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Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Clarice, Nélida e os vasos comunicantes

Lispector - Carlos Scliar, 1972

Retrato de Clarice Lispector, por Carlos Scliar. 1972

Quase todo mundo conhece a Clarice Lispector ( 1920-1977) escritora. Minha primeira incursão em seus escritos foi quando cursava o ginásio, no início dos anos 60, ao ler “Perto do coração selvagem“. Não foi amor à primeira leitura. Precisei ler e reler o livro várias vezes para que nossas almas se ajustassem.

Com o passar do tempo, e com o passar das leituras, entendi a máxima: não se concebe o espanhol sem Cervantes, o inglês sem Shakespeare e o português sem Clarice.

Mas este post versará sobre o que pouca gente sabe: a Clarice Lispector pintora.

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“Explosão”, de Clarice Lispector. 1975

Clarice pintou vinte e dois quadros, sendo dezenove sobre madeira, principalmente pinho-de-riga, e três sobre tela.

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“Escuridão e luz centro da vida”, de Clarice Lispector. 1975

Um dia, ela se perguntou: “Quem sabe escrevo por não saber pintar?

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“Luta sangrenta pela paz”, de Clarice Lispector. 1975

Em “A descoberta do mundo“, Clarice registrou:

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“Pássaro da liberdade”, de Clarice Lispector. 1975

Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho.

Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas”.

Ou ainda:

Antes de mais nada, pinto pintura.
Acho que o processo criador de um pintor
e do escritor são da mesma fonte.

Quando eu escrevo,
misturo uma tinta a outra e nasce uma nova cor”.

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“O Sol da meia-noite”, de Clarice Lispector. 1975

Nélida Piñon e Clarice Lispector foram grandes amigas. Grande escritora e primeira presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida, nascida em 1937, continua nos fustigando com registros antológicos, como:

Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças”.

Ou esse:

Pensar é um dos atos mais eróticos na vida de uma pessoa“.

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“Eu te pergunto por quê”, de Clarice Lispector. 1975

E onde entra os “vasos comunicantes” entre Clarice e Nélida?

Então.

Em 11 de julho de 2019, no leilão de Soraia Cals, no Rio de Janeiro, Nélida arrematou um dos raros quadros de Clarice Lispector. Em acirrada disputa com o Instituto Moreira Salles, a obra “Sem título“, com um primeiro lance de R$ 8 mil, saiu pelo valor de R$ 220 mil.

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“Sem título”, de Clarice Lispector. 1976

Esta obra, de pequenas dimensões, 30 X 40cm, datada de 1976, pintada a óleo sobre madeira, apresenta uma inscrição na frente: “Olhe o que está escrito atrás“,  e outra no verso: “Você já conheceu, como eu, o desespero. Mas é um erro. Tudo vai dar certo.”

A obra “Sem título“, agora, precisa mudar de título. Sugiro “Vasos comunicantes“, em homenagem à amizade entre duas escritoras monumentais: Clarice Lispector e Nélida Piñon.

Autor: Catherine Beltrão

Djanira, o Chagall dos trópicos

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Djanira da Motta e Silva

Djanira da Motta e Silva (1914-1979) foi uma pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa brasileira. Nasceu em Avaré, São Paulo e passou por Santa Catarina, antes de voltar para a sua terra natal. No final da década de 1930, Djanira contraiu tuberculose e foi se tratar em Campos do Jordão.

Em 1939, Djanira mudou-se para o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e adquiriu a Pensão Mauá, que se tornou um local de convívio de diversos artistas e intelectuais da época. Teve aulas com os pintores Emeric Marcier e Milton Dacosta, seus hóspedes na pensão.

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“Mercado da Bahia”, de Djanira. 1959

Com uma temática bem brasileira, Djanira reproduziu em sua obra a paisagem nacional em estilo de arte primitiva, com linhas e cores simplificadas. Em sua obra coexistem uma diversidade de cenas, como as festas folclóricas, as temáticas religiosas, o cotidiano dos tecelões, os pescadores, os batedores de arroz…

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“Mercado de peixe”, de Djanira. 1957

Entre 1950 e 1951, pintou o mural “Candomblé”, para a residência de Jorge Amado, em Salvador. E são de Jorge Amado estas palavras sobre Djanira:

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“Candomblé”, de Djanira.
In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: . Acesso em: 25 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.

Djanira traz o Brasil em suas mãos, sua ciência é a do povo,
seu saber é esse do coração aberto à paisagem, à cor, ao perfume,
às alegrias, dores e esperanças dos brasileiros.

Sendo um dos grandes pintores de nossa terra,
ela é mais do que isso, é a própria terra,
o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba,
as máquinas de fiação, o homem resistindo à miséria.
Cada uma de sua telas é um pouco do Brasil.”

Entre 1963 e 1964, confeccionou o painel “Santa Bárbara”, com 130 m2 e 5.300 azulejos, no túnel do mesmo nome, que liga os bairros de Catumbi e Laranjeiras, no Rio de Janeiro. A obra foi uma homenagem aos 18 operários mortos na abertura do túnel.

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“Painel Santa Bárbara”, de Djanira.

Posteriormente, o painel foi instalado no Museu Nacional de Belas Artes.

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“Santa’Ana de pé”, de Djanira.

Muito religiosa, em 1963, entrou para a Ordem Terceira Carmelita, recebendo o hábito com o nome de Irmã Teresa do Amor Divino. Em 1972 recebeu um diploma e uma medalha, do Papa Paulo VI. Djanira foi a primeira artista latino-americana a ser representada no Museu do Vaticano, com a obra “Sant’Ana de Pé“.

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“Três orixás”, de Djanira.1966

Nosso grande poeta Ferreira Gullar falou assim de Djanira:

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“Serradores”, de Djanira. 1959

(…) Moça do interior de São Paulo, que viveu a primeira fase de sua vida em contato com os animais, os trabalhadores do campo, a vida simples e dura, que foi também a sua, Djanira iria mais tarde dar forma de arte a essa experiência indelével. 

(…) Procuraria manter, ao longo da vida, o vínculo com esse passado: viveu cercada de pássaros, plantas e bichos, e, sempre que as condições de saúde permitiam, viajava pelo interior do país, como para renovar o contato com as fontes inspiradoras de sua arte e mesmo de sua vida. Nascida do povo, manteve-se uma mulher do povo, uma artista do povo identificada com ele em seus sofrimentos e em suas lutas. (…) Essa identificação com seu povo e sua terra, essa generosidade de sentimentos teriam, inevitavelmente, que se refletir na obra da pintora, onde a paisagem e os homens brasileiros ocupam o primeiro plano. Esses elementos – como outros também ligados a eles – constituem o seu universo, o mundo que ela necessitava organizar, transfigurar, salvar da morte. E o fez instilando neles a força do seu lirismo e a beleza que a sua sensibilidade apreendia e revelava nas coisas mais simples, nas cenas mais comuns do trabalho e da vida diária”.

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“Indústria Automobilística”, de Djanira,1962

Quem também escreveu sobre Djanira foi Paulo Mendes Campos, grande poeta e jornalista, em sua “Cantiga para Djanira“:

O vento é o aprendiz das horas lentas,
Traz suas invisíveis ferramentas,
Suas lixas, seus pentes-finos,
Cinzela seus castelos pequeninos,
Onde não cabem gigantes contrafeitos,
E, sem emendar jamais os seus defeitos,
Já rosna descontente e guaia
De aflição e dispara à outra praia,
Onde talvez possa assentar
Seu monumento de areia – e descansar.

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“Embarque de bananas”, de Djanira.1957

Sua obra teve influências: Pieter Brueghel, Fernand Léger, Joan Miró e Marc Chagall. Sobre este último, disse o historiador e crítico Mario Barata:

” (…) Diferentemente doutro poeta do mundo exterior – o russo israelita Marc Chagall -,  Djanira não é sonhadora. É realista, efetivamente realista. Sua obra emana de uma visão aplicada às coisas, com lirismo.”

Autor: Catherine Beltrão

Escadas

No início deste ano resolvi focar escadas. Vou precisar delas. Para subir. Para descer também. Pois as escadas são as grandes companheiras de nossa trajetória de vida. Sempre.

Escada_MuseuVaticano

Esta escada em espiral dos Museus Vaticanos foi construída em 1932 por Giuseppe Momo. Acima da estrutura, uma roseta octogonal de vidro permite a entrada da luz natural. Sua dupla hélice com duas rampas faz com que pareça mais longa. Os Museus Vaticanos também abriram outra escadaria famosa, mas fechada ao público, que costuma ser confundida com esta. Trata-se da criação de Donato Bramante, que viveu entre os séculos XV e XVI, e na qual Momo se inspirou.

Escadas“, de Mario Quintana

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam…
Quando as desce, a gente
Se desparafusa…
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica…
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado…
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E ‘sabes’ que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa…
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos…
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola…
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora…
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo…
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos…

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Livraria Lello: A beleza destas escadas conquistou fama mundial quando virou cenário da saga Harry Potter (a autora, J. K. Rowling, morou no Porto, dando aulas de inglês, antes de se tornar uma estrela da literatura juvenil). Classificada como monumento de interesse público, a escadaria fica no interior da livraria Lello. Há dois anos, o local passou a cobrar 3 euros (12 reais) de entrada, já que seus donos não conseguiam mais dar conta da grande quantidade de turistas.

Das Pedras“, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

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Escritório Zecc: O escritório de arquitetos Zecc , na Holanda, transformou uma antiga torre de água em mirante. Uma escada se eleva a 45 metros de altura para oferecer uma vista panorâmica através de quatro janelas. Os degraus mudam de linha e robustez à medida que a pessoa sobe, combinando rampas diferentes: a primeira é uma escada de aço já existente que circula seguindo a parede; a segunda, de criação recente em madeira comprimida, faz um ziguezague pela barriga da torre. Na cúpula se encontra o último trecho, que leva até o observatório.

O Tempo e o Vento“, de Mario Quintana

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…

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Hotel em Hiroshima: Duas escadas em caracol entrelaçadas formam esta capela nupcial de um complexo hoteleiro de Hiroshima. Os dois braços da escadaria simbolizam a união matrimonial, o abraço entre os amantes. “As duas partes que antes percorriam caminhos separados se unem na parte superior”, explica o arquiteto Hiroshi Nakamura em seu site. No alto, a 15 metros de altura, descortina-se uma vista panorâmica para o mar interior do Japão, ou mar de Seto.

Vaticano. Portugal. Holanda. Japão.  Um dia, gostaria de fazer uma viagem com roteiro  focando escadas.

 Autor: Catherine Beltrão

Cães e gatos ternos e eternos

Um bicho de estimação não se esquece jamais. Será por quê?

Será pela troca intensa de afetos? Será pela alegria mútua a cada reencontro? Será pelos momentos de compreensão compartilhados?

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“Bijou!”, de Edith Blin. 1962

Quando eu tinha doze anos, me veio a Bijou, uma cadelinha preta da raça lulu. Era meiga,  inteligente e afetiva. Esteve comigo até os meus dezessete anos. Foram cinco anos de convívio diário e de descobertas do mundo. Nascida carioca, morou comigo em São Paulo naquele inesquecível ano de 1964.  Quando morreu, aos cinco anos, uma parte minha também se foi. E nunca quis que Bijou fosse substituída em meu coração. Ela foi, e continua sendo, única em minha vida.

Pois é. Vez por outra, encontramos cachorros e gatos em pinturas, poemas e escritos. Resolvi juntar alguns deles e apresentar aqui.

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“Gato dormindo”, de Renoir.

“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade.

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“Menina na cadeira de braço” (detalhe), de Mary Cassatt. 1878

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“Gato”, de Pablo Picasso. 1942

Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” , de Milan Kundera.

O Perigo da Hesitação Prolongada, de Victor Hugo.

Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.

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“Cão”, de Giacometti. 1951.

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí…
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!, de Mário Quintana.

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“Gato multicor”, de Aldemir Martins.

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios.”, de Lord Byron.

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“Cabeça de cachorro”, de Renoir.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

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“Gato com peixes vermelhos”, de Matisse

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.”  Lygia Fagundes Telles

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“Cachorro roendo o osso”, de Camille Claudel

Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo.” Lygia Fagundes Telles

 Autor: Catherine Beltrão

Janelas de Hopper entreversos

Abrem-se janelas para o que está do lado de fora. Fecham-se janelas para pensar melhor sobre nós mesmos. E se abríssemos janelas para dentro de nós? Quais seriam nossos pensamentos? Traríamos o que está fora para dentro?

As janelas sempre foram tema para artistas e poetas. Neste post, algumas janelas de Edward Hopper, o pintor da solidão, entremeadas por versos de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Mario Quintana.

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“Chop Suey”, de Edward Hopper. 1929

Fernando Pessoa (alguns versos do célebre poema Tabacaria)

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“Quarto em Brooklyn”, de Edward Hopper. 1932

… Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. …

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“Escritório em Nova York”, de Edward Hopper. 1962

Turno à Janela do Apartamento, de Carlos Drummond de Andrade

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração da noite.
Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.
A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.
Suicídio, riqueza ciência…
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.
Triste farol da ilha rosa.

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“Notívagos”, de Edward Hopper. 1942

A arte de ser feliz, de Cecília Meireles

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“Janela noturna”, de Edward Hooper.

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“Luz do sol no restaurante”, de Edward Hopper. 1958

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

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“Sol da Manhã”, de Edward Hopper. 1952

Por fim, os versos de Mario Quintana:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

 Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

Cecília, a bailarina que não gostava de sol

1957. Katia, a menina, com nove anos. Edith, a avó da menina, tendo passado dos sessenta. E quem se importava com essa diferença de idade? As duas liam juntas todos os dias. As duas também  conversavam todos os dias.

- Vó, eu queria ser bailarina!, disse Katia, naquela tarde de inverno.

Edith já sabia disso, pois ela tinha ouvido essa frase mais de dez vezes, só naquele inverno.

Mas foi naquela tarde que a avó lembrou de Cecília. Cecília Meireles.

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“Petite danseuse” , de Edgar Degas – desenho, 1875

- Você sabe que Cecília Meireles, uma das maiores poetisas brasileiras, escreveu um poema – ‘A bailarina’ – que fala de uma menina que quer ser bailarina?

- Não sei não, vó! , respondeu Katia. E perguntou:

Como é a poesia?

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“Três estudos para a pequena bailarina de 14 anos”, de Edgar Degas – desenho, c.1877

- Não sei toda, mas sei que começa com as notas musicais… Assim:

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.  ……..

- Que linda, vó!“, exclamou Katia.  E continuou:

- Mas faltou uma nota: o sol!

- É mesmo, faltou o sol… .  Edith tinha ficado espantada com o fato que a neta percebeu a falta da nota sol na poesia da Cecília.

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“Danseuse en blanc”, de Edgar Degas – desenhoe pastel, 1877

- Por que a poesia não tem o sol, você sabe, vó? Será que a bailarina não gostava de tomar sol? , brincou Katia.

- Quem sabe? Pode ser…  E as duas ficaram rindo do trocadilho que Katia acabara de fazer entre a nota sol e a estrela maior do sistema solar, o Sol.

- Vó, será que dá pra pintar uma bailarina que não gosta de sol?

- Deixe-me pensar um pouco… Acho que vou pintar uma bailarina perto de uma cortina. Assim, quando o Sol aparecer, ela poderá fechar a cortina! , respondeu a avó.

E Edith pintou “Cecília, a bailarina que não gostava de sol“, em homenagem à bailarina de Cecília Meireles.

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“A bailarina que não gostava de sol”, de Edith Blin. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm, 1957.

E você? Quer que Cecília feche a cortina ou deixe ela aberta para o sol entrar?

Autor: Catherine Beltrão

Este é o 7º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”; 4º post: “Odete, Aurora ou Clara?” 5º post: “Isadora”; 6º post: “Julieta“.

As mães de Portinari e de Cecília

Cândido Portinari (1903-1962) e Cecília Meireles (1901-1964) foram impressionantemente contemporâneos. Pintor e poeta atravessaram os mesmos tempos, respiraram o mesmo ar da pintura e literatura modernistas, sofreram as mesmas dores no parto de suas obras. Em algumas delas, a personagem “mãe” se fez representar.

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“Mãe Preta”, de Cândido Portinari – 1940

“Vigília das Mães”, de Cecília Meireles

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1936

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1938

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

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“Criança morta”, de Cândido Portinari – 1944

“Lamento da mãe órfã”, de Cecília Meireles

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“Mãe chorando”, de Cândido Portinari – 1944

Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

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“Mulher e crianças”, de Cândido Portinari – déc. 40

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.

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“Sofrimento de mãe”, de Cândido Portinari – 1955

Cada mãe ficou mais rica depois de Portinari e de Cecília. Inclusive eu.

Variações sobre um mesmo tema: “As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana” e “As mães de Picasso”.

Autor: Catherine Beltrão

A arte com papel de Yulia Brodskaya

Qual é o papel do papel na Arte?

O que todo mundo sabe é que se usa o papel como suporte. Suporte para desenho. Suporte para pastel. Suporte para pintura.  Que, aliás, não é tão valorizado quanto a tela como suporte, por exemplo. Mas Yulia Brodskaya não faz arte em papel. Faz arte com papel. Ela é uma “paper artist“.

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Vídeo (em inglês) com entrevista de Yulia Brodskaya falando sobre a criação de sua obra para o Torneio de Wimbledon 2015

Yulia Brodskaya nasceu em Moscou, na Rússia, mas desde 2004 mora no Reino Unido, onde completou um mestrado em Comunicação Gráfica, na Universidade de Hertfordshire.

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“Moça com brincos de pavão”

Yulia Brodskaya começou a trabalhar como designer e ilustradora em 2006, mas rapidamente abandonou os programas de computador para se dedicar à arte com papel: “O papel sempre exerceu um fascínio sobre mim. Eu tentei vários métodos e técnicas diferentes para trabalhar com o papel, até eu encontrar a minha forma particular: agora eu desenho com o papel ao invés de desenhar sobre ele“.

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“Babushka”

A técnica utilizada é chamada de quilling e envolve o uso de tiras de papel que podem ser enroladas, torcidas ou espichadas, conforme o desenho a se criar. Essas tiras são coladas em um fundo de papel e compõem imagens impressionantes. Foi com essas ilustrações em papel inovadoras que Brodskaya ganhou reputação internacional.

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“Pombas de amor”

O material parece atuar sobre as percepções e ideias de maneira singular, de modo que a observação se torna uma parte importante da mensagem. Sendo um objeto tridimensional, a obra de Brodskaya oferece múltiplas visões. Dependendo do ângulo de observação, da intensidade e da direção da iluminação a mensagem emocional emitida pela obra a e a experiência visual do observador mudam significativamente.

Yulia4Yulia5Yulia Brodskaya é frequentemente convidada para falar em conferências de design e escolas de design no mundo inteiro.

Seus trabalhos originais em arte com papel pode ser encontrada tanto em museus como em eventos, campanhas publicitárias e clientes particulares. Museus como o Museu de Arte Moderna, eventos como o Torneio Mundial de Wimbledon e campanhas para Ferrero, Hermes e Paramount Pictures.

E por falar em papel, nada como terminar este post com o poema “Canivete de papel“, de Manoel de Barros:

Desde criança ele fora prometido para lata.
Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago.
Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel.
Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona.
Servia para não picar fumo.
Servia para não cortar unha.
Era bom para água mas obtuso para pedra.
Havia outro estrupício nos guardados de Bernardo.
Tratava-se de um Guindaste para Mosca.
Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar ligado por uma correia aos ventos da manhã.
Funcionava ao sabor dos ventos.
Imitava uma instalação.
Mas penso que seja um desobjeto artístico.