O Pão de Açúcar, antes e depois do bonde

O Pão de Açúcar, junto com a estátua do Cristo Redentor, é o maior cartão-postal da cidade do Rio de Janeiro e um dos mais famosos do Brasil. Isso quase todo mundo sabe. Mas o que quase todo mundo não sabe é que o seu nome foi dado pelos portugueses que viram a semelhança do formato deste morro com a forma cônica de barro em que eram colocados os blocos de açúcar transportados para a Europa, nos séculos XVI e XVII, durante o apogeu do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil.

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“Vista do Pão de Açúcar tomada da estrada do Silvestre”, de Charles Landseer (1799-1879). 1827

 Pintores e escritores têm louvado o Pão de Açúcar através dos anos: Machado de Assis, Charles Landseer, Taunay, Henri Chamberlain, Visconti, Castagnetto, estão entre os primeiros…

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Vista do Pão de Açúcar”, de Henry Chamberlain (1796-1844). Cerca de 1820.

 “O Pão d’Açúcar“, por Machado de Assis (1839-1908)

Salve, altivo gigante, mais forte
Que do tempo o cruel bafejar,
Que avançado campeias nos mares,
Seus rugidos calado a escutar.

Quando Febo ao nascente aparece
Revestido de gala e de luz,
Com seus raios te inunda, te beija,
Em tua fronte brilhante reluz.

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“Vista do Pão de Açúcar a partir do terraço de Sir Henry Chamberlain” , de Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830). 1816-1821.

Sempre quedo, com a fronte inclinada,
Acoberto dum véu denegrido;
Tu pareces gigante que dorme
Sobre as águas do mar esquecido.

És um rei, sobranceiro ao oceano,
Parda névoa te cobre essa fronte,
Quando as nuvens baixando em ti pairam
Matizadas do sol no horizonte.

Fez-te o Eterno surgir d’entre os mares
C’uma frase somente, c’um grito
Pos-te à fronte gentil majestade,
Negra fronte de duro granito.

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“Pão de Açúcar”, de Eliseu Visconti (1866-1944). 1901.

Ruge o mar, a procela te açoita,
Feros ventos te açoitam rugindo;
O trovão lá rebrama furioso,
E impassível tu ficas sorrindo.

E da foice do tempo se solta
Sopro fero de breve eversão,
Quer feroz te roubar para sempre;
Tu sorris, qual sorris ao trovão.

Salve, altivo gigante, mais forte
Que do tempo o cruel bafejar,
Que avançado campeias nos mares,
Seus rugidos calado a escutar.

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“Canoas na praia com Pão de Açúcar”, de J. B. Castagneto (1851-1900). 1894.

Em 1912, foi inaugurado o hoje célebre Bondinho do Pão de Açúcar, o primeiro teleférico do Brasil e o terceiro do mundo. O trajeto consta de dois estágios: o primeiro sai da Praia Vermelha e vai até o Morro da Urca; o segundo vai até o alto do Pão de Açúcar.

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“Praia do Flamengo”, de Gustavo Dall’Ara (1865-1923). 1917.

De lá pra cá, os louvores continuaram: Gustavo Dall’Ara, Drummond, Leopoldo Gotuzzo, Armando Viana, Tarsila, Oswald de Andrade…

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“Praia de Botafogo”, de Leopolfo Gotuzzo (1887-1983). 1932.

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“Paisagem com Pão de Açúcar”, de Armando Viana (1897-1992). Década de 40.

Pão de Açúcar“, por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

O grande pão de mel
suspenso entre mar e céu
insinua os prazeres da cidade.
A boca, o paladar,
a trama dos sentidos
serpenteia lá embaixo.
O sol nascente
e o sol cadente
vestem de púrpura a forma rígida.
Nuvens ciganas
brincam de subtraí-la.
A cada hora, desintegra-se,
recompõe-se,
assume formas inéditas de transparência.
Tem as cores da vida
e o sigilo da sombra.
É montanha ou aparição crepuscular.

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“Cartão Postal”, de Tarsila do Amaral (1886-1973). 1929.

Falando em Tarsila, é impossível não mencionar o “Escapulário“, de Oswald de Andrade (1890-1954):

No Pão de Açúcar
 De Cada Dia
 Dai-nos Senhor
 A Poesia
 De Cada Dia.

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“Vista do morro do Pão de Açúcar”, de Georgina de Albuquerque (1885-1962). 1959.

Terminando os louvores ao Pão de Açúcar, selecionamos Georgina de Albuquerque, Cecília Meireles, Rescala, Paulo Gagarin e Manoel Santiago.

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“Paisagem do Rio de Janeiro com o Pão de Açúcar ao fundo”, de João José Rescala (1910-1986). 1950.

Tarde de sábado“, por Cecília Meireles (1901-1964)

A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

 Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

 Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há  crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

 Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

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“Rio de Janeiro”, de Paulo Gagarin (1885-1980). 1959.

 E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos.

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias  compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a  cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

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“Praia de Botafogo, RJ”, de Manoel Santiago (1897-1987). 1966.

Pão de Açúcar. Um morro como qualquer outro. Como tantos outros que existem por aí, pelos campos e cidades do Brasil. Ou do mundo. Mas , por alguma razão, ele foi escolhido para marcar a cidade dita maravilhosa. Maravilhosos foram os olhos e as mãos dos artistas que o pintaram. Maravilhosos foram os versos e as crônicas que os escritores poetaram. Maravilhoso é o sentimento que faz pulsar meu coração, a cada vez que nos encontramos.

Autor: Catherine Beltrão

3 opiniões sobre “O Pão de Açúcar, antes e depois do bonde”

  1. Olá,

    Gostei bastante do site e, em principal, dessa pagina. Estou fazendo uma pesquisa e agradeço muito se puderem me dizer onde conseguiram as imagens “Paisagem do Rio de Janeiro com o Pão de Açúcar ao fundo”, de João José Rescala (1910-1986). 1950.” e “Rio de Janeiro”, de Paulo Gagarin (1885-1980). 1959.”

    Att.

    Rodrigo Neves

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