Arquivo da categoria: Mosaico

Mosaicos brasileiros

Até chegar ao Brasil, a arte do mosaico passeou pela antiguidade greco-romana, bizantina, portuguesa… Nos tempos modernos, com certeza quando se fala em mosaico o nome que se vem à mente é Antoni Gaudi, o arquiteto e artista catalão que deixou sua genialidade florescer em prédios e parques da cidade de Barcelona.

BurleMarxp

“As ondas” do calçadão de Copacabana. Burle Marx.

No Brasil, grandes artistas plásticos também utilizaram a técnica das tesselas para expressar sua arte. Grande parte deles, em seus últimos anos de vida. Como se fosse o último degrau de suas trajetórias…

BurleMarx_NY

Painel abstrato em jardim de Nova York. Burle Narx. 1991.

Burle Marx talvez seja o mais conhecido mosaicista brasileiro. É dele a criação do logotipo internacional do calçadão de Copacabana.
O paisagista refez os desenhos originais dos calceteiros portugueses, realçou sua sensualidade na medida da ampliação do calçamento e manteve o paralelismo com as ondas do mar, que fora implantado na reforma de 1929 pelos calceteiros já habilitados no Brasil.  No canteiro central da Avenida Atlântica e no piso junto aos edifícios, Burle Marx aplicou novos desenhos, com pedras pretas e vermelhas (basalto) e brancas (calcáreo).

Burle Marx também projetava mosaicos abstratos para seus jardins. Em 1991, ele participou de uma exposição de jardins em Nova York . Em um deles, uma composição de 2,4 x 5 metros formada por 1.325 azulejos de cerâmica pintada, ficou suspenso sobre o lago da estufa das palmeiras, cercado por orquídeas de cores variadas.

LygiaClark

Painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana. Lygia Clark. 1951.

Lygia Clark, uma das maiores artistas brasileiras da arte contemporânea, também deixou um legado em mosaicos é dela o painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana, RJ. Em 1951, ela assinava a obra, talvez a menos conhecida de sua produção artística.

AldemirMartins

Painel no condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Aldemir Martins. 2003.

Aldemir Martins, conhecido por seus gatos e galos, realizou belíssimos painéis em mosaico. Em 2003, fez o painel do Condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Trata-se de uma obra de muitas cores fortes, que segue o mesmo padrão típico de sua vasta produção pictórica, revelando uma força muito expressiva e instigante, sobretudo se levarmos em conta que já era um homem octogenário. Mas o que se vê na obra é a mesma força e domínio plástico de seus anos de juventude. Aldemir faleceu em 2006, ou seja, três anos depois da inauguração deste painel.

Portinari

Detalhe do painel “Bandeirantes”, no Hotel Comodoro, em São Paulo. Cândido Portinari. 1957.

O nosso maior pintor, Cândido Portinari, realizou três obras em mosaico em vida. A terceira obra em mosaico que Portinari concluiu foi o painel “Bandeirantes”, aplicado em uma parede
interna de um hotel no centro de São Paulo, o Hotel Comodoro. Na época de sua inauguração, em 1957, o hotel era um dos mais
luxuosos que existia. Após décadas, a degradação da área urbana ao seu redor relativizou sua proeminência e o estabelecimento precisou de novos investimentos. O proprietário então decidiu promover um leilão para a venda do painel. Quem fizesse o maior lance ficaria com o encargo da retirada da obra, mas ninguém fez qualquer oferta acima do lance mínimo, provavelmente por temer as dificuldades inerentes à retirada de um painel em pastilhas, que é uma empreitada custosa, demorada e de risco.

TomieOhtake

Painel na Escola Imaculada em São Paulo. Tomie Ohtake. 1992.

Tomie Ohtake, uma das principais representantes do abstracionismo informal no Brasil e no mundo, fez vários painéis em mosaico, entre eles o painel na Escola Imaculada em São Paulo, realizado em 1992.
Pela importância do nome de Tomie no panorama artístico internacional e por sua sintonia com o que há de mais avançado em matéria de artes visuais, o fato de ter escolhido a linguagem das tesselas para apresentar suas obras plásticas em áreas de visibilidade pública ao longo de quase toda a década dos 90 engrandece e empresta um significado novo à esta arte.

PauloWerneck

Painel em uma agência do Banco do Brasil, em Copacabana. Paulo Werneck.

Paulo Werneck foi o responsável pela introdução da técnica do mosaico no Brasil, contribuindo com murais e painéis para projetos de diversos arquitetos. Uma de sua belas obras foi um painel encontrado por trás de uma parede forrada de gesso, por ocasião de uma reforma das instalações de uma agência do Banco do Brasil, no Posto Seis de Copacabana.

 Autor: Catherine Beltrão

Mosaicos da devoção

Quando a técnica do mosaico é utilizada na decoração de capelas, o resultado pode ultrapassar qualquer limite imaginativo, seja nos trilhos da beleza, seja nos corrimões da fé.

Capela1

Interior da Capela do Mosaico Santa Cruz, em São Bento do Sapucaí/SP.
Vídeo.

É o caso das capelas de São Bento do Sapucaí, em São Paulo. Geralmente chamadas de capelinhas de Santa Cruz, foram realizadas em cumprimento de promessas.

Capela3

Fachada da Capela do Mosaico de Santa Cruz

Uma dessas construções, centenária, passou a ser chamada Capela do Mosaico, depois de revitalizada em 2008 pelos artistas plásticos Ângelo Milani e Cláudia Vilar que utilizaram vários cacos de diversos materiais, como fragmentos de estátuas de santos abandonados, contas variadas, pedaços de vidro e azulejos, compondo mosaicos coloridos, que enfeitam esta capela de forma peculiar e original.

Capela2

Detalhe da parte interna da Capela de Santa Cruz

A parte externa da capela ficou a cargo de Ângelo Millani, que reformou a parede frontal do prédio que ostentava uma grande rachadura, ornamentando depois a fachada com mosaicos compostos por formas abstratas.

Para a decoração do interior, o espaço recebeu o enriquecedor acréscimo de um conjunto de mosaicos criados por sua esposa Claudia Villar, concebidos originalmente para uma instalação realizada com sucesso por ela em 2005 na Capela do Morumbi, em São Paulo. Trata-se de 30 conjuntos retangulares, que ficam enfileirados em ambas as paredes laterais, assemelhando-se a uma surpreendente via-crúcis, plena de novos significados.

Capelinha1

Fachada lateral de uma capelinha em São Bento do Sapucaí.

Em volta dessas obras, foram criados novos nichos, com novos trabalhos, completando e preenchendo praticamente todos os espaços interiores. Além disso, foram também incorporadas pequenas peças produzidas por crianças em oficinas de criação. O efeito chega a ser perturbador, devido a grande concentração de informações visuais.

Capelinha2

Interior de uma capelinha em São Bento do Sapucaí.

Na mesma cidade de São Bento do Sapucaí, outra capelinha também foi construída por este casal, Ângelo e Cláudia, difundindo e estimulando cada vez mais a prática profissional do mosaico. É significativo o número de cidadãos que passaram a dedicar-se a essa modalidade artística, estendendo sua ação e difusão às cidades vizinhas.

Capela Mosaico 1

Capela do Mosaico, em Peruíbe/SP. Vídeo.

Também em São Paulo, na localidade de Peruíbe, encontramos a Capela do Mosaico, chamada de Capela de Nossa Senhora da Saúde, com o revestimento feito com mosaicos no estilo Opus Incertum, uma técnica romana de aplicação de mosaicos em alvenaria encontrada apenas na Itália.

Capela Mosaico 2

Painel interno da Capela do Mosaico.

Capela Mosaico 3

Detalhe de um painel interno da Capela do Mosaico.

Idealizados por frei Giorgio Callegari e pelo arquiteto italiano Roberto Corradini, o projeto e a construção da capela foram realizados, contando e mostrando a realidade nacional de imensos contrastes, resgatando questões como a miséria, a escravidão, o preconceito racial (brancos e negros) e de etnias.

Entre os trabalhos em mosaico, está a representação de uma imagem de Jesus feita em estilo bizantino. A perfeição dos trabalhos com mosaicos na Capela do Mosaico dá a impressão de estar olhando para uma pintura, por causa da perfeição dos encaixes entre as peças. A Capela do Mosaico é particular e pertence ao Recanto Colônia Veneza.

Capela Nha Chica 4

Capela Nhá Chica, em São Lourenço/MG. Vídeo.

A Capela Nhá Chica, instalada na cidade de São Lourenço, Minas Gerais, é uma obra da arquitetura mineira.

Capela Nha Chica 2

Figura externa da Capela Nhá Chica.

Capela Nha Chica 5

Capela Nhá Chica.

Na década de 70, o carioca Marco Aurélio Dias, cansado da vida agitada da capital, abandonou a cidade do Rio de Janeiro e mudou-se para a pacata estância hidromineral de São Lourenço, em Minas Gerais, onde passou a levar vida solitária e separada do mundo. Na mesma época, começou a construir uma capela para o exercício diário da sua vida espiritual, com a intenção de fazer uma homenagem à Nhá Chica, serva de Deus que tanto ajudou e orou pelos pobres e doentes do Sul de Minas.

A Capela Nhá Chica hoje é aberta ao público e visitada pelos turistas, onde escutam a história da vida de Nhá Chica – Francisca Maria de Jesus -, do Padre Vitor e de outros personagens que marcaram a história religiosa da microrregião.

Casa da Flor 1

Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia/RJ. Vídeo.

Por último, uma casa: A Casa da Flor. Localizada em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro,  Gabriel Joaquim dos Santos - (1892-1985), simples trabalhador nas salinas, filho de uma índia e de um ex-escravo africano – realizou uma única e poética obra, o que o colocou no seleto grupo dos “construtores do imaginário”, a que pertence o grande Antoni Gaudi, de Barcelona, por exemplo.

Casa da Flor 2

Interior da Casa da Flor

Sonhador, anteviu um dia, em 1923, enquanto dormia, a imagem de um enfeite que embelezava a sua casa de pau-a-pique.  Mas ele não dispunha de recursos para realizar o sonho. Que fazer ? Desistir do sonho, apagar da memória a visão tão bela que o inconsciente lhe trazia ? Surgiu em sua mente uma ideia, que de tão bizarra fez com que muitos parentes e vizinhos passassem a olhá-lo com estranheza no início da tarefa a que se dedicou até morrer, 63 anos depois: usar o lixo abandonado nas estradinhas da região, garimpar nesses montes de detritos – de que todos se afastam – cacos de cerâmica, de louça, de vidro, de ladrilhos e de toda uma série de objetos considerados imprestáveis para o uso, tais como velhos bibelôs, lâmpadas queimadas, conchas, pedrinhas, correntes, tampas de metal, manilhas, faróis de automóveis… Sabiamente, ele comentava que fez uma casa “do nada” .

Casa da Flor 3

Casa da Flor.

Sempre inspirado por sonhos e devaneios, passou a criar flores, folhas, mosaicos, cachos de uvas, colunas e esculturas fantásticas, que ia fixando dentro e fora da casa. Inventava luminárias com lâmpadas queimadas; nichos para proteção de um osso de baleia e de alguns bibelôs mais bonitos; molduras para retratos fixados à parede; uma estante chamada por ele de “altar dos livros”; bancos e armários de alvenaria, sensualmente aplicados, cobertos de ladrilhos coloridos. Gravava ou moldava com cimento inscrições para assinalar os trabalhos mais significativos… Uma composição de riqueza plástica surpreendente, o barroco intuitivo criado por um artista marginal e solitário. Não havia materiais nobres: o imprestável, o estragado, o feio, o inútil, transformavam-se através de seus olhos visionários em matéria preciosa para a criação artística. Verdadeiro alquimista, explicava: “tudo caquinho transformado em beleza”.

Embora não tenha sido construída com o objetivo de ser uma casa de Deus, Gabriel atribuía a Deus a realização da sua obra, tendo sido   fruto de inspiração divina:

“… Eu não tive escola. Aprendi no ar, aprendi no vento… Isso não é de mim. Deus me deu essa inteligência, vêm aquelas coisas na memória e eu vou fazer tudo perfeitozinho conforme sonhei.”

Autor: Catherine Beltrão

Mosaicos e releituras

Mosaico é possivelmente uma palavra de origem grega. Trata-se de um aglomerado de pequenas peças (tesselas) de pedra ou de outros materiais como vidro, azulejo, cerâmica, plástico, areia, papel ou conchas, formando determinado desenho. Para aderir a uma superfície, usa-se cola ou argamassa e, após a colagem das peças, aplica-se uma massa para o rejunte, que irá preencher os espaços existentes entre as peças.

Mosaico_vangogh

Releitura de “A noite estrelada”, de Vincent van Gogh, por Carla Verena

A técnica do mosaico é muito antiga. O primeiro registro data de 3.500 a.C., na cidade de Ur, na região da Mesopotâmia.

Mosaico_picasso1_lizpanek

Releitura de “Mulher no Espelho”, de Pablo Picasso, por Liz Panek

Mosaico_picasso2

Releitura de “Portrait De Femme au Col D’Hermine”, de Pablo Picasso, por Giulio Pedrana

No antigo Egito, havia preciosos trabalhos feitos em sarcófagos de antigas múmias; também havia mosaicos que decoravam colunas e paredes de templos. Mais tarde, Pompeia foi um viveiro de mosaicistas: desde os poderosos e os abastados até o povo em geral apreciavam esta arte. No período paleo-cristão, abre-se para o mosaico uma nova era: a arte bizantina, que é o verdadeiro triunfo das artes visuais do cristianismo. No mundo islâmico, a arte do mosaico teve importante aplicação na ornamentação de edifícios e mesquitas.

Mosaico_frida2

Releitura de um autorretrato de Frida Kahlo, por Stacy Alexander

Mosaico_frida1

Releitura de uma obra de Frida Kahlo, por Susan Elliot

No século XIX, a arte do mosaico caiu quase em abandono. No período moderno, o mosaico, arte mural por excelência, conseguiu a metamorfose: parede-cimento-pedra-cor. Com isto, ele consegue harmonizar a arquitetura moderna.

Nos dias atuais, alguns artistas resolveram fazer releituras de obras famosas de grandes mestres como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Frida Kahlo,  Gustav Klimt e Tarsila do Amaral, entre muitos outros. São novas formas de penetrar nas obras e transformá-las em novos contextos.

Mosaico_tarsila

Releitura de “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral, por Patricia Iamin

E, mais uma vez, a poesia não poderia ficar de fora. Durante um tempo, tentei achar os cacos de Cecília, Drummond, Quintana e Manoel. Estava sem sorte. Não encontrei. Na falta dos cacos mais nobres, resolvi deixar aqui os meus cacos de alma.

Mosaico_klimt1a

Releitura de “Três idades da mulher”, de Gustav Klimt, por Silvia Danelutti

Cacos.
Cacos de vidro.
Coloridos.
Formatados.
Mas sem a forma
de nossa alma.
Aí são cortados,
pra seguir a forma
de nossa alma.

Mosaico_klimt1

Releitura de “O beijo”, de Gustav Klimt, por Kasia Polkowska

Cacos.
Cacos de alma.
Sem cor.
Sem forma.
Mas que vão aos poucos
tomando forma
de nosso querer.
De nosso poder.

Cacos.
Cacos de vida.
Sem o antes.
Sem o depois.
Mas com o agora
que se desvenda
através dos cacos…
de vidro.
Ou de alma.

  Autor: Catherine Beltrão