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Reciclando arte

Jongmans

Vídeo sobre a artista Suzanne Jongmans

Suzanne Jongmans nasceu em 1978, na cidade de Breda, na Holanda. É holandesa, como o foram artistas como Rembrandt, Jan van Eick e Johannes Vermeer.

Suzanne é uma artista interdisciplinar. Ela é escultora, costureira, figurinista e fotógrafa. Formou-se em Desenho Têxtil e Fotografia e,  desde cedo, ela era intrigada pelos pequenos detalhes. E são eles, exatamente, que tornam sua obra tão cativante.

Suzanne recriou, em fotografias, as pinturas de grandes mestres holandeses, além de outros mestres do renascimento como o alemão Holbein e o belga Rogier van der Weyden.

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Obra de Suzanne Jongmans

Para fazer cada fotografia, ela cria o figurino da personagem utilizando materiais inusitados como embalagens, plástico, isopor e cobertores reciclados.

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Obra de Suzanne Jongmans, baseado em detalhe da obra de Jan van Eick, “Retrato de Giovanni Arnolfini e a mulher dele”.

É incrível o resultado. Só é possível perceber o uso do material quando se olha realmente de perto, com um olhar mais analítico.

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Obra de Suzanne Jongmans

Ela explica:

Quando você presta atenção nos quadros dos grandes mestres, percebe o quão trabalhosos eles eram”, diz a artista. “E é exatamente este mesmo método que empreguei, que demanda tempo”.

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Obra de Suzanne Jongmans

As fotografias de Suzanne Jongmans dão vida nova a resíduos descartados. Segundo ela, sua intenção é que esses materiais “contem uma história”. A série de imagens é chamada de “Mind
over Matter” (“Mente sobre matéria“).

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Obra de Suzanne Jongmans

A ideia de criar algo do nada muda nosso olhar sobre a realidade”, afirma. “Um pedaço de plástico com texto impresso, usado para embalar uma máquina de café ou uma televisão, pode parecer um pedaço de seda. E a tampa de uma lata de molho de tomate pode parecer um anel”.

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Obra de Suzanne Jongmans, baseada em “Retrato de uma dama”, de Rogier van der Weyden

E foi o que fez a fotógrafa em de seus trabalhos, colocando uma tampa de uma lata de tomate no dedo de uma de suas personagens, em contraponto ao anel usado pela personagem de “Retrato de uma Dama”, de Rogier van der Weyden, de 1460. “As duas jovens separadas por cerca de meio milênio, posam de maneira semelhante com os dedos entrelaçados e rostos com expressões modestas e olhos castigados. Eles também compartilham os enfeites de cabeça em forma de cone plissados e visivelmente presos. A diferença está nas marcas vermelhas e pretas do retrato contemporâneo estampadas na espuma, instruções sobre reciclagem e avisos”, ela explica.

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Obra de Suzanne Jongmans

O que surpreende na obra de Suzanne Jongmans é que, apesar de o material ser reciclado, as roupas são muito delicadas. Ela transforma plástico em tecido, rendas e drapeados. Lenços de cabeça parecem feitos de seda e o plástico bolha vira uma  linda gola e mangas de um vestido. E bolinhas de isopor flutuam no ar como um véu…

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Obra de Suzanne Jongmans

Quando a arte é nossa estrela guia, transformamos um descarte em parte de uma noite estrelada… lembrando de outro mestre holandês, Vincent van Gogh!

Fonte: clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Chuva e reflexos, pinturas e fotos

Quando a chuva cai na cidade, duas coisas costumam penetrar na alma das pessoas: o som dos pingos tocando os guarda-chuvas abertos e a cor que se espalha dos reflexos dos prédios produzidos no chão.

Dois artistas contemporâneos captaram, de forma singular, estes reflexos provocados pela chuva urbana: o pintor britânico Nathan Walsh, cujos trabalhos mais parecem fotografias e o fotógrafo russo Eduard Gordeev, cujas fotos mais parecem pinturas…

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“Times Square”, de Nathan Walsh. 2014 – ost – 170 X 254,2cm

Os trabalhos de Nathan Walsh já foram expostos nos principais museus de Zurique, Paris, Londres e Nova York.

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“Times Square”, de Nathan Walsh, ainda em construção.

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“Chicago in the rain”, de Nathan Walsh. 2012 – ost – 129 X 183cm

Seu estilo hiper-realista faz uso da fotografia como base para seus trabalhos, acrescentando recursos mecânicos ou ópticos para transferir a imagem fotográfica para a técnica de retículas para ampliação da imagem. O resultado alcançado é uma maior minúcia dos detalhes e uma alta definição geral da imagem, que torna os objetos representados aparentemente mais palpáveis e concretos, com uma ilusão de realidade maior do que a própria fotografia.

Walsh passou 8 meses pintando os detalhes intrínsecos da praça mais famosa do Mundo, a “Times Square“.

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“Central Camera”, de Nathan Walsh. 2012 – ost – 69,5 X 103cm

No extremo oposto, temos Eduard Gordeev, que trata suas fotos ao estilo impressionista, brincando com as cores e as luzes como as obras que conhecemos de Monet ou Renoir.

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Foto de Eduard Gordeev.

Gordeev gosta muito de fotografar cenas urbanas em dias chuvosos.

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Foto de Eduard Gordeev.

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Foto de Eduard Gordeev.

Morando em São Petersburgo, na Rússia, são famosas as fotos que o artista faz desta cidade, em dias e noites de chuva. Tratando cuidadosamente as fotografias, esfumaçando silhuetas de prédios e monumentos com os seus respectivos reflexos nas poças de água existentes nas ruas e avenidas, nosso olhar é induzido a confundir seus trabalhos com pinturas impressionistas.

Chuva, reflexos, pinturas e fotos… caminhos que artistas trilham à nossa frente, para podermos, mais tarde, encantar nossas mentes e acalentar nossos corações.

 Autor: Catherine Beltrão

Três fotos

Pouco sei sobre fotografia. Mas sei que, em qualquer lista de maiores fotógrafos do mundo, três nomes estão sempre presentes: Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau e Sebastião Salgado.

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Henri Cartier-Bresson

Henri Cartier-Bresson (1908-2004) foi um fotógrafo do século XX, considerado por muitos como o pai do fotojornalismo. Cartier-Bresson era filho de pais de classe média, relativamente abastada. Na Segunda Guerra Mundial, Bresson serviu o exército francês, foi capturado pelos nazistas e levado para um campo de prisioneiros de guerra. Tentou por duas vezes escapar e somente na terceira obteve sucesso. Juntou-se à Resistência Francesa em sua guerrilha pela liberdade. Tornou-se também o primeiro fotógrafo da Europa Ocidental a registrar a vida na União Soviética de maneira livre. Fotografou os últimos dias de Gandhi e os eunucos imperiais chineses, logo após a Revolução Cultural.

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Foto: Henri Cartier-Bresson

Eis o pensamento de Bresson: “Tirar uma fotografia significa reconhecer – simultaneamente e em uma fração de segundos – o fato em si e os elementos visuais que formam seu significado. É colocar a cabeça, os olhos e o coração e alguém no mesmo eixo.”

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Robert Doisneau

Robert Doisneau (1912-1994) era um apaixonado por fotografias de rua, registrando a vida social das pessoas que viviam em Paris e em seus arredores. Também trabalhou em fotografias para publicações em revistas, assim como a famosa fotografia “O Beijo do Hotel de Ville” (Paris, 1950). Foi agraciado como Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra , recebido em 1984. Fez cerca de 450.000 fotos.

 

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“Amour et barbeles-Tuileries”, 1944. Foto: Robert Doisneau.

Assim se expressava Doisneau sobre o seu trabalho: “Fotografo para mostrar que o mundo em que gostaria de viver existe.”

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Sebastião Salgado

Sebastião Salgado (1944) é internacionalmente reconhecido e recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como reconhecimento por seu trabalho. Fundou em 1994 a sua própria agência de notícias, “As Imagens da Amazônia” .

De 1993 a 1999, ele voltou sua atenção para o fenômeno global de desalojamento em massa de pessoas, que resultou em “Êxodos” e “Retratos de Crianças do Êxodo”, publicados em 2000 e aclamados internacionalmente.

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Foto: Sebastião Salgado

Na introdução de Êxodos, escreveu Salgado: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”.

 Autor: Catherine Beltrão

Arte da lama de Mariana

Em 5 de novembro de 2015, ocorreu a maior tragédia ambiental brasileira, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG, liberando 55 milhões de metros cúbicos de lama e minérios que varreram parte do município. 19 pessoas morreram e duas ainda continuam desaparecidas. Mas o pior legado foi o que sobrou da tragédia. Histórias e registros perdidos para sempre, vidas sem passado, comunidades sem futuro. Terras e águas atravessando parte do país, envenenadas até o oceano.

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Rastros da lama me árvores de Mariana. Foto de Alex Takaki.

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Um dos retratos feitos por Tolentino, com a lama de Mariana. Vídeo do projeto “A Arte Nunca Esquece”. Duração: 1:50

Mas A Arte Nunca Esquece. Este é o nome do projeto criado pela Panamericana Escola de Arte e Design, trazendo de volta ao debate público a tragédia de Mariana. O artista plástico Marcelo Tolentino visitou a região coberta pela lama e conheceu as histórias de quem perdeu tudo na maior tragédia ambiental ocorrida no Brasil. A lama que devastou a cidade foi transformada em arte sob a forma de retratos das vítimas de Mariana.

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Outdoor em rua de Brasília, sobre o projeto “A Arte Nunca Esquece”.

Mas o projeto está indo além. Para que a obra chegasse ao público certo, os retratos estão sendo expostos nas ruas de Brasília, numa espécie de exposição a céu aberto, próxima ao Congresso Nacional. Assim, os políticos que estiveram ausentes nas duas sessões da Comissão Parlamentar da Câmara dos Deputados que, em março, discutiriam o caso de Mariana, ambas canceladas por falta de quórum, estão sendo lembrados da tragédia que nunca sairá da memória de suas vítimas. Fonte de informações: clique aqui.

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Instalação de Haroon Gunn-Salie, representando parte dos destroços de uma casa soterrada pela lama de Mariana.

Outro projeto envolvendo a tragédia de Mariana é o intitulado “Agridoce“, com instalações do artista sul africano Haroon Gunn-Salie. Ele foi ver de perto o local do desastre, tendo passado um mês no que sobrou do lugar soterrado em novembro de 2015. Diz Haroon: “Uma questão que todo mundo pensava era o som da lama. Ninguém consegue descrever muito bem, mas pessoas se lembram do barulho líquido, pedaços de bambu se quebrando, o grito dos bichos”. Ele conta que primeiro tentou comprar as ruínas da casa agora na exposição, mas acabou ganhando os destroços de uma moradora que fazia questão que o mundo visse de perto o que aconteceu ali. Informações sobre a exposição: clique aqui.

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Fotografia de Christian Cravo, do livro “Mariana”.

O livro recém-lançado “Mariana“, com fotografias de Christian Cravo, no instituto Tomie Ohtake/SP, também traz lembranças da lama da tragédia ocorrida há pouco mais de seis meses. O fotógrafo trouxe para o livro a cor avermelhada do minério de ferro e o ocre do barro que cobriu toda a cidade mineira. Suas fotos retratam os vestígios de vida no meio da lama: um sapato de mulher, um fogão, pedaços de móveis. “Não é preciso mostrar a desgraça carnal para narrar o drama humano. Você pode mostrar todo o drama sem a confusão, o desespero, a tristeza da carne.” Mais fotos, clique aqui.

Retratos, outdoors, instalações, livros.  Alguns dos primeiros registros artísticos desta monumental tragédia, que jamais poderá ser esquecida.

Autor: Catherine Beltrão

A Enseada de Botafogo de Marc Ferrez

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Marc Ferrez

Marc Ferrez (1843-1923) foi um fotógrafo franco-brasileiro e  retratou cenas dos períodos do Império e início da República, entre 1865 e 1918, sendo o seu trabalho  um dos mais importantes legados visuais daquelas épocas.  As obras de Ferrez  retratam o cotidiano brasileiro na segunda metade do século XIX, principalmente da cidade do Rio de Janeiro. Há fotos da ilha das Cobras, da floresta da Tijuca, da praia de Botafogo, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre outras. Em homenagem ao aniversário da cidade do Rio de Janeiro, que ainda irá esperar 49 anos para comemorar os seus quinhentos, resolvi apresentar neste post algumas fotos bastante antigas da enseada de Botafogo, bairro em que morei por mais de vinte anos.

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Vista panorâmica da enseada de Botafogo, c. 1885

O primeiro nome da Praia e da Enseada de Botafogo foi Le Lac (O Lago), denominação dada pelos franceses. A seguir, passou a ter o nome de Francisco Velho que foi companheiro de Estácio de Sá e, em 1641, passou a chamar-se Botafogo, depois que nela foi morar João Souza Pereira Botafogo, dono de uma fazenda que se estendia da praia até a Quinta de São Clemente.

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Praia de Botafogo, em 1889. Ao fundo, o Corcovado sem o Cristo Redentor, cujo início da construção data de 1926.

No século XIX, Botafogo era um bairro nobre de uma cidade imperial, o Rio de Janeiro, capital do Estado do Brasil desde 1763.

Até o século XVIII, o caminho para se chegar ao bairro era de lanchas (bem diferentes das atuais) e de ônibus de tração animal. As lanchas atracavam em três locais, mas o mais importante era próximo à Rua São Clemente. A ligação entre a praia e a Lagoa Rodrigo de Freitas era o Caminho da Lagoa, depois chamado de Rua Berquó, atualmente Rua General Polidoro. No século XIX, o bairro passou a ter inúmeras chácaras e se tornou o preferido pelos estrangeiros, principalmente os ingleses.

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“Baie de Botafogo”, c. 1890.

O maior divertimento do bairro eram corridas de cavalos.  A primeira iniciativa desse gênero foi promovida por ingleses, na Praia de Botafogo, em 1825. Esportes náuticos também atraíam bastante o público. São de 1849 as primeiras regatas em Botafogo. Em 1870, até um corso se fazia, à tarde, das 5 às 6, nessa mesma Praia de Botafogo.

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Avenida Beira Mar, em Botafogo. 1906.

Marc Ferrez é considerado, junto a outro fotógrafo, Augusto Malta, um dos mais brilhantes cronistas visuais das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX, quando também registrou imagens das transformações decorrentes da reurbanização empreendida pelo prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos. Sua vasta e abrangente obra se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo.

Botafogo. Nos dias de hoje, bairro de passagem. Para os que não o escolheram como morada ou local de trabalho. Mas Botafogo continua sendo um bairro nobre.  Mesmo sem pertencer a uma cidade imperial.

Autor: Catherine Beltrão

O antigo que permanece

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Capa do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos”

 

Acaba de ser publicado, pela Gaps Editora, o belo livro “Rio – Casas e Prédios Antigos“, com textos de Rafael Bokor e fotografias de Milena Leonel e Renan Olivetti. Primoroso. Uma viagem pelo tempo e pelos caminhos sensíveis representados nos escritos e nas imagens, que se complementam como peças de um quebra-cabeças de histórias de vida…

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Hall de entrada do Edifício Brasil, em Copacabana

A maioria dos prédios incluídos no livro datam dos anos 30 e 40 e seguem o estilo art déco. Como a impressionante entrada do Edifício Brasil, situado na Rua Fernando Mendes, em Copacabana. Quase todo em mármore, ornamentado com lustres e arandelas de ferro, quantos não terão se imaginado príncipes e princesas, ao atravessar este “hall de palácio“…

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Castelinho do Flamengo

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Castelinho do Flamengo – escadaria interna

Quem nunca ouviu falar do “Castelinho do Flamengo“? Datado de 1918, possuindo 3 andares e 31 ambientes, esta construção detém uma história fantástica, com direito a prisioneira na torre e assombrações fantasmagóricas. Após décadas de ocupações irregulares e predatórias, com sucessivas restaurações, a partir de 1992, o castelo se tornou o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Viana Filho.

Considerado “O Rei dos Prédios Cariocas“, o Edifício Seabra também é conhecido como o Dakota carioca, aquele edifício nova-iorquino onde morou John Lennon, e também local onde foi assassinado. Sombrio, com muitas colunas e arcos, o prédio foi construído nos anos 30 e possui 12 andares, sendo os 3 últimos reservados para formar uma cobertura tríplex (voltaram à moda hoje em dia essas coberturas tríplex…).

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Edifício Seabra, no Flamengo

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Fachada externa.

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Um dos ambientes internos.

O lançamento do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos” ocorreu a 22 de dezembro de 2015, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Situado na Rua Redentor, em Ipanema, o imóvel pertenceu ao produtor musical Guilherme Araújo por mais de 3 décadas. Uma joia preservada, repleta de história e de lembranças de festas de antigamente…

O livro contém 35 histórias de casas e prédios antigos do Rio, situados na zona Sul. São histórias e imagens apaixonantes, realizadas  por verdadeiros artistas apaixonados por esta cidade,  mostrando porque, um dia, ela foi tão maravilhosa…

Autor: Catherine Beltrão

Duas damas da Arte em Nova Friburgo

Hoje o foco é na cidade onde moro. Na Arte da cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. E neste mês de julho, esta arte se concentra no lugar-mor dos expositores, a Usina Cultural Energisa, no centro da cidade, bem em frente à Praça Getúlio Vargas, ou melhor, ao que restou da Catedral de Eucaliptos, após o abate de dezenas de árvores centenárias em janeiro passado. Mas voltemos ao foco.

Entre os dez expositores da Expoação, estão Adair Costa e Rose Aguiar, duas artistas de longa data, uma pintora e outra fotógrafa. Duas grandes damas que respiram e fazem brotar a arte do cotidiano, das pequenas e não pequenas coisas vivenciadas ou imaginadas.

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Rose Aguiar, com quatro de suas foto-artes.

Conheci Rose Aguiar faz pouco tempo. Suas foto-artes encantam o olhar e intrigam a mente. Enquanto alguns tentam fazer da arte uma fotografia, Rose caminha no sentido inverso, transformando fotos em arte. A partir de objetos e elementos reais, os espaços que surgem são quase abstratos, quase anamórficos.

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Rose Aguiar, com um tríptico foto-arte.

Extremamente bela a sua proposta e totalmente genuíno o seu propósito.  Paisagens urbanas vistas através de vidraças “enchuvaradas” nos deixam de alma lavada… assim como vidros coloridos engavetam cada um de nossos pensamentos!

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Adair Costa, com um de seus “Recortes urbanos”

Conheci Adair Costa em 2002, quando ela doou a obra “Silêncio” para o Museu ArtenaRede.

Como ela mesma define seu trabalho, é uma feliz mistura do real com o imaginário. A partir de alguns elementos reais, a imaginação elabora o resto…  “O artista já vive diariamente pensando como vai elaborar o seu trabalho”.

Na presente Expoação, Adair apresenta três “Recortes urbanos“, com acrílica sobre tela. Adair Costa atravessa uma fase de colorido intenso e provocante, que nos conduz também a um imaginário alegre e de bem com a vida. Sua arte contemporânea, contrariamente à maioria, não choca nem agride. Ela embala nossos sonhos e fantasias. Simples assim. E isso é fantástico!

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Adair Costa, com mais dois trabalhos da série “Recortes Urbanos”

 

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“Silêncio”, de Adair Costa. 2001, técnica mista, 100 X 100cm

Falei da obra “Silêncio“, doada ao Museu ArtenaRede. Aí está ela. E assim falava Adair Costa, em 2002: “Hoje, meu trabalho parte de exercícios de concentração. Deixo surgir livremente a sensibilidade para idéias que vão tomando corpo através de desenhos mentais. Assim sendo, prossigo caminhando para uma ação ( no caso da tela) onde vão se construindo e tomando forma imagens, através da apropriação de materiais e tintas que são cuidadosamente estudados, com vistas ao papel de interrelação, interação e transformação no tempo, dando origem a obras, sem a preocupação de identidades  pré-estabelecidas, mas com características de Abstração Informal.”

 Autor: Catherine Beltrão

Imagens de uma catedral

As imagens não são de uma catedral de pedra. Ou mesmo de uma catedral mais moderna, feita de cimento ou acrílico. Mas continuam sendo imagens de um templo. A casa principal de Deus. Neste texto, o templo é de árvores centenárias, a Catedral de Eucaliptos da praça Getúlio Vargas, situada no centro da cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro.

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Praça Princesa Isabel, final dos anos 60 do século XIX. Acervo Digital Castro.

Assim nasceu a praça Getúlio Vargas, nos anos 60 do século XIX. Ainda se chamava praça Princesa Isabel e não havia eucaliptos. Somente poucas araucárias que foram cortadas no final dos anos 20, do século XX, para propiciar o alargamento e a pavimentação da rua.

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Praça XV de Novembro, nos anos 20 do século XX. Acervo Digital Castro.

Algumas décadas depois, no início dos anos 20 do século XX, assim era a praça Getúlio Vargas, na época com o nome XV de Novembro.  Nesta foto podemos observar os eucaliptos já plantados, dividindo os canteiros com as centenárias araucárias, antes da implantação dos jardins projetados pelo renomado engenheiro e paisagista francês Auguste Glaziou, em 1881, o mesmo idealizador do projeto da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, também no final do século XIX.

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Praça Getúlio Vargas, nos anos 70 do século XX. Acervo Digital Castro.

Mais algumas décadas se passaram e no início dos anos 70 do século XX, assim era a praça Getúlio Vargas, com canteiros e alamedas de eucaliptos que, a esta altura, já eram quase centenários… Por esta razão, o conjunto arquitetônico e paisagístico da praça foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1972.

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Praça Getúlio Vargas, já no século XXI, poucas semanas antes da tragédia de janeiro de 2015. Foto de Osmar de Castro.

Acima, a foto é colorida, grande parte dos eucaliptos já é centenária, a Catedral de Eucaliptos se mostra em sua magnitude, mas… já não há mais bancos, prenunciando, talvez uma tragédia. Em 17 de janeiro de 2015, inicia-se o abate dos eucaliptos centenários da praça Getúlio Vargas. Motivo para o abate? O foco do texto não é para discussão.

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Árvore mãe. Foto de Osmar de Castro.

A árvore mãe, o mais antigo eucalipto centenário, ainda está de pé. Uma flor vermelha a seus pés,  parece ser a última prece antes do abate.

Quantas luas terão iluminado seus galhos? Quantos dias de sombra as folhas destes mesmos galhos refrescaram as gerações que passaram? Quantas de suas flores encantaram os que perto delas simplesmente caminharam? E… quantas pessoas irão se lembrar desta árvore mãe?

Seguindo o abate de vários outros eucaliptos da Catedral, em 28 de janeiro, após horas de tortura, a mais nobre e antiga árvore centenária da praça tombou.

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A mais dilacerante e contundente foto do abate da árvore mãe, eucalipto centenário da praça, ocorrido em 28.01.2015. Foto de Osmar de Castro.

Mais um janeiro negro na cidade de Nova Friburgo. Em 2011, a maior tragédia climática brasileira. Morros deslizaram, casas foram soterradas, centenas de pessoas morreram. Nenhuma árvore da Catedral dos Eucaliptos caiu. Pelas mãos de Deus. Em 2015, parte do templo tombou. Foram abatidas dezenas de árvores centenárias. Pelas mãos do homem.

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Praça Getúlio Vargas, com parte da Catedral de Eucaliptos abatida. Janeiro de 2015. Foto: autor desconhecido.

Parte da Catedral ainda respira. Ainda dá sombra e flores. Ainda serve de pouso a pássaros e luares. Ainda guarda lembranças de gerações passadas e presentes. Até quando?

Para engrenar a emoção, assista este vídeo: o antes e o agora da Catedral, a tortura do abate da árvore mãe, os tratores, os troncos sadios, os pássaros, os abraços.

Fonte: Acervo Digital Castro, com fotos de Osmar de Castro.

Autor: Catherine Beltrão

Lua eterniza árvores milenares

Lua, em português.  Moon, em inglês.

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Beth Moon

Beth Moon, fotógrafa americana, passou 14 anos documentando árvores milenares, ainda existentes em algumas partes do mundo.  Muitas destas árvores sobrevivem e puderam ser fotografadas porque estão longe da civilização, em montanhas afastadas, parques estaduais ou terras protegidas. O resultado desta longa caminhada está registrado no livro “Árvores Antigas: Retratos do Tempo” (“Ancient Trees: Portraits of Time”).

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Dragoeiro

O dragoeiro é uma espécie de crescimento lento nativa do arquipélago de Socotra, em frente à costa da África Oriental. A famosa resina vermelha que dá nome ao dragoeiro (ou árvore do dragão) escorre da casca, quando o tronco da árvore sofre um ‘ferimento’.  A resina é usada como colorante e também tem propriedades medicinais, que foram descobertas e registradas pelos gregos e romanos antigos.

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“Avenida de Baobás”

Os baobás são facilmente reconhecíveis por seus troncos inchados. Encontradas naturalmente em áreas secas de Madagascar, em países africanos e na Austrália, estas árvores acumulam grandes quantidades de água para sobreviver aos períodos de seca.

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“Majesty”

Uso basicamentre três critérios para escolher determinadas árvores: idade, um tamanho muito grande ou história notável. Eu pesquiso as localizações por uma série de métodos: livros de história, livros botânicos, registros e árvores, matérias de jornais e informações de amigos e de viajantes“, diz a fotógrafa.

 

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“The Lovers”

Altivos como os maiores e mais antigos monumentos vivos da Terra, acredito que essas árvores simbólicas vão assumir uma importância maior, especialmente num momento em que o nosso foco for direcionado para encontrar melhores maneiras de viver com o meio ambiente”, disse Moon.

O aspecto da idade, algumas árvores tendo mais de 4.000 anos, foi o que me intrigou.  À medida que  eu fotografava estas árvores e aprendia mais sobre suas histórias, percebi que muitas de nossas mais velhas árvores estão desaparecendo com uma taxa alarmante e então seria importante registrá-las para a posteridade.”

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“O grande cedro vermelho do Oeste”

Eu não imagino uma maneira melhor de comemorar a vida destas mais dramáticas árvores antigas do mundo, muitas das quais apresentando perigo de serem abatidas, do que exibindo seus retratos.”

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“Kapok” – Mafumeira ou sumaumeira (como é conhecida no Brasil)

Embora já tenha feito parte do post “Pensando em árvores“, publicado recentemente, é impossível não inserir novamente neste post o poema “Árvores Antigas“, de Olavo Bilac:

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“The Much Marcle Yew”

Olha estas velhas árvores, mais belas
 Do que as árvores novas, mais amigas:
 Tanto mais belas quanto mais antigas,
 Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
 Vivem, livres de fomes e fadigas;
 E em seus galhos abrigam-se as cantigas
 E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
 Envelheçamos rindo! envelheçamos
 Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
 Agasalhando os pássaros nos ramos,
 Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Moon, em inglês. Lua, em português.

A Lua, há milhares de anos, viu nascer estas árvores. Que cresceram, vendo a Lua aparecer e se esconder, ano após ano. Que envelheceram, sentindo o ritmo da Lua, como as marés. Um dia, elas morrerão. Ou melhor, serão abatidas. Como milhões de outras.

Moon, a fotógrafa, eterniza estas árvores.

 

Fontes: http://www.bethmoon.com
http://www.boredpanda.com/ancient-tree-photography-beth-moon/

  Autor: Catherine Beltrão