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A arte com papel de Yulia Brodskaya

Qual é o papel do papel na Arte?

O que todo mundo sabe é que se usa o papel como suporte. Suporte para desenho. Suporte para pastel. Suporte para pintura.  Que, aliás, não é tão valorizado quanto a tela como suporte, por exemplo. Mas Yulia Brodskaya não faz arte em papel. Faz arte com papel. Ela é uma “paper artist“.

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Vídeo (em inglês) com entrevista de Yulia Brodskaya falando sobre a criação de sua obra para o Torneio de Wimbledon 2015

Yulia Brodskaya nasceu em Moscou, na Rússia, mas desde 2004 mora no Reino Unido, onde completou um mestrado em Comunicação Gráfica, na Universidade de Hertfordshire.

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“Moça com brincos de pavão”

Yulia Brodskaya começou a trabalhar como designer e ilustradora em 2006, mas rapidamente abandonou os programas de computador para se dedicar à arte com papel: “O papel sempre exerceu um fascínio sobre mim. Eu tentei vários métodos e técnicas diferentes para trabalhar com o papel, até eu encontrar a minha forma particular: agora eu desenho com o papel ao invés de desenhar sobre ele“.

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“Babushka”

A técnica utilizada é chamada de quilling e envolve o uso de tiras de papel que podem ser enroladas, torcidas ou espichadas, conforme o desenho a se criar. Essas tiras são coladas em um fundo de papel e compõem imagens impressionantes. Foi com essas ilustrações em papel inovadoras que Brodskaya ganhou reputação internacional.

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“Pombas de amor”

O material parece atuar sobre as percepções e ideias de maneira singular, de modo que a observação se torna uma parte importante da mensagem. Sendo um objeto tridimensional, a obra de Brodskaya oferece múltiplas visões. Dependendo do ângulo de observação, da intensidade e da direção da iluminação a mensagem emocional emitida pela obra a e a experiência visual do observador mudam significativamente.

Yulia4Yulia5Yulia Brodskaya é frequentemente convidada para falar em conferências de design e escolas de design no mundo inteiro.

Seus trabalhos originais em arte com papel pode ser encontrada tanto em museus como em eventos, campanhas publicitárias e clientes particulares. Museus como o Museu de Arte Moderna, eventos como o Torneio Mundial de Wimbledon e campanhas para Ferrero, Hermes e Paramount Pictures.

E por falar em papel, nada como terminar este post com o poema “Canivete de papel“, de Manoel de Barros:

Desde criança ele fora prometido para lata.
Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago.
Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel.
Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona.
Servia para não picar fumo.
Servia para não cortar unha.
Era bom para água mas obtuso para pedra.
Havia outro estrupício nos guardados de Bernardo.
Tratava-se de um Guindaste para Mosca.
Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar ligado por uma correia aos ventos da manhã.
Funcionava ao sabor dos ventos.
Imitava uma instalação.
Mas penso que seja um desobjeto artístico.

Pedras macias feito poesia…

Nem sempre as pedras machucam. Algumas vezes elas ficam é preocupadas com a nossa tristeza… e mostram suas rugas. Outras vezes,  até choram… Quase sempre nos embalam em seu colo quente, pois de versos também são feitas.

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“Recorte de pele” – granito

José Manuel Castro López é um artista espanhol que utiliza e transforma pedras em objetos acariciáveis. Manoel (de Barros), Cecília (Meireles), (Carlos) Drummond (de Andrade) e Cora (Coralina) são poetas brasileiros que transformam versos que falam de pedra em ninho-colo.

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“Pedra-cérebro” – granito

“A Pedra”, de Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

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“Lágrimas de pedra”

Manoel de Barros também escreveu:  “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.

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“Beliscão” – quartzo

“No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

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“Paralelepípedos” – granito e aço inoxidável

Mais uma pedra-pensamento de Manoel de Barros: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

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“Contratura” – pedra e óxido de ferro

Pedras”, de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

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“Contraste de personalidades” – pedra morceña e óxido de ferro

Daquele que deixou um pequeno príncipe fazer a volta de um asteróide, não podia deixar de também dizer o que achava das pedras:

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

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“Lambida” – pedra morceña

“Das pedras”, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Autor: Catherine Beltrão

Pablos e Ediths

Em muitos de meus posts, gosto de colocar lado a lado pintura e poesia. Cores, formas e palavras. As cores ganham significado e as palavras ganham forma.

Neste post, vou além. Escolhi dois nomes. Pablo e Edith. Um Pablo da pintura e outro da poesia. Uma Edith da pintura e outra da canção.

A primeira dupla: Pablo Picasso e Pablo Neruda…

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“Guernica”, de Pablo Picasso. Painel a óleo, 7,77m X 3,49m. 1937.

Pablo Picasso (1881-1973) foi um pintor, escultor e desenhista espanhol.
Minha mãe me dizia: Se queres ser um soldado, serás general. Se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Então eu quis ser um pintor e agora sou Picasso.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno e um dos mais importantes da língua castelhana do século XX.

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Pablo Picasso

“Saudade”, de Pablo Neruda (vídeo com Aldo Bastos)

Pablo NerudaSaudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

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“Maternidade”, de Pablo Picasso. Ost, 1905.

A segunda dupla: Edith Blin e Edith Piaf…

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“Maquis”, de Edith Blin. Osm. 1945.

Edith Blin (1891-1983) foi uma pintora francesa.
Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma“.

Edith Piaf (1915-1973) foi uma cantora francesa e, segundo pesquisa da BBC, considerada a 10ª maior francesa de todos os tempos.

Piaf

Edith Piaf

Edith

Edith Blin

“Rien de rien”, de (Charles Dumont e Michel Vaucaire). Clique aqui para ver o vídeo com Edith Piaf.

 

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
C’est payé, balayé et oublié.
Je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
J’ai allumé le feu.
Mes chagrins, mes plaisirs.
Je n’ai plus besoin d’eux.
Balayé les amours
Avec les trémolos.
Balayé pour toujours.
Je repars à zéro.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies aujourd’hui,
Ça commence avec toi!

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“Katia e seus amigos” (detalhe), de Edith Blin. Pastel sobre cartolina, 1955.

Uma curiosidade: Pablo Picasso (1881-1973) e Edith Blin (1891-1983) passaram ambos 92 anos neste nosso planeta. Quando Edith nasceu, Pablo tinha dez anos. Quando Edith morreu, Pablo tinha morrido fazia dez anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

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“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

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“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

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“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

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“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

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“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

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“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

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“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Ave, índio!

O 19 de abril é o Dia do Índio. Desde 1943, três anos após os índios terem decidido participar do I Congresso Indigenista, no México.

Neste dia, hoje,  homenageio o índio representado por alguns artistas e um poeta. Debret, Victor Meirelles, Antonio Parreiras, Rodolfo Amoedo, Tarsila do Amaral, Carybé e Élon Brasil são os artistas. Gonçalves Dias, o poeta.

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J.B. Debret (1778-1848): “O caçador de escravos”

Gonçalves Dias (1823-1864), o poeta nacional do Brasil, foi um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como “indianismo“. Famoso por ter escrito o poema “Canção do Exílio” — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira — escreveu também muitos poemas dedicados ao índio brasileiro. Um deles é a “Canção do Tamoio“.

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Victor Meirelles (1832-1903): “Moema”

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

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Rodolfo Amoedo (1857-1941): “Último Tamoio”

III

O forte, o covarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

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Antônio Parreiras (1860-1937): “Iracema”

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “O Batizado de Macunaíma”

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

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Carybé (1911-1997): “Dois índios”

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Nascido em 1957, Élon Brasil, assim como Gonçalves Dias, também tem três sangues percorrendo suas veias: o índio, o negro e o branco.

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Élon Brasil (1957): “O iniciado Kraho”

Quanto a mim, eu me orgulho de ter sangue índio nas veias. É pouco, mas tem. Talvez isso justifique meu amor à terra e aos rios. Às árvores e à liberdade.

Autor: Catherine Beltrão

As asas de Lalique e de Victor Hugo

Resolvi escrever sobre René Jules Lalique (1860-1945), mestre vidreiro e joalheiro francês. Lalique criou jóias, frascos de perfume, copos, taças, candelabros, relógios, entre outros objetos, dentro do estilo modernista, sobretudo Art nouveau e Art déco.

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Libélula, de Lalique.

Entre centenas de obras deslumbrantes, me deparei com as borboletas e as libélulas, jóias de sublime beleza, com suas asas de cristal voando até nossa alma.

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Lalique, pingente de libélula.

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Lalique, pingente de libélula

E, percorrendo as asas de Lalique, de repente me lembrei das asas de Victor Hugo (1802-1885), o grande poeta, dramaturgo e ensaísta francês, autor de “Os Miseráveis” e de “Notre Dame de Paris“,  entre diversas outras obras clássicas. 

Victor Hugo amava versos. Victor Hugo amava asas. E assim escreveu um de seus mais belos poemas: “Si mes vers avaient des ailes” (“Se meus versos tivessem asas“):

 

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Lalique, borboleta

 

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Lalique, borboleta

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Lalique, borboleta

Mers vers fuiraient doux et frèles
Vers votre jardin si beau
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’oiseau

Ils s’envoleraient, étincelles
Vers votre foyer qui rit
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’esprit

Près de vous purs et fidèles
Ils s’envoleraient nuit et jour
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’amour.

Tradução livre:

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Lalique, libélula

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Lalique, libélula

Meus versos fugiriam doces e frágeis
Para teu jardim tão belo
Se meus versos tivessem asas
Asas como o pássaro

Eles voariam, faíscas
Para tua morada que ri
Se meus versos tivessem asas
Asas como o espírito

Perto de ti puros e fiéis
Eles voariam noite e dia
Se meus versos tivessem asas
Asas como o amor.

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Lalique, borboleta

E, para terminar,  Victor Hugo também dizia: “Adoro esta sensação de ter asas nas costas e uma borboleta no coração.” (“J’adore cette sensation d’avoir des ailes dans le dos et un papillon das le coeur. “)

Autor: Catherine Beltrão

Mosaicos e releituras

Mosaico é possivelmente uma palavra de origem grega. Trata-se de um aglomerado de pequenas peças (tesselas) de pedra ou de outros materiais como vidro, azulejo, cerâmica, plástico, areia, papel ou conchas, formando determinado desenho. Para aderir a uma superfície, usa-se cola ou argamassa e, após a colagem das peças, aplica-se uma massa para o rejunte, que irá preencher os espaços existentes entre as peças.

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Releitura de “A noite estrelada”, de Vincent van Gogh, por Carla Verena

A técnica do mosaico é muito antiga. O primeiro registro data de 3.500 a.C., na cidade de Ur, na região da Mesopotâmia.

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Releitura de “Mulher no Espelho”, de Pablo Picasso, por Liz Panek

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Releitura de “Portrait De Femme au Col D’Hermine”, de Pablo Picasso, por Giulio Pedrana

No antigo Egito, havia preciosos trabalhos feitos em sarcófagos de antigas múmias; também havia mosaicos que decoravam colunas e paredes de templos. Mais tarde, Pompeia foi um viveiro de mosaicistas: desde os poderosos e os abastados até o povo em geral apreciavam esta arte. No período paleo-cristão, abre-se para o mosaico uma nova era: a arte bizantina, que é o verdadeiro triunfo das artes visuais do cristianismo. No mundo islâmico, a arte do mosaico teve importante aplicação na ornamentação de edifícios e mesquitas.

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Releitura de um autorretrato de Frida Kahlo, por Stacy Alexander

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Releitura de uma obra de Frida Kahlo, por Susan Elliot

No século XIX, a arte do mosaico caiu quase em abandono. No período moderno, o mosaico, arte mural por excelência, conseguiu a metamorfose: parede-cimento-pedra-cor. Com isto, ele consegue harmonizar a arquitetura moderna.

Nos dias atuais, alguns artistas resolveram fazer releituras de obras famosas de grandes mestres como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Frida Kahlo,  Gustav Klimt e Tarsila do Amaral, entre muitos outros. São novas formas de penetrar nas obras e transformá-las em novos contextos.

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Releitura de “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral, por Patricia Iamin

E, mais uma vez, a poesia não poderia ficar de fora. Durante um tempo, tentei achar os cacos de Cecília, Drummond, Quintana e Manoel. Estava sem sorte. Não encontrei. Na falta dos cacos mais nobres, resolvi deixar aqui os meus cacos de alma.

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Releitura de “Três idades da mulher”, de Gustav Klimt, por Silvia Danelutti

Cacos.
Cacos de vidro.
Coloridos.
Formatados.
Mas sem a forma
de nossa alma.
Aí são cortados,
pra seguir a forma
de nossa alma.

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Releitura de “O beijo”, de Gustav Klimt, por Kasia Polkowska

Cacos.
Cacos de alma.
Sem cor.
Sem forma.
Mas que vão aos poucos
tomando forma
de nosso querer.
De nosso poder.

Cacos.
Cacos de vida.
Sem o antes.
Sem o depois.
Mas com o agora
que se desvenda
através dos cacos…
de vidro.
Ou de alma.

  Autor: Catherine Beltrão

Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

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“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

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“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

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“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

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Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

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“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

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“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

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“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

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“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão

As mulheres do Museu e do Vinicius

No Dia Internacional da Mulher é mais do que óbvio falar de mulheres. E hoje as mulheres são do Museu e do Vinicius. Do Museu ArtenaRede e do Vinicius de Moraes.

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“Negra com lençol azul”, de Edith Blin – 1943, ost, 65 X 50cm

“São demais os perigos desta vida” (ou “Soneto do Corifeu”)

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“Paixão I”, de Glaucia Scherer – 2002 – ast – 64 X 53cm

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“Retração”, de Lena Gal – 2015, aquarela, 70 X 50cm

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

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-“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, de Luiza Caetano – 2000, ost, 70 X 90cm

“A Mulher que Passa”

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“Deleite”, de Sônia Guaraldi – 1997, ost, 38 X 68cm

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

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“Grávida”, de Karlla Pio – 1999, escultura em resina, 65 X 18 X 32cm

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

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“Dor silenciosa”, de Lena Gal – 2002, ast, 54 X 65cm

“Minha namorada”

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“Felicidade”, de Tânia Leal – 2003, ast, 72 X 55cm

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

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“Intimidade”, de Catia Garcia – 2001, act, 100 X 150cm

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois…

Nos anos 60, o poema “Minha Namorada“, que depois recebeu música do Carlos Lyra, foi meu hino ao amor de adolescente. Mais tarde, “Os perigos desta vida” resgatava meus anos de “música, luar e sentimento”. Hoje, quem dera ser “A mulher que passa“…

As imagens das obras são de mulheres que representam mulheres. Fazem parte do futuro Museu ArtenaRede.

Autor: Catherine Beltrão