Arquivo da categoria: História

Quatro histórias

Algumas vezes em minha vida eu comprei Arte. Não é fácil. Pois o associar dinheiro a algo que nos é sublime nos deixa desconfortáveis. Preciso sempre de duas  histórias. Uma história de antes da aquisição e uma história da aquisição. E, é claro, sempre vai existir uma terceira história, a de depois da aquisição.

As histórias mais significativas se relacionam a compras de obras diretamente de quem as fez. Do artista. Sem intermediários, seja de galerias, marchands ou leilões. Neste post, vou citar três. Três histórias.

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Submersão”, de Píndaro Castelo Branco. Ost. Detalhe.

A primeira é a obra “Submersão“, do pintor Píndaro Castelo Branco. Já conhecia a obra do artista desde os anos 70 e já tinha comprado algumas obras com seu marchand  Cláudio Gil. Mas um dia fui conhecer o atelier do pintor. Logo ao entrar, uma obra se apossou de mim: “Submersão”.  Pertencia ao seu acervo particular. Não estava à venda. Mesmo assim, ousei perguntar qual valor a obra poderia custar. Ouvi um preço bastante alto, sobretudo para o meu padrão de renda na época. Não hesitei. Fiz a oferta. Após instantes de apreensão e ansiedade mútuas, eu havia comprado a obra, submersa em intensa felicidade. Uma verdadeira conquista!

Aqui neste blog, já escrevi um post sobre o artista: “Píndaro, uma tatuagem na alma“.

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“Marinha”, de Azamor. Ost.

A segunda obra é do artista Azamor. Silvio Azamor de Oliveira. É um artista conhecido por suas marinhas, feitos em pequenos pedaços de madeira. Eu já havia adquirido em leilões alguns daqueles “pedaços de mar”, quando um dia fui conhecer o seu atelier, situado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Lá, soube que ele havia desmontado um imenso armário e cortado em minúsculos pedaços para poder ter um suporte e pintar suas marinhas. Mas lá, encontrei também uma tela maior, totalmente glamurosa, com uma marinha soberba. Paixão ao primeiro olhar. Comprei.

A terceira e quarta história tiveram Van Gogh como fio condutor.

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“Van Gogh”, escultura de Chico Joy.

Há anos os personagens criados pelo artista Chico Joy percorrem minha casa. E meu jardim. Músicos, cientistas, pintores povoam salas e quartos. Poetas e escritores deixam seus versos e prosas nos canteiros do “Jardim dos Poetas“. Mas neste ano uma escultura me arrebatou: a de Vincent van Gogh. Impressionante a riqueza de detalhes e de sentimentos expostos em tão pouca matéria. Bendita seja a minha paixão pelas Artes!

Também escrevi um post (aliás, mais de um… ) neste blog sobre Chico Joy: “Chico Joy, o artesão que faz arte“.

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Releitura de “Noite Estrelada”, de Van Gogh. Por Miguel Arruda. Acrílica e nanquim sobre papel canson.

A quarta e quinta obra são uma aquisição recente. Ainda estou me acostumando. Sim, porque quando se compra uma obra, é preciso se acostumar. É mais uma paixão em nossa vida. É mais um pedaço deste quebra-cabeças gigantesco de relação com a Arte que a gente vai montando pela vida afora. Então, as obras são releituras das famosíssimas “Noite Estrelada” e “Lírios” de Vincent van Gogh. Um primor. Pertence à coleção “Impressões sobre Van Gogh“, feita pelo artista e engenheiro Miguel Arruda. Já tinha visto parte desta coleção em sua casa em Botafogo, no ano passado. Fiquei tão encantada que escrevi na ocasião um post de mesmo nome: “Impressões sobre Van Gogh“.

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Releitura de “Lírios”, de Van Gogh, por Miguel Arruda. Acrílica e nanquim sobre papel canson.

Aí, nesta semana ele resolveu vender as obras. Minha decisão foi instantânea. Vejo curvas de nível nas estrelas, nas montanhas, no cipreste.  Nas flores. Um primor e um esplendor. Aliás, dois primores, dois esplendores.

  Autor: Catherine Beltrão

Fazenda Colubandê: História, Arte,Tragédia e Descaso (Parte I)

A Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. Marco da arquitetura colonial brasileira, a sua história começou no século XVII, quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século XVIII, tornando-se a propriedade uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região. Sua construção data provavelmente de 1618.

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Fazenda Colubandê. Foto de Isabela Kassow/Diadorim Ideias, em 2012

Em 1713, a fazenda foi confiscada pela Inquisição e seus donos presos levados para Portugal para julgamento pelo Santo Ofício. O engenho foi entregue aos jesuítas onde sofreu sérias mudanças devido a nova religião atuante.

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Poço interno da Fazenda Colubandê

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Conversadeiras na varanda, ainda intactas. 2012.

A casa grande possui 28 cômodos interligados, construída em adobe de barro cozido e argamassa de conchas moídas e óleo de baleia, tendo sido construída em torno de um poço do século XVII, de acordo com a tradição judaica, e não segue um estilo padrão, pois foi sendo reformada ao gosto de cada dono. O teto tem estilo oriental, as janelas mostram influência da época de Luís XV e o entorno da varanda possui 16 colunas em estilo grego-romano, com conversadeiras entre cada coluna. O casarão foi construído em estilo barroco e conta com quatro cômodos no subsolo, onde ficavam as senzalas que abrigavam os escravos.

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Painel de azulejos portugueses, junto ao altar-mor da Capela de Sant’Anna. Foto de Claudio Prado de Mello, em 2014.

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Retábulo barroco do Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em 2014.

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Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em janeiro de 2017, após os saques e o vandalismo

A casa-sede foi erguida ao lado da capela de Sant’Anna, de estilo jesuítico e características mouras na parte de cima. Datada também de 1618, foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat. Passou por reformas em 1740, quando foram instalados nas paredes da capela-mor dois painéis de azulejos portugueses Alentejanos em estilo barroco-rococó. Um mostra a imagem de Sant’Ana, mãe da Virgem Maria, ensinando-a a ler e outro retrata o pedido de casamento de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Cristo.

Próximo à casa principal, na antiga área de lazer existe um mural em homenagem às mulheres assinado pela artista plástica Djanira, da década de 1960. Há também o Bosque da Saudade, construído em 2006, onde cada árvore representa um policial morto em defesa do meio ambiente.

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Restos da piscina nos jardins abandonados, com painel de Djanira. 2017.

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Vídeo da Fazenda Colubandê. 2012, ainda sob a guarda do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar de São Gonçalo.

Em 1969, o antigo chão de madeira foi trocado pelo atual, de tijolo de barro. O conjunto arquitetônico da casa e fazenda foi tombado pelo IPHAN em 1940 e pelo INEPAC em 1965. Atualmente está abandonada e estava sob responsabilidade do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar até 2012.

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Vídeo de 2015, mostrando a Fazenda Colubandê abandonada, mas ainda possuindo o retábulo na Capela de Sant’Anna.

Diante de toda a sua importância histórica, cultural e arquitetônica (sendo um dos únicos imóveis no Brasil com arquitetura setecentista preservada localizada em área urbana) a Fazenda está literalmente abandonada e largada a sua sorte, sendo alvo constante de vandalismo e a partir de 2016, de saques .

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Baner da chamada do Ato Público em favor da sensibilização pelo patrimônio representativo da Fazenda Colubandê

No próximo dia 25 de março, o historiador e arqueólogo Claudio Prado de Melo, um dos organizadores pelo movimento SOS Fazenda Colubandê, estará promovendo um Ato Público representativo, com apresentação de várias atividades. Entre elas, será encenada a peça teatral chamada O AUTO DE FÉ DA SANTA INQUISIÇÃO E A FAZENDA COLUBANDÊ, que reunirá grande elenco formado de 49 pessoas, entre elas a atriz Maria Luiza Faveri. O espetáculo, com Direção Artística do Prof. Jó Siqueira, mostrará como se processaram os acontecimentos na Fazenda Gonçalense nos séculos XVII e XVIII e terá um final surpreendente, com uma grande revelação histórica .

Neste relato, não sei o que é maior: se a esplêndida arquitetura colonial da Fazenda, se a arte do barroco-rococó do interior da capela, se a tragédia provocada pelos saques e vandalismo ou se o total descaso das autoridades competentes, ambos ocorridos desde 2013.

Autor: Catherine Beltrão

Jogos Olímpicos: Olímpia, pancrácio, discóbolo e Coubertin

Entrada do estadio de Olimpia

Entrada do estádio de Olímpia

 

Não se sabe ao certo quando começaram os Jogos Olímpicos.  Mas, com toda certeza, foram os gregos da Antiguidade que deram ênfase às práticas do esporte e ao culto da exuberância e perfeição física, sendo eles os primeiros que edificaram um local específico para competirem entre si: a cidade de Olímpia. Registra-se o primeiro dos jogos em 776 a.C., que passou a ser o marco inicial do calendário grego. Os Jogos Olímpicos da Antiguidade foram realizados até o século V d.C.

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Estádio de Olímpia

As pistas literárias e arqueológicas encontradas indicam que os jogos derivaram dos jogos fúnebres que os guerreiros gregos organizavam entre si em homenagem a um heroico companheiro morto em combate.

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Pintura em vaso grego

Um dos melhores relatos desses jogos fúnebres existentes na literatura grega foi deixado por Homero (Ilíada, Canto XXIII). Aquelas páginas registram todos os jogos que se travavam naquela época: a corrida de bigas, a luta de murros, a luta-livre, a corrida de velocidade, o choque do gládio, o lançamento de peso, de dardo e o arco e flecha. Com o passar do tempo outras variações foram acrescentadas: corrida à longa distância, competições com carros puxados por potros, éguas, cavalos ou mulas, mas, basicamente, as modalidades eram sempre as mesmas. A vitória olímpica valia muito mais que a vitória de uma guerra. A época dos Jogos Olímpicos era considerada sagrada, jurando todos os combatentes obedecerem a uma trégua. Era o momento em que as armas descansavam, mas as pernas, os corpos, as mãos e os músculos, se mexiam.

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Lutadores de pancrácio

Introduzido durante a 33° Olimpíada em 648 a. C., pancrácio era uma espécie de vale-tudo da antiguidade, tendo a reputação de ser a modalidade mais violenta de luta. O nome vem da palavra grega pankratòs, que significa “com toda a força”. O pancrácio era uma mistura de luta com boxe (pugilismo), enquanto que na luta um oponente para vencer precisava derrubar o seu adversário, no pancrácio o combate se encerrava somente quando um dos competidores se rendia levantando o indicador para o alto. Não havia limite de tempo: Callia de Atenas, em 472 a.C., foi declarado vencedor depois de um combate que durou um dia inteiro e concluído somente no final da noite. O estrangulamento era permitido. Eram proibidos somente arranhões e mordidas, apesar dos espartanos admitirem tais “golpes”.

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O Discóbolo, de Míron

Possivelmente a estátua de desportista em movimento mais famosa do mundo, o Discóbolo é de autoria do escultor grego Míron, em torno de 455 a.C., e representa um atleta momentos antes de lançar um disco. Com o passar do tempo, muitas cópias foram realizadas desta escultura . A influência do Discóbolo sobre a cultura, em especial do ocidente, ainda é grande nos dias de hoje. É uma das imagens mais publicadas na literatura sobre esportes, educação física e fisiculturismo, um dos mais conhecidos ícones da atual cultura do corpo. Fisiculturistas ainda regularmente incluem a pose do Discóbolo em suas exibições, também um ícone popular na tradição da fotografia do corpo masculino.

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Barão de Coubertin

O advento das Olimpíadas modernas teve como palco, em 1896, também na Grécia, a partir da ação de Charles Freddy Pierre, mais conhecido como Barão de Coubertin. A partir de então, exceto nos anos em que o mundo esteve envolvido nas Guerras Mundiais, a cada 4 anos a chama olímpica é acesa em um novo país e atletas de diferentes nacionalidades e modalidades se envolvem numa intensa disputa pelo pódio e medalhas oferecidas aos vencedores.

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Medalha de ouro a ser entregue aos melhores atletas de cada modalidade, nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro

Os Jogos Olímpicos de 2016 estão sendo realizados na cidade do Rio de Janeiro, com cerca de 10.000 atletas participantes, em dezenas de diferentes modalidades esportivas com centenas de eventos. Os finalistas do primeiro, segundo e terceiro lugar de cada evento recebem medalhas olímpicas de ouro, prata e bronze, respectivamente.

E que venham as medalhas, Brasil!

Autor: Catherine Beltrão

Arte da lama de Mariana

Em 5 de novembro de 2015, ocorreu a maior tragédia ambiental brasileira, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG, liberando 55 milhões de metros cúbicos de lama e minérios que varreram parte do município. 19 pessoas morreram e duas ainda continuam desaparecidas. Mas o pior legado foi o que sobrou da tragédia. Histórias e registros perdidos para sempre, vidas sem passado, comunidades sem futuro. Terras e águas atravessando parte do país, envenenadas até o oceano.

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Rastros da lama me árvores de Mariana. Foto de Alex Takaki.

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Um dos retratos feitos por Tolentino, com a lama de Mariana. Vídeo do projeto “A Arte Nunca Esquece”. Duração: 1:50

Mas A Arte Nunca Esquece. Este é o nome do projeto criado pela Panamericana Escola de Arte e Design, trazendo de volta ao debate público a tragédia de Mariana. O artista plástico Marcelo Tolentino visitou a região coberta pela lama e conheceu as histórias de quem perdeu tudo na maior tragédia ambiental ocorrida no Brasil. A lama que devastou a cidade foi transformada em arte sob a forma de retratos das vítimas de Mariana.

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Outdoor em rua de Brasília, sobre o projeto “A Arte Nunca Esquece”.

Mas o projeto está indo além. Para que a obra chegasse ao público certo, os retratos estão sendo expostos nas ruas de Brasília, numa espécie de exposição a céu aberto, próxima ao Congresso Nacional. Assim, os políticos que estiveram ausentes nas duas sessões da Comissão Parlamentar da Câmara dos Deputados que, em março, discutiriam o caso de Mariana, ambas canceladas por falta de quórum, estão sendo lembrados da tragédia que nunca sairá da memória de suas vítimas. Fonte de informações: clique aqui.

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Instalação de Haroon Gunn-Salie, representando parte dos destroços de uma casa soterrada pela lama de Mariana.

Outro projeto envolvendo a tragédia de Mariana é o intitulado “Agridoce“, com instalações do artista sul africano Haroon Gunn-Salie. Ele foi ver de perto o local do desastre, tendo passado um mês no que sobrou do lugar soterrado em novembro de 2015. Diz Haroon: “Uma questão que todo mundo pensava era o som da lama. Ninguém consegue descrever muito bem, mas pessoas se lembram do barulho líquido, pedaços de bambu se quebrando, o grito dos bichos”. Ele conta que primeiro tentou comprar as ruínas da casa agora na exposição, mas acabou ganhando os destroços de uma moradora que fazia questão que o mundo visse de perto o que aconteceu ali. Informações sobre a exposição: clique aqui.

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Fotografia de Christian Cravo, do livro “Mariana”.

O livro recém-lançado “Mariana“, com fotografias de Christian Cravo, no instituto Tomie Ohtake/SP, também traz lembranças da lama da tragédia ocorrida há pouco mais de seis meses. O fotógrafo trouxe para o livro a cor avermelhada do minério de ferro e o ocre do barro que cobriu toda a cidade mineira. Suas fotos retratam os vestígios de vida no meio da lama: um sapato de mulher, um fogão, pedaços de móveis. “Não é preciso mostrar a desgraça carnal para narrar o drama humano. Você pode mostrar todo o drama sem a confusão, o desespero, a tristeza da carne.” Mais fotos, clique aqui.

Retratos, outdoors, instalações, livros.  Alguns dos primeiros registros artísticos desta monumental tragédia, que jamais poderá ser esquecida.

Autor: Catherine Beltrão

Era uma vez uma gruta

Era uma vez uma gruta.

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Av. Niemeyer, anos 20. Foto de Augusto Malta.

Em 1916, foi inaugurada a Av. Niemeyer. Em 1920, o Rio de Janeiro recebeu a visita do Rei Alberto, da Bélgica. Por este motivo, a Niemeyer foi praticamente reinaugurada. Foi alargada, asfaltada e teve suas curvas ampliadas pelo então prefeito, Engenheiro Paulo de Frontin. Durante essa reforma, numa das curvas da avenida, foi construído um viaduto que teve em seu nome uma homenagem ao  Rei Alberto.

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Gruta da Imprensa, anos 20. Foto de Augusto Malta.

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Corrida das “baratinhas” passando na Av. Niemeyer, com jornalistas assistindo na Gruta da Imprensa. Foto de 1937.

Em 1922, o prefeito Alaôr Prata abriu a “Gruta da Imprensa”, que nada mais era do que um platô na Avenida Niemeyer onde ficavam os jornalistas da época que faziam a cobertura das corridas automobilísticas de rua. O trajeto dessas corridas ficou conhecido como “Circuito da Gávea” ou “Trampolim do Diabo”.  As largadas se davam próximo ao antigo Hotel Leblon, que ficava no início da Niemeyer, passavam pela “Gruta da Imprensa”, seguiam pela “Rocinha” (que na época sequer sonhava em ter o atual tamanho), e voltava pela Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. A ideia do “Circuito da Gávea” foi de Francisco Serrador (o dono do famoso Hotel Serrador no Centro da cidade, próximo ao Passeio Público), em co-parceria com o “Touring Club do Brasil”, e só acabou em 1954.

Até onde foram minhas pesquisas na Internet, só encontrei um artista que tivesse pintado a Gruta da Imprensa: Anita Malfatti (1889-1964).

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“Gruta da Imprensa”, de Anita Malfatti.

Anitta Malfatti é um dos grandes nomes da Semana de Arte Moderna de 1922.  São dela as palavras, após visita a uma exposição na Alemanha: “ Fiquei infeliz porque a emoção não era de deslumbramento, mas de perturbação e de infinito cansaço diante do desconhecido. Assim passei semanas voltando diariamente ao Museu de Dresde. Em Berlim continuei a busca e comecei a desenhar. … Tudo é resultado da luz que os (objetos) acusa, participando de todas as cores. Comecei a ver tudo acusado por todas as cores. Nada nesse mundo é incolor ou sem luz.”

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Ciclovia Tim Maia, pós-desabamento, junto à Gruta da Imprensa. Foto de Custódio Coimbra, em 21 de abril de 2016.

Hoje a Gruta da Imprensa está de luto. O recente episódio do desabamento de parte da Ciclovia Tim Maia, junto à gruta, deixou mortos e desaparecidos. Tentarão colocar a culpa nas ondas. Mas o mar nunca é o culpado. O mar tem sua força que, muitas vezes, é subestimada. O mar será sempre maior que o homem. Cabe ao homem curvar-se e respeitá-lo.

Autor: Catherine Beltrão

A lenda do tesouro do Morro do Castelo

Para os que não sabem, o Morro do Castelo era um antigo morro que foi demolido em 1921-1922 e situava-se no centro da Cidade do Rio de Janeiro, no local da atual Esplanada do Castelo, entre a Avenida Rio Branco (oeste), Rua Santa Luzia (oeste), Rua da Misericórdia (leste) e São José (norte).

Para quiser saber um pouco da história do Morro, continue lendo. Para quem quiser ir direto pra lenda do tesouro, vá para o final do post…

Um pouco da história do Morro…

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Detalhe de uma pintura de Thomas Ender, 1817. À direita a Rua da Misericórdia. Ao fundo o Morro do Castelo, onde se vê no centro a Igreja de Santo Inácio e o Colégio dos Jesuítas. O arco ao lado da igreja era o arco-cruzeiro da Igreja nova dos Jesuítas; à direita, a Fortaleza de São Sebastião.

Até chegar a ter este nome, o Morro do Castelo chamou-se Morro do Descanso, Morro de São Januário, Morro do Alto da Sé,  Morro do Alto de São Sebastião e, por fim, Morro do Castelo. O Morro foi berço primitivo da capital do império do Brasil, e assim se encontra ele designado em algumas memorias de documentos antigos. Com uma altitude em torno de 60 metros, o Morro tinha um topo relativamente plano que permitia construções.

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Pintura de Johann Jacob Steinman, 1839. Vê-se o topo do Morro do Castelo. À
esquerda vê-se a torre da Igreja de Santo Inácio e parte do Colégio dos Jesuítas; o arco ao lado da igreja era o arco-cruzeiro da Igreja nova dos Jesuítas. À direita a Igreja de São Sebastião. Vista de noroeste para sudeste.

O Morro do Castelo era o único que tinha uma vista ampla da  entrada da Baía de Guanabara, além da proximidade com a ilha de Villegagnon, onde os franceses haviam fundado a França Antártida. O Morro estava cercado por pântanos e lagoas, sendo portanto, um promontório quase insular, dificultando o seu acesso, logo facilitando a sua defesa.

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Morro do Castelo, detalhe da pintura de Jan Frederik Schutz (1813-1888), No alto do Morro do Castelo, à esquerda, a Igreja de Santo Inácio e Colégio dos Jesuítas; o arco ao lado da igreja era o arco-cruzeiro da Igreja nova dos Jesuítas. Ao fundo as 2 torres da Igreja de São Sebastião; à direita a Fortaleza de São Sebastião com o semáforo. Em baixo, à direita o Paço Imperial e o Chafariz de Mestre Valentim, na Praça XV. Vista de norte para sul.

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Detalhe de outro quadro do Centro visto da Ilha das Cobras, Eugene Ciceri, 1852. À esquerda, Santa Tereza com o Convento de Santa Tereza. Em seguida a Lapa onde se aparece atrás do casario os Arcos da Lapa. Depois há a Igreja de Santa Luzia com a Praia de Santa Luzia (atual rua Santa luzia). O grande edifício com cúpula na praia é a Santa Casa da Misericórdia. Depois temos a Ponta do Calabouço com o Forte de São Tiago (atual Museu Histórico Nacional). No alto do Morro do Castelo, à esquerda Igreja de São Sebastião e, à direita, a Igreja de Santo Inácio e o Colégio dos Jesuítas; na extrema direita a Fortaleza de São Sebastião com o semáforo. Vista de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

No final do século XVI, com o rápido crescimento da cidade, a população começava a descer o Morro do Castelo e a ocupar a chamada Várzea, área plana compreendida entre os outros três morros (morro de São Bento, morro de Santo Antônio e morro da Conceição) que delimitavam, junto com o do Castelo, a cidade no período colonial. A partir do século XVII, a Colina passou a perder influência diante do comércio marítimo crescente, que transformou o porto e as imediações da atual praça XV em centro administrativo e econômico do Rio colonial.

Com a expulsão da Ordem dos Jesuítas em 1759, durante o governo de Marques de Pombal, as propriedades jesuíticas no Morro do Castelo foram doadas à Santa Casa de Misericórdia. Desde o século XVIII, o Morro do Castelo foi alvo de inúmeros pareceres técnicos ligados aos campos da medicina e da engenharia. Segundo esses pareceres, o arrasamento dessa Colina era vital para a melhoria do clima e da circulação dos ventos na área central do Rio de Janeiro. O Morro contribuía segundo os técnicos, com a propagação das epidemias que assolavam os cariocas e amedrontavam os estrangeiros.

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Estudo para Panorama do Rio de Janeiro, Victor Meirelles, c.1885. No alto do Morro do Castelo, à esquerda a Fortaleza de São Sebastião, no centro o Colégio dos Jesuítas e à direita a Igreja de São Sebastião.

Em 1846 foi criado o Observatório Astronômico no Morro do Castelo, adaptando-se para seu uso parte da estrutura inacabada da igreja nova e do Colégio dos Jesuítas.

O arrasamento do morro do Castelo iniciou-se em novembro de 1920, com a instalação de uma máquina escavadora que foi utilizada na demolição do morro do Senado, na área que corresponde hoje a atual rua México. Entretanto, o arrasamento do Morro custou uma fortuna para a cidade. Somente com banqueiros americanos e holandeses, a prefeitura contraiu uma dívida externa próxima de 24 milhões de dólares. Foram demolidos quatrocentos e sessenta prédios, cuja desapropriação ocorreu sem nenhuma reclamação. Das 408 edificações existentes no morro em 1921, que abrigavam aproximadamente 4.200 pessoas, 338 tinham um pavimento. Só a chácara da Floresta, um conjunto de casas, vilas e cortiços, situado na face do morro fronteira à Avenida Rio Branco, tinha 1.043 moradores. Para os residentes do Morro do castelo, o desmonte do morro produziu um impacto extraordinário, forçando a mudança de residência. Suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía da Guanabara.

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Morro do Castelo, pintura de Eliseu Visconti, 1909. Observa-se uma encosta do Morro.

 

A lenda do tesouro…

A lenda do morro do Castelo refere-se a um fabuloso tesouro oculto em galerias secretas em suas entranhas pelos Jesuítas em tempos coloniais. Por ser uma ordem rica, os jesuítas talvez tivessem guardado os seus tesouros nas galerias, gerando lendas e curiosidades entre a população carioca. A expulsão dos jesuítas do Morro do Castelo gerou muitas lendas na população. Tesouros teriam sido enterrados nos seus lendários subterrâneos durante o rápido despejo dessa Ordem. É interessante frisar que essa lenda foi absorvida inclusive pelas classes dirigentes, a ponto que as possíveis riquezas lá encontradas serviriam como garantia às empresas que estivessem a serviço do desmonte. Essa visão, aceita por grande parte da população, acabou contribuindo para legitimar o arrasamento. Originada talvez à época das invasões francesas de 1710 e 1711, tal crença ganhou força a partir da expulsão da Ordem do Brasil, em 1759, por determinação do Marquês de Pombal. A lenda foi explorada em fins do século XIX por nomes consagrados na literatura Brasileira como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo (autor de “A Morerinha“) e Lima Barreto.

E então? O que atrai mais você? Continuar a pesquisa histórica sobre o Morro do Castelo ou tentar achar o suposto tesouro?

Os textos históricos e as imagens deste post foram extraídas do blog Histórias e Monumentos.

Autor: Catherine Beltrão

Pinturas históricas: Independência, Liberdade e Indignação

O 7 de setembro é uma data histórica para o Brasil. Dia que marca o fim do domínio português e a conquista da autonomia política do país. Dia em que se comemora a Independência do Brasil.  Aí pensei na obra de Pedro Américo, “O Grito do Ipiranga“. Mas logo me vieram à cabeça mais duas obras históricas, de extrema importância: “A Liberdade Guiando o Povo“, de Eugène Delacroix e “Guernica“, de Pablo Picasso. É sobre estas três obras que escrevo este post. Independência, Liberdade e Indignação.

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“O Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo. 1888, ost, 415 X 760cm

A obra “O Grito do Ipiranga” foi encomendada ao pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905) pelo governo de D. Pedro II para exaltar D. Pedro I e rememorar o nascimento da nação e do Império Brasileiro.

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Pedro Américo

De dimensões monumentais, a tela impressiona pela pujança garbosa da cena, ostentando imponentes cavalos e vistosos personagens da Guarda Imperial, todos ao redor da figura central, o herói e jovem guerreiro D. Pedro empunhando a espada e gritando “Independência ou Morte!”. Mas basta estudar um pouco a história brasileira e saber que nunca existiu esta cena de fato. Os cavalos, na verdade, eram jumentos e mulas. À época, a Guarda Imperial não existia. E a parada de D. Pedro às margens do Ipiranga se deveu aos problemas intestinais que precisavam ser rapidamente resolvidos. Mas era preciso deixar um registro épico da importância do momento. E isto foi feito através desta magnífica obra de Pedro Américo. Não importa se totalmente fidedigna. Isto é detalhe. Para saber um pouco mais sobre esta obra, clique aqui.

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“A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix. 1830, ost, 260 X 325cm

“A Liberdade Guiando o Povo” (“La Liberté guidant le peuple”) é uma pintura de Eugène Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, com a queda de Carlos X.

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Eugène Delacroix

Eugène Delacroix (1799-1863) é considerado o mais importante representante do romantismo francês. Numa carta ao seu irmão de 12 de outubro de 1830, época em que pintou a obra, ele escreveu: “O meu mau humor está desaparecendo graças ao trabalho árduo. Embarquei num tema moderno – a barricada. Mesmo que não tivesse lutado pelo meu país, pelo menos pinto-a“.  Na obra, a Liberdade pode ser vista tanto como figura alegórica de uma deusa como uma mulher robusta do povo. A bandeira francesa empunhada nas mãos de uma liberdade determinada, impressiona até hoje os que dedicam alguns minutos a contemplar esta fantástica tela. Para quem quiser uma análise mais profunda desta obra, vale a pena acessar este vídeo (em francês).

Como curiosidade, a pintura inspirou a Estátua da Liberdade, em Nova York, que foi dado para os Estados Unidos como um presente dos franceses, 50 anos depois do quadro ter sido pintado…

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“Guernica”, de Pablo Picasso. 1937, painel a óleo, 349 cm X 776 cm

Guernica” é um painel pintado por Pablo Picasso em 1937 por ocasião da Exposição Internacional de Paris. Foi exposto no pavilhão da República Espanhola.

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Pablo Picasso

Pablo Picasso (1881-1973) fez esta obra profundamente indignado com a barbárie ocorrida pelo bombardeio sofrido pela cidade espanhola de Guernica por aviões nazistas, em 26 de abril de 1937, apoiando o ditador Francisco Franco. O desejo do artista era despertar nas pessoas que apreciariam a pintura o repúdio à guerra. A pintura, feita em estilo cubista e utilizando somente as cores preto, branco e tons de cinza,  remetem à morte, à guerra e à destruição. Mas, por outro lado,  algumas figuras como o touro, a flor e a lamparina traduzem alguma esperança nos dias que virão.

A obra permaneceu muito tempo em Paris. Picasso pediu que o quadro só voltasse à Espanha quando o país novamente fosse uma democracia. Hoje “Guernica” encontra-se no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri.

Neste ano de 2015, os esboços e desenhos que levaram à produção, em menos de dois meses, do painel gigante “Guernica” estiveram presentes na megaexposição “Picasso e a Modernidade Espanhola“, realizada no CCBB de São Paulo e, mais recentemente, do Rio de Janeiro.

Autor: Catherine Beltrão