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Kobra e a arte efêmera dos murais

Em janeiro deste ano, recebi a notícia de uma morte.  A obra “Genial é andar de byke“, do fantástico muralista Eduardo Kobra, estava sendo apagada e substituída por outra pintura na Rua Oscar Freire, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo.

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“Genial é andar de byke”, por Eduardo Kobra, em São Paulo.
Mural apagado em janeiro de 2018.

O mural de 15 metros de altura retratando o físico Albert Einstein andando de bicicleta,  tinha sido feito em 2015 pelo artista, que sequer foi comunicado da substituição.

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O apagar do mural.

Eduardo Kobra, para quem não sabe, é um expoente da neovanguarda paulistana, que surgiu com os grafiteiros na década de 1980. Após ter executado trabalhos em vários países, hoje é considerado um dos maiores muralistas do mundo.

Enquanto o Brasil vai matando arte – a sua e a de muitos outros – Kobra continua a fazê-la mundo afora. Em meados de 2017, dois trabalhos seus foram destaque na Europa.

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O mural de Monet pintando “Mulher com sombrinha”, por Eduardo Kobra, na França. Produzida em 2017.

Em Boulogne-sur-Mer, ao norte da França, à borda do Canal da Mancha, o artista reproduziu Claude Monet, em dois painéis. O pintor aparece em uma das obras, pintado com as cores e o estilo que marcaram boa parte do trabalho de Kobra. No outro mural, uma reprodução do quadro “Mulher com sombrinha“, feita por Monet em 1875, retratando Camille,a primeira esposa do artista eJean, o filho do casal.

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“Mulher com sombrinha”, por Eduardo Kobra.

Localizados quase frente a frente, os dois murais ocupam as laterais de dois edifícios da cidade. Ao escolher essas duas paredes, Kobra possibilitou uma interação entre as duas pinturas. Assim, o retrato de Monet parece estar finalizando a reprodução de sua obra. Um dos espaços tem 15m X 10m e o outro tem 17m X 13m.

Logo após Monet, foi a vez de John Lennon ser retratado por Eduardo Kobra. Localizada em Bristol, na Inglaterra, o mural se espalha por 256 metros quadrados. Foi batizada de “Imagine”, tendo sido apresentada no UpFest – The Urban Paint Festival, considerado o maior evento de arte urbana da Europa. Durante uma semana, diversos grafiteiros realizaram produções artísticas em muros do bairro de Bedminster. Kobra recebeu a principal parede do evento para realizar seu mural, que consumiu 300 latas de tinta spray e demandou trabalho de 14 horas por dia, durante os 7 dias do festival.

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“Imagine”, por Eduardo Kobra, na Inglaterra. Produzida em 2017.

E, também para quem não sabe, “Imagine” foi composta em 1971,  passando uma mensagem de paz, incentivando as pessoas a imaginarem um mundo sem barreiras nacionais ou religiosas, ganância ou posses materiais. É um símbolo de união e respeito entre os povos. Um mote recorrente na obra de nosso maior muralista.

A Arte é efêmera em países cujos povos – governantes e governados – possuem mentes efêmeras.

 Autor: Catherine Beltrão

A poesia do dia

Todos os dias são de poesia. Mas há dias em que a poesia chega mais perto.

Considerado o “Poeta dos Escravos“, pelo seu monumental “O Navio Negreiro“, o baiano Castro Alves (1847-1871) nasceu em um 14 de março. Em sua homenagem comemora-se neste dia o Dia da Poesia.

A duas flores” é um poema-encanto.

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Castro Alves

São duas flores unidas,
 São duas rosas nascidas
 Talvez do mesmo arrebol,
 Vivendo no mesmo galho,
 Da mesma gota de orvalho,
 Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
 Das duas asas pequenas
 De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
 Como a tribo de andorinhas
 Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
 Que em parelha descem tantos
 Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
 Como as covinhas do rosto,
 Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
 Numa eterna primavera
 Viver, qual vive esta flor.
 Juntar as rodas da vida,
 Na rama verde e florida,
 Na verde rama do amor!

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Cora Coralina

A goiana Cora Coralina (1889-1985) é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo sido seu primeiro livro publicado somente em 1965, com 76 anos de idade. Nasceu em  20 de agosto, dia em que Goiás comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

A “Mãe”  é um poema-reflexão.

Renovadora e reveladora do mundo
 A humanidade se renova no teu ventre.
 Cria teus filhos,
 não os entregues à creche.
 Creche é fria, impessoal.
 Nunca será um lar
 para teu filho.
 Ele, pequenino, precisa de ti.
 Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
 Independência, igualdade de condições…
 Empregos fora do lar?
 És superior àqueles
 que procuras imitar.
 Tens o dom divino
 de ser mãe
 Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
 Serás um animal somente de prazer
 e às vezes nem mais isso.
 Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
 Tumultuada, fingindo ser o que não és.
 Roendo o teu osso negro da amargura.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1985) é considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu em  31 de outubro, dia em que Minas Gerais comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

No meio do caminho” é um poema-vivência.

No meio do caminho tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 tinha uma pedra
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
 na vida de minhas retinas tão fatigadas.
 Nunca me esquecerei que no meio do caminho
 tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 no meio do caminho tinha uma pedra.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) é considerado hoje o maior ou um dos maiores poetas do Brasil. É o poeta “misturador dos sentidos“.  Nasceu em 19 de dezembro, dia em que Mato Grosso comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

Abaixo, um de seus poemas-cósmicos. (Trecho de “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros“)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras
 fatigadas de informar.
 Dou mais respeito
 às que vivem de barriga no chão
 tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas.
 Dou respeito às coisas desimportantes
 e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade
 das tartarugas mais que a dos mísseis.
 Tenho em mim esse atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado
 para gostar de passarinhos.
 Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Albert Einstein

Hoje, dia 14 de março, também nasceu Albert Einstein (1879-1955). Um dos maiores físicos que já existiram, Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e é conhecido por sua fórmula  E=mc² , certamente a equação mais famosa do mundo.  Nesse Dia Nacional da Poesia, impossível não incluir esta unanimidade científica, que certa vez, perguntado sobre qual seria a definição de luz, deu esta resposta:

“ A luz… é a sombra de Deus…”.

Autor: Catherine Beltrão