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Um dia, 13 gatos

Em 1963, o filme tcheco “Um dia, um gato“, vencedor do prêmio do juri em Cannes, conta aos alunos de uma escola a vida de um professor, a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

Este post apresenta 13 gatos, segundo os sentimentos e as personalidades de seus criadores: nove pintores e quatro escritores.

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Desenho de Gustave Doré (1832-1883) para o conto “O Gato de Botas”.

O Gato de Botas“, de Charles Perrault (1628-1703)

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Marc Chagall (1887-1985)

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Henri Matisse (1869-1954)

Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

…………… (para saber o meio da história, clique aqui)

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.
E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…

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Pablo Picasso (1881-1973)

Impossível se falar em gatos e não citar o  Gato de Cheshire, de “Alice no país das maravilhas“, de Lewis Carroll (1832-1898).

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Aldemir Martins (1922-2006)

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Cândido Portinari (1903-1962)

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde você quer ir…”, disse o gato.
“Eu não sei para onde ir!”, disse Alice.
“Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.”

“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.
” Você não pode evitar isso”, replicou o gato.
“Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco,você é louca”.
“Como você sabe que eu sou louca?” indagou Alice.
“Deve ser”, disse o gato, “Ou não estaria aqui”.

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Di Cavalcanti (1897-1976)

Mas os gatos também cabem na poesia… Pablo Neruda (1904-1973) já sabia disso, em “Ode ao gato“:

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Frida Kahlo (1907-1954)

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Luiza Caetano (1946)

O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

E, para terminar, a delicadeza do andar sobrenatural do gato de Clarice Lispector:

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

 Autor: Catherine Beltrão

Um brinde à solidão!

Na última semana do ano, resolvi brindar à solidão. Talvez seja porque solidão rima com reflexão. E este é o momento em que se faz reflexões. Reflexões sobre o ano que passou. Reflexões sobre o ano que está por vir.

Para brindar, chamei Edward Hopper e Clarice Lispector. Eles  souberam, mais do que qualquer outro, expressar a solidão através da pintura e da literatura.

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Edward Hopper. Autorretrato, 1930.

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Clarice Lispector

Edward Hopper (1882-1967) artista americano, retratou com muita realidade a solidão dos Estados Unidos do início do século XX. Realista imaginativo, ele retratou com subjetividade a solidão urbana e a estagnação do homem. As figuras quase nunca se comunicam.

Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, sendo considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX. Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, envolvendo personagens comuns em momentos do cotidiano.

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

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“House by the railroad” – 1925. Esta obra influenciou a casa no filme “Psicose” de Alfred Hitchcock.

Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si.

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“Automat” – 1927

“...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

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“Room in New York” – 1932

Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranqüilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer… Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.”

Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas.”

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“Nighth awks” – 1942

Eu tenho que ser minha amiga, senão não aguento a solidão. Quando estou sozinha procuro não pensar porque tenho medo de de repente pensar uma coisa nova demais para mim mesma. Falar alto sozinha e para “o quê” é dirigir-se ao mundo, é criar uma voz potente que consegue – consegue o quê?

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“New York movie” – 1939

E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.”

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“New York office” – 1962

Se soubesses da solidão desses meus primeiros passos. Não se parecia coma solidão de uma pessoa. Era como se eu já tivesse morrido e desse sozinha os primeiros passos em outra vida. E era como se a essa solidão chamassem de glória, e também eu sabia que era uma glória, e tremia toda nessa glória divina primária que, não só eu não compreendia, como profundamente não a queria.

Fique de vez em quando só, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

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“Morning Sun” – 1952

E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão.

Autor: Catherine Beltrão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte

Euclides da Cunha escreveu uma das frases ícones da literatura brasileira: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Primeira edição de “Os Sertões (Campanha de Canudos)” – 1902

A obra literária “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, é considerada uma das três grandes epopeias da língua portuguesa, podendo ser comparada à “Ilíada“, assim como “Os Lusíadas” podem ser comparados à “Eneida” e “Grande Sertão: Veredas”, à “Odisseia“.

Mas, infelizmente, não são muitos os que conhecem Euclides da Cunha (1866-1909), um dos maiores nomes da literatura brasileira.  Nascido na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, ele foi um escritor, poeta, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Sua morte trágica, em que foi assassinado pelo amante da sua esposa Anna de Assis, é conhecida como a “Tragédia da Piedade“.  Até hoje o episódio permanece em discussão.

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Ilustração de O Malho feita em 1909 tenta reconstituir o tiroteio que lhe tirou a vida. (Imagem: Reprodução / original da Fundação Joaquim Nabuco)

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo em Canudos/Bahia, Euclides reuniu material que serviriam para elaborar, durante cinco anos,  “Os Sertões: campanha de Canudos“, publicado em 1902.

Abaixo, trecho da segunda parte de “Os Sertões“: O Homem

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Euclides em desenho a nanquim bico-de-pena, 16 x 13cm, por Cândido Portinari. 1944. Reprod. de Perfil de Euclydes e outros perfis, de Gilberto Freyre, p. 19.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem  ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (…)

É o homem permanentemente fatigado.”

A poesia sempre acompanhou Euclides da Cunha em toda a sua trajetória de vida conturbada. Abaixo, o soneto que escreveu em 1890, para Saninha, (Anna de Assis), sua mulher:

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Euclides a nanquin sobre papel retratado por Tarsila do Amaral. Reprod. de Arte e Pintura brasileira “apud” Diários Associados de São Paulo, [194 -].

 “Ontem, quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias…Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte…”

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Da esquerda para a direita: Anabelle Loivos, Janaína Botelho e Jane Ayrão, em mesa-redonda sobre Euclides da Cunha, na FLINF.

Escrevi este post após ter ficado inebriada com uma mesa-redonda que assisti na FLINF – Festa Literária de Nova Friburgo, no último domingo dia 16.10, intitulada “Euclides da Cunha, o poeta dos sertões“.  Três mulheres espetaculares – Janaína Botelho, Anabelle Loivos e Jane Ayrão - traçando os contornos e não contornos deste gigante de nossa literatura!

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

 Autor: Catherine Beltrão

O Jardim Botânico de Tom e de Clarice

No Dia Mundial do Meio Ambiente, não há como não pensar no Jardim Botânico. O que nos leva naturalmente a Tom Jobim e a Clarice Lispector.

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 O Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi fundado em 13 de junho de 1808. Ele surgiu de uma decisão do então príncipe regente português D. João de instalar no local uma fábrica de pólvora e um jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo. Ele abriga cerca de 6 500 espécies da flora brasileira e estrangeira (algumas ameaçadas de extinção), distribuídas por uma área de 54 hectares, ao ar livre e em estufas.

Deve-se a Clarice Lispector (1920-1977) uma das mais belas crônicas escritas tendo o Jardim Botânico como cenário: “Ato gratuito”.

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“Jardim Botânico do Rio de Janeiro”, de P. G. Bertichem, 1856.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquí­ssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar ideias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

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“Jardim Botânico”, de Paulo Gagarin. 1922, óleo sobre cartão, 23 x 33 cm

Então minha própria sede guiou-me.  Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

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“Jardim Botânico”, de Guignard.1937

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossí­vel abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raí­zes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangí­vel que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

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“Jardim Botânico”, de Georges Wambach. Aquarela, década de 40.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raí­zes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptí­vel de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saí­da.

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“Jardim Botânico no Rio”, de Henrique Cavalleiro.1965

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de aroeira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso.

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.

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“Histórias de Chico”: Tom Jobim e o Jardim Botânico. Duração: 3:41

Antonio Carlos Jobim (1927-1994) sempre foi um grande apaixonado pelo Jardim Botânico. Com o decorrer dos anos, seu nome tornou-se sinônimo de preservação do patrimônio ecológico e cultural do país e sua visão de mundo é sempre objeto de inspiração para as novas gerações. Em maio de 2001, foi criado o Instituto Antônio Carlos Jobim, dentro do Jardim Botânico, para preservar e tornar público o seu acervo, e também para desenvolver projetos educativos sobre ecologia e artes em geral.

Chico Buarque fez um depoimento emocionado sobre Tom Jobim, seu amigo e parceiro de canções. O cenário escolhido para falar da amizade não podia ser outro que não o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que Tom Jobim frequentava assiduamente, fascinado pela natureza e pelas belezas do Brasil.

Quanto a mim, o Jardim Botânico me remete a três infâncias: a minha, que aconteceu nos anos 50. Três décadas depois, eu já percorria as suas alamedas com meus filhos. Agora, construo minhas futuras lembranças do jardim com meus netos. É uma relação de amor, com certeza.

Autor: Catherine Beltrão

Os livros de nossa infância

Se partimos do pressuposto que riqueza é sinônimo de conhecimento, comecei a enriquecer desde criança. Desde os primeiros anos tive acesso a livros. E a personagens, que foram muitos. Mas, sem nenhuma dúvida, escolho dois deles, que povoaram minha imaginação infantil e minha vontade de querer saber mais e mais. Quem são? Emília e Tintim.

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Três livros da série “Sítio do Picapau Amarelo”: “Reinações de Narizinho”, “Histórias de Tia Nastácia” e “Caçadas de Pedrinho”.

Emília é uma boneca de pano falante, personagem do “Sitio do Picapau Amarelo“,  série de 23 livros escrita entre 1920 e 1947 por Monteiro Lobato (1882-1948). O Sítio é de Dona Benta, contadora de histórias e avó de Narizinho e de Pedrinho, as crianças que protagonizam todas as histórias. Tia Nastácia é a cozinheira do Sítio, um pouco medrosa mas de bom coração, a “segunda avó″ das crianças do Sítio. Entre os principais personagens, é impossível não falar também do Visconde de Sabugosa, um boneco sábio e filósofo, feito de sabugo de milho e o Marquês de Rabicó, um porquinho guloso que só pensa em comida.

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Personagens do “Sítio do Picapau Amarelo”: Emília, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e Dona Benta. Por Chico Joy.

Esta memória afetiva de minha infância é tão importante que hoje, no jardim de minha casa, estes personagens continuam presentes. O fantástico Chico Joy, o artesão-artista, é o criador das esculturas.

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“Objectif Lune”, um dos livros da coleção de histórias em quadrinhos de Tintim.

O nome Tintim (Tintin, em francês) apareceu pela primeira vez em 1929, das mãos do desenhista belga Georges Prosper Remi (1907-1983), conhecido pelo nome Hergé. Tintim é um jovem repórter, de espírito aventureiro e curioso, constantemente envolto em casos de investigação criminosa ou em conspirações políticas, dono de uma personalidade nobre, audaciosa e perspicaz. Protagonista de 23 livros de histórias em quadrinhos (vejam a coincidência com o número de livros da série do Sitio), Tintim está sempre acompanhado de Milou, seu cachorro de estimação, um fox terrier de pelo branco, muito esperto e fiel. O maior aliado de Tintim é o Capitão Haddock, arquétipo do marinheiro beberrão e rabugento, mas de bom coração. Outros personagens importantes são o Professor Girassol, o arquétipo do gênio cientista/inventor das histórias de ficção, e os gêmeos Dupondt (Dupond e Dupont), membros da Interpol, que fazem muitas investigações, a um tempo discretas e estúpidas, acumulando um grande número de acidentes.

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Tintim e seus aliados: Milou, Capitão Haddock, o professor Girassol, os gêmeos Dupond e Dupont e o mordomo Nestor. Por Chico Joy.

Alguns dos personagens de Tintim, que me acompanharam na infância, também continuam presentes no jardim de minha casa. E também criados por Chico Joy.

Monteiro Lobato e Hergé. Emília e Tintim. Uma boneca de pano falante e um repórter curioso. Dois viajantes. Do mundo e da imaginação. No meu mundo e na minha imaginação. E, com certeza, no mundo e na imaginação de milhões.

 Autor: Catherine Beltrão

A poesia do dia

Todos os dias são de poesia. Mas há dias em que a poesia chega mais perto.

Considerado o “Poeta dos Escravos“, pelo seu monumental “O Navio Negreiro“, o baiano Castro Alves (1847-1871) nasceu em um 14 de março. Em sua homenagem comemora-se neste dia o Dia da Poesia.

A duas flores” é um poema-encanto.

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Castro Alves

São duas flores unidas,
 São duas rosas nascidas
 Talvez do mesmo arrebol,
 Vivendo no mesmo galho,
 Da mesma gota de orvalho,
 Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
 Das duas asas pequenas
 De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
 Como a tribo de andorinhas
 Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
 Que em parelha descem tantos
 Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
 Como as covinhas do rosto,
 Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
 Numa eterna primavera
 Viver, qual vive esta flor.
 Juntar as rodas da vida,
 Na rama verde e florida,
 Na verde rama do amor!

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Cora Coralina

A goiana Cora Coralina (1889-1985) é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo sido seu primeiro livro publicado somente em 1965, com 76 anos de idade. Nasceu em  20 de agosto, dia em que Goiás comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

A “Mãe”  é um poema-reflexão.

Renovadora e reveladora do mundo
 A humanidade se renova no teu ventre.
 Cria teus filhos,
 não os entregues à creche.
 Creche é fria, impessoal.
 Nunca será um lar
 para teu filho.
 Ele, pequenino, precisa de ti.
 Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
 Independência, igualdade de condições…
 Empregos fora do lar?
 És superior àqueles
 que procuras imitar.
 Tens o dom divino
 de ser mãe
 Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
 Serás um animal somente de prazer
 e às vezes nem mais isso.
 Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
 Tumultuada, fingindo ser o que não és.
 Roendo o teu osso negro da amargura.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1985) é considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu em  31 de outubro, dia em que Minas Gerais comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

No meio do caminho” é um poema-vivência.

No meio do caminho tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 tinha uma pedra
 no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
 na vida de minhas retinas tão fatigadas.
 Nunca me esquecerei que no meio do caminho
 tinha uma pedra
 tinha uma pedra no meio do caminho
 no meio do caminho tinha uma pedra.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916-2014) é considerado hoje o maior ou um dos maiores poetas do Brasil. É o poeta “misturador dos sentidos“.  Nasceu em 19 de dezembro, dia em que Mato Grosso comemora o seu Dia Estadual da Poesia.

Abaixo, um de seus poemas-cósmicos. (Trecho de “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros“)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
 Não gosto das palavras
 fatigadas de informar.
 Dou mais respeito
 às que vivem de barriga no chão
 tipo água pedra sapo.
 Entendo bem o sotaque das águas.
 Dou respeito às coisas desimportantes
 e aos seres desimportantes.
 Prezo insetos mais que aviões.
 Prezo a velocidade
 das tartarugas mais que a dos mísseis.
 Tenho em mim esse atraso de nascença.
 Eu fui aparelhado
 para gostar de passarinhos.
 Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Albert Einstein

Hoje, dia 14 de março, também nasceu Albert Einstein (1879-1955). Um dos maiores físicos que já existiram, Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral e é conhecido por sua fórmula  E=mc² , certamente a equação mais famosa do mundo.  Nesse Dia Nacional da Poesia, impossível não incluir esta unanimidade científica, que certa vez, perguntado sobre qual seria a definição de luz, deu esta resposta:

“ A luz… é a sombra de Deus…”.

Autor: Catherine Beltrão

O amor em traços e versos

O amor é um tema eterno. Não há no mundo quem não tenha amado. Pra falar de amor, surgem os poetas. Pra desenhar o amor, os pintores. Pra viver o amor, qualquer um de nós.

Este post apresenta  oito textos/poemas sobre o amor, de oito escritores que amo, ilustrados com imagens de obras de Edith Blin (1891-1983), a “pintora da alma.

Amor1

“Casal em cinza”, de Edith Blin: 1973, osc, 55 X 36cm

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.”

Pablo Neruda

Amor2

“Aproximação”, de Edith Blin: 1970, osc, 49 X 37cm

“Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.”

Mario Quintana

Amor3

“Depois da Fantasia”, de Edith Blin: 1972, osc, 48 X 34cm

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis de Camões

Amor4

“Duas figuras, uma nos braços da outra”, de Edith Blin: 1977, osc, 50 X 38cm

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.”

Vinicius de Moraes

Amor5

“Inspiré de Rodin II”, de Edith Blin: 1971, osc, 52 X 39cm

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Florbela Espanca

Amor6

“Jovens do futuro”, de Edith Blin : 1978, osc, 53 X 38cm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.”

Carlos Drummond de Andrade

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“Pausa I”, de Edith Blin: 1970, osc, 52 X 38cm

Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.” (De Julieta para Romeu)

William Shakespeare

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“Casal n•5″, de Edith Blin: 1980, osc, 51 X 37cm. Esta obra participou do Nouveau Salon de Paris – CIAC, em janeiro de 1986. Após o evento, a obra desapareceu, sendo desconhecido o seu paradeiro atualmente.

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”

Fernando Pessoa

Uma nota a ser feita sobre as oito obras de Edith Blin apresentadas neste post: todas elas datam da década de 70, quando a artista tinha mais de 80 anos. É realmente fantástico o vigor e a força que transmitem, sem deixar de lado a ternura que o tema sugere…

Autor: Catherine Beltrão

Dois anos de blog: a estrada continua sendo pavimentada de Arte e Ciência

O blog ArtenaRede completa dois anos. São mais de cento e cinquenta posts, escritos com um só sentimento: Felicidade.

Neste post comemorativo, selecionei algumas frases de alguns dos textos publicados neste segundo ano. Fiquei novamente feliz em recordá-los. Quem sabe mais alguém fica feliz junto comigo…

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A mais dilacerante e contundente foto do abate da árvore mãe, eucalipto centenário da praça, ocorrido em 28.01.2015. Foto de Osmar de Castro.

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Retrato de Ivan Beltrão, por Edith Blin. Aquarela, déc. 50.

As imagens não são de uma catedral de pedra. Ou mesmo de uma catedral mais moderna, feita de cimento ou acrílico. Mas continuam sendo imagens de um templo. A casa principal de Deus. Neste texto, o templo é de árvores centenárias, a Catedral de Eucaliptos da praça Getúlio Vargas, situada no centro da cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro“. Post: “Imagens de uma Catedral“, publicado em 15.02.2015.

Quando eu tinha 17 anos, escrevi uma poesia para meu pai. Ela falava de pássaro e de árvore, de céu e de universo. E de um deus“. Post: “Meu pai: pássaro, árvore, universo e deus“, publicado em 08.08. 2015.

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“A Negra”, de Tarsila do Amaral – 1923, ost, 100 X 81,3cm

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Extraído do filme “O Pequeno Príncipe”, de Mark Osborne

Ser mulher é uma bênção. Ser artista é um dom. Ser artista mulher é uma dádiva. Ser artista mulher que pinta o feminino é extrapolar bênçãos, dons e dádivas“. Post: “Mulheres em pincéis femininos“, publicado em 07.03.2015.

Nascemos, começamos a crescer e nos tornamos crianças. Primeiras frustações.  Crescemos mais um pouco e passamos pela adolescência. Primeiras desilusões. O tempo passa e nos tornamos adultos. Com responsabilidades e deveres. Com metas a alcançar e críticas a suportar. Mas, para alguns de nós, permanecem ilhas da infância e da juventude em nossos corações e mentes. E é para lá que nos refugiamos nos momentos de angústia e seriedade demasiada. Os caminhos para estas ilhas?” Post: “O Pequeno Príncipe e DiertidaMente: duas pérolas“, publicado em 03.09.2015.

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Niède Guidon

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“Diego Rivera e Frida Kahlo”, de Luiza Caetano. 2002, ast. Obra doada pela autora para o Museu ArtenaRede.

O Parque Nacional da Serra da Capivara não pode fechar. O Brasil não pode perder este patrimônio histórico mundial. Não houve terremoto por aqui. Nem tsunami. Ou será que está havendo alguma coisa mais devastadora do que terremotos e tsunamis? Por que nossas imensas riquezas estão sendo desvalorizadas? Pra quê? Alguma coisa precisa ser feita. Pelo Brasil. Por nós, brasileiros. Os verdadeiros.” Post: “Niède Guidon: a Saga da Serra da Capivara“, publicado em 19.07.2015.

As Fridas de Luiza. Feridas e luzes. Frida e Luiza. Kahlo e Caetano. Duas mulheres que são oceanos. Ou universos. Na emoção e na expressão.” Post “As Fridas de Luiza“, publicado em 12.07.2015.

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“A Virgem Velada”, Giovanni Strazza. Cerca de 1850.

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“The Lovers”. Foto de Beth Moon.

Nada se aproxima mais do mistério não revelado do que a transparência marmórea. Daí a pureza sugerida nas esculturas.” Post “Transparências marmóreas“, publicado em 01.11.2015.

A Lua, há milhares de anos, viu nascer estas árvores. Que cresceram, vendo a Lua aparecer e se esconder, ano após ano. Que envelheceram, sentindo o ritmo da Lua, como as marés. Um dia, elas morrerão. Ou melhor, serão abatidas. Como milhões de outras. Moon, a fotógrafa, eterniza estas árvores.” Post “Lua eterniza árvores milenares“, publicado em 07.02.2015.

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“Campo de trigo com ceifeiro e Sol”, de 1889. Pintado quando van Gogh estava internado no sanatório de Saint-Rémy.

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Bornay, com uma de suas resplandecentes fantasias… alguém lembra o nome dela?

Van Gogh era fascinado pelos astros. Sol, Lua, estrelas. Procurava a luz à sua volta. Talvez para iluminar o seu interior sombrio. Ele precisava de todas as luzes da natureza para fazer germinar a natureza da sua Arte.” Post “O Sol na obra de Van Gogh“, publicado em 03.05.2015.

A cidade de Nova Friburgo continua esperando um museu, um memorial que seja, homenageando Clovis Bornay, um de seus filhos mais ilustres e, certamente, o que mais realizou para tornar o Carnaval a festa mais exuberante do planeta!” Post “Clovis Bornay, a Arte no Carnaval“, publicado em 11.01.2016.

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“Maternidade”, de Picasso. 1905.

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Uma das esculturas queimadas no “Burning Man”

Colhi meia dúzia de obras do Jardim de Mães de Picasso. Fiz um buquê. E ofereço este buquê a todas as mães que, por um acaso qualquer, feliz ou infeliz, estiverem lendo este post. O perfume fica no meu colo. Colo de mãe.” Post “As mães de Picasso“, publicado em 08.05.2015.

Uma obra, uma vez criada, não pertence mais ao artista. Ela pertence ao mundo. E ao futuro. Só cabe ao homem virar cinzas. E pó. Não cabe às suas criações virarem cinzas. Nem pó.” Post “A arte do Burning Man“, publicado em 25.10.2015.

Uma comemoração com a lembrança de uma dúzia de textos. Difícil escolher filhos em uma prole…

Autor: Catherine Beltrão

No Dia do Poeta, a poesia de todos os dias…

Todos os dias, quando abro a porta de casa, dou de cara com o Jardim dos Poetas. Meu jardim e meus poetas: Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana e Cecília Meireles.

Fernando Pessoa chega até a alma da gente, arranca as cordas e os cadeados, pega a alma nas mãos e sopra, tira a poeira acumulada. Aí, a alma fica solta, limpa… e feliz. Como ele consegue fazer isso? Mas, não, ele só faz isso se a gente deixa. Eu deixo.

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos. Ao clicar na imagem, você acessa o post “Luiza e Fernando, DNA de almas”

HÁ UM TEMPO

Há um tempo em que é preciso
Abandonar as roupas usadas,
Que já têm a forma do nosso corpo,
E esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre  aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia.
E, se não ousarmos fazê-la,
Teremos  ficado,para sempre,
À margem de nós mesmos…

Vinicius de Moraes me abriu as portas da poesia e, assim sendo, tive acesso ao infinito. “Para viver um grande amor” e “Para uma menina com uma flor” tiveram suas páginas lidas e relidas, em desordem é claro, porque a gente não lê Vinicius como se lê um romance, a gente lê como se estivesse mergulhando em mar profundo: entre um mergulho e outro, é preciso voltar à superfície, pra saber que o mundo ainda está lá. Lendo e sentindo Vinicius, lá nas profundezas azuis, entre corais e estrelas deitadas na areia, a gente vira concha grávida.

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Retrato de Vinicius, feito por Cândido Portinari

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

A poesia do Carlos Drummond me encontrou já adulta, a contar desamores e lágrimas gastas. Não a considero leitura para iniciantes, ávidos de luas cor de prata ou de corações aprendizes. Precisei ter caminhado na esteira do tempo vivido para absorvê-la como é preciso. E como é preciso devorar estas palavras, este jeito de ser e de se transmitir poeta…

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Retrato de Drummond, feito por Cândido Portinari

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Com o Mário Quintana, a poesia se torna meio-sorriso, meio-espanto. Com poucas palavras, ele brinca com a expectativa do lugar-comum, da coisa estabelecida. É um deleite colecionar seus poemetos (poemas pequenos, não poemas menores), para serem lidos em momentos incertos. Pois nos momentos certos, a gente não se espanta com nada.

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Caricatura de Mario Quintana, por Ziraldo

POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

AUTORRETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore…

Cecília Meireles escreveu poesia para as crianças. Poucos sabem que crianças são poesia em sua essência, antes de se transformarem em seres lógicos e coerentes. Ela sabia. Ler um poema seu é dar um banho na alma, escovando e esfregando bem as reentrâncias formadas pelas rugas que os anos deixaram.

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Autorretrato de Cecília Meireles. Ao clicar na imagem, você acessa o post “As três orquídeas de Edith e de Cecília”

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Para quem quiser saber mais sobre meu Jardim dos Poetas, acesse aqui.

  Autor: Catherine Beltrão

As três orquídeas de Edith e de Cecília

Um tanto quanto difícil foi escolher o tema do primeiro post do ano que se inicia. Percorri algumas alternativas e resolvi me decidir por flores, e mais especificamente, as orquídeas de Edith Blin (1891-1983) e de Cecília Meireles (1901-1964).

Já escrevi sobre As flores de Edith neste blog. Naquele texto, eu já tinha apresentado uma das suas orquídeas, a obra “Orquídea, rosas e violão“.

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“Orquídea, rosas e violão”, ost, 73 X 60cm, 1952.

Edith pintou somente três obras com orquídeas, ou melhor, com uma orquídea.  Amarela. E as três obras foram pintadas em 1952.

Infelizmente, não conheço a história destas obras. Mas, com certeza, sua criação deve ter sido motivada por uma linda história. Me atrevo a dizer que foi uma única história, pois a flor é única e a data também.

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“Orquídea amarela com rosas I”, ost , 70 X 70cm, 1952

Também sei que Edith, frequentemente, transformava sua emoção em pinturas. E quando recebia flores que a emocionavam, ela pintava sua emoção. Deve ter sido o caso. E a emoção deve ter sido grande, pois pintou três vezes a mesma flor…

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“Orquídea amarela com rosas II”, ost, 56 X 42cm, 1952

 

As três orquídeas de Cecília Meireles não eram amarelas. Eram brancas. E perfumaram seu último poema, escrito no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, em agosto de 1964…

“As três orquídeas”

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Cecília Meireles

As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.

Que dia? que dia? dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E aspira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.

As flores sempre inspiraram  artistas, pintores e poetas. Ou qualquer um que tenha alma sensível como os artistas, pintores e poetas. E é com esta inspiração em forma de pintura-orquídea e poema-orquídea que brindo o ano de 2015 com você, amiga e amigo leitor!

Autor: Catherine Beltrão