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Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

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“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

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“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

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“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

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“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

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“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

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“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

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“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

Museu da Humanidade, o passado que sensibiliza

Em 2009, conheci um museu: o Museu da Humanidade. A impressão que tive na época me marca até hoje: um castelo fantástico, em estilo oriental, com milhares de artefatos antigos, muito bem organizados em inúmeras salas e aposentos formando um labirinto de mistérios a desvendar. E tudo aquilo que via tinha sido idealizado por um só homem: Claudio Prado de Mello.

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O Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro – IPHARJ – foi criado em 1990 e em 2002, nascia o Museu da Humanidade, uma instituição privada ligada ao Instituto, onde são guardados mais de 90 mil itens arqueológicos, entre estátuas, vidros, joias, armas, tecidos, roupas, objetos em metais, madeira e pedra, entre muitos outros, do Brasil e do mundo. Peças que vão dos primórdios da História até o século XIX. Na biblioteca, mais de 40 mil títulos.

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Claudio Prado de Mello com uma turma de crianças, em uma oficina de escavação

IPHARJ2O museu é uma criação do arqueólogo Claudio Prado de Mello, que também preside o IPHARJ. A construção não conseguiu patrocínio até hoje e os recursos são advindos das contribuições dos fundadores do instituto.

Com uma área total de 2.500 metros quadrados, o Museu da Humanidade é um castelo construído em estilo Islâmico (Mamalik) e possui quatro andares distribuídos em 14 metros de altura. O andar subterrâneo ainda está em implantação, onde está sendo montada uma galeria de arqueologia funerária.  A ideia é recriar um setor subterrâneo da forma que só conseguimos ver na velha Europa e no Mundo Oriental, trazendo para o público brasileiro a oportunidade de visitar tumbas egípcias,  pré-colombianas, romanas e inusitadamente a recriação de uma tumba de Palmira que foi implodida pelo Estado Islâmico em 2015. A propósito, cripta é sempre o lugar mais introspectivo e misterioso de um monumento, como acontece com as criptas da Catedral de Notre Dame e do imponente Panteão, ambas localizadas em Paris. Para quem conhece, sabe de que estou falando…

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No térreo, funciona a pleno vapor uma área de eventos e pesquisa, além de uma sala de exposições. Atualmente, há uma síntese do que é o museu, com peças como estátuas de calcário medievais, mármores romanos, itens de madeira asiática, instrumentos de tortura da época da escravidão e cerâmicas egípcia e grega.

IPHARJ6IPHARJ10O segundo andar, também ainda sendo implantado, tem 23 salas, cada uma com o objetivo de mostrar uma época da sociedade humana e ainda antes, desde a formação do planeta Terra até o século XIX, passando por Pré-História, Egito, Grécia, Roma, Bizâncio e mundo islâmico.

No terceiro e último andar, o museu reúne uma área de pesquisa, com dois laboratórios — um de lavagem e higienização das peças, outro de análise —, para averiguar os itens que são encontrados em escavações pelo país. Também nessa área, existe um jardim suspenso e quatro salas de reserva técnica, onde são depositados os materiais já analisados.

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As peças do museu vindas de fora do país são dos cinco continentes e foram compradas em leilões. Já as do Brasil foram adquiridas em escavações realizadas pelo IPHARJ. Elas pertencem à União, e nós ganhamos, em julho deste ano, o reconhecimento do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), ou seja, nos tornamos reserva oficial do Estado brasileiro. Para conseguirmos isso, seguimos uma série de determinações oficiais”, disse Claudio Prado em 2014.

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O Museu da Humanidade também dispõe de um bistrô – o Corniche – que disponibiliza algumas das mais finas iguarias de quatro continentes.

 

Mais informações:

Endereço: Av. Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, 443 B 1, Anchieta
Rio de Janeiro, RJ
www.ipharj.com.br
Face: https://www.facebook.com/Museu-da-Humanidade-Ipharj-1681895928797221/
e-mail: pradodemello@hotmail.com

Autor: Catherine Beltrão

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

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“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

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“Casa branca”. 1890

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“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

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“Casas de palha”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

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“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

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“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

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“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

As ilusões óticas de Oleg Shuplyak

Quando pesquisamos sobre ilusão de ótica no google, encontramos o seguinte texto: “A interpretação do que vemos no mundo exterior é uma tarefa muito complexa. Já se descobriram mais de 30 áreas diferentes no cérebro usadas para o processamento da visão. Umas parecem corresponder ao movimento, outras à cor, outras à profundidade (distância) e mesmo à direção de um contorno. E o nosso sistema visual e o nosso cérebro tornam as coisas mais simples do que aquilo que elas são na realidade. E é essa simplificação, que nos permite uma apreensão mais rápida (ainda que imperfeita) da «realidade exterior», que dá origem às ilusões de óptica.

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“Verão”, de Giuseppe Arcimboldo

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“Céu e água”, de M.C. Escher. 1938

Talvez um dos primeiros artistas que tenha usado este conceito tenha sido Giuseppe Arcimboldo (1527-1593). Suas obras principais incluem a série “As quatro estações“, onde usou, pela primeira vez, imagens da natureza, tais como frutas, verduras e flores, para compor fisionomias humanas. A sua obra haveria de influenciar, mais tarde no século XX, os pintores surrealistas, sendo redescoberto por Salvador Dalí.

Mas, sem dúvida alguma, foi M. C.Escher (1898-1971) quem mais fez uso do conceito de ilusionamento ótico para compor suas obras, com explorações do infinito e metamorfoses – padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Ele também era conhecido pela execução de transformações geométricas (isometrias) nas suas obras.

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“Autorretrato”, de Oleg Shuplyak

Mas quem conhece Oleg Shuplyak, um artista ucraniano nascido em 1967, que usa ilusões de ótica para criar várias obras em uma só?

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De quem são os rostos acima representados?

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E esse?

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Esse todo mundo sabe…

Oleg foi estudante de Arquitetura. No curso, aprendeu a criar imagens dentro de outras imagens.   Em seu tempo livre, ele começou a pintar paisagens, desenhando rostos de pessoas famosas dentro das pinturas.

O artista escolheu personagens como Salvador Dali, Paul Cezanne, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Charles Darwin, Michelangelo, Leonardo da Vinci, John Lenon, William Shakespeare, entre muitos outros.

Em algumas de suas pinturas, a imagem do rosto está tão visível que a primeira imagem se  perde. Fica difícil para o espectador lembrar-se dessa primeira imagem… Então ele a procura, acaba encontrando, e é a segunda imagem que se perde. E assim, sucessivamente… É um verdadeiro jogo de pique-esconde de imagens em nossas mentes!

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Mais dois desafios…

Fui procurar em nossos poetas uma ilusão de ótica. Talvez aquele que mais brinca com as palavras a ponto de nos iludir e nos transviar seja Manoel de Barros. Senão, vejamos “O poeta“:

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Esse não é difícil…

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E esse, alguém sabe?

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria 13 anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

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Esse é um pequeno barco na imensidão do “deep blue”…

Ilusão de ótica. Pinturas duplas. Imagens ocultas. Vários nomes para um só sentimento: deslumbramento…

Autor: Catherine Beltrão

Completa 50 anos o disco Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band

Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, o mais importante disco lançado pelos Beatles, completa 50 anos. Conheça um pouquinho (acredite, apenas um pouquinho mesmo se tratando de uma mega produção) desse clássico que foi um marco da cultura pop do século XX.

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Os Beatles foram de tudo. De mocinhos exemplares a heróis da contracultura. De marqueteiros de primeira a mega rockstars (e foram também tudo o que esse título carrega nas entrelinhas). A história da música, sem sombra de dúvidas, pode ser dividida em Antes dos Beatles e Depois dos Beatles.

Após rodar o mundo propagando a Beatlemania e fazendo iêiêiê, sentiram-se maduros e seguros para mudar a temática das suas canções. Dilemas juvenis e dramas sentimentais da primeira fase da banda ainda tocavam nas rádios e faziam todas as adolescentes suspirarem profundamente. Mas eles queriam mais. Após o mítico encontro com Bob Dylan e a descoberta da maconha e do LSD, eles estavam prontos para mudar a estética de suas canções em todos os sentidos.

Mergulhados na lisergia sessentista, lançaram Rubber Soul e Revolver.

George incorporava a musicalidade indiana. Ringo, que anos antes ameaçara sair da banda alegando pouca atenção, se  firmava cada vez mais como um baterista criativo e um esporádico vocalista carismático. John e Paul já soltavam farpas, ainda que bem discretamente tentando impor suas lideranças. Estavam ali naquele momento esbanjando criatividade no que foi considerada por muitos críticos a melhor fase da dupla, mostrando o ápice de um amadurecimento poético e literário.

Mas o mundo não esperava por um furacão colorido chamado Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Se o primeiro álbum da banda, Please Please Me, levou apenas um único dia para ficar pronto, Sgt. Peppers exigiu um esquema hollywoodiano de superprodução com 400 horas de estúdio e o custo de 100 mil dólares – cifras incomuns para um disco de rock. Mas os números acima são apenas reflexos de toda a loucura criativa que a banda queria apresentar nesse novo trabalho. Orquestras enormes, adições de sons dos mais diversos animais, acordes audíveis apenas para ouvidos caninos, instrumentos incomuns, solos tocados ao contrário (o que já haviam experimentado em Revolver) e mensagens subliminares que tentavam dar credibilidade à lenda da morte de Paul McCartney. Tudo isso sob a clássica capa dos quatro músicos fardados como se pertencessem a uma fanfarra vitoriana psicodélica. Esses elementos e muitos outros deram a Sgt Peppers inúmeros adjetivos, que iam desde o primeiro disco de rock progressivo da história até o melhor disco já lançado e mais importante trabalho da cultura pop.

Faixas principais

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A faixa título abre o disco, e é a apresentação do personagem fictício ‘Sargento Pimenta’ que comandava a ‘Banda Clube dos Corações Solitários’ e é logo emendada com With a Little Help From My Friends cantada por Ringo e seu refrão de duplo sentido “I get high with a little help from my friends”, algo como “Eu chego mais alto com uma ajudinha dos meus amigos” ou “Eu fico chapado com uma ajudinha dos meus amigos”. Essa canção teve seu auge na voz de Joe Cocker, considerado por muitos o melhor cover de uma canção dos Beatles já criada.

Beatles_LucyintheskyLucy In the Sky with Diamonds foi chamada de maior canção já feita sobre o LSD, embora John Lennon negasse o fato veementemente. Segundo John, a música foi composta a partir de um desenho feito por seu filho Julian, que retratava sua amiguinha de escola Lucy flutuando em um céu onde as estrelinhas pareciam diamantes. A referência com as letras LSD era uma mera coincidência. Os esforços para explicar esse fato, no entanto, foram em vão e a canção chegou a ser proibida pela BBC.

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Outra faixa que foi relacionada com uso de drogas – dessa vez a heroína – foi Fixing a Hole. No primeiro verso da canção, Paul canta “Estou fechando um buraco por onde a chuva entra”. Paul também negou a acusação alegando que a música foi feita em referência a Jesus Cristo.

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O disco tem um desfecho apoteótico com A Day In The Life, considerada pela revista Rolling Stone a melhor canção dos
Beatles. A canção é uma junção de duas composições distintas escritas uma por John e outra por Paul que foram agregadas
de forma perfeita. Foi mais uma canção banida das rádios inglesas devido a referências ao uso de LSD e maconha.

Beatles_capaBeatles_capasketchO conceito inicial da capa foi sugerido por Paul. A ideia era fazer a banda do Sargento Pimenta recebendo um título ou um troféu das mãos do prefeito na praça de uma cidade imaginária. Paul conta suas ideias para Robert Frazer, que o leva para conhecer Peter Blake, importante artista do movimento Pop Art. Peter fez então um sketch mudando ligeiramente o conceito de Paul e novas mudanças seriam feitas até se tornar a capa que conhecemos hoje.

Os quatro Beatles escolheram as pessoas que iriam compor o cenário. Artistas de cinema e da TV, músicos, escritores,  pensadores, filósofos, líderes políticos, gurus hindus, e até a polêmica escolha de Jesus Cristo e Adolph Hitler.

Sabe-se que a imagem que Hitler foi retirada do corte final, e talvez Jesus tenha ficado escondido entre os demais para evitar polêmicas maiores. John já havia dado a fatídica declaração de que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo e queriam evitar mais problemas. Na parte inferior, uma espécie de canteiro com o nome da banda feito com flores vermelhas e a adição de alguns pequenos adornos como gnomos de jardim, troféus, bustos, imagens religiosas, uma
televisão, etc.

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A lenda da morte de Paul em um trágico acidente de carro em 1966 já estava circulando. Na história, um sósia entrara para a banda encarnando o baixista, tudo porque a Beatlemania estava no auge e os trabalhos da banda não poderiam ser abruptamente interrompidos.

Na música A Day In The Life, John começa cantando “Ele estourou sua cabeça em um carro/ Não reparou que as luzes do semáforo tinham mudado”. Boatos em torno da história diziam que Paul havia sido decapitado no acidente. Outra mensagem escondida em uma canção é no final de Strawberry Fields Forever, onde ouvimos claramente John Lennon dizendo de forma veemente “I buried Paul” (“Eu enterrei o Paul”). E, claro, na capa do disco muitas mensagens estão escondidas também.

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O fato é que para muitos todo o conceito da capa não passa do funeral do próprio Paul McCartney.

Beatles_baixodefloresBeatles_bumbocentralEmbaixo do nome da banda está o baixo Hofner canhoto de Paul feito com flores amarelas, possuindo apenas três cordas e não mais quatro. À direita do quarteto com roupas coloridas estão os quatro Beatles de terno cinza feitos em cera, todos com olhares de pesar. Se a história toda aconteceu em 1966, era com essa roupa que eles se apresentavam. Acima da cabeça do Paul fardado de azul, aparece a mão do comediante Issy Bonn, acenando como se estivesse se despedindo ou abençoando. As palavras Lonely Hearts do bumbo central ao serem espelhadas, formam o jogo de letras “IONEIX HE<>DIE”, que ao serem separadas formam “I ONE IX HE <> DIE, sugerindo a data 11/9, ou November 9, 1966, data em que Paul supostamente teria morrido. Depois da data, continuam as palavras HE DIE, e no centro uma espécie de seta aponta para o beatle de azul. E no encarte do disco, existe uma foto onde a banda olha para frente e apenas Paul aparece de costas.

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Iniciamos o texto dizendo que os Beatles foram marqueteiros de primeira. A história gerou tanto fascínio na época que eles continuariam aplicando mensagens acerca da morte de Paul nas capas dos próximos discos, em vídeo clipes e muito mais. Traduzindo em termos comerciais, eram mais discos vendidos, mais holofotes e mais dinheiro.

Segundo o produtor da banda George Martin, os Beatles em Sgt. Peppers nunca estiveram tentando fazer arte conceitual ou
procurando uma integridade musical. Eles só queriam fazer algo diferente. E fizeram!

Nenhuma outra banda até hoje conseguiu fazer o que os Beatles fizeram em apenas sete anos de atividade. Eles mostraram que uma banda de rock pode romper barreiras sonoras, comportamentais e ideológicas, deixar uma pulga atrás da orelha de muita gente, virar teses de mestrado e vender como água – mesmo depois de quase meio século do fim das atividades.

Eles começaram gritando HELP! e terminaram dizendo LET IT BE. O interim dessa trajetória linda vai ficar para sempre na memória dos mais velhos, na imaginação dos mais jovens, na estante de trilhões de pessoas e na linha cronológica não apenas da cultura pop e do Rock n’ Roll, mas de toda a humanidade.

Chico Joy

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

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“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

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“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

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“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

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“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

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Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão

Ave, índio!

O 19 de abril é o Dia do Índio. Desde 1943, três anos após os índios terem decidido participar do I Congresso Indigenista, no México.

Neste dia, hoje,  homenageio o índio representado por alguns artistas e um poeta. Debret, Victor Meirelles, Antonio Parreiras, Rodolfo Amoedo, Tarsila do Amaral, Carybé e Élon Brasil são os artistas. Gonçalves Dias, o poeta.

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J.B. Debret (1778-1848): “O caçador de escravos”

Gonçalves Dias (1823-1864), o poeta nacional do Brasil, foi um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como “indianismo“. Famoso por ter escrito o poema “Canção do Exílio” — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira — escreveu também muitos poemas dedicados ao índio brasileiro. Um deles é a “Canção do Tamoio“.

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Victor Meirelles (1832-1903): “Moema”

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

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Rodolfo Amoedo (1857-1941): “Último Tamoio”

III

O forte, o covarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

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Antônio Parreiras (1860-1937): “Iracema”

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “O Batizado de Macunaíma”

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

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Carybé (1911-1997): “Dois índios”

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Nascido em 1957, Élon Brasil, assim como Gonçalves Dias, também tem três sangues percorrendo suas veias: o índio, o negro e o branco.

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Élon Brasil (1957): “O iniciado Kraho”

Quanto a mim, eu me orgulho de ter sangue índio nas veias. É pouco, mas tem. Talvez isso justifique meu amor à terra e aos rios. Às árvores e à liberdade.

Autor: Catherine Beltrão

Fazenda Colubandê: História, Arte,Tragédia e Descaso (Parte I)

A Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. Marco da arquitetura colonial brasileira, a sua história começou no século XVII, quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século XVIII, tornando-se a propriedade uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região. Sua construção data provavelmente de 1618.

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Fazenda Colubandê. Foto de Isabela Kassow/Diadorim Ideias, em 2012

Em 1713, a fazenda foi confiscada pela Inquisição e seus donos presos levados para Portugal para julgamento pelo Santo Ofício. O engenho foi entregue aos jesuítas onde sofreu sérias mudanças devido a nova religião atuante.

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Poço interno da Fazenda Colubandê

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Conversadeiras na varanda, ainda intactas. 2012.

A casa grande possui 28 cômodos interligados, construída em adobe de barro cozido e argamassa de conchas moídas e óleo de baleia, tendo sido construída em torno de um poço do século XVII, de acordo com a tradição judaica, e não segue um estilo padrão, pois foi sendo reformada ao gosto de cada dono. O teto tem estilo oriental, as janelas mostram influência da época de Luís XV e o entorno da varanda possui 16 colunas em estilo grego-romano, com conversadeiras entre cada coluna. O casarão foi construído em estilo barroco e conta com quatro cômodos no subsolo, onde ficavam as senzalas que abrigavam os escravos.

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Painel de azulejos portugueses, junto ao altar-mor da Capela de Sant’Anna. Foto de Claudio Prado de Mello, em 2014.

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Retábulo barroco do Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em 2014.

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Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em janeiro de 2017, após os saques e o vandalismo

A casa-sede foi erguida ao lado da capela de Sant’Anna, de estilo jesuítico e características mouras na parte de cima. Datada também de 1618, foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat. Passou por reformas em 1740, quando foram instalados nas paredes da capela-mor dois painéis de azulejos portugueses Alentejanos em estilo barroco-rococó. Um mostra a imagem de Sant’Ana, mãe da Virgem Maria, ensinando-a a ler e outro retrata o pedido de casamento de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Cristo.

Próximo à casa principal, na antiga área de lazer existe um mural em homenagem às mulheres assinado pela artista plástica Djanira, da década de 1960. Há também o Bosque da Saudade, construído em 2006, onde cada árvore representa um policial morto em defesa do meio ambiente.

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Restos da piscina nos jardins abandonados, com painel de Djanira. 2017.

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Vídeo da Fazenda Colubandê. 2012, ainda sob a guarda do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar de São Gonçalo.

Em 1969, o antigo chão de madeira foi trocado pelo atual, de tijolo de barro. O conjunto arquitetônico da casa e fazenda foi tombado pelo IPHAN em 1940 e pelo INEPAC em 1965. Atualmente está abandonada e estava sob responsabilidade do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar até 2012.

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Vídeo de 2015, mostrando a Fazenda Colubandê abandonada, mas ainda possuindo o retábulo na Capela de Sant’Anna.

Diante de toda a sua importância histórica, cultural e arquitetônica (sendo um dos únicos imóveis no Brasil com arquitetura setecentista preservada localizada em área urbana) a Fazenda está literalmente abandonada e largada a sua sorte, sendo alvo constante de vandalismo e a partir de 2016, de saques .

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Baner da chamada do Ato Público em favor da sensibilização pelo patrimônio representativo da Fazenda Colubandê

No próximo dia 25 de março, o historiador e arqueólogo Claudio Prado de Melo, um dos organizadores pelo movimento SOS Fazenda Colubandê, estará promovendo um Ato Público representativo, com apresentação de várias atividades. Entre elas, será encenada a peça teatral chamada O AUTO DE FÉ DA SANTA INQUISIÇÃO E A FAZENDA COLUBANDÊ, que reunirá grande elenco formado de 49 pessoas, entre elas a atriz Maria Luiza Faveri. O espetáculo, com Direção Artística do Prof. Jó Siqueira, mostrará como se processaram os acontecimentos na Fazenda Gonçalense nos séculos XVII e XVIII e terá um final surpreendente, com uma grande revelação histórica .

Neste relato, não sei o que é maior: se a esplêndida arquitetura colonial da Fazenda, se a arte do barroco-rococó do interior da capela, se a tragédia provocada pelos saques e vandalismo ou se o total descaso das autoridades competentes, ambos ocorridos desde 2013.

Autor: Catherine Beltrão

Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

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“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

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“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

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“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

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Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

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“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

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“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

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“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

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“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão