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As ilusões óticas de Oleg Shuplyak

Quando pesquisamos sobre ilusão de ótica no google, encontramos o seguinte texto: “A interpretação do que vemos no mundo exterior é uma tarefa muito complexa. Já se descobriram mais de 30 áreas diferentes no cérebro usadas para o processamento da visão. Umas parecem corresponder ao movimento, outras à cor, outras à profundidade (distância) e mesmo à direção de um contorno. E o nosso sistema visual e o nosso cérebro tornam as coisas mais simples do que aquilo que elas são na realidade. E é essa simplificação, que nos permite uma apreensão mais rápida (ainda que imperfeita) da «realidade exterior», que dá origem às ilusões de óptica.

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“Verão”, de Giuseppe Arcimboldo

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“Céu e água”, de M.C. Escher. 1938

Talvez um dos primeiros artistas que tenha usado este conceito tenha sido Giuseppe Arcimboldo (1527-1593). Suas obras principais incluem a série “As quatro estações“, onde usou, pela primeira vez, imagens da natureza, tais como frutas, verduras e flores, para compor fisionomias humanas. A sua obra haveria de influenciar, mais tarde no século XX, os pintores surrealistas, sendo redescoberto por Salvador Dalí.

Mas, sem dúvida alguma, foi M. C.Escher (1898-1971) quem mais fez uso do conceito de ilusionamento ótico para compor suas obras, com explorações do infinito e metamorfoses – padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Ele também era conhecido pela execução de transformações geométricas (isometrias) nas suas obras.

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“Autorretrato”, de Oleg Shuplyak

Mas quem conhece Oleg Shuplyak, um artista ucraniano nascido em 1967, que usa ilusões de ótica para criar várias obras em uma só?

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De quem são os rostos acima representados?

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E esse?

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Esse todo mundo sabe…

Oleg foi estudante de Arquitetura. No curso, aprendeu a criar imagens dentro de outras imagens.   Em seu tempo livre, ele começou a pintar paisagens, desenhando rostos de pessoas famosas dentro das pinturas.

O artista escolheu personagens como Salvador Dali, Paul Cezanne, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Charles Darwin, Michelangelo, Leonardo da Vinci, John Lenon, William Shakespeare, entre muitos outros.

Em algumas de suas pinturas, a imagem do rosto está tão visível que a primeira imagem se  perde. Fica difícil para o espectador lembrar-se dessa primeira imagem… Então ele a procura, acaba encontrando, e é a segunda imagem que se perde. E assim, sucessivamente… É um verdadeiro jogo de pique-esconde de imagens em nossas mentes!

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Mais dois desafios…

Fui procurar em nossos poetas uma ilusão de ótica. Talvez aquele que mais brinca com as palavras a ponto de nos iludir e nos transviar seja Manoel de Barros. Senão, vejamos “O poeta“:

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Esse não é difícil…

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E esse, alguém sabe?

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria 13 anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

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Esse é um pequeno barco na imensidão do “deep blue”…

Ilusão de ótica. Pinturas duplas. Imagens ocultas. Vários nomes para um só sentimento: deslumbramento…

Autor: Catherine Beltrão

Arcimboldo, de animais a legumes, de elementos a estações…

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Arcimboldo, autorretrato.

Giuseppe Arcimboldo (1527 — 1599) foi um pintor italiano. Sua singularidade foi ter usado, pela primeira vez, imagens da natureza, tais como frutas, verduras e flores, para compor fisionomias humanas. Iniciou-se na vida artística aos 22 anos, projetando os vitrais da catedral de Milão, juntamente com seu pai. Arcimboldo viveu muito tempo em Praga, na corte do imperador Rodolfo II, onde estudou e criou algumas de suas obras mais conhecidas: a série “Os quatro elementos” e a série “As quatro estações“.

Contrapondo-se à autoridade clássica do Renascentismo, Arcimboldo foi um dos grandes nomes do Maneirismo, movimento artístico de protesto do século XVI, junto a pintores como Michelangelo (em sua fase madura), Ticiano, Tintoretto, Veronese e El Greco, entre muitos outros.

Outra característica do Maneirismo – a ênfase no aspecto espiritual da arte – se faz presente na obra de vários dos artistas citados. Tintoretto e El Greco eram ligados à religiosidade católica. Mas Arcimboldo, não. Mesmo sendo Praga uma corte católica, ela tinha total independência em relação à Igreja Romana e seus monarcas eram de grande tolerância em relação a outras religiões e crenças. Ali conviviam judeus, cristãos e ocultistas. E o ocultismo foi uma referência importante para Arcimboldo, como se percebe em suas paisagens antropomorfas.

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“Os quatro elementos”. Água, ar, fogo (1566) e terra (1570).

A série “Os quatro elementos” mostra a água, o ar, o fogo e a terra, magistralmente apresentados através de cabeças-retratos, cada uma das quais compostas de figuras existentes nestes elementos. Na água, peixes, pérolas, camarões, tartarugas, caranguejos, polvos, sapos; no ar, pavões, faisões, araras, entre diversos outros tipos de aves; no fogo, velas, castiçais, fogueiras, armas, canhões; na terra, dezenas de animais, como elefantes, cavalos, tigres, ratos, carneiros, antílopes, leões… interessante ver a coroa que se forma nesta cabeça, formada com os chifres de alguns destes animais.

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“As quatro estações”. 1573

A série “As quatro estações” data de 1573. A exemplo da série anterior, o artista também utilizou, em cada tela, elementos que correspondem ao tema retratado. Assim, “A Primavera” é composta basicamente por flores, “O Verão”, por frutas próprias dessa estação, “O Outono”, por folhas e frutas dessa época do ano e “O Inverno”, por uma árvore praticamente sem folhas.

É bastante interessante ver o aspecto antropomórfico destas obras. A cabeça humana é formada de flora e fauna, ou qualquer outra coisa. E tudo está a serviço do homem. Pois é ele que rege a composição, o formato.

Após a morte de Arcimboldo o interesse por sua obra diminuiu, chegando quase ao esquecimento, talvez pela estranheza que podem causar suas criações. Passaram-se trezentos anos e foi apenas no século XX, com o surgimento do Surrealismo, que este e outros maneiristas foram resgatados, recebendo a atenção e o valor merecido.

 Autor: Catherine Beltrão