Arquivo da categoria: Pós-impressionismo

Toulouse Lautrec e as noites de Montmartre

Lautrec

Toulouse-Lautrec, em foto de 1894

 

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa (1864—1901) foi um pintor pós-impressionista e litógrafo francês. Tendo nascido numa família nobre, deixou sua marca pintando a vida boêmia de Paris do final do século XIX.

Sofreu dois acidentes em sua juventude, fraturando o fêmur esquerdo aos doze anos e o direito aos quatorze anos. Os ossos mal soldados pararam de crescer e fizeram com que Lautrec não ultrapassasse a altura de 1,52 m, tornando-se um homem com corpo de adulto, mas com pernas curtas de menino.

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Amazona (no Circo Fernando). Ost, 1887.

Em 1881, decidiu ser pintor e foi morar em Paris. Foi atraído por Montmartre, uma área famosa pela boemia e por ser repleta de artistas, escritores e filósofos.

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“Na cama”. Ost, 1893.

Lautrec frequentava assiduamente o Moulin Rouge e outros cabarés parisienses, o que não agradava nem um pouco a sua família.

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“A Gulosa chegando no Moulin Rouge”. Ost, 1892.

Levando uma vida boêmia, o artista exagerava no consumo de bebidas alcoólicas e nos diversos relacionamentos com mulheres.

Ele até inventou um coquetel! O “Terremoto” (Tremblement de Terre) é atribuído a Lautrec. É uma mistura potente de 1/2 parte de absinto e 1/2 parte de conhaque, servido em copo de vinho sobre cubos de gelo ou batido com gelo em coqueteleira.

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“No Salão da Rua des Moulins”. Ost, 1894.

Bebidas e mulheres deixaram Lautrec vulnerável a doenças: contraiu sífilis.

Quando o cabaré Moulin Rouge abriu as portas, Toulouse-Lautrec foi contratado para fazer cartazes. Posteriormente ele passou a ter
assento cativo no cabaré, onde suas pinturas eram expostas.

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Cartaz publicitário para o Baile-Concerto do Moulin Rouge, apresentando A Gulosa. 1892.

Nos muitos conhecidos trabalhos que ele fez para o Moulin Rouge e outras casas noturnas parisienses, estão retratadas a  dançarina Louise Weber, mais conhecida como a louca e cativante La Goulue (“A Gulosa“), criadora do cancan francês, e também a dançarina Jane Avril, mais recatada.

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Cartaz publicitário do Moulin Rouge, apresentando Jane Avril. 1893.

A criação e impressão destes cartazes foram decisivos na revolução da publicidade do século XIX, quando a arte deixa de ser patrocinada e financiada apenas pela Igreja e os nobres, para ser comprada e utilizada pelo comércio crescente gerado pela revolução industrial.

Assim, Toulouse-Lautrec revolucionou o design gráfico dos cartazes publicitários, ajudando a definir o estilo que seria posteriormente conhecido como Art Nouveau.

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Cartaz publicitário para Aristide Bruant, em seu cabaré. 1891.

Estima-se que Lautrec tenha pintado mais de 1000 quadros a óleo (737 estão catalogados), mais de 5000 desenhos (275 aquarelas, 5084 desenhos catalogados) e cerca de 363 gravuras e cartazes.

 Autor: Catherine Beltrão

O Taiti de Paul Gauguin

Paul Gauguin (1848-1903), pintor pós impressionista, deixou um grande legado na pintura: ninguém pintou como ele as cores e a alma da gente nativa do Taiti, antiga colônia francesa.

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“Autorretrato”, de Paul Gauguin. 1893

Gauguin, antes de chegar ao Taiti, foi um viajante do mundo. Nascido na França, viajou até Lima/Peru com os pais na infância e voltou para a França ainda criança. Na juventude, como integrante da Marinha Mercante francesa, percorreu vários países. Em 1872, começou a trabalhar em uma casa de câmbio, até perder o emprego, dez anos depois. Neste meio tempo, casou-se com uma dinamarquesa. Após perder o emprego, passou um tempo na Dinamarca mas voltou para Paris, pois não se adapta aos costumes nórdicos.

Mas foi em meados da década de 70 que Gauguin começa a se envolver com a pintura, tendo o mestre Camille Pissarro como mentor. Participou de salões e mostras impressionistas.

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“As lavadeiras de Arles”, de Paul Gauguin. 1888

Em 1886 passa três meses na Bretanha e em 1887 conhece a Martinica, seu colorido e sua alegria. De volta a Paris, Gauguin conhece Van Gogh. Em 1888, retorna a Bretanha. No mesmo ano, vai para Arles, onde passa a dividir um estúdio com Van Gogh. A convivência é bastante conflituosa e termina de modo dramático, quando Van Gogh corta a orelha e é internado em um hospital psiquiátrico. Depois da desastrosa passagem em Arles, Gauguin retorna à Paris.

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“Mulheres de Taiti na praia”, de Paul Gauguin. 1891

Em 1889 e 1890, volta à Bretanha e, finalmente, em 1991, conhece Taiti. É lá que pinta suas obras mais significativas, cheias de luz e cor.

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“Taitiana com manga”, de Paul Gauguin. 1892

Em 1892, pinta a tela “Quando você vai se casar ?“. Esta obra será vendida em 2015, por US$ 300 milhões, até hoje na lista top 10 das obras mais valorizadas da história da arte.

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“Quando você vai se casar?”, de Paul Gauguin. 1892

Em 1894 realiza uma mostra na importante Galeria de Paul Durand-Ruel, em Paris. Entre as 44 pinturas expostas, apenas 11 foram vendidas.

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“De onde viemos? Quem somos? Para onde estamos indo?”, de Paul Gauguin. 1897

Em 1897, Gauguin volta para o Taiti e pinta sua obra polêmica “De onde viemos? Quem somos nós? Para onde estamos indo?“. Está doente e deprimido. Tenta o suicídio.

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“Cavaleiros na praia”, de Paul Gauguin. 1902

Em 1901, vai para as Ilhas Marquesas e pinta um de seus últimos quadros, “Cavaleiros na Praia”. Morre em 1903, em Atuona, outra ilha da Polinésia Francesa.

Autor: Catherine Beltrão

As cinco últimas obras de Van Gogh

Vincent van Gogh pintou cerca de 2000 obras em uma década de produção. Mas foi em Auvers-sur-Oise, pequeno vilarejo perto de Paris, que Van Gogh viveu seus três últimos meses de vida, após ficar internado por um ano em uma instituição em Saint-Rémy. Lá ele pintou 77 obras.

Neste período, Vincent experimentou novos formatos de composição. Antes de Auvers, suas composições paisagísticas mediam 50 X 50cm ou 60 X 60cm, refletindo os tamanhos de tela padrão fornecido pelos comerciantes de arte parisienses. Para esses últimos trabalhos ele juntou duas das telas para criar um painel de dois quadrados medindo quase três pés de largura (50 x 100 cm).

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“Campo de Trigos com Corvos”, de Vincent van Gogh. 1890

Não se sabe ao certo qual a última obra pintada por Van Gogh. Muitos acreditam ser o famoso “Campo de Trigos com Corvos“. Será? Concluída em 1890, nas ultimas semanas de vida de Van Gogh, a obra está no Museu Van Gogh, em Amsterdã, na Holanda.

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“Raízes de árvore”, de Vincent van Gogh. 1890

De julho de 1890, inacabada, “Raízes de árvore” foi encontrada no cavalete de Van Gogh no quarto da pensão em que morava quando morreu, em Auvers-sur-Oise. Por isso, acredita-se também que é sua última obra. A tela está no Museu Van Gogh, de Amsterdã.

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“O jardim de Daubigny”, de Vincent van Gogh. 1890

O jardim de Daubigny“, pintado três vezes por Vincent van Gogh, retrata o jardim fechado de Charles-François Daubigny, um pintor que Van Gogh admirou ao longo de sua vida. Van Gogh começou com um pequeno estudo de uma seção do jardim. Então ele trabalhou em duas pinturas quadradas duplas do jardim murado.

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“Planície de Auvers”, de Vincent van Gogh.1890

O campo de visão mais amplo, proporcionado pela junção de tuas telas quadradas, certamente se adequava a um tema recorrente de Van Gogh: os famosos vastos campos ondulados de Auvers, em especial, “Planície de Auvers“.

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“Campo de trigo sob nuvens de tempestade”, de Vincent van Gogh.1890

Em “Campo de trigo sob nuvens de tempestade“, os campos verdes e o céu azul parecem se estender muito além das bordas da imagem, criando um efeito panorâmico. A obra também se encontra no Museu Van Gogh, em Amsterdã.

Como última tela pintada por Vincent Van Gogh, escolho a segunda apresentada neste post: “Raízes de árvore” . E você?

Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

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“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

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“Casa branca”. 1890

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“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

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“Casas de palha”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

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“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

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“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

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“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

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“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

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“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

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“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

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“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

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Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh em sonhos

Em 1990, quando eu estava na França, vi um filme esplendoroso: “Sonhos“, do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998). O filme se baseia em oito sonhos verdadeiros que Kurosawa teve em momentos diferentes de sua vida. Um destes oito episódios tem como personagem um estudante de artes que, em uma visita a um museu, penetra em algumas obras de Van Gogh (1853-1890), caminhando em meio a suas paisagens.

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“A ponte de Langlois em Arles”, de Van Gogh. 1888.
Vídeo com fragmento do filme “Sonhos”, no episódio “Corvos”.

 A caminhada inicia pela obra “A ponte de Langlois em Arles“, de 1888.

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“A ponte de Langlois em Arles”, no sonho de Kurosawa.

A obra, também conhecida como “A Ponte em Langlois com Lavadeiras”, segundo o próprio Van Gogh, “retrata uma ponte com uma pequena carroça amarela e um grupo de lavadeiras, um estudo em que a terra é laranja brilhante, a grama é muito verde, a água e o céu azuis.”

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“Estrela com cipreste e estrela”, no sonho de Kurosawa.

Van Gogh conheceu a ponte de Langlois quando explorava os arredores de Arles. Ele se encantou com sua leve estrutura de madeira e o seu maravilhoso contexto cromático, feito com tijolos multicoloridos nas paredes que a ladeiam.

A caminhada do estudante continua passando por vielas, jardins, campos de trigo… ah, os famosos campos de trigo, dourados e perfumados, junto a ciprestes eretos!

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“Jardim florido em Arles”, no sonho de Kurosawa.

Van Gogh foi considerado louco. Será? O fato de ter cortado a própria orelha faz dele um louco? A lucidez criativa com a qual ele criou sua obra faz dele um louco?  Ao caminhar por essas vielas e campos de trigo, parece que são estas as respostas que o estudante procura.

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“Campo de trigo com corvos”, no sonho de Kurosawa.

Após uma conversa com o próprio Van Gogh, interpretado por Martin Scorsese – que o dispensa alegando “não ter tempo para conversas pois precisa pintar, que o tempo é curto” –  o estudante perde a trilha do artista e viaja através de outros trabalhos tentando reencontrá-lo.

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“Campo de trigo com corvos”, de Van Gogh. 1890.

Finalmente, Van Gogh é avistado pelo estudante, ao fim de uma estradinha em meio a um campo de trigo. O céu é absurdamente azul. De repente, corvos surgem. Aos poucos, inundam o céu com sua cor preta. E um tiro é ouvido ao longe.

A obra “Campo de trigo com corvos” é considerada o testamento pictural de Van Gogh. Um céu azul escurecido pelo voo dos corvos, os três caminhos no campo, sendo o central um beco sem saída e os dois outros de final ou percurso desconhecidos e os corvos, símbolos de maus presságios ou mesmo de morte.

O episódio “Corvos” no filme “Sonhos” é acompanhado pelo belíssimo Prelúdio opus 28 nº 15, de Frédéric Chopin, mais conhecido como “Prelúdio da Gota d’Água“.

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“Autorretrato”, de Van Gogh. 1889.

Em “Sonhos“, também é mostrado um dos autorretratos de Van Gogh, dos 35 pintados somente no período 1886-1889. Uma pergunta: qual teria sido o critério de Akira Kurosawa ao escolher precisamente este autorretrato para representar Van Gogh em seu filme?

 Autor: Catherine Beltrão

As estrelas solares de van Gogh

Van Gogh pintou o Sol e as estrelas. Mas suas estrelas eram solares.

As estrelas eram uma das grandes motivações das pinturas de van Gogh, como vemos na obra “A noite estrelada” , de 1889. Ele disse certa vez: “Quero expressar a esperança por meio de alguma estrela“.

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“A noite estrelada”. 1889.

Sem dúvida esta é a mais famosa pintura de Vincent van Gogh, também considerada por muitos especialistas como um dos mais importantes trabalhos de arte produzidos no século XIX. Foi feita em junho de 1889, quando van Gogh estava internado em um hospício de Saint-Rémy.  Durante essa fase de sua vida van Gogh sofria contínuos ataques e alucinações, tendo sido “A noite estrelada” provavelmente o resultado de uma intensa confusão mental.. Nesta sua obra, o céu é pintado com pinceladas fortes onde predominam linhas curvas. As estrelas são manchas amarelas e brancas, parecendo vários sóis em um céu tumultuado.

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“Café Terrace à noite”. 1888.

“O Café Terraço à Noite“, cujo nome completo é “O Café Terraço na Place du Forum, Arles, à Noite“, é uma das mais famosas obras do pintor holandês. Pintado em setembro de 1888, este quadro de van Gogh é um dos mais memoráveis do artista. Sobre esta obra, ele mesmo fez questão de declarar: “Uma cena noturna sem qualquer cor preta nele, feita apenas com bonito azul e violeta e verde…”. As estrelas são como buquês de flores que se espalham sobre um céu noturno de cor azul profundo. O Café Terrace ainda existe em Arles, na França, agora com o nome de Café Van Gogh.

Noite estrelada sobre o Ródano“  é uma pintura realizada em 1888,  quando van Gogh vivia na cidade francesa de Arles, para onde mudou-se em busca de luz e cor, nove meses antes de se internar. Van Gogh dizia: “Estou terrivelmente fascinado pelo problema de pintar cenas ou efeitos noturnos no local, ou melhor, à noite.”

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“Noite estrelada sobre o Ródano”. 1888.

No azul profundo as estrelas são cintilantemente esverdeadas, amarelas, brancas, cor-de-rosa, de um brilhante mais vítreo do que em casa – mesmo em Paris: chame-se-lhes opalas, esmeraldas, lápis lazuli, rubis, safiras. Certas estrelas são amarelo-limão, outras têm um rubor rosa, ou um verde ou azul ou um brilho que não se esquece. E, sem querer alargar-me neste assunto, torna-se suficientemente claro que colocar pequenos pontos brancos numa superfície azul-preta não basta.“(Carta de Van Gogh ao irmão Theo em 19 de junho de 1888).

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“Estrada com cipreste e estrela”. 1890.

A magnífica pintura “Estrada com cipreste e estrela” foi feita em maio de 1890, quando van Gogh continuava internado no  sanatório em Saint-Rémy. Para representar a estrela, ele pintou pequenos traços formando círculos incompletos, com uma pequena região central que se destaca.

Vincent van Gogh oscilava entre a alegria e a tristeza, a esperança e o desespero, o amor e o ódio. Pintar era o seu refúgio. Utilizando cores fortes para expressar seus sentimentos, criou uma nova forma de fazer arte. Segundo ele: “Pinto o que sinto e não o que vejo”.

As estrelas eram a luz que van Gogh procurava dentro de si. As estrelas eram a sua religião: “Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas.”

 Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh e o Dr. Gachet

A carreira de Vincent Van Gogh (1853-1890) durou cerca de 10 anos, tempo suficiente para ele pintar cerca de 800 quadros. Os dois últimos meses de vida do pintor foram os mais produtivos. No curto espaço de 60 dias, Van Gogh pintou 70 quadros.

Duas dessas obras, certamente entre as mais famosas, está o “Retrato do Dr. Gachet” , em suas duas versões. Pintados em 1890, ano de sua morte, a primeira versão atingiu o valor de US$ 82,5 milhões, cem anos mais tarde.

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“Retrato do Dr. Gachet” – 1ª versão. Ost, 1890, 67 X 56cm

Inseparavelmente entrelaçado com o último período da vida de Vincent van Gogh em Auvers, o Dr. Gachet era um personagem original. Ele era um médico psiquiatra interessado em quiromancia, mas a sua verdadeira paixão eram as artes. Paul Gachet manteve contato com muitos artistas, incluindo Manet, Monet, Renoir e Cézanne. Van Gogh consultou o Doutor Gachet a conselho do seu irmão Theo, quando recebeu alta do hospital em Saint -Rémy-de-Provence. Infelizmente, o médico não conseguiu ajudar Vincent a superar a sua angústia.

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“Retrato do Dr. Gachet” – 2ª versão. Ost, 1890, 67 X 56cm

Em agradecimento à sua amizade e dedicação, Van Gogh pintou o seu retrato, em duas versões autênticas, no qual a figura do doutor Gachet aparece sobre um fundo azul. Ambas mostram o Dr. Gachet sentado à mesa, com a cabeça apoiada no braço direito e com uma erva medicinal (digitalis) que o caracteriza enquanto médico. Apesar da semelhança na forma, elas diferem pelo estilo. As cores utilizadas nas duas versões não são as mesmas, mas é sobretudo na “pincelada” que se percebe a diferença, a primeira revelando traços mais vangoghianos que a segunda.

Van Gogh e o Dr. Gachet: 126 anos de uma amizade tornada definitiva pelas mãos e pela loucura de um dos maiores gênios da pintura!

 Autor: Catherine Beltrão

Toulouse-Lautrec, o pequeno grande homem da pintura gráfica

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Doodle do Google, de 24.11.2014

No dia de hoje, 24 de novembro, celebra-se o aniversário de Toulouse-Lautrec, o pequeno grande homem que revolucionou o design gráfico dos cartazes publicitários. E no dia de hoje, quando faria 150 anos, é homenageado com uma belíssima criação no estilo Lautrec em Doodle do Google.

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Troupe de Mlle Elegantine. Cartaz de 1896.

 

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Avril (Jane Avril). Cartaz de 1893.

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa (1864-1901) foi um pintor pós-impressionista e litógrafo francês.  Toulouse-Lautrec revolucionou o design gráfico dos cartazes publicitários, ajudando a definir o estilo que seria posteriormente conhecido como Art Nouveau. Sofreu dois acidentes em sua juventude, fraturando o fêmur esquerdo aos doze anos e o direito aos quatorze anos. Os ossos mal soldados pararam de crescer e fizeram com que Lautrec não ultrapassasse a altura de 1,52 m, tornando-se um homem com corpo de adulto, mas com pernas curtas de menino.

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Ambassadeurs: Aristide Bruant. Cartaz de1892.

Testemunha da vida noturna de Montmartre, Lautrec não apenas fez pinturas, como também cartazes promocionais dos cabarés e teatros, fazendo-se presente na revolução da publicidade do século XIX, onde a arte deixa de ser patrocinada e financiada apenas pela Igreja e os nobres, para ser comprada e utilizada pelo comércio crescente gerado pela revolução industrial.

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La Goulue e seu parceiro dançarino Valentin. Cartaz 1891.

Sua pintura é gráfica por natureza, nunca encobria por completo o traço forte do desenho. O contorno simples era a “marca registrada” de Lautrec desde o início da carreira como designer de cartazes. Não pintava sombras. Suas pinturas sempre incluíam pessoas (um grupo ou um indivíduo) e não gostava de pintar paisagens.

 

Neste post, limito a apresentar unicamente a faceta Lautrec do criador de cartazes publicitários. Fico devendo vários outros posts de Toulouse-Lautrec, o pequeno grande homem da pintura gráfica.

  Autor: Catherine Beltrão