Arquivo da categoria: Fauvisme

Os barcos de meu pai (versão infantil)

Meu pai era pintor.
Pintava barcos.
Barcos coloridos.

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“Barco colorido em fundo preto”, ost.

Alguns eram barcos tristes.
Outros pareciam mais alegres.
Mas todos eram encantados.

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“Barco colorido em fundo branco”, ost.

Um dia ele pintou dois barcos
com um céu todo preto.
Devia ser de noite.

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“Dois barcos”, ost.

E foi de noite que ele pintou
um barco chamado “Thamar
ouvindo a música de uma estrela.

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“Thamar”, ost.

Passou mais um dia
e ele pintou vários barcos
apostando corrida.

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“Corrida de barcos”, ost.

Teve também um dia
Em que ele pintou um cais
e do barco dava pra ver um cidade.

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“Cais”, ost.

E em outro dia de tempestade de neve
ele pintou uma vela
com as cores do arco-iris.

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“Vela”, ost

E você?
Que tal você também pintar um barco?
Ou dois? Ou talvez três?
Podia ser um barco todo colorido…
Ou dois barcos à noite…
Ou quem sabe, uma corrida de barcos…

Autor: Catherine Beltrão

Palhaços e Cristos de Georges Rouault

Rouault

Georges Rouault

Georges Rouault (1871-1958), o mais importante artista cristão do século XX, nasceu em Paris, em um 27 de maio. Eu também. Na mesma cidade. No mesmo dia. Mas muitos anos depois… Este foi o motivo que me levou a escrever este post. Nesta semana.

Na foto ao lado, Rouault em seu atelier. Parece mais um cozinheiro em sua cozinha, preparando um banquete. Cada obra, um prato. Que será posteriormente degustado. Ou devorado. Pelos olhos. Pelos corações. Pelas mentes. Por isso mesmo, suas obras serão perenes. Contrariamente aos pratos de um banquete.

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“Pierrots bleus au bouquet”, 1946

Georges Rouault ocupa um lugar singular entre os artistas do século XX. Contemporâneo do Cubismo, do Expressionismo e do Fauvismo, ele nunca reivindicou  pertencer a um desses movimentos.

Rouault_1907

“The clown”, 1907

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“Clown tragique”, 1911

Frequentemente catalogado como pintor religioso, Rouault é antes de mais nada independente.  Não é num contexto abstrato que ele encontra sua inspiração, mas na realidade mais imediata e na espiritualidade mais elevada. Georges Rouault  é um pintor que não precisa de personagens religiosos para que suas obras estejam impregnadas de um caráter sagrado.

Georges Rouault trabalhou sem interrupção, com extrema dedicação, durante quase 70 anos. Esta é a razão de sua obra ser tão vasta e variada, tanto no que diz respeito à técnicas utilizadas quanto aos temas abordados. Mas alguns temas são recorrentes, como os palhaços e os cristos.

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“Le vieux clown”, 1930

Rouault, que sempre repudiou a definição de “arte sacra” aplicada à sua obra, iniciou a carreira como pintor de vitrais, antes de estudar pintura na École des Beaux Arts como aluno de Gustave Moreau.

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“Christ et docteur”, 1937

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“Cruxifixion”, 1937

Sua amizade com Léon Bloy, escritor de temas religiosos, reafirmou-o na fé católica, inspirando-lhe a composição de temas de conteúdo social. Assim, entre 1902 e 1917, ganharam forma em guaches e aquarelas as séries de palhaços, prostitutas, juízes e cenas de tribunais, nas quais o pintor parece sobrepor-se à fealdade dos modelos por meio de uma pincelada enérgica e de tonalidades sombrias.

Na década de 1910, Rouault dedicou-se à execução de obras de tendência monumental (como o ciclo Guerre et Misère, pintado entre 1917 e 1927, mas que só em 1948 seria conhecido pelo público). Realizou seguidamente diversos cenários para os Ballets Russes de Serguei Diaguilev.

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“Christ on the lake”

No final dos anos 20, retomou os temas clássicos, baseados em figuras de palhaços, pierrôs, mulheres, assim como em cenas do suplício de Cristo e do Antigo Testamento, impregnadas de uma sensibilidade mística e dolente. O cromatismo foi gradualmente adquirindo luminosidade, com contrastes extremos e contornos negros que recordavam a técnica do vitral.

Cristos e palhaços. O que levou Rouault a escolher estes personagens em suas criações? Talvez tentasse encontrar o humano do palhaço em Cristo ou o divino do Cristo em um palhaço…

 Autor: Catherine Beltrão

Os barcos de meu pai

“Hoje entendo bem meu pai…”. Esta é a primeira frase que encontramos no site de Amyr Klink. Mas poderia também estar no site de Ivan Beltrão, meu pai.

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Amyr Klink

Amyr Klink (1955) é um navegador brasileiro que ficou conhecido por ter feito viagens ao redor do mundo, como da Antártica ao Ártico. Amyr tem em seu currículo mais de 2500 palestras proferidas, no Brasil e exterior, ao longo de mais de 30 anos como palestrante.

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Ivan Beltrão, em 1955

Ivan Beltrão (1923-1979). Um pintor. Um poeta. Um cientista. Um gênio. Meu pai. Como pintor, meu pai usou cores para expressar suas emoções e preto e branco para desvendar seus mistérios. Seus barcos são imensos abrigos coloridos que transportam a imaginação de quem os contempla para os mares da fantasia.

Neste post, as textos em itálico são de Amyr Klink. As imagens dos barcos são de obras de Ivan Beltrão (Ivan Blin, como assinava).

 

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“Barco colorido em fundo escuro”, de Ivan Blin. 1960.

Pior que não terminar uma viagem é nunca partir.

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“Vela”, de Ivan Blin. 1970.

 Um homem precisa viajar.
 Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv.
 Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
 Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
 Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
 Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
 Um homem precisa viajar para lugares que não conhece
para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.
 Que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

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“Barcos”, de Ivan Blin. 1970.

O mar não é um obstáculo: é um caminho.
 Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.

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“Dois barcos”, de Ivan Blin. Déc. 70.

Passados dois meses de tantas histórias, comecei a pensar no sentido da solidão.
 Um estado interior que não depende da distância…
 Nem do isolamento; um vazio que invade as pessoas…
 E que a simples companhia ou presença humana não pode preencher.
 Solidão foi a única coisa que eu não senti, depois que parti…Nunca…Em momento algum.
 Estava, sim, atacado de uma voraz saudade.
 De tudo e de todos, de coisas e de pessoas que há muito tempo não via.
 Mas a saudade às vezes faz bem ao coração.
 Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias.
 Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão;
poderá morrer de saudade…Mas não estará só!

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“Thamar”, de Ivan Blin. Déc. 60.

Descobri como é bom chegar quando se tem paciência.
 E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão.

Há 37 anos, meu pai se juntou à estrelas, com as quais já tinha partilhado noites e noites de vigília, pintando telas ou escrevendo poesia e ciência. Tanto era o conhecimento que transmitia, que foram muitos seus discípulos de alma e sabedoria. Tanta era a luz que dele irradiava, que deve ser agora uma das luzes-guia do Universo, a servir de norte para seus navegantes errantes… (texto retirado do site www.ivanbeltrao.com).

Autor: Catherine Beltrão