

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Autorretrato de David Bowie. 1978

Aclamado em todo o mundo e por quase todos que conhecem sua música, no entanto são poucos os que sabem de suas produções nas artes plásticas. Vale a pena.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Em sua profícua trajetória musical, ele  também teve tempo de desenhar, pintar e esculpir.  São apresentados neste post alguns de seus autorretratos, realizados em 1996.

Três destes autorretratos foram vendidos durante um leilão em Penzance, na cidade inglesa de Cornwall. Segundo a publicação, o comprador pagou US$ 10 mil  pelas três obras. As pinturas  fazem parte da coleção “D-Heads”.

Uma óbvia previsão: em dez anos, o valor destas obras terá ultrapassado os US$ 100 mil. Alguém duvida?

 

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Para ver a série dos 7 autorretratos, clique aqui.

Embora o propósito deste texto tenha sido mostrar uma faceta pouco conhecida do artista, não há como escrever sobre David Bowie e não apresentar alguma referência musical. A seguir, três links de acesso para vídeos de Bowie com grandes parceiros: em 1975, com John Lennon  – “Fame“; em 1981, com Freddie Mercury – “Under pressure“; em 1996, com Phillip Glass – “Heroes“.

Autor: Catherine Beltrão

A orelha cortada

É claro que a orelha é de Van Gogh.

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos 1886 e 1889.  Dois deles são com a orelha coberta com uma faixa branca.  Mas por que ele aparece com a orelha enfaixada? Existe mais de uma versão como resposta.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1989, ost, 60 X 49 cm. Instituto Courtauld de Arte, Londres

23 de dezembro de 1888. Antevéspera de Natal. Naquele ano, Vincent já morava na famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Tinha o objetivo de realizar o sonho de montar uma colônia de artistas e pintar pessoas e paisagens utilizando a luz direta da região.

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“A Casa Amarela”, de Van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm. Museu Van Gogh, Amsterdam

Naquele dia, Van Gogh havia mais uma vez brigado com o amigo e também pintor Paul Gauguin (1848-1903), que morava com ele na Casa Amarela. Os dois já não conseguiam se entender.“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, reclamou Gauguin a Theo, irmão de Vincent. A situação tornou-se insustentável e Gauguin resolveu ir embora. Vincent se desesperou.

A primeira versão diz que, após o jantar, Vincent teria usado uma faca para cortar um pedaço de sua orelha esquerda.  Depois, embrulhou o pedaço da orelha com jornal e foi até um bordel das redondezas, onde entregou a parte mutilada para uma prostituta chamada Rachel, dizendo-lhe para que guardasse o objeto com cuidado. Essa é a versão mais conhecida.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1889, ost, 51 X 45cm. Coleção particular.

Porém, existe outra versão para este acontecimento. De acordo com Hans Kaufmann e Rita Wildegans, dois pesquisadores de arte da Alemanha, a orelha de Vincent foi cortada por Paul Gauguin, que era um excelente esgrimista. Em entrevista ao portal do jornal britânico “The Guardian“, Kaufmann afirmou que “perto do bordel, a cerca de 300 metros da casa onde moravam, houve um último encontro entre os dois: Van Gogh teria atacado Gauguin, que, para se defender da fúria do holandês, sacou sua arma. Em seguida, fez alguns movimentos na direção de Van Gogh e depois disso cortou sua orelha“.

Segundo os historiadores, a verdade sobre o acontecido nunca veio à tona porque os dois amigos mantiveram um pacto de silêncio. Gauguin não queria ser acusado de um atentado e Van Gogh estaria apaixonado pelo amigo e queria mante-lo sempre por perto.

Dois autorretratos com a orelha cortada. Duas versões sobre o ocorrido. Alguém sabe aí de mais uma versão sobre a orelha cortada de Van Gogh?

Autor: Catherine Beltrão

Autorretratos, os selfies eternos (parte II)

Na parte I deste texto, apresentei autorretratos de da Vinci, Rembrandt, Degas, Renoir, van Gogh, Gauguin, Picasso e Matisse. Nenhuma mulher presente neste primeiro lote. Agora, vamos ao segundo. Duas mulheres fazem parte. Em tempos mais modernos, elas resolveram também se expor.

Autorretrato - Frida

“Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor”, de Frida Kahlo. 1940, ost, 61 X 47cm

Autorretrato - Botero

“Autorretrato”, de Botero

Frida Kahlo (1907-1954), artista mexicana, fez mais de 50 autorretratos. São praticamente sua autobiografia, cada um deles correspondendo a uma época de sua vida. Existe a Frida europeia, a Frida ativista política, a Frida dilacerada pela dor, a Frida pós-aborto e massacrada pela ideia de não poder ser mãe, a Frida filha, a Frida mulher. Na obra ao lado, o colar de espinhos poderia representar as raízes e o patriotismo de Frida. O beija-flor morto como pingente do colar e os espinhos machucam o pescoço da artista, representando a sua dor.

O colombiano Fernando Botero (1932) é conhecido por suas figuras rotundas. Mas eis o que diz o pintor: “Não são gordos. Eu não os vejo como gordos. Eu não pinto gordos. Para mim são formas sensuais. Se pintar naturezas mortas ou paisagens também têm estas formas. É o meu estilo.” Verdade. Todas as figuras pintadas por Botero são volumosas: de crianças a cavalos, de Monalisa a Cristo, de guerrilheiros a capitães. Seus autorretratos seguem o mesmo padrão na forma, mas a fantasia é variada: ora ele é toureiro, ora é guerreiro medieval, ora criança na primeira comunhão.

Autorretrato - Lucien Freud

“Reflection”, autorretrato de Lucien Freud. 1985.

O pintor britânico Lucien Freud (1922 – 2011), neto do famoso pai da psicanálise, fez mais de 100 retratos, muitos deles de si mesmo.  Os retratos constituem a parte fundamental de seu trabalho. Através deles, dá a conhecer a verdadeira condição humana. A pintura realista de Freud mostra o corpo como um reflexo da natureza animal do homem e, por isso, mostra também a importância do corpo desnudo. Certa vez, ele disse: “Gostaria que meus retratos fossem, por assim dizer, as pessoas mesmas, não só sua aparência exterior“. A obra ao lado pertence à National Portrait Gallery.

Autorretrato - Bacon

“Autorretrato”, de Francis Bacon. 1969.

O também britânico Francis Bacon (1909 – 1992) só pintou um tema em toda a sua vida: o corpo humano. E se dedicou aos autorretratos depois dos 50 anos. São dele estas palavras: “Em dado momento, quando não pude mais encontrar outros modelos, eu me pintei, mas por falta de coisa melhor e não porque eu achasse que isso fosse em si mais interessante”. E também: “O que eu quero fazer é deformar a coisa e afastá-la da aparência. Mas, nessa deformação, trazê-la de volta a um registro da aparência“. Seus retratos e autorretratos se parecem com carcaças vistas em açougues: a pele rasgada e os músculos brilhando, arroxeados, mostrando rostos desfigurados até a monstruosidade.

Autorretrato - Ismael Nery1

“Autorretrato”, de Ismael Nery. 1930, óleo sobre papel, 62 × 47.5 cm

Autorretrato -Tarsila

“Manteau rouge”, autorretrato de Tarsila do Amaral. 1923.

O brasileiro Ismael Nery (1900-1934) é conhecido como o “pintor maldito” do Modernismo, por jamais ter vendido um quadro. Pintor de poucas obras, também só pintou um tema em sua vida: a figura humana, representada na forma de retratos, autorretratos e nus. Vítima de tuberculose, em seus dois últimos anos de vida, suas figuras tornaram-se mais viscerais e mutiladas. O autorretrato ao lado está localizado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973) foi uma das mais importantes artistas do movimento modernista. Ao contrário de Pablo Picasso, o mais profícuo dos pintores, Tarsila fez pouco mais de 270 obras em sua vida em entre eles, 7 autorretratos. Um deles, mostrado ao lado, tem a seguinte origem: em Paris, Tarsila foi a um jantar em homenagem a Santos Dumont com esta maravilhosa capa vermelha. Além de linda, a artista costumava usar roupas muito elegantes e exóticas, e sua presença era marcante em todos os lugares que frequentava. Depois desse jantar, pintou este  autorretrato.

Autorretrato - Guignard1

“Autorretrato”, de Guignard. 1961, osm, 37 X 45cm

Autorretrato - Ibere

“Autorretrato”, de Iberê Camargo. 1984, osm.

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), pintor modernista brasileiro, criando as famosas “paisagens imaginantes”, repletas de balões de festas juninas entre morros e montanhas, foi glorificado por  poetas e artistas como Drummond, Cecília Meireles e Portinari que, um dia, escreveu: “Bom e grande Guignard. Pintor do vento e do imperceptível. No campo brincas com os passarinhos. E colhes silêncios da luz sutil. Nos presenteias obras de mestre. Enxergas o que outros não veem.” O trabalho retratista de Guignard ficou conhecido, para além da habilidade técnica, pelo cuidado que dispensou aos fundos de onde as figuras se destacam. Fazia várias pinturas em uma só.

Iberê Camargo (1914-1994), assim como Picasso, produziu uma enorme quantidade de obras. Durante sua vida criou mais de sete mil obras, entre pinturas, desenhos, guaches e gravuras. O artista realizou incontáveis autorretratos. Desta forma, ele buscava o autoconhecimento:  “Como modelo me transmuto em forma. Sou, então, pintura. Ao me retratar, gravo minha imagem no vão desejo de permanecer, de fugir ao tempo que apaga os rastros. O autorretrato é uma introspecção, um olhar sobre si mesmo. É ainda interrogação, cuja resposta é também pergunta. Essa imagem que o pintor colhe na face do espelho, ou na superfície tranquila da água, – penso no Narciso de Caravaggio – revela como ele se vê e como olha o mundo. (…) Não tenho presente quantos autorretratos pintei. Se retratar-se revela narcisismo, todos pintores o são. Na sucessão de minha imagem no tempo, ela se deteriora como tudo que é vivo e flui. Muitas vezes, me interroguei diante do espelho. No passar do tempo, nos transformamos em caricaturas.”

Estes 16 artistas, de da Vinci a Iberê, fizeram autorretratos. Usaram suas mãos, seus cérebros e seus corações para criarem cópias da imagem de si mesmos. Se vivessem nos dias de hoje, não creio que estivessem partilhando selfies em redes sociais. Pois os selfies não são registros criados por mãos, cérebros ou corações de quem quer que seja. São tão somente registros descartáveis de momentos narcisísticos de indivíduos carentes. Não que os tais 16 artistas não fossem carentes. Todo artista é. A diferença é que possuíam genialidade e sensibilidade suficientes para deixarem legados. E que legados!

Autor: Catherine Beltrão

Autorretratos, os selfies eternos (parte I)

Na história da Arte, o autorretrato é a representação que o artista faz de si mesmo, tendo surgido como gênero forte no século XV. E por que o artista retrataria a si próprio? Do ponto de vista prático – e este foi um motivo bastante utilizado por um grande número de artistas – ele próprio é o modelo mais disponível e barato que dispõe. Mas existe também a necessidade de o artista marcar seu tempo decorrido, ou suas experiências de vida se for o caso, para serem registradas ad aeternum. E não se pode ainda descartar o aspecto narcisístico de se retratar, tendendo a esconder alguns traços físicos ou psicológicos de sua personalidade.

Autorretrato - da Vinci

“Autrretrato”, de Leonardo da Vinci. 1513, desenho, 33 X 21,6cm

Autorretrato - Rembrandt

“Autorretrato de um homem jovem”, de Rembrandt. 1628/29, ost.

Iniciaremos a apresentação com um autorretrato do italiano Leonardo da Vinci (1452 a 1519),  considerado um dos maiores pintores de todos os tempos e possivelmente a pessoa dotada de talentos mais diversos a ter vivido.   Num estudo realizado em 1926, seu QI foi estimado em cerca de 180. Esta autorretrato se encontra na  Biblioteca Real de Turim. Embora o desenho esteja inacabado, cada cabelo e pelo de sua barba mostra alto grau de precisão.

Rembrandt (1606-1669), pintor holandês, foi um dos artistas que mais se retratou, tendo pintado a si mesmo quase 100 vezes! Através dos seus autorretratos, é possível, por exemplo, conhecer o percurso da sua vida, desde a juventude à velhice, mostrando-nos o homem de vontade indomável, mas solitário. A obra apresentada ao lado mostra o artista em sua juventude e se encontra na Alte Pinakatothek, em Munique/Alemanha.

Autorretrato - Degas

“Autorretrato”, de Edgar Degas. 1857/58, óleo sobre papel colado em tela, 26 X 19,1cm

Autorretrato - Renoir

“Autorretrato”, de Renoir,1875. ost, 39.1 x 31.7 cm

Edgar Degas (1834-1917), de nacionalidade francesa, estudou os autorretratos de Rembrandt e deixou-se inspirar por eles. Em 2011/12, uma exposição justapondo Rembrandt e Degas, incluindo alguns autorretratos, percorreu um roteiro em que constaram o Rijksmuseum, em Amsterdã, o The Clark Art Institute, em Williamstown e o The Metropolitan Museum of Art, em Nova York. A obra ao lado, representando o artista na juventude, se encontra no The Getty Museum, em Los Angeles.

O francês Auguste Renoir (1841-1919), um dos maiores pintores impressionistas, mestre em fixar em suas telas a luz, o brilho e a beleza das coisas, dizia: “A dor passa, mas a beleza permanece”.  Também é dele este texto: “A pintura não é uma fantasia vã. É, antes de tudo, um trabalho manual e é necessário realizá-la como um bom operário.” A obra ao lado pertence ao Sterling and Francine Clark Art Institute, em Williamstown/Massachusetts.

Autorretrato - van Gogh

“Autorretrato com a orelha cortada”, de van Gogh. 1889, ost, 60 X 49,1cm

O holandês Vincent van Gogh (1853 – 1890) pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos 1886 e 1889. Em 23 de dezembro de 1888, véspera de Natal, após uma discussão com Gauguin, Vincent cortou um pedaço do lóbulo da sua orelha esquerda.  Após sair do hospital, em 6 de janeiro de 1889, o pintor concebeu este autorretrato apresentado ao lado. Ao fundo, pode-se ver um quadro com japonesas à frente do Monte Fuji e a parte superior de um cavalete com uma tela em branco à esquerda.  Esta obra está exposta no Instituto Courtauld de Arte, em Londres.

Autorretrato - Gauguin

“Autorretrato com chapéu”, de Paul Gauguin. 1893, ost, 45 X 38cm

Paul Gauguin (1848-1903), de origem francesa e grande amigo do van Gogh, também se retratou com objetos representativos de sua trajetória de vida. O autorretrato apresentado ao lado mostra objetos trazidos de Tahití (pintura Manao tupapau). À esquerda do pintor encontramos o passado marcado pelos acontecimentos e pelos objetos. À direita, existe um triângulo verde, ainda vazio, talvez representando  os eventos futuros de sua vida. A obra está exposta no Museu d’Orsay, em Paris.

Autorretrato - Picasso

“Autorretrato”, de Pablo Picasso. 1907, ost.

Autorretrato - Matisse

“Autorretrato com camiseta listrada”, de Matisse. 1906, ost, 55 X 46cm

Segundo o Guiness, o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) foi o mais prolífico de todos os pintores, com 13.500 pinturas e desenhos, 100 mil gravuras, 34 mil ilustrações de livros e 300 esculturas ou cerâmicas. “Yo Picasso” é o título da primeira grande exposição individual sobre o auto-retrato, de Picasso. Foi realizada em 2013, no Museu Picasso, em Barcelona. Com o auto-retrato, o artista espanhol foi além de seus momentos biográficos. Expressou sentimentos, preocupação e pensamentos. A obra “Auto-retrato”,  enquadrada no precubismo , pertence à Galeria Narodni, Praga.

Entre os anos de 1948 e 1951, o pintor francês Henri Matisse (1869-1954) também se dedicou à construção e decoração de uma capela, em Vence, França. Seu amigo Picasso criticou a decisão de Matisse, que era ateu, em se envolver com um símbolo católico. “Se não rezamos, não temos o direito de representar a oração”, argumentou Picasso. “Mas nós rezamos. Nosso trabalho é, ele próprio, uma oração“, foi a resposta de Matisse. A obra ao lado pertence ao Statens Museum for Kunst, em Copenhagen.

Aqui termina o texto referente à primeira parte deste post. Para quem quiser saber mais sobre autorretratos de artistas como Frida Kahlo, Fernando Botero, Lucien Freud, Francis Bacon, Ismael Nery, Tarsila do Amaral, Guignard e Iberê Camargo, aguarde só mais um pouco. Logo virá a parte II.

Autor: Catherine Beltrão