Djanira, o Chagall dos trópicos

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Djanira da Motta e Silva

Djanira da Motta e Silva (1914-1979) foi uma pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa brasileira. Nasceu em Avaré, São Paulo e passou por Santa Catarina, antes de voltar para a sua terra natal. No final da década de 1930, Djanira contraiu tuberculose e foi se tratar em Campos do Jordão.

Em 1939, Djanira mudou-se para o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e adquiriu a Pensão Mauá, que se tornou um local de convívio de diversos artistas e intelectuais da época. Teve aulas com os pintores Emeric Marcier e Milton Dacosta, seus hóspedes na pensão.

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“Mercado da Bahia”, de Djanira. 1959

Com uma temática bem brasileira, Djanira reproduziu em sua obra a paisagem nacional em estilo de arte primitiva, com linhas e cores simplificadas. Em sua obra coexistem uma diversidade de cenas, como as festas folclóricas, as temáticas religiosas, o cotidiano dos tecelões, os pescadores, os batedores de arroz…

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“Mercado de peixe”, de Djanira. 1957

Entre 1950 e 1951, pintou o mural “Candomblé”, para a residência de Jorge Amado, em Salvador. E são de Jorge Amado estas palavras sobre Djanira:

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“Candomblé”, de Djanira.
In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: . Acesso em: 25 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.

Djanira traz o Brasil em suas mãos, sua ciência é a do povo,
seu saber é esse do coração aberto à paisagem, à cor, ao perfume,
às alegrias, dores e esperanças dos brasileiros.

Sendo um dos grandes pintores de nossa terra,
ela é mais do que isso, é a própria terra,
o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba,
as máquinas de fiação, o homem resistindo à miséria.
Cada uma de sua telas é um pouco do Brasil.”

Entre 1963 e 1964, confeccionou o painel “Santa Bárbara”, com 130 m2 e 5.300 azulejos, no túnel do mesmo nome, que liga os bairros de Catumbi e Laranjeiras, no Rio de Janeiro. A obra foi uma homenagem aos 18 operários mortos na abertura do túnel.

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“Painel Santa Bárbara”, de Djanira.

Posteriormente, o painel foi instalado no Museu Nacional de Belas Artes.

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“Santa’Ana de pé”, de Djanira.

Muito religiosa, em 1963, entrou para a Ordem Terceira Carmelita, recebendo o hábito com o nome de Irmã Teresa do Amor Divino. Em 1972 recebeu um diploma e uma medalha, do Papa Paulo VI. Djanira foi a primeira artista latino-americana a ser representada no Museu do Vaticano, com a obra “Sant’Ana de Pé“.

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“Três orixás”, de Djanira.1966

Nosso grande poeta Ferreira Gullar falou assim de Djanira:

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“Serradores”, de Djanira. 1959

(…) Moça do interior de São Paulo, que viveu a primeira fase de sua vida em contato com os animais, os trabalhadores do campo, a vida simples e dura, que foi também a sua, Djanira iria mais tarde dar forma de arte a essa experiência indelével. 

(…) Procuraria manter, ao longo da vida, o vínculo com esse passado: viveu cercada de pássaros, plantas e bichos, e, sempre que as condições de saúde permitiam, viajava pelo interior do país, como para renovar o contato com as fontes inspiradoras de sua arte e mesmo de sua vida. Nascida do povo, manteve-se uma mulher do povo, uma artista do povo identificada com ele em seus sofrimentos e em suas lutas. (…) Essa identificação com seu povo e sua terra, essa generosidade de sentimentos teriam, inevitavelmente, que se refletir na obra da pintora, onde a paisagem e os homens brasileiros ocupam o primeiro plano. Esses elementos – como outros também ligados a eles – constituem o seu universo, o mundo que ela necessitava organizar, transfigurar, salvar da morte. E o fez instilando neles a força do seu lirismo e a beleza que a sua sensibilidade apreendia e revelava nas coisas mais simples, nas cenas mais comuns do trabalho e da vida diária”.

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“Indústria Automobilística”, de Djanira,1962

Quem também escreveu sobre Djanira foi Paulo Mendes Campos, grande poeta e jornalista, em sua “Cantiga para Djanira“:

O vento é o aprendiz das horas lentas,
Traz suas invisíveis ferramentas,
Suas lixas, seus pentes-finos,
Cinzela seus castelos pequeninos,
Onde não cabem gigantes contrafeitos,
E, sem emendar jamais os seus defeitos,
Já rosna descontente e guaia
De aflição e dispara à outra praia,
Onde talvez possa assentar
Seu monumento de areia – e descansar.

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“Embarque de bananas”, de Djanira.1957

Sua obra teve influências: Pieter Brueghel, Fernand Léger, Joan Miró e Marc Chagall. Sobre este último, disse o historiador e crítico Mario Barata:

” (…) Diferentemente doutro poeta do mundo exterior – o russo israelita Marc Chagall -,  Djanira não é sonhadora. É realista, efetivamente realista. Sua obra emana de uma visão aplicada às coisas, com lirismo.”

Autor: Catherine Beltrão

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