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Criar é uma forma de resistir

Há várias formas de resistir a um status quo, à inércia, a uma situação negativa, que vai contra o Ideal de qualquer um de nós. Uma delas é através da criação. A personagem é uma pintora francesa, autodidata, que pintou, nos anos 40, a Resistência Francesa em solo brasileiro.

Um tributo a Edith Blin, a “pintora da alma“.

PalestraFecap

Cartaz convite para a palestra “Criar é uma forma de resistir”, na FECAP/SP, proferida em 11.05.2018.
Dueto de Arte e História, com a profa. Catherine Beltrão e a profa. Daniela Medeiros.

Edith Blin nasceu na cidade de Pontorson, na Normandia, região ao norte da França, em 22 de julho de 1891. Esta cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, uma das maravilhas do mundo. Edith casou duas vezes e teve três filhos.

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Edith como atriz de teatro, nos anos 20.

Nos anos 20 e início dos anos 30, foi atriz, adotando o nome de Edith Dereine. Como atriz, conheceu o pintor belga Georges Wambach, que iria ser decisivo em sua decisão de pintar. Em 1935, embarcou com a família e o amigo Wambach para o Brasil, no navio Bagé. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda no Brasil, ela teria perguntado ao pintor por que ele continuava pintando paisagens bucólicas enquanto a Europa era devastada pelos nazistas. E Wambach teria respondido: “ Por que não pinta você o que você sente?”.

E ela começou a pintar.

Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre madeira, 41 X 33cm

Autodidata, um ano depois ela fazia sua primeira exposição. Sucesso total. Muitas matérias e artigos em jornais e revistas. O tema principal era a Resistência Francesa, mas ela também pintava nus e retratos. Em 1945 e 1946, mais duas exposições. Mais sucesso. Mais artigos em jornais. Teve até obra estampada em capa de revista.

Juin 1940

“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, óleo sobre tela, 100 X 65cm

Em 1947, sua mãe ficou doente e pediu para voltar para a França.

Pieta

“Piétà de Normandie”, de Edith Blin. 1947, óleo sobre madeira, 102 X 78cm

Elas voltaram e Edith doou duas obras para serem leiloadas em um evento visando obter fundos para a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na Batalha de Saillant -de-l’Odon, na Normandia. Em agradecimento pelas doações, ela recebeu, então, um pergaminho manuscrito da comunidade local, dotado de mapa, selos e insígnias, relatando a batalha e um texto sobre sua obra.

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Pergaminho sobre a Batalha de Saillant-sur-Odon, entregue a Edith Blin, em agradecimento à doação de duas obras visando a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na batalha.

Ao final deste mesmo ano, sua mãe morreu. Edith não queria mais pintar. Em meados de 1948, sua neta Katia nasceu. A mãe de Katia estava doente e não podia cuidar do bebê. Edith então assumiu a criação da neta. Em 1949, voltou para o Brasil. Enquanto cuidava de Katia, voltou a pintar. Os temas eram variados: flores, paisagens, pierrôs, bailarinas, naturezas mortas e rostos. Muitos rostos. Entre eles, retratos. Muitos retratos.

Edith Blin só voltou a expor em 1969. Neste período, ela já tinha aprimorado muito a sua técnica, usando a cartolina preta como suporte, além da habitual tela. Pintava com pincéis e espátulas para espalhar a tinta a óleo na tela ou cartolina, e os próprios dedos, quando fazia uso do pastel. Fez tantos pastéis, que perdeu as digitais de alguns dedos. Como estudos, deixou muitos desenhos a carvão em vários cadernos. Participou de algumas exposições individuais e coletivas, até sofrer o primeiro derrame cerebral, em 1979. Continuou pintando por mais um ano, mas os derrames se sucederam até sua morte, que ocorreu em 29 de julho de 1983. Tinha 92 anos.

Paris

“Paris”, de Edith Blin. 1944, óleo sobre tela, 64 X 53cm

Edith Blin , “la peintre de l’âme” (“a pintora da alma”), deixou um imenso legado. Seu legado não é dimensionado somente pelas obras pintadas, estimadas em cerca de 1300. O legado é muito mais qualitativo do que quantitativo. O que importa é por que pintou, o que pintou e como pintou. Autodidata, começou a pintar porque precisava expressar um sentimento de angústia por sua pátria e seus patrícios que eram dizimados na guerra. Pintou a resistência francesa, pintou os nus etéreos e pintou as flores ao vento. Pintou 148 retratos da neta Katia, de bebê aos 32 anos idade. E inovou na forma de pintar, com o uso da cartolina preta como suporte para suas obras, nos anos 60. Segundo ela mesma dizia, “era mais fácil de rasgar quando não gostava do que havia pintado”.

Autor: Catherine Beltrão

Da série “Quase cinzas de uma obra permanente”: Piéta (parte II)

Dando prosseguimento à parte I - post anterior de mesmo título, é apresentado neste post o belíssimo e importante manuscrito referente à obra “Piéta“, de Edith Blin.

Este documento foi redigido em 1947 e versa sobre a construção de um Monumento Comunal  do Cemitério Militar da cidade de Tourville-sur-Odon, situada a 12 km de Caen, na região da Normandia.  De 26 de junho a 4 de agosto de 1944, ocorreu nesta localidade a Batalha do Saillant-de-l’Odon, em que morreram muitos soldados franceses. A comunidade – “gente de Odon” – resolveu então, criar este Monumento Comunal. Para conseguir recursos, foi organizada uma quermesse e um leilão. Edith Blin doou duas de suas obras para esta causa, sendo uma delas a “Piéta“.  Para agradecer esta doação, a “gente de Odon” redigiu este documento histórico, referindo-se à batalha em questão e às doações de Edith Blin.

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Manuscrito sobre a “Batalha de Saillant de l’Odon” com referência à doação de duas obras de Edith Blin (uma delas, a “Piéta”) para a criação do Monumento Comunal do Cemitério Militar de Tourville-sur-Odon

O manuscrito é dividido em duas partes. Na segunda parte, é este o texto de referência às doações:

“Rio-Paris-Caen: Le peintre “Edith Blin” à Tourville

Tourville-sur-Odon s’honore de posséder, en ce moment, le peintre Edith Blin. Une vaillante française, et même une normande, dont la personne et les oeuvres sont bien connues à Rio de Janeiro, capitale du plus grand état d’Amérique du Sud, le Brésil, sa patrie d’adoption. Le “Maquisard” d’Edith Blin, son “Paris 1940″ y ont mené, pendant la guerre, la meilleure propagande en faveur de la cause de la France et des Alliés. Les oeuvres viennent de faire leur apparition dans les Galeries d’Art parisiennes. Les sujets préférés d’Edith Blin sont, avec les types et scènes exotiques d’Amérique du Sud, la Femme et les Fleurs. Les Portraits aussi. Mais un portrait par Edith Blin est autre chose de plus qu’un portrait… Et tout le monde peut regarder ses oeuvres:

Les “Nus” d’Edith Blin sont beaux parce qu’ils sont chastes.

Les “Nus” d’Edith Blin sont chastes parce qu’ils sont beaux.

Prochainement Edith Blin exposera à Caen des sujets régionaux, scènes et paysages de guerre principalement. Deus des toiles exposées ici “Piéta de Normandie” (Caen 7 juillet 1944) et “Fille de l’Odon”(14 juillet 1947), ont été executées et données pour l’oeuvre patriotique du Monument Comunal de Tourville-sur-Odon: L’une “Fille de l’Odon” constitue le premier lot de la Tombola de la Kermesse.(tirage le 20 juillet) L’autre “Piéta de Normandie” sera vendu aux enchères à Caen à une date ultérieure.

Et um Merci et un Bravo à notre “Etoile de Rio”!

Les gens de l’Odon”

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Parte do manuscrito, com referência às doações das duas obras de Edith Blin

Abaixo, a tradução:

“Rio-Paris-Caen: a pintora “Edith Blin” em Tourville

Tourville-sur-Odon tem a honra de possuir, neste momento, a pintora Edith Blin. Uma valente francesa, e mesmo uma normanda, cuja pessoa e obra são bem conhecidas no Rio de Janeiro, capital do maior país da América do Sul, sua pátria de adoção. O “Maquis” de Edith Blin, sua “Paris 1940″ fizeram, durante a guerra, a melhor propaganda da causa da França e dos Aliados. As obras acabam de fazer sua aparição nas Galerias de Arte parisienses. Os temas preferidos de Edith Blin são, com os tipos e cenas exóticas da América do Sul, a Mulher e as Flores. Os Retratos também. Mas um retrato por Edith Blin é bem mais que um retrato… E todo o mundo pode olhar suas obras:   

Os “Nus” de Edith Blin” são belos porque eles são castos.

Os “Nus” de Edith Blin” são castos porque eles são belos.

Proximamente Edith Blin irá expor em Caen temas regionais, cenas e paisagens de guerra principalmente. Duas das telas expostas aqui “Piéta de Normandia” (Caen 7 de julho de 1944) e “Filha de Odon” (14 de julho de 1947) foram executadas e doadas para a obra patriótica do Monumento Comunal de Rourville-sur-Odon: Uma “Filha de Odon” constitui o primeiro lote da Tômbola da Quermesse. (tiragem em 20 de julho)  A outra “Piéta da Normandia” será leiloada em Caen em uma data posterior.

E um Obrigado e um Bravo a nossa “Estrela do Rio”!

A gente de Odon”

O registro da existência deste manuscrito, de tal importância histórica, me parece fundamental no resgate da obra de Edith Blin, também chamada “a pintora da alma“, “o pássaro das ilhas“, “a estrela do Rio“…

Autor: Catherine Beltrão