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Musicais dos anos dourados

Os anos 60 foram meus anos dourados. E três musicais douraram estes anos. Os três já cinquentões…

Começo por “West Side Story” (“Amor Sublime Amor“), de 1961.

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Vídeo com a canção “Somewhere”.

Com direção de Jerome Robbins e Robert Wise e música de
Leonard Bernstein, ganhou o Oscar de melhor filme em 1962.

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Cartaz do filme

West_gangsA história é uma adaptação livre de “Romeu e Julieta“, de William Shakespeare. No lado oeste de Nova York, à sombra dos arranha-céus, ficam os guetos de imigrantes e classes menos favorecidas. Duas gangues, os Sharks, de porto-riquenhos, e os Jets, de brancos de origem anglo-saxônica, disputam a área, seguindo um código próprio de guerra e honra. Tony (Richard Beymer), antigo líder dos Jets, se apaixona por Maria (Natalie Wood), irmã do líder dos Sharks, e tem seu amor correspondido. A paixão dos dois fere princípios em ambos os lados, acirrando ainda mais a disputa.

O segundo a colorir  minha adolescência foi “My Fair Lady” (“Minha Bela Dama“), de 1965.

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Vídeo com a canção “I Could Have Danced All Night”

Dirigido por George Cukor e música de Frederick Loewe, ganhou o  Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1965.

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Cartaz do filme

Fair_TheraininSpainTendo sido adaptado de “Pygmalion“, de George Bernard Shaw, “My Fair Lady” conta a história de Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma mendiga que vende flores pelas ruas escuras de Londres em busca de uns trocados. Em uma dessas rotineiras noites, Eliza conhece um culto professor de fonética Henry Higgins (Rex Harrison) e sua incrível capacidade de descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seus sotaques. Quando ouve o horrível sotaque de Eliza, aposta com o amigo Hugh Pickering, que é capaz de transformar uma simples vendedora de flores numa dama da alta sociedade, num espaço de seis meses.

Também de 1965, é o musical “The Sound o Music” (“A Noviça Rebelde“).

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Vídeo com a canção “The Sound of Music”

O filme teve direção de Robert Wise e música de Richard Rodgers e
Oscar Hammerstein II, ganhando o Oscar de melhor filme em 1966.

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Cartaz do filme

Novica_SolongfarewellAdaptado do livro “The Story of the Trapp Family Singers“, escrito por Maria von Trapp, o filme se passa no final da década de 1930, na Áustria, quando o pesadelo nazista estava prestes a se instaurar no país. Uma noviça (Julie Andrews) que vive em um convento mas não consegue seguir as rígidas normas de conduta das religiosas, vai trabalhar como governanta na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), que tem sete filhos, viúvo e os educa como se fizessem parte de um regimento. Sua chegada modifica drasticamente o padrão da família, trazendo alegria novamente ao lar da família Von Trapp e conquistando o carinho e o respeito das crianças. Mas ela termina se apaixonando pelo capitão, que está comprometido com uma rica baronesa.

Estes três musicais marcaram minha adolescência. Por consequência, minha vida. Canto algumas de suas canções até hoje, passados mais de cinquenta anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Completa 50 anos o disco Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band

Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, o mais importante disco lançado pelos Beatles, completa 50 anos. Conheça um pouquinho (acredite, apenas um pouquinho mesmo se tratando de uma mega produção) desse clássico que foi um marco da cultura pop do século XX.

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Os Beatles foram de tudo. De mocinhos exemplares a heróis da contracultura. De marqueteiros de primeira a mega rockstars (e foram também tudo o que esse título carrega nas entrelinhas). A história da música, sem sombra de dúvidas, pode ser dividida em Antes dos Beatles e Depois dos Beatles.

Após rodar o mundo propagando a Beatlemania e fazendo iêiêiê, sentiram-se maduros e seguros para mudar a temática das suas canções. Dilemas juvenis e dramas sentimentais da primeira fase da banda ainda tocavam nas rádios e faziam todas as adolescentes suspirarem profundamente. Mas eles queriam mais. Após o mítico encontro com Bob Dylan e a descoberta da maconha e do LSD, eles estavam prontos para mudar a estética de suas canções em todos os sentidos.

Mergulhados na lisergia sessentista, lançaram Rubber Soul e Revolver.

George incorporava a musicalidade indiana. Ringo, que anos antes ameaçara sair da banda alegando pouca atenção, se  firmava cada vez mais como um baterista criativo e um esporádico vocalista carismático. John e Paul já soltavam farpas, ainda que bem discretamente tentando impor suas lideranças. Estavam ali naquele momento esbanjando criatividade no que foi considerada por muitos críticos a melhor fase da dupla, mostrando o ápice de um amadurecimento poético e literário.

Mas o mundo não esperava por um furacão colorido chamado Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Se o primeiro álbum da banda, Please Please Me, levou apenas um único dia para ficar pronto, Sgt. Peppers exigiu um esquema hollywoodiano de superprodução com 400 horas de estúdio e o custo de 100 mil dólares – cifras incomuns para um disco de rock. Mas os números acima são apenas reflexos de toda a loucura criativa que a banda queria apresentar nesse novo trabalho. Orquestras enormes, adições de sons dos mais diversos animais, acordes audíveis apenas para ouvidos caninos, instrumentos incomuns, solos tocados ao contrário (o que já haviam experimentado em Revolver) e mensagens subliminares que tentavam dar credibilidade à lenda da morte de Paul McCartney. Tudo isso sob a clássica capa dos quatro músicos fardados como se pertencessem a uma fanfarra vitoriana psicodélica. Esses elementos e muitos outros deram a Sgt Peppers inúmeros adjetivos, que iam desde o primeiro disco de rock progressivo da história até o melhor disco já lançado e mais importante trabalho da cultura pop.

Faixas principais

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A faixa título abre o disco, e é a apresentação do personagem fictício ‘Sargento Pimenta’ que comandava a ‘Banda Clube dos Corações Solitários’ e é logo emendada com With a Little Help From My Friends cantada por Ringo e seu refrão de duplo sentido “I get high with a little help from my friends”, algo como “Eu chego mais alto com uma ajudinha dos meus amigos” ou “Eu fico chapado com uma ajudinha dos meus amigos”. Essa canção teve seu auge na voz de Joe Cocker, considerado por muitos o melhor cover de uma canção dos Beatles já criada.

Beatles_LucyintheskyLucy In the Sky with Diamonds foi chamada de maior canção já feita sobre o LSD, embora John Lennon negasse o fato veementemente. Segundo John, a música foi composta a partir de um desenho feito por seu filho Julian, que retratava sua amiguinha de escola Lucy flutuando em um céu onde as estrelinhas pareciam diamantes. A referência com as letras LSD era uma mera coincidência. Os esforços para explicar esse fato, no entanto, foram em vão e a canção chegou a ser proibida pela BBC.

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Outra faixa que foi relacionada com uso de drogas – dessa vez a heroína – foi Fixing a Hole. No primeiro verso da canção, Paul canta “Estou fechando um buraco por onde a chuva entra”. Paul também negou a acusação alegando que a música foi feita em referência a Jesus Cristo.

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O disco tem um desfecho apoteótico com A Day In The Life, considerada pela revista Rolling Stone a melhor canção dos
Beatles. A canção é uma junção de duas composições distintas escritas uma por John e outra por Paul que foram agregadas
de forma perfeita. Foi mais uma canção banida das rádios inglesas devido a referências ao uso de LSD e maconha.

Beatles_capaBeatles_capasketchO conceito inicial da capa foi sugerido por Paul. A ideia era fazer a banda do Sargento Pimenta recebendo um título ou um troféu das mãos do prefeito na praça de uma cidade imaginária. Paul conta suas ideias para Robert Frazer, que o leva para conhecer Peter Blake, importante artista do movimento Pop Art. Peter fez então um sketch mudando ligeiramente o conceito de Paul e novas mudanças seriam feitas até se tornar a capa que conhecemos hoje.

Os quatro Beatles escolheram as pessoas que iriam compor o cenário. Artistas de cinema e da TV, músicos, escritores,  pensadores, filósofos, líderes políticos, gurus hindus, e até a polêmica escolha de Jesus Cristo e Adolph Hitler.

Sabe-se que a imagem que Hitler foi retirada do corte final, e talvez Jesus tenha ficado escondido entre os demais para evitar polêmicas maiores. John já havia dado a fatídica declaração de que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo e queriam evitar mais problemas. Na parte inferior, uma espécie de canteiro com o nome da banda feito com flores vermelhas e a adição de alguns pequenos adornos como gnomos de jardim, troféus, bustos, imagens religiosas, uma
televisão, etc.

Beatles_Hitler

A lenda da morte de Paul em um trágico acidente de carro em 1966 já estava circulando. Na história, um sósia entrara para a banda encarnando o baixista, tudo porque a Beatlemania estava no auge e os trabalhos da banda não poderiam ser abruptamente interrompidos.

Na música A Day In The Life, John começa cantando “Ele estourou sua cabeça em um carro/ Não reparou que as luzes do semáforo tinham mudado”. Boatos em torno da história diziam que Paul havia sido decapitado no acidente. Outra mensagem escondida em uma canção é no final de Strawberry Fields Forever, onde ouvimos claramente John Lennon dizendo de forma veemente “I buried Paul” (“Eu enterrei o Paul”). E, claro, na capa do disco muitas mensagens estão escondidas também.

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O fato é que para muitos todo o conceito da capa não passa do funeral do próprio Paul McCartney.

Beatles_baixodefloresBeatles_bumbocentralEmbaixo do nome da banda está o baixo Hofner canhoto de Paul feito com flores amarelas, possuindo apenas três cordas e não mais quatro. À direita do quarteto com roupas coloridas estão os quatro Beatles de terno cinza feitos em cera, todos com olhares de pesar. Se a história toda aconteceu em 1966, era com essa roupa que eles se apresentavam. Acima da cabeça do Paul fardado de azul, aparece a mão do comediante Issy Bonn, acenando como se estivesse se despedindo ou abençoando. As palavras Lonely Hearts do bumbo central ao serem espelhadas, formam o jogo de letras “IONEIX HE<>DIE”, que ao serem separadas formam “I ONE IX HE <> DIE, sugerindo a data 11/9, ou November 9, 1966, data em que Paul supostamente teria morrido. Depois da data, continuam as palavras HE DIE, e no centro uma espécie de seta aponta para o beatle de azul. E no encarte do disco, existe uma foto onde a banda olha para frente e apenas Paul aparece de costas.

Beatles_Pauldecostas

Iniciamos o texto dizendo que os Beatles foram marqueteiros de primeira. A história gerou tanto fascínio na época que eles continuariam aplicando mensagens acerca da morte de Paul nas capas dos próximos discos, em vídeo clipes e muito mais. Traduzindo em termos comerciais, eram mais discos vendidos, mais holofotes e mais dinheiro.

Segundo o produtor da banda George Martin, os Beatles em Sgt. Peppers nunca estiveram tentando fazer arte conceitual ou
procurando uma integridade musical. Eles só queriam fazer algo diferente. E fizeram!

Nenhuma outra banda até hoje conseguiu fazer o que os Beatles fizeram em apenas sete anos de atividade. Eles mostraram que uma banda de rock pode romper barreiras sonoras, comportamentais e ideológicas, deixar uma pulga atrás da orelha de muita gente, virar teses de mestrado e vender como água – mesmo depois de quase meio século do fim das atividades.

Eles começaram gritando HELP! e terminaram dizendo LET IT BE. O interim dessa trajetória linda vai ficar para sempre na memória dos mais velhos, na imaginação dos mais jovens, na estante de trilhões de pessoas e na linha cronológica não apenas da cultura pop e do Rock n’ Roll, mas de toda a humanidade.

Chico Joy

Pianos em telas e versos (Parte II)

Um só post não era suficiente para dar uma ideia de minha paixão pelo piano. Dando prosseguimento à primeira parte deste post, mais alguns pianos são agora apresentados… pianos mais modernos, mais desconcertantes, mas nem por isso, menos encantadores.

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“Florescimento da Primavera necrófila num piano de cauda”, de Salvador Dali. 1933.
Vídeo: “Gymnopédie No.1″, de Erik Satie. Duração: 3:36

Quanto aos versos, desta vez escolhi “Ode ao Piano“, de Pablo Neruda.

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“Menina com gato e piano”, de Di Cavalcanti. 1967
Vídeo: “Ária da Bachiana Brasileira nº 4″, de Heitor Villa Lobos. Duração: 4:09

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“Georgette ao piano”, de René Magritte. 1923
Vídeo: “Impressões Seresteiras, do Ciclo Brasileiro”, de Heitor Villa Lobos. Intérprete: Magda Tagliaferro. Duração: 5:51

Estava triste ao piano
no concerto,
esquecido em seu fraque de coveiro,
então abriu a boca,
sua boca de baleia:
entrou o pianista para o piano
voando como um corvo,
alguma coisa passou como se caísse
uma pedra
de prata
ou uma mão
em um tanque
escondido:
deslizou a doçura
como a chuva
sobre um sino,
caiu a luz ao fundo
de uma casa fechada,
uma esmeralda percorreu o abismo
e soou o mar,
a noite,
as campinas,
a gota de orvalho,
o altíssimo trovão,
cantou  arquitetura da rosa,
rodou o silêncio ao leito da aurora.

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“A lição de piano”, de Henri Matisse. 1916
Vídeo: “A grande porta de Kiev”, de Quadros de uma Exposição – Modest Petrovich Mussorgsky. Duração: 4:13

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“O piano”, de Pablo Picasso. 1957
Vídeo: “Sonata para piano nº 7, Op.83″, de Serge Prokofiev. Intérprete: Gleen Gould. Duração: 19:52

Assim nasceu a música
do piano que morria,
subiu as vestes
da náiade
do cadafalso
e de sua dentadura
até que no esquecimento
caiu o piano, o pianista
e o concerto,
 e tudo foi som,
torrencial elemento,
sistema puro, claro campanário.

 

Então voltou o homem
da árvore da música.
Desceu voando como
corvo perdido
ou cavaleiro louco:
fechou sua boca de baleia do piano
e ele andou para trás,
para o silêncio.

Para completar o acervo, uma obra de Klimt, que não pode ser mais vista: essa e muitas outras foram destruídas pelos nazistas em 1945.

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“Schubert ao piano”, de Gustav Klimt. 1899.
“Clair de Lune”, de Claude Debussy. Duração: 6:00

Quanto a Wassily Kandinsky, é sabido de sua forte relação com a música.  Ele, introdutor da abstração no campo das artes visuais, e Arnold Schoenberg, criador do dodecafonismo, foram os pilares da evolução artística do século XX. É de Kandisky esta citação sobre o piano:

A cor é uma força que influencia diretamente a alma. A cor é o  teclado. Os olhos são os martelos. A alma, o piano de inúmeras cordas. O artista é a mão que toca.”

Como trilha sonora desta  segunda parte do post, escolhi peças de Erik Satie, Claude Debussy, Heitor Villa Lobos, Modest Mussorgsky e Serge Prokofiev.

Para ler a parte I deste post, clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Pianos em telas e versos (Parte I)

Entre amores e paixões vividas nessas mais de seis décadas de existência, talvez o piano tenha sido a maior. Paixão que quase me fez ser concertista, um dia. Amor que me fez (e faz) garimpar a música por trás das cenas de filmes, ou no ar por sobre as montanhas e por entre ondas…

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“Musica Inspiradora”, de Lena Gal. 2002.
Vídeo: 32 variações em Dó menor, de Beethoven – Gleen Gould. Duração: 12.29

A pesquisa na Internet me fez achar dezenas de obras de arte onde o piano é protagonista. Os versos já não são tantos… Nesta primeira parte do post, vale apresentar o de Carlos Drummond de Andrade, “Onde há pouco falávamos“:

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“A Sonata de Mozart”, de Berthe Morisot. 1894.
Vídeo: “Prelúdio e Fuga em Lá maior”, do Cravo Bem Temperado, vol.2, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 2:33

É um antigo
 piano, foi
 de alguma avó, morta
 em outro século.

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“Madame Juliette Pascal ao piano”, de Toulouse Lautrec. 1896.
Vídeo: “Variações 1 a 7 de Goldberg”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 9:49

 E ele toca e ele chora e ele canta
 sozinho,
 mas recusa raivoso filtrar o mínimo
 acorde, se o fere
 mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
 Sua gente está morta,
 seu prazer sepultado,
 seu destino cumprido,
 e uma tecla
 põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
 É um rato?
 O vento?
 Descemos a escada, olhamos apavorados
 a forma escura, e cessa o seu lamento.

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“Jeunes filles au piano”, de Pierre-Auguste Renoir. 1892.
Vídeo: “Concerto de Brandenburg nº 5″, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 6:07

Mas esquecemos. O dia perdoa.
 Nossa vontade é amar, o piano cabe
 em nosso amor. Pobre piano, o tempo
 aqui passou, dedos se acumularam
 no verniz roído. Floresta de dedos,
 montes de música e valsas e murmúrios
 e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
 Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
 Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
 ele estronda. A poeira profusa salta,
 e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
 circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
 Assim nosso carinho
 encontra nele o fel, e se resigna.

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“Mademoiselle Gachet ao piano”, de Vincent van Gogh. 1890.
Vídeo: “Prelúdio em Dó menor”, de J. S. Bach – Gleen Gould. Duração: 1:14

Uma parede marca a rua
 e a casa. É toda proteção,
 docilidade, afago. Uma parede
 se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
 ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
 o medo imemorial, os inspetores
 da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
 Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
 Uma cadeira se renova ao meu desejo.
 A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
 e confiantes. A casa vive.
 Confio em cada tábua. Ora, sucede
 que um incubo perturba
 nossa modesta, profunda confidencia.

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“O descanso do modelo”, de Almeida Junior. 1892.
“Noturno op.9 nº1″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrrau. Duração: 5:51

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
 busto e humour. Uma dolência rígida,
 o reumatismo de noites imperiais, irritação
 de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
 e tudo que deixam mudanças,
 viagens, afinadores,
 experimento de jovens,
 brilho fácil de rapsódia,
 outra vez mudanças,
 golpes de ar, madeira bichada,
 tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
 meio grotesco também, nada piedoso.

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“Madame Camus ao piano”, de Edgar Degas. 1869.
Vídeo: “Noturno op.9 nº2″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 4:51

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
 objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
 de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
 a coleção de retratos, também alguns livros,
 cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
 antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
 bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
 da casa, por baixo
 da zona sensível, muito
 por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
 que a palmeira, mais alto
 que o terraço, mais alto
 que a cólera, a astúcia, o alarme.

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“Manuela González Velázquez tocando piano”, de González Velázquez . 1820.
Vídeo: “Noturno op.9 nº3″, de Frédéric Chopin – Claudio Arrau. Duração: 7:20

Cortaremos o piano
 em mil fragmentos de unha?
 Sepultaremos o piano
 no jardim?
 Como Aníbal o jogaremos
 ao mar?
 Piano, piano, deixa de amofinar!
 No mundo, tamanho peso
 de angústia
 e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
 (como na insônia temos a de amanhecer)
 que um dia se mude, sem noticia,
 clandestino, escarninho, vingativo,
 pesado,
 que nos abandone
 e deserto fique esse lugar de sombra
 onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
 de alguma dona, hoje
 sem dedos, sem queixo, sem
 música na fria mansão.
 Um pedaço de velha, um resto
 de cova, meu Deus, nesta sala
 onde ainda há pouco falávamos.)

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“Jovem ao piano”, de Paul Cézanne. 1868.
Vídeo: “Bénédiction de Dieu dans la solitude”, de Franz Liszt – Claudio Arrau. Duração: 19:07

Como trilha sonora deste post escolhi 5 peças de J.S. Bach e Ludwig van Beethoven, interpretadas por Gleen Gould e 4 peças de Frédéric Chopin e Franz Liszt, com interpretação de Claudio Arrau. Puro deleite!

Para ler a parte II deste post, acesse aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

David Bowie: autorretratos

O mundo está consternado. Vitimado por um câncer de fígado, lá se foi David Bowie (1947-2016), um dos maiores artistas de música popular de todos os tempos, tendo influenciado gerações por mais de cinco décadas de constantes inovações em suas criações artísticas.

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Autorretrato de David Bowie. 1978

Aclamado em todo o mundo e por quase todos que conhecem sua música, no entanto são poucos os que sabem de suas produções nas artes plásticas. Vale a pena.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Em sua profícua trajetória musical, ele  também teve tempo de desenhar, pintar e esculpir.  São apresentados neste post alguns de seus autorretratos, realizados em 1996.

Três destes autorretratos foram vendidos durante um leilão em Penzance, na cidade inglesa de Cornwall. Segundo a publicação, o comprador pagou US$ 10 mil  pelas três obras. As pinturas  fazem parte da coleção “D-Heads”.

Uma óbvia previsão: em dez anos, o valor destas obras terá ultrapassado os US$ 100 mil. Alguém duvida?

 

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Para ver a série dos 7 autorretratos, clique aqui.

Embora o propósito deste texto tenha sido mostrar uma faceta pouco conhecida do artista, não há como escrever sobre David Bowie e não apresentar alguma referência musical. A seguir, três links de acesso para vídeos de Bowie com grandes parceiros: em 1975, com John Lennon  – “Fame“; em 1981, com Freddie Mercury – “Under pressure“; em 1996, com Phillip Glass – “Heroes“.

Autor: Catherine Beltrão

Cadê o Freddie Mercury?

Cadê o Freddie? Preciso desesperadamente dele.

Preciso de garra. De vontade. De pertencer à vida.

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Vídeo com parte do show dado no Estádio de Wembley, em 1986. Duração: 16:28

Preciso de ternura. De envolvimento. De ser abraçada pelo ar.

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Vídeo com a canção “Love of my life”, gravado em show de Montreal – 1981. Duração: 4:07

Preciso de um som. De algumas cores. De me transformar em música.

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Vídeo gravado no show talvez mais contundente: “Queen – Live Aid 1985 – Full Concert” (7/13/85). Duração: 24:39

Cadê você Freddie? Saia de minha saudade. Por favor.

 Autor: Catherine Beltrão

Feliz Aniversário, Ronaldo Miranda!

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Ronaldo Miranda

No dia em que comemora 67 anos, não há como não lembrar e reverenciar este grande compositor brasileiro de nome Ronaldo Miranda, nascido no Rio de Janeiro. Com a morte prematura do pai, começou a trabalhar ainda muito jovem, nos anos 60, como crítico de arte no Jornal do Brasil. E foi nesta época que conheci Ronaldo Miranda.

Naqueles anos dourados, ambos éramos estudantes de Música. Eu costumava fazer saraus semanais em casa, tanto de música erudita como de música popular. E Ronaldo Miranda participava de todos. Desta forma, também iniciamos uma parceria musical, ele compondo e eu como letrista. Em 1968 participamos do 1º Festival Universitário, inscrevendo duas músicas: Deixa essa tristeza andar e Poesia do amor-violão. As duas músicas foram classificadas e apresentadas para a público. A música Deixa essa tristeza andar teve o privilégio de ser cantada por ninguém menos que a nossa grande e saudosa Clara Nunes! Para completar o quadro, nossa madrinha foi a grande dama do teatro Bibi Ferreira…

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Eu, Bibi Ferreira, Clara Nunes e Ronaldo Miranda, no I Festival Universitário, em 1968.

Ronaldo Miranda iniciou sua carreira como compositor em 1977, ao receber o 1º Prêmio no Concurso de Composição para a II Bienal de Música Brasileira Contemporânea da Sala Cecília Meireles, na categoria de música de câmara. Em 1978, foi selecionado para representar o Brasil na Tribuna Internacional de Compositores da Unesco, em Paris. Nos anos seguintes, recebeu inúmeros prêmios em Concursos Nacionais de Composição e também o Troféu Golfinho de Ouro (1981) do Governo do Estado do Rio de Janeiro. A Associação de Críticos de Arte de São Paulo (APCA) considerou suas Variações Sinfônicas a melhor obra orquestral de 1982.

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Ronaldo Miranda em 2003, em Baden Baden, onde foi artista residente no Brahmshaus Studio, tendo criado a obra Festspielmusik, para dois pianos e percussão.

Tendo participado de vários festivais internacionais – Dinamarca, Alemanha, Hungria, Áustria e Espanha – Ronaldo Miranda foi condecorado com o título de Cavaleiro da Ordem de Artes e Letras, pelo ministério da cultura da França em 1984 e recebeu numerosos prêmios durante toda sua carreira. É o autor da Sinfonia 2000, encomendada pelo Ministério da Cultura para comemorar os 500 anos de descobrimento do Brasil.

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Vídeo de “Cantares”, de Ronaldo Miranda e Walter Mariani. Com Isabela Santos e Szymon Jakubowski. Duração: 4:20

Uma de suas obras mais conhecidas é a magnífica “Cantares“, com letra de Walter Mariani. Foi uma de suas primeiras composições, tendo feito a primeira versão em 1969. Ao pesquisar na Internet, encontramos inúmeras interpretações. Embora seja mais usual ouvi-la na voz feminina, resolvi apresentar aqui neste post a “Cantares” também interpretada por um cantor.  Com toda certeza, é uma obra que já se tornou eterna.

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Vídeo de “Cantares”, de Ronaldo Miranda e Walter Mariani. Com Ricardo Russo e Vera Platt . Duração: 4:37

O vasto repertório de composições de Ronaldo percorre tanto instrumentos- piano, violão, flauta, clarineta, violoncelo, violino - quanto vozes. São muitas suas criações para música de câmara e para orquestra. Assim como Beethoven, ele também fez sua “Appassionata“, composta em 1984.

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Vídeo da “Appassionata para violão”, de Ronaldo Miranda. Com Iren Arutyunyan. Duração: 8:35

 

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Vídeo da “Valsa só″, de Ronaldo Miranda. Intérprete: Francis Vilela. Duração: 1:37

Uma composição que só fui conhecer mais recentemente – ah, bendita internet! – é a lindíssima “Valsa só“, composta em 2005.  Singela, delicada, perfumada, essa valsa nos transporta para um mundo sereno, longe do caos e do stress a que estamos acostumados no cotidiano atual. Embora também haja diversos vídeos desta obra à disposição no youtube, resolvi escolher para apresentar neste post aquele que mais me emocionou.

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Vídeo do Dueto Final do 1º Ato da ópera “A Tempestade”, com Rosana Lamosa e Fernando Portari. Duração: 5:48

A estréia mundial de sua segunda ópera, “A Tempestade”, com libreto do próprio Ronaldo, baseado na peça The Tempest de William Shakespeare, aconteceu  em setembro de 2006, com a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo sob regência e direção musical de Abel Rocha, no Theatro São Pedro de São Paulo. Valeu ao autor o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Mais recentemente, em novembro de 2013, estreou a terceira ópera de Ronaldo Miranda, “O Menino e a Liberdade“, com libreto de Jorge Coli e, baseado em conto do poeta Paulo Bonfim. Mas isto já é tema para outro post.

Obrigada, meu amigo, por existires e por povoares de sons benfazejos nossa alma carente…

Feliz Aniversário, meu grande amigo Ronaldo Miranda!

Mais informações: www.ronaldomiranda.com

Autor: Catherine Beltrão

Os sons do silêncio e as cores da escuridão

O que acontece na cabeça e no coração de um compositor surdo e de um pintor cego quando criam uma obra? Esta questão sempre me intrigou.

Como Beethoven pode compor a maioria de suas obras colossais, estando desprovido quase totalmente da audição? Das sonatas às sinfonias, passando pelos  trios, quartetos e concertos, tudo em Beethoven é grandioso, é eloquente.

Beethoven

Beethoven

Ludwig van Beethoven (1770-1827), compositor alemão, é considerado um dos pilares da música ocidental e permanece até hoje como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos.

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Claudio Arrau tocando a sonata “Appassionata”, de Beethoven. Duração: 26:09

O diagnóstico de início da surdez veio aos 26 anos de idade, em 1796. Consultou vários médicos, inclusive o médico da corte de Viena. Fez curativos, usou cornetas acústicas, realizou balneoterapia, mudou de ares, mas nada adiantou. Desesperado, entrou em profunda crise depressiva e pensou em suicidar-se. Aos 46 anos de idade (1816), estava praticamente surdo.

A Sonata n•23, em fá menor, opus 57, mais conhecida como “Appassionata” foi composta entre 1804 e 1806, quando Beethoven já se encontrava em estado adiantado de surdez. Como ele conseguia ouvir sua criação? Para se deleitar com a íntegra desta obra fabulosa, tocada pelo não menos fabuloso pianista Cláudio Arrau, clique aqui.

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Orquestra Filarmônica de Viena interpretando a Sinfonia No 9 in ré menor Op 125, de Beethoven. Duração: 1:20:09

E para quem quiser ouvir uma das mais conhecidas obras do repertório ocidental, considerada tanto ícone quanto predecessora da música romântica, clique aqui para ter acesso à Nona Sinfonia, em ré menor, opus 125 – a “Coral” – composta entre 1818 e 1824. No vídeo, a obra é interpretada pela Orquestra Filarmônica de Viena, regida pelo maestro Christian Thielemann. E dizer que esta obra transcendental foi composta quando Beethoven já se encontrava praticamente surdo…

Mas este post fala de sons produzidos no silêncio e de cores na escuridão. Como um pintor desprovido de visão consegue pintar?

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John Brambitt. Autorretrato.

As cores criadas na escuridão são de John Bramblitt. Nascido em 1971, Bramblitt é um pintor cego de origem americana. Ele começou a perder a visão aos onze anos e há treze anos, ficou completamente cego, após uma série de crises graves de epilepsia. A depressão também bateu à porta mas Bramblitt descobriu-se artista e começou a desenvolver uma técnica especial para pintar.

São suas as palavras: “Basically what I do is replace everything that the eyes would do for a sighted artist with the sense of touch,”  ele escreveu em seus site. (“Basicamente o que eu faço é substituir através do tato tudo o que os olhos fazem pelo artista que enxerga“).

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Vídeo que mostra como John Bramblitt cria suas obras. Duração: 4:57

Ele também tem uma solução interessante para as cores. “All of the bottles and paint tubes in my studio are Brailled, and when mixing colors I use recipes. In other words I will measure out different portions of each color that I need to produce the right hue. This is no different than using a recipe to bake a cake.“ Ou seja, os recipientes que ele usa são escritos em Braïlle e quando mistura as tintas, ele usa receitas. Assim, ele mede as porções diferentes de cada cor para produzir os tons que vai utilizar.

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Vídeo apresentando obras multicoloridas de John Bramblitt. Duração: 1:04

Ser artista é transcender. Sua necessidade de expressar, de transmitir, de doar seus pedaços não se limita aos meios que os não artistas dispõem, que são tão somente os cinco sentidos. Muito além da visão e da audição, os artistas trafegam seus sentimentos e suas almas por outras vias, só conhecidas por eles, os artistas.

Autor: Catherine Beltrão

 

E pra não dizer que não falei das flores

Resolvi comemorar o primeiro aniversário do blog ArtenaRede falando de flores. Tendo escolhido o tema, é natural que apresentasse neste post obras do mestre Monet, com as flores do seu grandioso Jardim de Giverny, ou com os vigorosos girassóis de van Gogh, ou ainda com as maravilhosas composições florais de Guignard.

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Lírios

Mas não escolhi essa vertente. Resolvi, desta vez, apresentar fotos. E também não serão apresentadas imagens de grandes e renomados fotógrafos. Neste post, as fotos são  minhas, tiradas no Jardim dos Poetas, com exceção de uma, tirada na praça Getúlio Vargas, em Nova Friburgo.  Estas imagens irão tão somente emoldurar a letra antológica da música “Pra não dizer que não falei das flores“, também conhecida como “Caminhando” (ou será o contrário?), de Geraldo Vandré (1935).

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Gérberas

Em 1968, a música participou do III Festival Internacional da Canção da TV Globo, ficando em segundo lugar, sob as vaias ensurdecedoras do público perante o primeiro lugar dado à belíssima “Sabiá“, de Tom Jobim e Chico Buarque.  “Pra não dizer que não falei das flores” teve sua execução proibida durante anos, após tornar-se um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar brasileira.

Em 1968, eu cursava o meu primeiro ano de Engenharia na PUC/RJ. Abençoada mais uma vez, eu estava na plateia de um auditório lotado de jovens que, como eu, tinham ido ver o Vandré e ouvir a canção.

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Flor de cerejeira

Pra nao dizer_CB7Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não
 Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Pelos campos há fome
 Em grandes plantações
 Pelas ruas marchando
 Indecisos cordões
 Ainda fazem da flor
 Seu mais forte refrão
 E acreditam nas flores
 Vencendo o canhão

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Amarilis

 Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

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Flor de cactus

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Buganvile

Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Somos todos soldados
 Armados ou não
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não

Os amores na mente
 As flores no chão
 A certeza na frente
 A história na mão
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Aprendendo e ensinando
 Uma nova lição

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Para quem quiser ouvir a canção, na voz do próprio Geraldo Vandré, clique aqui. Trata-se de um vídeo-montagem, com fotos da época e áudio extraído do III Festival Internacional da Canção, em 1968.

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Ninfeia

Alguns anos se passaram desde 1968. Na verdade, quase meio século! Os anos 60 eram os anos de “paz e amor”. A juventude acreditava na força das flores para combaterem as armas da ditadura. Que era importante caminhar e cantar, junto ou sozinho, para fazer a hora. Que era preciso, sobretudo, jamais esperar.

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Últimas flores do monumental eucalipto tombado na praça Getúlio Vargas, em 28.01.2015. Autor: Marcelo Brantes.

Passado esse tempo, em que podem estar acreditando os jovens de hoje? Será que acreditam em alguma coisa? Com certeza, as flores murcharam. Com certeza, as lágrimas foram rareando até as águas dos rios secarem. E, com certeza, as árvores também continuam tombando, dia após dia.

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Passeata dos Cem Mil, com Tonia Carrero, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker

Este post é uma homenagem à Odete Lara, falecida hoje, 04.02.2015. Acima, a artista junto a Tonia Carrero, Eva Vilma, Norma Benguell e Cacilda Becker, na Passeata dos Cem Mil, um dos mais importantes protestos contra a ditadura militar, em junho de 1968, nas ruas do centro do Rio de Janeiro.

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Autor: Catherine Beltrão

Como não amar Michel Legrand?

LegrandMichel Legrand nasceu em Paris no ano de 1932. Compositor, arranjador, maestro e pianista, ele é a personificação da Música. Senão, vejamos o que ele diz de si próprio: “Desde minha infância, minha ambição é de viver completamente dentro da música. Meu sonho é que nada me escape. Esta é a razão pela qual eu nunca estacionei em uma só disciplina musical. Eu gosto de tocar, reger, cantar, compor e isto em todos os estilos. Esfomeado de curiosidade, faço, então, tudo… e não um pouco de tudo. Ao contrário, eu enfrento estas atividades profundamente, gravemente e seriamente. Sua diversidade me preserva da uniformidade.”

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“Mon amour, je t’attendrai toute ma vie”. Vídeo

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“Finale”. Vídeo

Meu primeiro contato com a música de Michel Legrand foi nos anos 60, os meus ‘anos dourados’. Anos em que minha adolescência fluía através da música e esta fazia dueto com minhas ilusões. Em 1967, fui ver “Les parapluies de Cherbourg” – 1964 (“Os guarda-chuvas do amor“), no cinema Paissandu. Afinal, eu fazia parte da Geração Paissandu… O amor foi fulminante. E me trespassou para sempre. Hoje, quando revejo algumas cenas do filme, da linda história de Geneviève e Gui, as lágrimas me percorrem toda, da alma ao corpo. A música tema – “Mon amour, je t’attendrai toute ma vie” é um hino.

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“Les soeurs jumelles”, em “Les demoiselles de Rochefort”. Vídeo

Os “Parapluies” foi dirigido por Jacques Demy e estrelado por Catherine Deneuve, com quem Michel Legrand trabalhou em mais dois filmes: “Les demoiselles de Rochefort” – 1967 (“Duas garotas românticas“) e “Peau d’Âne” – 1970 (“Pele de asno“).

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“Amour, amour”, em “Peau d’Âne”. Vídeo

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“Recette pour un cake d’amour “, em “Peau d’Âne”. Video

Extraído da fábula homônima de Charles Perrault (1628-1703), Demy  fez de “Peau d’Âne” um filme-poesia, em que a trilha sonora de Michel Legrand se encaixou de forma plena e inebriante. É um filme a ser assistido inúmeras vezes durante a vida, um tesouro a ser desvendado a cada nota ouvida, a cada cena revista. 

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Capa do disco do filme “Um été 42″, com versão original da música tema. Vídeo/aúdio

Em 1971, Legrand fez a trilha sonora de duas obras primas: ” Un été 42” (“Verão 42“), de Robert Mulligan, em que ganhou o Oscar de melhor banda sonora e “The Go Between” (“O mensageiro“), de Joseph Losey.

A música tema de ” Un été 42” é considerada por muitas pessoas como a mais bela música de tema de filme de todos dos tempos. Assista aqui algumas imagens do filme…

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Abertura de “The Go Between”. Vídeo

É no filme “The Go Between” uma das frases mais significativas que já pude ler em minha vida: “O passado é um país distante; lá as pessoas se comportam de maneira diferente.” O filme recebeu a palma de ouro no festival de Cannes de 1971.

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“A piece of Sky”, cantada por Barbra Streisand. Vídeo

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“Papa, can you hear me”, cantada por Barbra Streisand. Vídeo

Nos anos 80, Michel Legrand ganhou mais um Oscar. Desta vez, foi pela trilha sonora do filme “Yentl“, dirigido e interpretado por Barbra Streisand. A história é fascinante – menina judia que finge ser homem para ter direito a estudar – e se entrelaça a melodias sublimes, cantadas pela magnífica Barbra Streisand. Nirvana total!

Este post fala de um dos Michel Legrand, o de compositor de trilhas sonoras de filmes. É a faceta que mais conheço. Um dia talvez eu também escreva sobre o Legrand jazzístico, amigo e parceiro de Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans, Stan Getz, Ella Fitzgerald…

Autor: Catherine Beltrão