Arquivo da categoria: Museus

As cinzas do Museu Nacional

Vik_Museu

Museu Nacional em chamas, na noite de 02/09/2018

Na noite do dia 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ardia em chamas.  O fogo destruiu quase a totalidade do acervo histórico e científico construído ao longo de duzentos anos, com cerca de vinte milhões de itens catalogados.

O que se faz após uma tragédia desta magnitude? Cabe a cada um de nós refletir, planejar e agir. Foi o que Vik Muniz fez. Vik Muniz, brasileiro, um dos maiores nomes da arte contemporânea  mundial, que trabalha com materiais inusitados, como lixo, restos de demolição e componentes como açúcar, chocolate, café e … cinzas.

Vik1

“Museu Nacional”, de Vik Muniz, feito com suas cinzas.

Desta vez, o artista utilizou cinzas do Museu Nacional para produzir algumas obras que estão atualmente em exposição em uma Galeria de Nova York. Trabalhando com cinzas dos milhões de itens destruídos no incêndio, Vik reproduziu alguns deles: a Luzia, um dinossauro, sarcófagos, múmias, borboletas, vasos…

Vik2

O dinossauro Maxakalisaurus topai, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Este trabalho mostra o esqueleto reconstituído do dinossauro   Maxakalisaurus topai , uma das maiores atrações que o Museu Nacional apresentava…

Vik3

Um dos crânios de Luzia, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, achado em 1974, também fazia parte do acervo do Museu. Magnífico trabalho de Vik Muniz!

Vik6

O sarcófago de Sha-Amun-en-su, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

O artista também reproduziu o sarcófago de Sha-Amun-en-su. Ele, com sua múmia e todos os artefatos votivos conservados em seu interior, também se transformaram em cinzas no incêndio.

Palavras de Vik Muniz, acerca da exposição: “Nós já vivemos com um crescente deficit de realidade. Então, ver a História em chamas naquele momento, me fez sentir sem chão, preso a um presente infinito. Só é possível ser criativo num mundo de fatos e realidades tangíveis.”

Quando nos deparamos com as cinzas do passado, precisamos transformá-las no caminho do presente em direção ao futuro.

Fonte: matéria da GloboNews. Clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Oito ícones, seis museus

Mesmo quem não sabe quase nada de artes plásticas, já ouviu falar de “Mona Lisa“, certo? E, com quase  toda certeza, de “A Noite Estrelada” e, talvez, até de “O Grito“…

Icones_Monalisa

“Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci

E quem teria pintado estas obras? Essa também é fácil! Leonardo da Vinci, Vincent van Gogh e Edward Munch…

Mas e se a pergunta fosse: Onde estão situadas estas obras? Aí, a coisa complica, não é?

Bem, o post de hoje fala destes e de outros ícones da pintura e dos museus que as abrigam. Vamos lá:

A “Mona Lisa“, obra pintada por Leonardo da Vinci entre 1503 e 1506, encontra-se no Museu do Louvre, na França, desde 1797.

Icones_Louvre

Museu do Louvre, em Paris

O Museu do Louvre, é o maior museu de arte do mundo e fica situado em Paris, França. Ele possui aproximadamente 380.000 itens, da pré-história ao século XXI, que são exibidos em uma área de 72.735 metros quadrados. Inaugurado em 1793, é o museu mais visitado do mundo.

Icones_Noite estrelada

“A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh

E “A Noite Estrelada“, onde fica?

A Noite Estrelada“, obra de Vincent van Gogh, pintada em 1889,  faz parte da coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, desde 1941.

Icones_Les_Demoiselles_dAvignon

“Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso

Mas neste museu também se encontram dois outros ícones da pintura, “Les Demoiselles d’Avignon” e “A Persistência da Memória“.

Icones_Persistencia da Memoria

“A Persistência da Memória”, de Salvador Dali

Les Demoiselles d’Avignon” é uma obra de Pablo Picasso, feito em 1907. Levou nove meses para ser feita, e sua importância se deve ao fato de ser uma das obras responsáveis por revolucionar a história da arte, formando a base para o cubismo e a pintura abstrata.

Quanto ao ícone “A Persistência da Memória“, esta obra foi pintada por  Salvador Dalí, em 1931. A pintura está localizada no MoMA desde 1934. Para quem tiver interesse, vale a pena pesquisar um pouco sobre os significados dos vários símbolos presentes na tela: relógios derretidos, formigas, caricatura do pintor…

Icones_MoMA

MoMA, em Nova Iorque

O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, mais conhecido como MoMA, foi fundado no ano de 1929 como uma instituição educacional. Atualmente é um dos mais famosos e importantes museus de arte moderna do mundo.  Possui mais de 150.000 pinturas, esculturas, desenhos, maquetes, imagens, fotografias e peças de design. E também contém uma livraria e arquivo com cerca de 305.000 livros e ficheiros de mais de 70.000 artistas.

Icones_Brinco de Perola

“A Moça do Brinco de Pérola”, de Johannes Vermeer

E essa? Quem não conhece?

Também conhecida como “A Mona Lisa do Norte” ou “A Mona Lisa Holandesa“,  “A Moça com o Brinco de Pérola“  é uma pintura do artista holandês Johannes Vermeer, feita em 1665. A pintura está no Museu Mauritshuis, desde 1902.

Icones_Mauritshuis

Museu Mauritshuis, em Haia

O Museu Mauritshuis ( ou Casa de Maurício) é um rico museu de Haia, um dos mais importantes da Holanda. Seu nome se deve ao fato de ter sido construída por ordem de João Maurício de Nassau, que foi governador do Brasil holandês no século XVII, e hoje é a sede da Real Galeria de Pinturas de Maurishuits. Possui um importante acervo de arte, com mais de 800 obras, incluindo obras de Rembrandt e Rubens.

Icones_As meninas

“As Meninas”, de Diego Velázquez

Um outro ícone importante da pintura mundial é a obra “As Meninas“, de Diego Velázquez.  Pintada em 1656, esta obra foi intensamente analisada e reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. Ela está atualmente no Museu do Prado em Madrid.

Icones_Prado

Museu do Prado, em Madri

O Museu do Prado, localizado em Madri, é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo. Inaugurado em 1819, sua coleção é baseada principalmente em pinturas dos séculos XVI a XIX. Entre seus quadros, conta com obras-primas de pintores como Velázquez, El Greco, Rubens, Bosch e Goya.

Klimt_OBeijo

“O beijo”, de Gustav Klimt

Essa aqui é fácil!

O quadro “O beijo“, de Gustav Klimt, pintado entre 1907 e 1908, é uma das obras mais reproduzidas da arte mundial. Pertence à chamada “fase dourada” do artista, que utilizou folhas de ouro na composição dos trabalhos nesta fase. O quadro está exposto em Viena, na Galeria Belvedere da Áustria.

Icones_Belvedere

Galeria Belvedere da Áustria, em Viena

Veja que beleza de palácio!

A Galeria Belvedere da Áustria é um museu situado no Palácio Belvedere, em Viena, Áustria. Inaugurado em 1905, sua coleção inclui obras-primas da arte, desde a Idade Média e o Barroco até o século XXI. O acervo inclui obras de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka.

Icones_O Grito

“O Grito”, de Edward Munch

Esse ícone é barbada! Mas talvez você não saiba que “O Grito” não se resume a uma só obra: é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, pintada em 1893.  Dois dos quadros da série, “A Ansiedade” e “O Desespero“, se encontram no Museu Munch, em Oslo, outra na Galeria Nacional de Oslo e outra em coleção particular.

Icones_Munch

Museu Munch, em Oslo

O Museu Munch é um museu de arte situado em Oslo, albergando mais da metade das obras de Edvard Munch, deixadas em testamento à comuna de Oslo em 1940. O museu foi inaugurado em 1963, cem anos após o nascimento do pintor.

Oito ícones. Seis museus. Que tal um roteiro artístico percorrendo estes museus? Mais alguém se habilita?

Autor: Catherine Beltrão

Museu Nacional e Notre-Dame de Paris: partes de uma alma triste

Na Semana dos Museus, resolvi ficar triste.

Não foi uma decisão difícil. Foi só lembrar de duas tragédias. Imensas. Ocorridas em algumas horas de dois dias específicos. Pois as outras, não tão devastadoras, acontecem todos os dias. Todas as horas.

Localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, o  Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do país e uma das mais importantes do mundo. Fundado pelo rei Dom João VI em 1818, seu primeiro acervo surgiu a partir de doações da Família Imperial e de colecionares particulares.

Museunacional

Museu Nacional, antes do incêndio de 02.09.2018

Mais de 20 milhões de itens catalogados, contando com uma das mais completas coleções de fósseis de dinossauros do mundo, múmias andinas e egípcias e artefatos importantes da arqueologia brasileira.

museunacional_incendio2

Museu Nacional, durante o incêndio de 02.09.2018

A réplica do Maxakalisaurs topai, o maior dinossauro já montado no país, um animal herbívoro com cerca de 13 metros de comprimento e 9 toneladas;

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos, a “brasileira” mais antiga do nosso território. Luzia, nome dado ao fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos. Sua descoberta é um marco da ciência e ajuda a remontar a história da humanidade. Luzia também representava a “brasileira” mais antiga do nosso território;

a maior coleção egípcia da América Latina;

700 ítens de uma coleção de etnologia africana e afro-brasileira, uma das maiores do mundo;

o Herbário, com um acervo botânico de 550 mil espécimes de todos os biomas brasileiros.

2 de setembro de 2018. 19h30. Domingo. Em poucas horas, 90% deste acervo foi transformado em cinzas.

Museunacional_depoisdoincendio

Museu Nacional, depois do incêndio de 02.09.2018

Marco da civilização ocidental, a Catedral de Notre Dame de Paris tem 850 anos de história: palco da coroação de Napoleão Bonaparte e da beatificação de Joana d’Arc, foi saqueada durante a Revolução Francesa e  na Segunda Guerra Mundial, seus sinos anunciaram a libertação de Paris do jugo nazista, em abril de 1944.

Notredame

Catedral de Notre-Dame de Paris, antes do incêndio de 15.04.2019

De arquitetura gótica, a catedral começou a ser construída em 1163 e finalizada em 1345. É uma das mais antigas catedrais góticas do mundo, visitada por cerca de 13 milhões de pessoas por ano.

FRANCE-FIRE-NOTRE DAME

Catedral de Notre-Dame de Paris, durante o incêndio de 15.04.2019

São muitos os atrativos da catedral: o telhado, conhecido como la fôret (a floresta), formado por  toneladas de troncos de carvalho usados para construí-lo (1.300 carvalhos ao todo), onde cada viga pertence a uma árvore diferente;

a escada de uma das torres, com seus 420 degraus, que leva à Galeria das Gárgulas (ou Quimeras), à “flecha” e aos campanários, com os nove sinos da Catedral;

os vitrais, com três belíssimas rosáceas;

os tesouros, com obras de arte e relíquias religiosas como um pedaço da cruz da crucificação de Jesus.

15 de abril de 2019. 18h50. Segunda-feira. Em poucas horas, o telhado e a “flecha” foram consumidos pelo fogo.

Notredame_depoisdoincendio2

Catedral de Notre-Dame de Paris, depois do incêndio de 15.04.2019

É de Victor Hugo, o célebre escritor francês, autor de “O Corcunda de Notre-Dame“, a frase: “Na face dessa velha rainha das nossas catedrais, ao lado de uma ruga, encontra-se sempre uma cicatriz”.

Entre dezenas, centenas de tragédias, talvez essas tenham sido as que mais atingiram minha alma. E a alma de parte da humanidade.

Autor: Catherine Beltrão

Museu da Humanidade, o passado que sensibiliza

Em 2009, conheci um museu: o Museu da Humanidade. A impressão que tive na época me marca até hoje: um castelo fantástico, em estilo oriental, com milhares de artefatos antigos, muito bem organizados em inúmeras salas e aposentos formando um labirinto de mistérios a desvendar. E tudo aquilo que via tinha sido idealizado por um só homem: Claudio Prado de Mello.

IPHARJ1

O Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro – IPHARJ – foi criado em 1990 e em 2002, nascia o Museu da Humanidade, uma instituição privada ligada ao Instituto, onde são guardados mais de 90 mil itens arqueológicos, entre estátuas, vidros, joias, armas, tecidos, roupas, objetos em metais, madeira e pedra, entre muitos outros, do Brasil e do mundo. Peças que vão dos primórdios da História até o século XIX. Na biblioteca, mais de 40 mil títulos.

IPHARJ11

Claudio Prado de Mello com uma turma de crianças, em uma oficina de escavação

IPHARJ2O museu é uma criação do arqueólogo Claudio Prado de Mello, que também preside o IPHARJ. A construção não conseguiu patrocínio até hoje e os recursos são advindos das contribuições dos fundadores do instituto.

Com uma área total de 2.500 metros quadrados, o Museu da Humanidade é um castelo construído em estilo Islâmico (Mamalik) e possui quatro andares distribuídos em 14 metros de altura. O andar subterrâneo ainda está em implantação, onde está sendo montada uma galeria de arqueologia funerária.  A ideia é recriar um setor subterrâneo da forma que só conseguimos ver na velha Europa e no Mundo Oriental, trazendo para o público brasileiro a oportunidade de visitar tumbas egípcias,  pré-colombianas, romanas e inusitadamente a recriação de uma tumba de Palmira que foi implodida pelo Estado Islâmico em 2015. A propósito, cripta é sempre o lugar mais introspectivo e misterioso de um monumento, como acontece com as criptas da Catedral de Notre Dame e do imponente Panteão, ambas localizadas em Paris. Para quem conhece, sabe de que estou falando…

IPHARJ3

No térreo, funciona a pleno vapor uma área de eventos e pesquisa, além de uma sala de exposições. Atualmente, há uma síntese do que é o museu, com peças como estátuas de calcário medievais, mármores romanos, itens de madeira asiática, instrumentos de tortura da época da escravidão e cerâmicas egípcia e grega.

IPHARJ6IPHARJ10O segundo andar, também ainda sendo implantado, tem 23 salas, cada uma com o objetivo de mostrar uma época da sociedade humana e ainda antes, desde a formação do planeta Terra até o século XIX, passando por Pré-História, Egito, Grécia, Roma, Bizâncio e mundo islâmico.

No terceiro e último andar, o museu reúne uma área de pesquisa, com dois laboratórios — um de lavagem e higienização das peças, outro de análise —, para averiguar os itens que são encontrados em escavações pelo país. Também nessa área, existe um jardim suspenso e quatro salas de reserva técnica, onde são depositados os materiais já analisados.

IPHARJ9

As peças do museu vindas de fora do país são dos cinco continentes e foram compradas em leilões. Já as do Brasil foram adquiridas em escavações realizadas pelo IPHARJ. Elas pertencem à União, e nós ganhamos, em julho deste ano, o reconhecimento do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), ou seja, nos tornamos reserva oficial do Estado brasileiro. Para conseguirmos isso, seguimos uma série de determinações oficiais”, disse Claudio Prado em 2014.

IPHARJ7IPHARJ8

 

O Museu da Humanidade também dispõe de um bistrô – o Corniche – que disponibiliza algumas das mais finas iguarias de quatro continentes.

 

Mais informações:

Endereço: Av. Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, 443 B 1, Anchieta
Rio de Janeiro, RJ
www.ipharj.com.br
Face: https://www.facebook.com/Museu-da-Humanidade-Ipharj-1681895928797221/
e-mail: pradodemello@hotmail.com

Autor: Catherine Beltrão

Vik Muniz: reflexos e versos

vikmuniz2

Vik Muniz. “Autorretrato”, feito com folhas, galhos, terra e sementes.

Vik Muniz (1961) é artista plástico, brasileiro, nascido em São Paulo e radicado em Nova York. A partir de 1988, começou a desenvolver trabalhos que faziam uso da percepção e representação de imagens a partir de materiais como o açúcar, chocolate, catchup e outros como o gel para cabelo, diamantes e lixo.

Vik define sua trajetória de artista da seguinte forma: “Meu sonho é mudar a forma elitista com a qual a arte é encarada. Não acredito na separação entre o popular e o inteligente, como se fossem coisas antagônicas.”

Ainda no século passado, Vik Muniz fez trabalhos inusitados, como a cópia da “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, usando manteiga de amendoim e geleia de uva, como matéria prima. Suas releituras de obras famosas  são inúmeras. Entre elas, “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam e “A Noite Estrelada“, de Vincent van Gogh, confeccionada com pedaços de papel colados.

vic_monalisa

“Mona Lisas”, de Vik Muniz, a partir da obra de Da Vinci. Feitas com geleia de uva e com pasta de amendoim.

Um projeto inédito desenvolvido pelo artista e apresentado em diversos museus e galerias pelo mundo, inclusive no Brasil, é o intitulado “Versos“.

Vik_davinci_verso

Verso da obra “Mona Lisa”, de Da Vinci, por Vik Muniz

DaVinci_Monalisa

“Mona Lisa”, de Da Vinci. 1503-1506

Vik Muniz começou fotografando os versos de pinturas famosas em 2002. Em seu livro “Reflexo” (2005), já manifestava o desejo de fazer impressões de tamanho natural dessas fotografias e exibi-las. As primeiras delas, meticulosas cópias em 3D dos lados reversos, foram feitas em 2008. Ele as intitulou “Versos“, imitações perfeitas do lado dos quadros que normalmente fica voltado para a parede.

Para Muniz, o verso de cada pintura é único: os furos, os suportes de metal, as etiquetas e todas as outras marcas, contando a sua história.

 

vik_vangogh

“A Noite Estrelada”, de Vik Muniz, a partir da obra de Van Gogh. Feita com colagem de pedaços de papel.

À medida que os anos passam, o verso de uma pintura se modifica. Novos donos deixam sua marca.

vik_vangogh_verso

Verso da obra “A noite estrelada”, de Van Gogh, por Vik Muniz.

VanGogh_StarryNight

“A noite estrelada”, de Van Gogh. 1889.

 Os processos mais recentes deixam uma marca. O verso revela os materiais dos quais a pintura é feita – tela, painéis – e mostra detalhes da tela e qualquer outra medida de segurança tomada enquanto estava em exposição. Seria como poder ver a intimidade de uma obra-prima, algo que deveria permanecer secreto mas que enfim se revela – como um segredo que não deveria ser mostrado, cicatrizes expostas, uma certa verdade de obras tão conhecidas quanto inacessíveis.

Vik_picasso

“Les demoiselles d’Avignon”, de Vik Muniz, a partir da obra de Picasso. Feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam.

Para recriar os versos das obras, Vik Muniz percorreu seis anos trabalhando com pesquisadores, curadores, artesãos, técnicos e até falsificadores, para executarem cada detalhe, como molduras, arranhões, manchas, etiquetas e ferragens.

Vik_picasso_verso

Verso da obra “Les demoiselles d’Avignon”, de Picasso, por Vik Muniz

Picasso_Demoiselles

“Les demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso. 1907.

Assim, o espectador recria em sua cabeça a imagem icônica de cada obra, e a encaixa sobre o verso a sua frente, para que obras tão célebres ganhem enfim uma dimensão nova e, até então, desconhecida.

Em 2008, Muniz organizou sua primeira exposição de “Verso“, na galeria Sikkema, Jenkins & Co., em Nova Iorque. Na ocasião, ele apresentou o lado reverso de obras-primas como “Les Demoiselles d’Avignon“, de Picasso (MoMA, Nova Iorque) e “A Noite estrelada“, de Van Gogh (MoMA), entre outras. Outros “Versos“ foram mostrados em outras exposições, como “A Mona Lisa“, de Da Vinci (Louvre, Paris).

Reflexos e versos. Reflexo pode ser de espelho. Ou de reação. Verso pode ser de poesia. Ou o lado de trás. Vik Muniz, por ser artista, é o espelho, a reação, a poesia e o lado de trás.

 Autor: Catherine Beltrão

As mulheres do Museu e do Vinicius

No Dia Internacional da Mulher é mais do que óbvio falar de mulheres. E hoje as mulheres são do Museu e do Vinicius. Do Museu ArtenaRede e do Vinicius de Moraes.

EdithBlin

“Negra com lençol azul”, de Edith Blin – 1943, ost, 65 X 50cm

“São demais os perigos desta vida” (ou “Soneto do Corifeu”)

GlauciaScherer

“Paixão I”, de Glaucia Scherer – 2002 – ast – 64 X 53cm

lenagal2

“Retração”, de Lena Gal – 2015, aquarela, 70 X 50cm

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

LuizaCaetano_baixa

-“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, de Luiza Caetano – 2000, ost, 70 X 90cm

“A Mulher que Passa”

guaraldi

“Deleite”, de Sônia Guaraldi – 1997, ost, 38 X 68cm

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

karlla_pio1

“Grávida”, de Karlla Pio – 1999, escultura em resina, 65 X 18 X 32cm

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

Lenagal_baixa

“Dor silenciosa”, de Lena Gal – 2002, ast, 54 X 65cm

“Minha namorada”

TaniaLeal_baixa

“Felicidade”, de Tânia Leal – 2003, ast, 72 X 55cm

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

CatiaGarcia

“Intimidade”, de Catia Garcia – 2001, act, 100 X 150cm

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois…

Nos anos 60, o poema “Minha Namorada“, que depois recebeu música do Carlos Lyra, foi meu hino ao amor de adolescente. Mais tarde, “Os perigos desta vida” resgatava meus anos de “música, luar e sentimento”. Hoje, quem dera ser “A mulher que passa“…

As imagens das obras são de mulheres que representam mulheres. Fazem parte do futuro Museu ArtenaRede.

Autor: Catherine Beltrão

Retratos do Apocalipse: uma doação de peso

Desde 2002, o Museu ArtenaRede tem recebido doações de obras de artistas para a construção de seu acervo. Cada doação tem uma história particular. Algumas são fantásticas.

Theta

Théta C. Miguez

Retratos do Apocalipse” é uma série de 27 obras da artista Théta C. Miguez – Maria Teresa Carletti Miguez -,  doadas ao Museu ArtenaRede no período de julho de 2004 a janeiro de 2005.  Nascida em 1949, em Igarapava/SP e falecida em 2005, Théta apresentou suas obras em diversos países, como Espanha, Argentina, Itália e França, tendo recebido numerosos prêmios e medalhas.  Eclética, além de artista plástica, atuou na Psicologia Clínica, na Literatura, na Música e na Poesia.

Em janeiro de 2003, a artista já havia doado ao Museu a magnífica obra “Eterno campeão“, retratando Ayrton Senna. Sem conhecê-la pessoalmente, aos poucos fomos desenvolvendo uma amizade sólida, baseada em admiração mútua e confiança recíproca. A tal ponto chegou esta confiança que Théta resolveu doar também a série completa “Retratos do Apocalipse“, criada em 2002. Após percorrer um trajeto itinerante em São Paulo – Santos, em 2002 e Itanhaém em 2003, entre outras cidades -, as obras começaram a chegar em julho de 2004. Já bastante doente, Théta me confidenciou que sua arte e sua mensagem teriam continuidade, após sua morte, fazendo parte do Museu ArtenaRede. Uma responsabilidade e tanto para o Museu!

Theta_Holocausto

“Holocausto”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 50 X 70cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Assim descreveu a série “Retratos do Apocalipse“, sua criadora a artista Théta C. Miguez:

Theta_adordamulherafga1

“A dor da mulher afgã”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 70 X 50cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Theta_Ochorodameninavietnamita

“O choro da menina vietnamita”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 70 X 50cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

A escolha do tema “Retratos do Apocalipse” se dá em face do desejo de retratar a situação das profundas transformações que estão ocorrendo em nosso mundo, em pleno apogeu da era tecnológica e dos expressivos avanços dos meios de comunicação.

Como o apocalipse representa previsões, no que tange o fim da humanidade, expresso através desse projeto, que a mesma não está em vias de acabar, como alude tais previsões místicas, mas que de certa forma, vem falindo nos seus propósitos sociais, humanitários e existenciais.

Guerra se faz com armas, o Bom Combate se faz com a mente. Na condição de artista plástica, continuarei a guerrear através dos pincéis, registrando em minhas obras, palavras e sentimentos, como ponto de partida para a Paz.”

Theta_Bombanuclear

“Bomba nuclear”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 50 X 70cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Em janeiro de 2003, Théta C. Miguez concedeu uma entrevista ao site ArtenaRede. Abaixo, sua resposta a uma das perguntas. Para quem quiser ler toda a entrevista, clique aqui.

AR: Quando você pinta, que objetivo você quer atingir?
TCM: Na essência, não  diria objetivo, pois na maioria das vezes, me entrego espontaneamente à pintura, projetando na tela sentimentos e emoções, com a finalidade de lhes dar vida. É  como se  fosse um período gestacional, onde a  gestante fica  ansiosa por ver  a concretização do seu   ato de amor. Quando a pintura está relacionada a um projeto temático, aí o objetivo passa a ser direcionado mais ao tema exigido. É como no caso da minha última exposição individual “Retratos do Apocalipse”, onde liberei nas obras meus sentimentos e emoções perante os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, mas o objetivo do projeto tinha propósitos sociais.

Theta_Fome

“Fome”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 70 X 50cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Em outubro de 2003, o crítico de arte Emmanuel Von Lauestein Massarini escreveu sobre a artista:

Theta_Velhice

“Velhice”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 70 X 50cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Théta C. Miguez é uma artista impulsionada por um sentimento de amor para com o mundo. Um sentimento forte e puro, de natureza quase religiosa. Por isso pinta: para falar a si mesma e também aos outros. Gosta de participar com eles do que sente de sua severa, mas feliz, interpretação da vida. E isso da maneira mais clara e direta: através das imagens.

Tudo o que a cerca – a grande árvore, os recantos históricos, a problemática de nossos indígenas – são coisas que possuem uma beleza repleta de fantasia e de mistério, com suas luzes e sombras, e constituem fragmentos do grande e maravilhoso desenho da criação.

Théta C. Miguez encontra tudo de que necessita para se exprimir próximo de sua sensibilidade. Não tem necessidade de procurar longe o que tem perto, do seu lado, a cada momento.

Suas figuras, delineadas pela textura do desenho e da cor, com respiração metafísica, parecem decantadas do peso da realidade para ressurgir numa mensagem de um mundo perdido e poeticamente reencontrado, no aguardo de múltiplas esperanças.

Entretanto, quando a visão se faz etérea, impalpável e transparente, a artista se realiza integralmente na sua dimensão humana e artística, porque pinta os seus sonhos com a universal linguagem da arte, na qual a cor se sintoniza em lírica vibração com a poesia”.

Theta_Consumodedrogas

“Consumo de drogas”, de Théta C. Miguez. 2002, técnica mista, 50 X 70cm. Série “Retratos do Apocalipse”.

Guerra. Fome. Drogas. Prostituição. Velhice marginalizada. Tortura. Alcoolismo. Terrorismo. Violência urbana.  Retratos do Apocalipse. Preto no branco. Branco no preto.  O 11 de setembro de 2001 foi o estopim para Théta criar esta fantástica série. Que há dez anos pertence ao Museu ArtenaRede. Onde você estiver, Théta, muito obrigada!

 Autor: Catherine Beltrão