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Arte a partir de livros

Ah, os livros! Fonte de nossa alma, onde sempre podemos beber, seja com sofreguidão ou delicadeza, os pensamentos de nossos pares…

Hoje conheci mais um artista. Mike Stilkey. Um artista californiano que cria sua arte ao amontoar e pintar livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como assim? Ele não lê os livros? Não sei. Só sei que ele cria incríveis “pinturas” utilizando livros velhos como telas.

Mas isso é um sacrilégio! Será? E os livros que apodrecem nos sótãos, devorados por cupins? E os livros vendidos aos kilos como lixo?

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Mike Stilkey pintando…

Mike Stilkey é um artista estadunidense que usa livros para produzir obras de arte que ficam entre a pintura e a escultura. Seu belo trabalho já lhe rendeu exposições em vários países.

Seus personagens misteriosos, melancólicos, antropomórficos e impressionantes, que parecem saídos de algum filme.

Mike Stilkey refere que as suas pinturas são influenciadas por vários estilos: “adoro ilustração figurativa, expressionismo alemão e surrealismo”. Quantos aos protagonistas, tanto animais como pessoas são apenas situações recorrentes do dia-a-dia: representam qualquer um, mas não identificam ninguém em particular.

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Obra de Mike Stilkey

E, por falar em livros, vamos também falar de poesia. De poesia que fala de livros…

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Obra de Mike Stilkey

Humildade“, de Cecília Meireles

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Obra de Mike Stilkey

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.

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Mike Stilkey pintando…

Um dia, Fernando Pessoa escreveu:

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

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Obra de Mike Stilkey

Castro Alves também gostava de poemar…

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

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Obra de Mike Stilkey

E como não se deliciar com estes versos de Mario Quintana?

Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.

Ou esta sua “Dupla Delícia“?

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

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Obra de Mike Stilkey

Os ” Livros e flores“, de Machado de Assis, perfumam nossos pensamentos:

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

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Obra de Mike Stilkey

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

E Jorge Luis Borges…

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como não podia ser diferente, René Descartes foi cartesiano:

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

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Obra de Mike Stilkey

E, finalmente, Arthur Schopenhauer, lacrou:

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

Os livros estão aí. Para serem lidos. Relidos. Enfeitados. Restaurados. Abraçados. Beijados. Amados. Transformados. Em Arte.

Autor: Catherine Beltrão

Clarice e a velhice

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Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977), uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX, faria hoje 98 anos. O conto “O grande passeio” é uma ode à velhice. Junto à Clarice, a arte de Camille Claudel, Auguste Rodin, Sebastião Salgado, Pablo Picasso, Vincent van Gogh e Ron Mueck.

O grande passeio

Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação: – Mocinha.

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“A velha Helena”, de Camille Claudel

As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava: – Nome, nome mesmo, é Margarida.

O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-lhe estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito:
sorria e balançava a cabeça.

Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa. 

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“A velha mulher”, de Auguste Rodin

Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil: – Passeando. Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade.
Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.

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“A mulher velha”, de Vincent van Gogh

Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos lá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: “olha!” Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto
inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar. Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.

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“O velho guitarrista”, de Pablo Picasso

Por que Mocinha não dormiu na noite anterior? A idéia de uma viagem, no corpo endurecido o coração se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. Em certos momentos nem podia respirar.

Passou a noite falando, às vezes alto. A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas idéias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão – se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar. E lembrou-se do marido. Só relembrava o marido em mangas de camisa. Mas, não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama. De repente descobriu que a cama era dura.

– Que cama dura – disse bem alto no meio da noite.
É que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que não tinha consciência há longo tempo reclamavam agora a sua atenção. E de súbito – mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, ter a visão do marido se despedindo para ir ao trabalho. Só depois que a lembrança se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou não em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coçando-se toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois não conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.

E pela primeira vez foi preciso acordá-la. Ainda no escuro, a moça veio chamá-la, de lenço amarrado na cabeça e já de maleta na mão. Inesperadamente Mocinha pediu uns instantes para pentear os cabelos. As mãos trêmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear bem os cabelos.

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“Duas mulheres”, de Ron Mueck

Quando enfim se aproximou do automóvel, o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos.

“Tem mais saúde do que eu!”, brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: “E eu que até tinha pena dela”.
Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas duas irmãs acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automóvel deu a primeira arrancada, jogando-a para trás, sentiu dor no peito. Não era só por alegria, era um dilaceramento.
O rapaz virou-se para trás: – Não vá enjoar, vovó!

As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu-lhe um ar obstinado.

A viagem foi muito bonita.
As moças estavam contentes, Mocinha agora já recomeçara a sorrir. E, embora o coração batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitério, passaram por um armazém, árvore, duas mulheres, um soldado, gato! letras – tudo engolido pela velocidade.
Quando Mocinha acordou não sabia mais onde estava. A estrada já havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os pés e as mãos distanciavam-se gelados do resto do corpo. As moças falavam, a da frente apoiara a cabeça no ombro do rapaz.
Os embrulhos despencavam a todo instante.
Então a cabeça de Mocinha começou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de paletó – achei, achei! o paletó estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome da amiga de Maria Rosa, daquela que morava defronte: Elvira, e a mãe de Elvira até era aleijada. As lembranças quase lhe arrancavam uma exclamação. Então ela movia os lábios devagar e dizia baixo algumas palavras.

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Foto de Sebastião Salgado

As moças falavam: – Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!
Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? como conhecera seu marido e onde? como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.
O rapaz disse para as irmãs: – Acho melhor não pararmos defronte, para evitar histórias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde é, ela vai sozinha e dá o recado de que é para ficar.
Uma das moças da casa perturbou-se: receava que o irmão, com uma incompreensão típica de homem, falasse demais diante da
namorada. Eles não visitavam mais o irmão de Petrópolis, e muito menos a cunhada.
– É sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu. .
Mocinha desceu do automóvel, e durante um tempo ainda ficou de pé mas pairando entontecida sobre rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.
Arnaldo não estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra pó amarrado na cabeça, tomava café.
Um menino louro – decerto aquele que Mocinha deveria vigiar – estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balançavam-se sob a mesa. A alemã encheu-lhe o prato de mingau de aveia, empurrou-lhe na mesa pão torrado com manteiga. As moscas zuniam.
Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de café quente talvez passasse o frio no corpo.
A mulher alemã examinava-a de vez em quando em silêncio: não acreditara na história da recomendação da cunhada, embora “de
lá” tudo fosse de se esperar. Mas talvez a velha tivesse ouvido de alguém o endereço, até num bonde, por acaso, isso às vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia. É que aquela história não estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria não deixá-la sozinha na saleta, com o armário cheio de louça nova.
– Preciso antes tomar café, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.
Mocinha não entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de café
dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia a sala toda.
Os lábios ardiam secos e o coração batia todo independente. Café, café, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus pés o cachorro mordia a própria pata, rosnando. A empregada, também meio gringa, alta, de pescoço muito fino e seios grandes, a empregada trouxe um prato de queijo branco e mole. Sem uma palavra, a mãe esmagou bastante queijo no pão torrado e mpurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se: – Mãe, cem
cruzeiros.
– Não. Para quê?
– Chocolate.
– Não. Amanhã é que é domingo.
Uma pequena luz iluminou Mocinha: domingo? que fazia naquela casa em vésperas de domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus.
O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café.
A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam
muito de manhã, isso Mocinha vira mesmo no Maranhão. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrópolis era tão sério como no Maranhão, a dona da casa tirou uma colherada de queijo branco, triturou-o com o garfo e misturou-o à papa. Para dizer verdade, porcaria mesmo de gringo. Pôs-se então a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os gringos do Maranhão têm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava às pulgas.
Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele não era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulação, informou firme e curioso para Mocinha: – Não pode ser não, aqui não tem lugar não.
E como a velha não protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto: – Não tem lugar não, ouviu?

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“Clotho”, de Camille Claudel

Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cômico do contraste. A esposa esticada e vermelha. E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucessão de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou: – E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu?
volta para a casa de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu!
Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se à porta. Quando Arnaldo já ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu: – Obrigada, Deus lhe ajude.
Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. Não sentiu a menor saudade.
Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estação. Sorriu como se pregasse uma peça a alguém: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Então uma coisa muito curiosa, e sem nenhum interesse, foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. Não conseguia ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si própria com blusas claras e cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia,
faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrópolis é muito bonita.
No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descalça enchia uma lata de água.
Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mãos em concha e beber.
Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se saísse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.
Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em atenção às voltas violentas que a água pesada dava no estômago, acordando pequenos reflexos pelo resto do corpo como luzes. A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e subia muito.
Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.

Autor: Catherine Beltrão

Deuses e titãs em engrenagens metálicas

Um dia iluminado é quando se descobre um artista. Recentemente descobri um. Patrick Alò.

Nascido em Roma, é um legítimo representante da subcultura punk, em que os artistas produzem suas obras com materiais garimpados em fábricas abandonadas e barracões. Patrick, com um admirável processo imaginativo, cria suas obras a partir de peças e engrenagens metálicas.

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“Homo faber”, de Patrick Alò

Seu tema recorrente é a mitologia greco-romana.

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“Mercurio”, de Patrick Alò

Mercúrio, pertencente à mitologia romana, é associado ao deus grego Hermes, um mensageiro e deus da venda, lucro e comércio, o filho de Maia, também conhecida como Ops, a versão romana de Reia, e Júpiter. É o deus da eloquência, do comércio e dos viajantes, a personificação da inteligência. Como seu correspondente grego, também é muito rápido, é o mensageiro.

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“Pan e a flauta”, de Patrick Alò

Pan é o deus das florestas. Na mitologia grega, é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Vive em grutas e vaga pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas. É amante da música e traz sempre consigo uma flauta. É temido por todos aqueles que necessitam atravessar as florestas à noite, pois as trevas e a solidão da travessia os predispunham a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente e que são atribuídos a Pã; daí o termo “pânico”. Será?

Prometeu não é um deus, é um titã. Os titãs enfrentaram Zeus e os demais deuses olímpicos na sua ascensão ao poder. Foi um defensor da humanidade, conhecido por sua inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia e o dar aos mortais. Zeus puniu Prometeu por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado,  que se regenerava no dia seguinte.

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“Prometeu”, de Patrick Alò

Segundo a mitologia romana, Rômulo e Remo são dois irmãos gêmeos, um dos quais, Rômulo, foi o fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. Conta a lenda que Rômulo e Remo eram filhos do deus grego Ares, ou Marte, seu nome latino, e da mortal Reia Sílvia, filha de Numitor.

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“A Loba”, de Patrick Alò

Amúlio, irmão do rei Numitor, deu um golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez de Numitor seu prisioneiro. Reia Sílvia foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência. Entretanto, Marte desposou Reia que deu a luz aos gêmeos Rômulo e Remo. Amúlio, rei tirano, ao saber do nascimento das crianças as jogou no rio Tibre. A correnteza os arremessou à margem do rio e foram encontrados por uma loba, que teria os amamentado e cuidado deles.

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“Esfinge”, de Patrick Alò

A esfinge é, tradicionalmente, uma criatura mítica com o corpo de leão e a cabeça de um humano, um falcão, ou um gato. Segundo a mitologia grega, ela tem pernas de leão, asas de um pássaro grande e o rosto de uma mulher. São criaturas mistificadas como traiçoeiras e impiedosas. Aqueles que não podem responder seu enigma, sofrem um destino bem típico dos contos e histórias mitológicas, sendo mortos e totalmente devorados por esses monstros vorazes.

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“Limníade”, de Patrick Alò

As limníades – palavra que deriva de “iluminado” – eram as ninfas das flores, vivendo nos campos floridos e pradarias. Seriam pequenas esferas de luz, sem corpo ou representação física. Pertencem ao grupo de Quimeras ou Fogos Fátuos.

Como todas as ninfas, estavam na categoria de semideuses, o que significa que eram mortais, embora dotadas de longa existência.

Autor: Catherine Beltrão

 

 

Do barroco ao moderno, perucas… hoje, de papel

No período barroco, lá pelos idos do século XVII, imensas perucas estilizadas, enfeitando cabeças de homens e mulheres, costumavam fazer sentido como parte da indumentária da época.  Já mais tarde. um século depois, talvez tenha sido a rainha Maria Antonieta, aquela que foi decapitada, a figura mais lembrada portando o tal acessório.

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 Nos tempos atuais, iniciando o terceiro milênio, a artista russa Asya Kozina resolveu reviver as tais perucas. Mas, desta vez, esculpindo em papel.

Asya4Desde 2007 Kozina trabalha com as esculturas, que chama a atenção logo no primeiro olhar. A artista já contou que todo seu gosto pelo papel vem da infância, e desde então ela segue
fascinada pelo material.

Dentre os trabalhos feitos com papel, se destacam os trajes e as perucas fascinantes e detalhadas. As perucas lembram muito os famosos poufs – acessórios de cabeça – usados pela rainha Maria Antonieta, extravagantes e volumosos, e copiado por milhares de mulheres em sua época.

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No livro Rainha da Moda, Caroline Weber define o adereço:

Asya5Pouf é um adorno construído sobre uma armação de arame, tecido, gaze, crina de cavalo, cabelo falso e os cabelos da própria mulher que o usava, eriçados altos acima da testa. E no meio dos poufs ainda iam miniaturas de natureza morta: flores, animais, frutos.”

Todas as perucas são na cor branca, e algumas contêm elementos do cotidiano (assim como Antonieta também adorava adornar sua cabeleira, com pássaros e até pequenos barcos). Primeiramente a artista faz um esboço do que será feito, e em seguida parte para o trabalho todo manual.

Asya6A série mais recente é uma combinação de luxo antigo e novo, onde o arranha-céus sobe no topo de um penteado ornamentado e o avião está decorado com flores e penas de avestruz“, descreve Asya Kozina.  Seus projetos emprestam do passado, mas também representam o presente, integrando símbolos da tecnologia moderna – aviões, edifícios – a um dos estilos históricos mais generosos que existiram, o barroco.

Finaliza Kozina: “Isso é arte pela arte, estética pela estética. Sem sentido prático. Somente a beleza é o destaque.

 Autor: Catherine Beltrão

Fadas de ferro

Da fada de “Cinderela” à fada “Sininho” de “Peter Pan“, estes seres mitológicos saltitam por entre as árvores e flores de nossa imaginação. Crianças ou não, as fadas se fazem presentes em alguns momentos de nossa existência, tocando nossos corações e mentes com suas varinhas de condão abençoadas.

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Em 1920, duas pequenas garotas fotografaram fadas no fundo do jardim da casa onde moravam. A notícia se espalhou na época e apesar de tanto as fotos como os fatos não serem reais, a história alimentou a imaginação de diversas pessoas, que passaram a acreditar nas pequeninas fadas.

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Mas nunca ninguém teria imaginado que pudessem existir fadas de ferro!

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Um dia, mais precisamente em 2010, o engenheiro Robin Wight, resolveu criar esculturas com fios de arame galvanizados representando fadas. Abaixo, o relato do engenheiro/artista:

Robin6“Meu nome é Robin Wight e provavelmente me descreverei mais como designer e não como artista. Minha carreira sempre foi na fabricação, resolvendo problemas práticos através do design. Minha filosofia é, obter o design certo e os fluxos estéticos do projeto (a forma segue a função). Eu fui um artista amador toda a minha vida e fazer fadas de fio ainda é (tecnicamente) apenas um hobby (estou trabalhando nisso!).

Robin2Em cada fada, tento aplicar critérios de design, incluindo uma história, movimento, alguma ilusão visual, emoção e forças naturais. 

À medida que meus novos projetos se desenvolvem, eu também gostaria de criar uma visão nova e contemporânea das fadas, evitando os clichês e espero que, como resultado, entregue um equilíbrio da fantasia infantil tradicional, com a estética de uma forma feminina enrolada em torno de um tipo de ação persona.

Foi ao consertar uma cerca que a ideia de fio como meio escultural me impressionou. O fio é perfeito para o escultor amador. É barato, é acessível a todos, não exige processos de soldagem ou especiais e é praticamente ilimitado no que você pode produzir. É como argila metálica. Tudo o que você precisa é uma bobina de fio, um par de alicates e sua imaginação.

Robin8Como não é como eu ganho a vida, na verdade não tenho tempo para possuir representações e prefiro continuar projetando e criando novas, mas eu vendo a maioria dos que eu faço.

Estou totalmente espantado e encantado com a popularidade do FantasyWire e é um testemunho dos benefícios das mídias sociais de que um amador completo como eu pode conseguir seu trabalho compartilhado e visto por tantas pessoas. Então, obrigado por transformar meu hobby em um negócio de conto de fadas / família.

A pergunta mais comum que perguntei é “Como você começou?” Se você gostaria de saber a resposta para isso e como o FantasyWire surgiu, baixe The Fairytale, que lhe dará toda a história.”

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Em várias de suas esculturas, Robin inseriu “dandelions” (dentes de leão) às suas fadas de ferro, tornando-as ainda mais belas e etéreas…

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Vídeo com uma fada e um “dandalion”…

 Autor: Catherine Beltrão

Búfalos, bisões, touros e bois

A família bovina data de 5 a 10 milhões de anos. A evolução desta família deu origem a várias espécies, até chegar aos nossos atuais bois, que encontramos hoje nos pampas, nos churrascos e nos supermercados.

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O “Bisão” de Altamira, Espanha.

Uma destas espécies, o bisão da estepe, surgiu há cerca de 2 a 5 milhões de anos atrás, se espalhando pela Eurásia e foi este o bisão retratado nos desenhos rupestres antigos descobertos em Altamira/Espanha e Lascaux/sul da França.

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“Os bisões cruzados” da Caverna de Lascaux, na França.

Vestígios de mais de 20 mil anos indicam a ocupação da caverna de Altamira, norte da Espanha. Provavelmente foi ocupada há muito mais tempo. As pinturas mais elaboradas, como o “Bisão“, datam de 15 mil anos, mas concorrem com obras de várias épocas.

A pintura “Os Bisões Cruzados” da Caverna de Lascaux, França,  foi descoberta em 12 de Setembro de 1940. A figura, feita com carvão vegetal e óxido de ferro, data de aproximadamente 17.300 a.C.

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“Os últimos búfalos”, de Albert Bierstadt. 1888, ost, 153 X 245cm.

Albert Bierstadt (1830-1902) foi um pintor prussiano radicado nos Estados Unidos. Sua fama derivou de suas paisagens monumentais sobre o oeste selvagem americano, com tendências realistas, expressas na descrição minuciosa de detalhes. É o que se observa na pintura “Os últimos búfalos“, talvez a maior pintura sobre este animal já realizada.

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“O combate do tigre e do búfalo”, de Henri Rousseau. 1891,  ost, 46 × 55 cm. Museu Hermitage, em São Petersburgo

Henri Rousseau (1844-1910) foi um pintor francês, considerado como um representante maior da arte naïf, tendo influenciado vários outros artistas, sobretudo os surrealistas.

O tema “selva” talvez tenha sido um dos mais fecundos utilizados pelo pintor. Sua flora era exuberante e imaginativa, e a fauna representava quase sempre animais ferozes em combate, como o “Combate do tigre e do búfalo“, de 1891.

E chega a vez dos touros de Pablo Picasso (1881-1973).

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Onze litografias do “Touro”, de Pablo Picasso. 1945.

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“Touro”, de Picasso. 1953. Escultura em madeira.

Picasso, pintor catalão, evoluiu o seu “Touro” em onze etapas. Criado no Natal de 1945,  ‘Bull’ é um conjunto de onze litografias que se tornaram uma Master Class em como desenvolver uma obra de arte do acadêmico ao abstrato. Nesta série de imagens, todas resultantes de uma única peça, Picasso disseca visualmente a imagem de um touro. Cada imagem representa uma fase sucessiva de um processo tendo em vista encontrar o absoluto “espírito” da besta. É como se ele caminhasse de frente para trás, do acabado para o esboço.

Picasso também realizou diversas esculturas com este tema, utilizando vários materiais, como bronze, mármore e madeira. É notável o seu “Touro” feito em 1958.

Dos bisões das cavernas pré-históricas aos touros de Picasso, estes animais sempre representaram para o homem símbolos de força e poder. Milhares de anos separam as criações. Os símbolos permanecem os mesmos.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Krajcberg e o grito da madeira assassinada

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Frans Krajcberg

Frans Krajcberg (1921-2017), nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, foi um pintor, escultor, gravador e fotógrafo. Formado em Engenharia e Artes na Rússia, lutou na Segunda Guerra Mundial, tendo perdido toda a sua família. Por puro acaso, Krajcberg veio para o Brasil, em 1948, onde também não tinha amigos e não conhecia a língua. E, aqui, ele renasceu. Krajcberg viveu em Nova Viçosa, interior da Bahia, desde a década de 70, e confeccionou a maioria de suas obras com cipós e troncos de árvores destruídas pelo fogo.

Segundo a marchand Marcia Barrozo do Amaral, que representa as obras do artista, Krajcberg vivia 24 horas por dia pela incansável luta pela natureza e pelo planeta.  Na região de Itabirito, em Minas Gerais, o artista buscava os pigmentos naturais de origem ferrosa que utilizava em suas obras. Em Nova Viçosa, construiu a sua “Casa na Árvore”, pousada num pequizeiro.

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“Casa da Árvore”, em Nova Viçosa/BA

Neste dia de 15 de novembro, Frans Krajcberg partiu para outra dimensão. Mas sua obra continuará gritando a plenos pulmões: não destruam a natureza!

A seguir, a voz do artista…

Krajcberg12Nasci neste mundo que se chama ‘Natureza’. O grande impacto da natureza foi no Brasil que senti. Aqui eu nasci uma segunda vez. Aqui eu tive a consciência de ser homem e de participar da vida com minha sensibilidade, meu trabalho, meu
pensamento. Aqui me sinto bem“.

Eu andava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Descobria a vida. A vida pura. Ser, mudar, continuar, receber a
luz, o calor, a verdadeira vida“.

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A única coisa que me segura aqui é isso: a natureza”

Krajcberg10Krajcberg11A natureza me deu a grande possibilidade de continuar vivendo. Ela soube me dar a força e me deu o prazer de sentir,
pensar, trabalhar e sobreviver“.

Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta“.

A natureza coloca minha sensibilidade de homem e artista em questão”.

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O brasileiro em si não acordou pra ver a situação que está nesse país. Estamos completamente dominados pelo dinheiro. Ao
mesmo tempo o país está sendo destruído absolutamente. Então eu acho que precisamos dizer :  Basta, vamos salvar neste país o
resto de beleza que ainda possui: a Amazônia“.

É pena que o brasileiro não conheça o Brasil… é revoltante!

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 “Antes era a guerra do homem contra o homem; hoje, e é a guerra do homem contra a natureza“.

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Vídeo-documentário “O grito da natureza”, com Paula Saldanha

Krajcberg fez Arte da madeira calcinada. Da morte. Transformou troncos retorcidos pelo fogo em manifestações do belo. Por ter plantado uma floresta de obras contundentes nos corações e mentes daqueles que ainda sentem, sua voz de desespero e revolta continuará ecoando, cada vez mais, e mais forte.

 Autor: Catherine Beltrão

A valsa de Camille Claudel

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Camille Claudel, em 1884.

Camille Claudel (1864-1943) , até alguns anos atrás, era conhecida como escultora, modelo, aluna, amante e colaboradora de Auguste Rodin, um dos maiores escultores da história da Arte, criador de “O Pensador” e de “O Beijo“.  Hoje, Camille caminha a passos largos para ser considerada maior que Rodin!

Durante quinze anos, de 1883 a 1898, os dois artistas criaram a maior parte de suas obras em conjunto, uma arte fecundando a outra. Corpos e almas se entregaram de forma voraz, produzindo obras repletas de sensualidade. Foi o caso de “A valsa“, produzida por Camille Claudel.

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“A valsa”. Vídeo feito no Museu Soumaia, no México.

Na época de sua criação, em 1892, a obra, encomendada pela Academia de Belas Artes, foi alvo de um escândalo, pois representava um casal de dançarinos nus enlaçados.  Camille recebeu a ordem de cobrir a nudez do casal, o que ela fez em 1901, vestindo a mulher com um véu de metal, o que só fez ampliar a graça ao movimento. “A valsa” foi editada em 25 exemplares, nenhum deles em mármore.

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“A valsa”. Detalhe.

claudel_valsa5Um desses exemplares, uma escultura em bronze ficou desaparecida por mais de cem anos. Esquecida em um armário de seu primeiro proprietário, recentemente foi descoberta e colocada à venda em um leilão que aconteceu em um castelo na França. Valor de arremate da peça? 1,46 milhões de euros!

É o recorde já alcançado por uma estatueta deste tamanho – ela mede 46,7cm -  de “A valsa“. Um outro exemplar, bem maior, com altura de 96cm, já tinha sido vendido em um leilão da Sotheby’s, em 2013, por 5,1 milhões de euros.

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“A valsa”. Detalhe.

E quem arrematou a peça? A sobrinha neta de Camille Claudel, Reine-Marie Paris, que disputou com vários concorrentes, inclusive dos Estados Unidos, o direito de adquirir a escultura, que já tem destino certo: o Museu de Camille Claudel, localizado em Nogent-sur-Marne, perto de Paris. Reine-Marie já doou ao Museu várias peças de sua coleção de sua tia-avó, que ela foi comprando durante a vida.

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“A valsa”. Detalhe.

Assim se expressou Louis Vauxelles, influente crítico de arte francês, acerca de “A valsa“: “O ritmo, a harmonia e a embriaguez da valsa estão aí, mas também a paixão e a concordância dos corpos. Ambos são energia atormentada e fineza nervosa. É um homem e uma mulher vacilando na paixão que os une numa sensualidade impetuosa. A Valsa é um poema de uma louca embriaguez: os dois corpos não são mais que um, o prestigioso torvelinho enlouquece-os, a bailarina morre de voluptuosidade”.

A Arte. O Amor. A Nudez. O que se aproxima mais de Deus do que uma criação como essa?

Autor: Catherine Beltrão 

 

Pedras macias feito poesia…

Nem sempre as pedras machucam. Algumas vezes elas ficam é preocupadas com a nossa tristeza… e mostram suas rugas. Outras vezes,  até choram… Quase sempre nos embalam em seu colo quente, pois de versos também são feitas.

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“Recorte de pele” – granito

José Manuel Castro López é um artista espanhol que utiliza e transforma pedras em objetos acariciáveis. Manoel (de Barros), Cecília (Meireles), (Carlos) Drummond (de Andrade) e Cora (Coralina) são poetas brasileiros que transformam versos que falam de pedra em ninho-colo.

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“Pedra-cérebro” – granito

“A Pedra”, de Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

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“Lágrimas de pedra”

Manoel de Barros também escreveu:  “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.

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“Beliscão” – quartzo

“No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

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“Paralelepípedos” – granito e aço inoxidável

Mais uma pedra-pensamento de Manoel de Barros: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

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“Contratura” – pedra e óxido de ferro

Pedras”, de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

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“Contraste de personalidades” – pedra morceña e óxido de ferro

Daquele que deixou um pequeno príncipe fazer a volta de um asteróide, não podia deixar de também dizer o que achava das pedras:

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

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“Lambida” – pedra morceña

“Das pedras”, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Autor: Catherine Beltrão

Detalhes

Detalhe é um pedaço. De um pensamento. De uma atitude. De um fazer. Quase sempre, um pedaço bem pequeno. Ou até muito pequeno. Mas, um detalhe não é coisa menor. Pode até ficar grande. Muito grande. Imenso. Como são os detalhes de certas pinturas. Ou esculturas.

Mãos. É bom começar pelas mãos. Pelas mãos da “Canção” de Cecília Meireles.

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Detalhe das mãos de “O pensador”, de Rodin.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

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Detalhe das mãos de “David”, de Michelangelo.

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Detalhe das mãos de Plutão, em “O rapto de Prosérpina”, de Bernini.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Van Gogh

Depois das mãos, o detalhe do olhar. O olhar de Vinicius de Moraes, em seu “Soneto da Separação“.

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Detalhe do olhar de Mona Lisa, de Da Vinci.

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Detalhe do olhar de um “Autorretrato”, de Lucien Freud.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

E aí chega a hora do detalhe da flor. Mas, dentro da flor, fica a palavra do “Apanhador de desperdícios“, de Manoel de Barros.

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Detalhe de uma das “Ninfeias”, de Monet.

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

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Detalhe de “Flores em um vaso”, de Renoir.

Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

As mãos, o olhar, flores. Palavras. Os versos. Einstein sabia das coisas:

Eu quero conhecer os pensamentos de Deus; o resto são detalhes“.

Autor: Catherine Beltrão