Fazenda Colubandê: História, Arte,Tragédia e Descaso (Parte I)

A Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. Marco da arquitetura colonial brasileira, a sua história começou no século XVII, quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século XVIII, tornando-se a propriedade uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região. Sua construção data provavelmente de 1618.

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Fazenda Colubandê. Foto de Isabela Kassow/Diadorim Ideias, em 2012

Em 1713, a fazenda foi confiscada pela Inquisição e seus donos presos levados para Portugal para julgamento pelo Santo Ofício. O engenho foi entregue aos jesuítas onde sofreu sérias mudanças devido a nova religião atuante.

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Poço interno da Fazenda Colubandê

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Conversadeiras na varanda, ainda intactas. 2012.

A casa grande possui 28 cômodos interligados, construída em adobe de barro cozido e argamassa de conchas moídas e óleo de baleia, tendo sido construída em torno de um poço do século XVII, de acordo com a tradição judaica, e não segue um estilo padrão, pois foi sendo reformada ao gosto de cada dono. O teto tem estilo oriental, as janelas mostram influência da época de Luís XV e o entorno da varanda possui 16 colunas em estilo grego-romano, com conversadeiras entre cada coluna. O casarão foi construído em estilo barroco e conta com quatro cômodos no subsolo, onde ficavam as senzalas que abrigavam os escravos.

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Painel de azulejos portugueses, junto ao altar-mor da Capela de Sant’Anna. Foto de Claudio Prado de Mello, em 2014.

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Retábulo barroco do Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em 2014.

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Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em janeiro de 2017, após os saques e o vandalismo

A casa-sede foi erguida ao lado da capela de Sant’Anna, de estilo jesuítico e características mouras na parte de cima. Datada também de 1618, foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat. Passou por reformas em 1740, quando foram instalados nas paredes da capela-mor dois painéis de azulejos portugueses Alentejanos em estilo barroco-rococó. Um mostra a imagem de Sant’Ana, mãe da Virgem Maria, ensinando-a a ler e outro retrata o pedido de casamento de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Cristo.

Próximo à casa principal, na antiga área de lazer existe um mural em homenagem às mulheres assinado pela artista plástica Djanira, da década de 1960. Há também o Bosque da Saudade, construído em 2006, onde cada árvore representa um policial morto em defesa do meio ambiente.

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Restos da piscina nos jardins abandonados, com painel de Djanira. 2017.

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Vídeo da Fazenda Colubandê. 2012, ainda sob a guarda do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar de São Gonçalo.

Em 1969, o antigo chão de madeira foi trocado pelo atual, de tijolo de barro. O conjunto arquitetônico da casa e fazenda foi tombado pelo IPHAN em 1940 e pelo INEPAC em 1965. Atualmente está abandonada e estava sob responsabilidade do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar até 2012.

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Vídeo de 2015, mostrando a Fazenda Colubandê abandonada, mas ainda possuindo o retábulo na Capela de Sant’Anna.

Diante de toda a sua importância histórica, cultural e arquitetônica (sendo um dos únicos imóveis no Brasil com arquitetura setecentista preservada localizada em área urbana) a Fazenda está literalmente abandonada e largada a sua sorte, sendo alvo constante de vandalismo e a partir de 2016, de saques .

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Baner da chamada do Ato Público em favor da sensibilização pelo patrimônio representativo da Fazenda Colubandê

No próximo dia 25 de março, o historiador e arqueólogo Claudio Prado de Melo, um dos organizadores pelo movimento SOS Fazenda Colubandê, estará promovendo um Ato Público representativo, com apresentação de várias atividades. Entre elas, será encenada a peça teatral chamada O AUTO DE FÉ DA SANTA INQUISIÇÃO E A FAZENDA COLUBANDÊ, que reunirá grande elenco formado de 49 pessoas, entre elas a atriz Maria Luiza Faveri. O espetáculo, com Direção Artística do Prof. Jó Siqueira, mostrará como se processaram os acontecimentos na Fazenda Gonçalense nos séculos XVII e XVIII e terá um final surpreendente, com uma grande revelação histórica .

Neste relato, não sei o que é maior: se a esplêndida arquitetura colonial da Fazenda, se a arte do barroco-rococó do interior da capela, se a tragédia provocada pelos saques e vandalismo ou se o total descaso das autoridades competentes, ambos ocorridos desde 2013.

Autor: Catherine Beltrão

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