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Os barcos de meu pai (versão infantil)

Meu pai era pintor.
Pintava barcos.
Barcos coloridos.

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“Barco colorido em fundo preto”, ost.

Alguns eram barcos tristes.
Outros pareciam mais alegres.
Mas todos eram encantados.

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“Barco colorido em fundo branco”, ost.

Um dia ele pintou dois barcos
com um céu todo preto.
Devia ser de noite.

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“Dois barcos”, ost.

E foi de noite que ele pintou
um barco chamado “Thamar
ouvindo a música de uma estrela.

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“Thamar”, ost.

Passou mais um dia
e ele pintou vários barcos
apostando corrida.

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“Corrida de barcos”, ost.

Teve também um dia
Em que ele pintou um cais
e do barco dava pra ver um cidade.

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“Cais”, ost.

E em outro dia de tempestade de neve
ele pintou uma vela
com as cores do arco-iris.

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“Vela”, ost

E você?
Que tal você também pintar um barco?
Ou dois? Ou talvez três?
Podia ser um barco todo colorido…
Ou dois barcos à noite…
Ou quem sabe, uma corrida de barcos…

Autor: Catherine Beltrão

A Alice de Dali

Qual a história que tem como personagens um chapeleiro maluco, uma lagarta, um coelho branco, uma tartaruga fingida, o gato de Cheshire e uma Rainha de Copas? Alguém aí não pensou em “Alice no País das Maravilhas“?

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Ilustração para a capa do livro “Alice no Paí das Maravilhas”, de Salvador Dali. Vídeo com as 14 heliogravuras.

 

A história escrita por Lewis Carroll – pseudônimo do escritor, poeta e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898) – foi publicada em 1865. Há mais de 150 anos, as peripécias de Alice encantam adultos e crianças pois, muito mais do que um conto de fadas, é uma história psicodélica, imaginativa, crítica e atemporal.

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Ilustração para a “Festa do Chá Maluco”, de Salvador Dali.

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Ilustração para o “Conselho de uma Lagarta”, de Salvador Dali

Certo dia, Alice adormece e sonha que entrou num outro país, o País das Maravilhas, onde tudo é muito estranho: ela encontra um Coelho Branco sempre atrasado, um Chapeleiro que toma um chá interminável com a Lebre de Março, ouve os conselhos de uma Lagarta Fumante e conhece a Rainha de Copas que quer cortar a sua cabeça…

Em 1969, quando a obra completava 104 anos, a editora de livros americana Random House – uma das maiores do mundo – decidiu que “Alice” merecia uma nova edição, algo especial. E quem mais psicodélico e surreal do que a própria história de Alice deveria fazer as novas ilustrações?

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Ilustração para a “Toca do Coelho”, de Salvador Dali. Vídeo (em inglês)apresentando a  publicação de 1969.

Preservando o texto original, a editora convidou o pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989)  para reinterpretar o visual da história. Ao todo, foram 14 heliogravuras incluindo capa e pós-capa.  As poucas edições publicadas tornaram-se relíquias. Em 2011, a Amazon anunciava a venda de uma delas por US$ 12,9 mil (cerca de R$ 20 mil, na época).

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Ilustração para o “Chão Croquetado da Rainha”, de Salvador Dali

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Ilustração para a “História da Tartaruga Fingida”, de Salvador Dali

Para aqueles que não conhecem a técnica usada por Dali, a heliogravura consiste em um processo fotomecânico destinado a obter uma gravura a partir da exposição à luz e transferência química para uma placa de estanho (ou cobre) derivado de um petróleo fotossensível. Dali usou uma camada de gelatina sensibilizada com bicromato de potássio e negativos, colocado em contato com a placa de metal recoberta pela gelatina que após ser exposta a luz tem as partes assim expostas endurecidas e insolúveis na água. As regiões onde a luz não reage com a gelatina (devido as zonas escuras do negativo) serão lavadas e derretidas. Assim, um ácido utilizado em parte do processo ataca apenas as partes expostas do metal, criando sulcos ou gravações que serão preenchidas com tinta.

Lewis Caroll e Salvador Dali, duas mentes criadoras e psicodélicas que ousaram na Literatura e na Arte, fazendo do País das Maravilhas de Alice um lugar para onde qualquer um de nós gostaria de viajar e conhecer…

Autor: Catherine Beltrão

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte II)

Após as monumentais bibliotecas (clique aqui) do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, do Clementinum,  em Praga e do Mosteiro Beneditino, na Áustria, é a vez de apresentar três magníficas livrarias.

Começo pela famosa Livraria Lello, localizada na cidade do Porto, em Portugal. Esta livraria ostenta uma estilo arquitetônico único, combinando neogótico com “art nouveau” e “art déco”.

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Livraria Lello, no Porto/Portugal. Escadaria principal.

A história da livraria Lello é também a história dos irmãos Lello. José e António Lello nasceram na Casa de Ramadas, freguesia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, filhos de um proprietário rural. José Lello é o primeiro a vir para o Porto. Homem de cultura, amante da leitura, dos livros e da música, sonha tornar-se livreiro, o que vem a acontecer com a abertura da primeira livraria e editora em 1881 com o seu cunhado. Após o falecimento deste, José Lello constitui a sociedade José Pinto de Sousa Lello & Irmão, com o irmão Antônio Lello, 9 anos mais novo.

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Livraria Lello.

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Livraria Lello. Fachada externa.

Os irmãos Lello estabelecem-se na Rua do Almada, desconhecendo ainda que o edifício que levaria o seu nome até ao próximo milênio se encontrava a poucos quarteirões. A atividade editorial da Lello e Irmãos era marcada por uma paixão pelos livros e pela cultura. Este amor à arte deu origem à criação de edições especiais, editadas em número reduzido, com a colaboração de artistas plásticos, como ilustradores e pintores, e com enorme cuidado gráfico.

É em 1894 que José Pinto de Sousa Lello compra a Livraria Chardron aos então donos, juntamente com todo o seu espólio. Embora estivesse já  em outras mãos, esta livraria tinha feito o seu nome pela mão do francês Ernesto Chardron. Este influente editor era um motor do setor, tendo publicado as primeiras edições de obras eternamente sonantes como as de Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco, por exemplo. Esta ambiciosa ampliação da Lello e Irmãos precisava de ser acompanhada de um quartel condizente com a renovada importância no setor. O edifício da Rua das Carmelitas é então moldado pela visão suntuosa do engenheiro Francisco Xavier Esteves. E é em 1906 a inauguração do espaço como hoje é conhecido.

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Livraria El Ateneo, em Buenos Aires/Argentina.

Em 2008, a livraria Ateneo Grand Splendid, uma das mais conhecidas de Buenos Aires, foi classificada pelo jornal britânico “The Guardian” como a segunda mais bonita do mundo.

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Livraria El Ateneo.

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Livraria El Ateneo

O edifício foi projetado pelos arquitetos Peró e Torres Armengol e aberto como um teatro em 1919. Palco de diversos espetáculos de tango feitos por artistas como Carlos Gardel e Roberto Firpo no passado, ela possui estilo eclético, com afrescos pintados pelo artista italiano Nazareno Orlandi, no teto, e cariátides esculpidas por Troiano Troiani. O teatro acabou sendo fechado e, em 2000 foi comprado pela cadeia de livrarias Yenni. Atualmente, a Ateneo Grand Splendid conta com 120 mil exemplares de livros, um bar e um café, localizados no palco do antigo teatro.

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Livraria Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen, em  Maastricht/Holanda

A livraria que foi considerada campeã na lista do “The Guardian” é a holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, localizada na cidade de Maastricht. O nome pomposo faz jus ao ambiente: a livraria foi montada em 2007 dentro de uma exuberante igreja dominicana do século XII que há anos encontrava-se abandonada, servindo de depósito de bicicletas. O contraste da estrutura gótica da igreja com a decoração interior moderna dá um charme extra à ideia que, por si só, já atrai curiosos.

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

A igreja Dominicana original foi construída em 1294, cerca de 80 anos após São Domingos ter formado a Ordem dos Pregadores. O fechamento é geralmente creditado a Napoleão Bonaparte. Seu exército fechou o edifício durante a invasão de 1794, apesar do respeito de Napoleão e seu carisma com a religião católica, forma de manter a ordem social.

A igreja não caiu em ruínas, mas passou os próximos dois séculos abandonada e negligenciada. A imponente igreja dominicana do século XII foi restaurada, resultando num contraste incrível entre a estrutura gótica externa e a decoração interior moderna, um charme para poucos. Hoje, a estrutura tem uma estante de três andares completa, com passarelas, escadas e elevadores.

Quando os livros se mesclam à beleza e à imponência de um lugar, não há limite para a nossa imaginação e nem mesmo para a nossa felicidade.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte I)

Estamos em plena Bienal Internacional do Livro. É a 18ª e acontece no Rio de Janeiro. É inevitável a lembrança das mais belas bibliotecas e livrarias que existem pelo mundo afora. O tema merece dois posts: um para as bibliotecas, outro para as livrarias. Três bibliotecas e três livrarias.

Começo pelas bibliotecas. E começo pela brasileira. O Real Gabinete Português de Leitura fica situado no Rio de Janeiro e é a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822.

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Real Gabinente Português de Leitura, Rio de Janeiro/Brasil

Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro reuniu-se na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), nº 20, e resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. É possível que os fundadores do “Gabinete” tenham sido inspirados pelo exemplo vindo da França, onde, logo seguir à revolução de 1789, começaram a aparecer as chamadas “boutiques à lire”, que nada mais eram do que lojas onde se emprestavam livros, por prazo certo, mediante o pagamento de uma determinada quantia.

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Real Gabinete Portuguêsde Leitura

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Real Gabinete Português de Leitura. Fachada externa.

Nas comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880), a sede do Gabinete irá ocupar um terreno na antiga rua da Lampadosa.  A sua nova sede, construída em estilo neomanuelino e que foi inaugurada pela Princesa Isabel em 1887, guarda cerca de 350.000 volumes (milhares de obras raras).  Esse acervo maravilhoso está disponível a qualquer um do povo, pois o Real Gabinete é uma biblioteca pública, a partir de 1900.Em 1906, o rei D. Carlos atribui o título de “Real” ao Gabinete e tem lugar, no Salão dos Brasões, uma grande exposição de pinturas de José Malhôa, a cuja inauguração comparece o Presidente Rodrigues Alves.

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Biblioteca Clementinum, Praga/República Tcheca

Construída em 1722, o edifício da Biblioteca Clementinum é uma obra da arquitetura barroca de Praga, capital da República Tcheca. A Biblioteca abriga mais de 20.000 volumes sobre literatura, medicina e teologia. Por muito tempo foi considerada o maior colégio jesuíta do mundo. Seu teto é repleto de afrescos do pintor Jan Hiebl.

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Biblioteca Clementinum. Fachada externa.

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Biblioteca Clementinum.

Sua história remonta à existência de uma capela dedicada a São Clemente, no século 11. Um mosteiro dominicano foi fundado no período medieval, sendo depois transformado, em 1556, em um colégio jesuíta. Em 1622, os jesuítas transferiram a biblioteca da Charles University para o Klementinum, e o colégio foi absorvido pela Universidade em 1654. Os jesuítas permaneceram até 1773, quando o Klementinum foi estabelecido como um observatório, biblioteca e universidade  pela imperatriz Maria Theresa da Áustria.Além dos afrescos que decoram o teto, a biblioteca abriga retratos de santos jesuítas, antigos patronos da biblioteca e outras pessoas proeminentes e  também uma preciosa coleção de globos geográficos e relógios astronômicos, na sua maioria, feitos por padres jesuítas.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino, em Admont/Áustria.

A Biblioteca do Mosteiro Beneditino fica situada em Admont, na Áustria.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Fachada externa.

Foi fundada em 1776 e está integrada num Mosteiro Beneditino.O salão biblioteca, construída em 1776 e  projetada pelo arquiteto Joseph Hueber, em estilo rococó, é de 70 metros de comprimento, 14 metros de largura e 13 metros de altura. É a maior biblioteca monástica do mundo. Possui mais de 180.000 obras, incluindo 1,4 mil manuscritos (o mais antigo do século 8) e os 530 incunábulos (livros impressos antes de 1500), além de volumes antigos e edições originais de obras raras. O teto é composto por sete cúpulas e  tem afrescos do artista austríaco Bartolomeo Altomonte (1657-1745), pintados entre 1775 e 1776, que celebram a ciência e a fé. A luz penetra  por 48 janelas e é refletida pelo esquema de cores originais de ouro e branco.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Sala de leitura.

Quando se eleva a leitura ao nível de uma prece, o homem chega perto de Deus.

Para ler a segunda parte deste texto, apresentando as livrarias Lello, na cidade do Porto, El Ateneo, em Buenos Aires e Boekhandel Selexyz Dominicanen, na Holanda, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte

Euclides da Cunha escreveu uma das frases ícones da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Primeira edição de “Os Sertões (Campanha de Canudos)” – 1902

A obra literária “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, é considerada uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, podendo ser comparada à “Ilíada“, assim como “Os Lusíadas” podem ser comparados à “Eneida” e “Grande Sertão: Veredas”, à “Odisseia“.

Mas, infelizmente, não são muitos os que conhecem Euclides da Cunha (1866-1909), um dos maiores nomes da literatura brasileira.  Nascido na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, ele foi um escritor, poeta, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Sua morte trágica, em que foi assassinado pelo amante da sua esposa Anna de Assis, é conhecida como a “Tragédia da Piedade“.  Até hoje o episódio permanece em discussão.

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Ilustração de O Malho feita em 1909 tenta reconstituir o tiroteio que lhe tirou a vida. (Imagem: Reprodução / original da Fundação Joaquim Nabuco)

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo em Canudos/Bahia, Euclides reuniu material que serviriam para elaborar, durante cinco anos,  “Os Sertões: campanha de Canudos“, publicado em 1902.

Abaixo, trecho da segunda parte de “Os Sertões“: O Homem

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Euclides em desenho a nanquim bico-de-pena, 16 x 13cm, por Cândido Portinari. 1944. Reprod. de Perfil de Euclydes e outros perfis, de Gilberto Freyre, p. 19.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (…)

É o homem permanentemente fatigado.”

A poesia sempre acompanhou Euclides da Cunha em toda a sua trajetória de vida conturbada. Abaixo, o soneto que escreveu em 1890, para Saninha, (Anna de Assis), sua mulher:

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Euclides a nanquin sobre papel retratado por Tarsila do Amaral. Reprod. de Arte e Pintura brasileira “apud” Diários Associados de São Paulo, [194 -].

 “Ontem, quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias…Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte…”

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Da esquerda para a direita: Anabelle Loivos, Janaína Botelho e Jane Ayrão, em mesa-redonda sobre Euclides da Cunha, na FLINF.

Escrevi este post após ter ficado inebriada com uma mesa-redonda que assisti na FLINF – Festa Literária de Nova Friburgo, no último domingo dia 16.10, intitulada “Euclides da Cunha, o poeta dos sertões“.  Três mulheres espetaculares – Janaína Botelho, Anabelle Loivos e Jane Ayrão - traçando os contornos e não contornos deste gigante de nossa literatura!

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

 Autor: Catherine Beltrão

Arte da lama de Mariana

Em 5 de novembro de 2015, ocorreu a maior tragédia ambiental brasileira, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG, liberando 55 milhões de metros cúbicos de lama e minérios que varreram parte do município. 19 pessoas morreram e duas ainda continuam desaparecidas. Mas o pior legado foi o que sobrou da tragédia. Histórias e registros perdidos para sempre, vidas sem passado, comunidades sem futuro. Terras e águas atravessando parte do país, envenenadas até o oceano.

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Rastros da lama me árvores de Mariana. Foto de Alex Takaki.

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Um dos retratos feitos por Tolentino, com a lama de Mariana. Vídeo do projeto “A Arte Nunca Esquece”. Duração: 1:50

Mas A Arte Nunca Esquece. Este é o nome do projeto criado pela Panamericana Escola de Arte e Design, trazendo de volta ao debate público a tragédia de Mariana. O artista plástico Marcelo Tolentino visitou a região coberta pela lama e conheceu as histórias de quem perdeu tudo na maior tragédia ambiental ocorrida no Brasil. A lama que devastou a cidade foi transformada em arte sob a forma de retratos das vítimas de Mariana.

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Outdoor em rua de Brasília, sobre o projeto “A Arte Nunca Esquece”.

Mas o projeto está indo além. Para que a obra chegasse ao público certo, os retratos estão sendo expostos nas ruas de Brasília, numa espécie de exposição a céu aberto, próxima ao Congresso Nacional. Assim, os políticos que estiveram ausentes nas duas sessões da Comissão Parlamentar da Câmara dos Deputados que, em março, discutiriam o caso de Mariana, ambas canceladas por falta de quórum, estão sendo lembrados da tragédia que nunca sairá da memória de suas vítimas. Fonte de informações: clique aqui.

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Instalação de Haroon Gunn-Salie, representando parte dos destroços de uma casa soterrada pela lama de Mariana.

Outro projeto envolvendo a tragédia de Mariana é o intitulado “Agridoce“, com instalações do artista sul africano Haroon Gunn-Salie. Ele foi ver de perto o local do desastre, tendo passado um mês no que sobrou do lugar soterrado em novembro de 2015. Diz Haroon: “Uma questão que todo mundo pensava era o som da lama. Ninguém consegue descrever muito bem, mas pessoas se lembram do barulho líquido, pedaços de bambu se quebrando, o grito dos bichos”. Ele conta que primeiro tentou comprar as ruínas da casa agora na exposição, mas acabou ganhando os destroços de uma moradora que fazia questão que o mundo visse de perto o que aconteceu ali. Informações sobre a exposição: clique aqui.

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Fotografia de Christian Cravo, do livro “Mariana”.

O livro recém-lançado “Mariana“, com fotografias de Christian Cravo, no instituto Tomie Ohtake/SP, também traz lembranças da lama da tragédia ocorrida há pouco mais de seis meses. O fotógrafo trouxe para o livro a cor avermelhada do minério de ferro e o ocre do barro que cobriu toda a cidade mineira. Suas fotos retratam os vestígios de vida no meio da lama: um sapato de mulher, um fogão, pedaços de móveis. “Não é preciso mostrar a desgraça carnal para narrar o drama humano. Você pode mostrar todo o drama sem a confusão, o desespero, a tristeza da carne.” Mais fotos, clique aqui.

Retratos, outdoors, instalações, livros.  Alguns dos primeiros registros artísticos desta monumental tragédia, que jamais poderá ser esquecida.

Autor: Catherine Beltrão

Os livros de nossa infância

Se partimos do pressuposto que riqueza é sinônimo de conhecimento, comecei a enriquecer desde criança. Desde os primeiros anos tive acesso a livros. E a personagens, que foram muitos. Mas, sem nenhuma dúvida, escolho dois deles, que povoaram minha imaginação infantil e minha vontade de querer saber mais e mais. Quem são? Emília e Tintim.

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Três livros da série “Sítio do Picapau Amarelo”: “Reinações de Narizinho”, “Histórias de Tia Nastácia” e “Caçadas de Pedrinho”.

Emília é uma boneca de pano falante, personagem do “Sitio do Picapau Amarelo“,  série de 23 livros escrita entre 1920 e 1947 por Monteiro Lobato (1882-1948). O Sítio é de Dona Benta, contadora de histórias e avó de Narizinho e de Pedrinho, as crianças que protagonizam todas as histórias. Tia Nastácia é a cozinheira do Sítio, um pouco medrosa mas de bom coração, a “segunda avó″ das crianças do Sítio. Entre os principais personagens, é impossível não falar também do Visconde de Sabugosa, um boneco sábio e filósofo, feito de sabugo de milho e o Marquês de Rabicó, um porquinho guloso que só pensa em comida.

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Personagens do “Sítio do Picapau Amarelo”: Emília, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e Dona Benta. Por Chico Joy.

Esta memória afetiva de minha infância é tão importante que hoje, no jardim de minha casa, estes personagens continuam presentes. O fantástico Chico Joy, o artesão-artista, é o criador das esculturas.

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“Objectif Lune”, um dos livros da coleção de histórias em quadrinhos de Tintim.

O nome Tintim (Tintin, em francês) apareceu pela primeira vez em 1929, das mãos do desenhista belga Georges Prosper Remi (1907-1983), conhecido pelo nome Hergé. Tintim é um jovem repórter, de espírito aventureiro e curioso, constantemente envolto em casos de investigação criminosa ou em conspirações políticas, dono de uma personalidade nobre, audaciosa e perspicaz. Protagonista de 23 livros de histórias em quadrinhos (vejam a coincidência com o número de livros da série do Sitio), Tintim está sempre acompanhado de Milou, seu cachorro de estimação, um fox terrier de pelo branco, muito esperto e fiel. O maior aliado de Tintim é o Capitão Haddock, arquétipo do marinheiro beberrão e rabugento, mas de bom coração. Outros personagens importantes são o Professor Girassol, o arquétipo do gênio cientista/inventor das histórias de ficção, e os gêmeos Dupondt (Dupond e Dupont), membros da Interpol, que fazem muitas investigações, a um tempo discretas e estúpidas, acumulando um grande número de acidentes.

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Tintim e seus aliados: Milou, Capitão Haddock, o professor Girassol, os gêmeos Dupond e Dupont e o mordomo Nestor. Por Chico Joy.

Alguns dos personagens de Tintim, que me acompanharam na infância, também continuam presentes no jardim de minha casa. E também criados por Chico Joy.

Monteiro Lobato e Hergé. Emília e Tintim. Uma boneca de pano falante e um repórter curioso. Dois viajantes. Do mundo e da imaginação. No meu mundo e na minha imaginação. E, com certeza, no mundo e na imaginação de milhões.

 Autor: Catherine Beltrão

O antigo que permanece

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Capa do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos”

 

Acaba de ser publicado, pela Gaps Editora, o belo livro “Rio – Casas e Prédios Antigos“, com textos de Rafael Bokor e fotografias de Milena Leonel e Renan Olivetti. Primoroso. Uma viagem pelo tempo e pelos caminhos sensíveis representados nos escritos e nas imagens, que se complementam como peças de um quebra-cabeças de histórias de vida…

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Hall de entrada do Edifício Brasil, em Copacabana

A maioria dos prédios incluídos no livro datam dos anos 30 e 40 e seguem o estilo art déco. Como a impressionante entrada do Edifício Brasil, situado na Rua Fernando Mendes, em Copacabana. Quase todo em mármore, ornamentado com lustres e arandelas de ferro, quantos não terão se imaginado príncipes e princesas, ao atravessar este “hall de palácio“…

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Castelinho do Flamengo

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Castelinho do Flamengo – escadaria interna

Quem nunca ouviu falar do “Castelinho do Flamengo“? Datado de 1918, possuindo 3 andares e 31 ambientes, esta construção detém uma história fantástica, com direito a prisioneira na torre e assombrações fantasmagóricas. Após décadas de ocupações irregulares e predatórias, com sucessivas restaurações, a partir de 1992, o castelo se tornou o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Viana Filho.

Considerado “O Rei dos Prédios Cariocas“, o Edifício Seabra também é conhecido como o Dakota carioca, aquele edifício nova-iorquino onde morou John Lennon, e também local onde foi assassinado. Sombrio, com muitas colunas e arcos, o prédio foi construído nos anos 30 e possui 12 andares, sendo os 3 últimos reservados para formar uma cobertura tríplex (voltaram à moda hoje em dia essas coberturas tríplex…).

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Edifício Seabra, no Flamengo

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Fachada externa.

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Um dos ambientes internos.

O lançamento do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos” ocorreu a 22 de dezembro de 2015, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Situado na Rua Redentor, em Ipanema, o imóvel pertenceu ao produtor musical Guilherme Araújo por mais de 3 décadas. Uma joia preservada, repleta de história e de lembranças de festas de antigamente…

O livro contém 35 histórias de casas e prédios antigos do Rio, situados na zona Sul. São histórias e imagens apaixonantes, realizadas  por verdadeiros artistas apaixonados por esta cidade,  mostrando porque, um dia, ela foi tão maravilhosa…

Autor: Catherine Beltrão