Edith Blin e a Resistência Francesa

Edith Blin nasceu em 22 de julho de 1891, na cidadezinha de Pontorson, na região francesa da Normandia. Essa cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, um dos ícones franceses mais conhecidos do mundo, junto à Tour Eiffel. Se todos os que visitaram o Mont Saint-Michel não conseguem mais esquecê-lo pela vida afora, não é difícil imaginar o que representava este lugar para Edith! Para ela, era simplesmente um lugar sagrado, símbolo maior da grandeza da França.

E por que iniciar este post falando do Mont Saint-Michel? O que ele  tem a ver com a Resistência Francesa? Para Edith Blin, tem tudo a ver. A paixão de Edith pela Normandia, a região onde nasceu, é a mesma paixão que a fez expressar seus sentimentos através da pintura, nos anos 40.

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Edith Blin nos anos 20, como atriz de teatro

Edith passou os primeiros 50 anos de sua vida sem ter nenhuma relação com pincéis e telas, não tendo frequentado sequer uma aula de pintura. Nos anos 20, trabalhou como atriz na Companhia de Teatro Molière, cuja sede ficava no nº 1 da Avenue du Congo, em Bruxelas, usando o nome de Edith Dereine. Após dois casamentos e tendo tido três filhos, foi somente em 1942, com a idade de 51 anos, que Edith decidiu pintar, desafiada por Georges Wambach, grande aquarelista e representante da iconografia brasileira. (Este episódio foi narrado em outro post deste blog, de 20.02.2014. Se quiser ler este post, clique aqui).

Mesmo habitando terras brasileiras, Edith se angustiava com o sofrimento de seus patrícios na Europa, vitimados pela Segunda Guerra Mundial. Resolveu então expressar seus sentimentos através da pintura.  Após o desafio de Wambach, foram 13 meses de trabalho intenso para Edith. No atelier improvisado de sua então moradia, situada à rua Miguel Lemos em Copacabana, nº 57, Edith desenhava e pintava, Edith pintava e desenhava. Colocava nos desenhos e nas telas toda a angústia que sentia pela França bombardeada, pelo seu povo sofrendo as atrocidades da guerra.

Edith - Cocorico

“Co-co-ri-co”, osm, 1942, 27 X 22cm

Edith - Normandie

“Normandie!”, ost, 1944, 27 X 21cm

Em 1943, Edith fez sua 1ª exposição, quando 46 telas foram expostas no Salão Nobre do Palace Hotel, no centro do Rio de Janeiro. A afluência de público foi enorme – muitos queriam ver as obras de uma pintora que havia  começado a pintar apenas há alguns meses – e a crítica foi unânime em elogiar a força expressiva que suas obras transmitiam. A grande maioria dos trabalhos foram figuras, fortes e vigorosas, com sentido patriótico.  Entre as obras apresentadas, estavam  “Cocorico” e  “Normandie!“. Entre as presenças que deixaram seu autógrafo em 18 folhas do Livro de Assinaturas da exposição, estavam Henrique e Yvonne Visconti Cavalleiro, Jarbas Vasconcellos, Lopes da Silva, Nivouliés de Pierrefort, Álvarus, Paulo Gagarin, João Austregésilo de Athayde, Georgina de Albuquerque, João Pott, Arnaldo Damasceno Vieira (assinou 6 vezes o Livro), ….

Edith - Paris

“Paris”, ost, 1943, 64 X 53cm

Edith - Maquis

“Maquis”, osm, 1945, 41 X 33xm

A 2ª exposição veio em 1945, quando 43 obras foram expostas na Galeria Montparnasse, à rua Siqueira Campos nº 10, em Copacabana. A França continuava sempre presente em suas telas: “Maquis” e “Paris” constavam desta exposição. Entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys, crítico e grande amigo de Edith: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

Em 1945, era esse o pensamento de Edith:  “Sobre a arte moderna, direi apenas que o assunto é por  demais vasto e complexo para  que possamos defini-lo.  Não concebo na arte uma maneira de pintar, um estilo.  Mas sim a maneira de sentir porque é a única maneira  capaz de exprimir alguma coisa de real significado. Não há maneira de  pintar, ela deve se diferenciar  em cada obra. A tensão  nervosa deve mudar segundo o tema a desenvolver. Esta é a minha opinião.”

Edith - Pieta

“Piétà“, osm, 1947, 102 X 78cm

Documento Tourville

Manuscrito sobre a batalha Tourville-sur-Odon

Em 1947, Edith  viajou para a França, realizando duas exposições em Paris,  uma na Galerie Séverin-Mars e outra na École des Beaux-Arts. Na cidade de Caen, Normandia, mais precisamente no dia 4 de outubro deste mesmo ano, foi colocado em leilão, em prol do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon, a obra “Pietá“. Trata-se de uma obra fortíssima, um jovem carregando uma mulher nos braços, tendo por trás ruínas de uma cidade devastada pela guerra. Pelos relatos de Edith, teriam posado para esta pintura seu irmão Jean e sua sobrinha Jeannine. A cidade em ruínas seria Caen.

A doação desta obra para o leilão deu origem a um manuscrito – relatando a batalha de Tourville-sur-Odon e o agradecimento da cidade pela doação – oferecido para Edith. Acerca da obra “Pietá“, assim falou Paul Lecompte, grande prêmio de Roma: “Ela se eleva muito alto, acima da massa dos pintores e alguma coisa de indefinível, de misterioso -  que ultrapassa a todos nós – se desprende de sua obra. Simplesmente Edith, pássaro das ilhas, é uma grande, uma muito grande artista!

Mais informações: www.edithblin.com

Autor: Catherine Beltrão

 

3 opiniões sobre “Edith Blin e a Resistência Francesa”

  1. Absolutamente sensacional .Edith Blin e seu percurso singular,regado sempre de emoção com uma mescla de intensidade sem perder a suavidade . Linda a Pieta . Sucesso e todo reconhecimento . Bjo Imma

    1. Querida Immacolata,
      Fico extremamente feliz com estas suas palavras! A impressão que fica é que estamos construindo um sistema estelar em torno da estrela maior Edith Blin: a cada depoimento, um planeta, uma estrela… Um grande abraço!

  2. Tomei conhecimento da obra desta grande artista recentemente. Pois adqueri uma tela (um retrato) intitulado “Moça” da galeria Tablau de São Paulo, cuja obra recebi na data de hoje via postal. Muito honrado estou por ter em meu acerco a pintura desta maravilhosa artista.

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