Arquivo da categoria: Modernismo

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

30_VanGogh_1

Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

22_Redon_3

Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

40_Renoir_2

Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

10_Monet_2

Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

4_Guignard_4

Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

48_Chagall_1

Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

75_Edith_4

Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

57_Nivoulies_1

Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

Selos de pintores brasileiros

O Brasil foi o segundo país a emitir um selo, em 1843, o célebre Olho de Boi. Em 1840, a Inglaterra emitiria o Penny Black, o primeiro selo postal do mundo.

Como falamos de Arte, resolvi escrever sobre selos de pintores brasileiros. Achei que iria encontrar centenas. Mas só encontrei 23 selos!

Estes 23 selos são referentes a oito artistas, todos modernistas!

Selo_Portinari10

Selos Portinari: “A primeira missa”, em 1968; “Natal”, em 1970; “O lavrador de café”, em 1980; “Presépio”, em 2002.

Selo_Portinari2

Selo de Portinari: detalhe do painel “Paz”, no ano internacional da paz, em 1986

O grande Cândido Portinari foi homenageado com doze selos:  “A primeira missa”, em 1968; “Natal“, em 1970; “O lavrador de café“, em 1980; o detalhe do painel “Paz“, no ano internacional da paz, em 1986; “Presépio“, em 2002; em seu centenário de nascimento com o selo de um de seus autorretratos, o “Menino de Brodowski” e “Cangaceiro“, emitidos em 2003 e com “Negrinha”, “Composição“, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro“, como obras desaparecidas, em 2004.

Selo_Portinari3

Selos de Portinari: o “Menino de Brodowski”, “Cangaceiro” e um de seus autorretratos, no centenário de seu nascimento, em 2003

Selo_Portinari4

Selos de Portinari: “Negrinha”, “Composição”, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro”, como obras desaparecidas, em 2004.

Eliseu Visconti, em seu centenário, foi homenageado com o selo “Juventude“, em 1966 e em seu sesquicentenário, com o selo representando um de seus autorretratos, em 2016.

Selo_EliseuVisconti2

Selos Eliseu Visconti: “Juventude”, homenageando seu centenário, em 1966 e um de seus autorretratos, em seu sesquicentenário, em 2016.

O pintor Di Cavalcanti foi homenageado com três selos: “A mulher com filho à janela“, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá“, em 1974 e “Ciganos“, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

Selos_Di

Selos de Di Cavalcanti: “A mulher com filho à janela”, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá”, em 1974 e “Ciganos”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

Anita Malfatti teve direito à emissão de um selo, “O homem amarelo“, também em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

Selo_AnitaMalfatti

Selo de Anita Malfatti: “O homem amarelo”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

Outro artista que participou da Semana de 22, Victor Brecheret, teve emissão de dois selos: o “Monumento às Bandeiras“, em 1984 e “Eva“, em 2015.

Selos_Brecheret

Selos de Victor Brecheret: “Monumento às Bandeiras”, em 1984 e “Eva”, em 2015.

Alberto da Veiga Guignard, o pintor das paisagens imaginantes, foi homenageado em seu centenário de nascimento, em 1996, com o selo “Paisagem de Ouro Preto“.

Selo_Guignard1

Selo de Guignard: “Paisagem de Ouro Preto”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996.

Também em 1996, e também em comemoração ao centenário de seu nascimento, Alfredo Volpi, o pintor das bandeirinhas, ganhou o seu selo de homenagem, o “Barco com bandeirinhas e pássaros“.

Selo_Volpi

Selo de Alfredo Volpi: “Barco com bandeirinhas e pássaros”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996

Finalmente, Tarsila do Amaral, a pintora mais valorizada do Brasil, também tem um selo: o “Urutu“, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

Selo_Tarsila

Selo de Tarsila do Amaral: “Urutu”, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

Destes 23 selos, qual é o seu preferido?

Autor: Catherine Beltrão

Sete pipas e um catavento

Hoje vamos falar de vento. E, por causa do vento, nasceram as pipas. E os cataventos.

Tudo indica que foram os ventos chineses os primeiros a absorver pipas e cataventos. Mas quem terá sido a primeira criança a empinar uma pipa? E qual delas soprou primeiro um catavento?

Portinari_pipa1

“Meninos Soltando Papagaios”, de Cândido Portinari. 1947

Cândido Portinari (1903-1962) pintou muitas pipas. Meninos soltando pipas. E foram muitos poetas que versaram sobre pipas: Bandeira, Drummond, Toquinho, Chico …

Portinari_pipa3

“As Marias”, de Cândido Portinari

Canção da Pipa, de Manuel Bandeira

Voa, pequena pipa, voa,
Eleva-te com vontade aos ares
Empina, pequena coisa azul, empina,
Sobre a nossa catacumba de casas!

Se nós te seguramos pela linha
Tu te manténs nos ares
Escravo dos sete ventos
A levantar-te os obrigarás.

Portinari_pipa5

“Empinando pipa”, de Cândido Portinari. 1942

Drummond

O bom da pipa não é mostrar aos outros.
É sentir individualmente a pipa dando ao céu o recado da gente.
Você solta o bichinho e se solta também!
Ele é a tua liberdade, teu eu girando por ai,
Dispensando de todos as limitações

Portinari_pipa2

“Meninos soltando Pipas”, de Cândido Portinari. 1943

Esse menino, de Toquinho

Dentro do tempo, o universo na imensidão.
Dentro do sol, o calor peculiar do verão.
Dentro da vida, uma vida me conta
Uma história que fala de mim.
Dentro de nós, os mistérios do espaço sem fim.

Portinari_pipa4

“Menino com pipa”, de Cândido Portinari

Volto no tempo, menino, fieira e pião.
Sonhos embalam no vento a pipa e o balão.
Entre piratas e primas, tesouros
E medos de assombração.

Eu só sabia que a vida
Invadia os sentidos, regia o coração.
E o sol me aquecia e brilhava
Em qualquer estação.

Se hoje me perco nos labirintos da razão,
Vem o menino que eu fui e me estende sua mão.
E ele me acalma trazendo
A antiga e serena doce sensação.

Portinari_pipa8

“Meninos soltando pipa”, de Cândido Portinari. 1941

Doze anos, de Chico Buarque, para a peça Ópera do Malandro

Portinari_pipa6

“Meninos soltando pipas”, de Cândido Portinari

Ai, que saudades que eu tenho
Dos meus doze anos
Que saudade ingrata
Dar banda por aí
Fazendo grandes planos
E chutando lata
Trocando figurinha
Matando passarinho
Colecionando minhoca
Jogando muito botão
Rodopiando pião
Fazendo troca-troca
Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
O futebol de rua
Sair pulando muro
Olhando fechadura
E vendo mulher nua
Comendo fruta no pé
Chupando picolé
Pé-de-moleque, paçoca
E, disputando troféu
Guerra de pipa no céu
Concurso de … pipoca

Alfredo Volpi (1896-1988) gostava de desenhar triângulos. E de triângulos a cataventos, é um pulo. E, para acompanhar, um poema de Affonso Romano de Sant’Anna:

Volpi_catavento1

“Cataventos”, de Alfredo Volpi

Além do entendimento

A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.

O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
- estatelado -
mais pareço
um catavento.

 Autor: Catherine Beltrão

A Lua antropofágica de Tarsila

Um dia, Tarsila do Amaral (1886-1973) disse: “Quero ser a pintora do meu país“. Era 1923.

Tarsila_Manteaurouge

“O casaco vermelho”. 1923, ost, 73 X 60,5cm

Embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, Tarsila foi uma das figuras centrais da pintura e da primeira fase do movimento modernista no Brasil, fazendo parte do Grupo dos Cinco, junto a Anita Malfatti,   Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia.

Recentemente, a obra “A Lua“, uma de suas criações da fase antropofágica, foi adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), por aproximadamente 20 milhões de dólares (cerca  de 74 milhões de reais).  Esta obra converteu-se na mais cara já vendida de um artista brasileiro, superando “Vaso de flores”, de Alberto da Veiga Guignard, arrematado em um leilão de São Paulo, em 2015 por 5,7 milhões de reais.

Tarsila_lua

“A Lua”. 1928, ost, 110 cm x 110 cm. Acervo: The Museum of Modern Art (MoMA)

Mas o que foi a fase antropofágica de Tarsila do Amaral?

Em 1928, Tarsila iniciou sua fase antropofágica, que se estendeu até 1930. Na verdade, tudo começou quando deu uma tela de presente de aniversário a seu marido, Oswald de Andrade:  era simplesmente o “Abaporu”. O nome da obra foi conferido por ele e pelo poeta Raul Bopp, que indagou a Oswald ao ver o quadro: “Vamos fazer um movimento em torno desse quadro?” Os dois escritores escolheram um nome para a obra, que veio a ser Abaporu, que vem dos termos em tupi aba (homem), pora (gente) e ú (comer), significando “homem que come gente”.  A obra acabou virando símbolo do movimento antropofágico.

Tarsila_Abaporu

“Abaporu”. 1928. ost, 85 cm x 72 cm Acervo: Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires (MALBA)

O movimento pregava que o artista brasileiro deveria se alimentar das ideias vindas de fora do país, aproveitar aquilo que julgasse interessante e jogar fora o o resto, tal qual faziam os índios antropófagos. Esta identidade cultural teve reflexos também na música brasileira, como por exemplo, a Bossa Nova e o Tropicalismo e também em Villa Lobos, quando se se apropriou da música de J.S Bach para compor uma obra originalmente brasileira:  “As Bachianas Brasileiras.”

Tarsila_Ovo

“O Ovo (ou Urutu)”. 1928, ost, 60,5cm x 72,5cm Acervo: MAM/RJ

Outra importante obra da fase antropofágica de Tarsila é “O Ovo“, que mostra um dos símbolos mais importantes da Antropofagia. A cobra grande é um animal que assusta e tem poder de “deglutição”. Além disso, apresenta-se também o ovo, uma gênese, o nascimento de algo novo. Também criada em 1928, atualmente ela pertence ao acervo do MAM/RJ.

Tarsila_olago

“O Lago”. 1928, ost, 75,5 x 93 cm, Coleção Hecilda e Sergio Fadel, RJ

O Lago” tem ares surrealistas. Mas um surrealismo à la Tarsila, em que a flora parece uma fauna, esta pintura é uma verdadeira fantasia. Algo que poderia existir na cabeça da artista. E a fantasia é uma característica forte nas telas da fase antropofágica.

De “Sol Poente“, falou Tarsila: “Falar com Deus era para mim esse quadro: eu sentada, do terreiro olhando esse tronco que tinha na fazenda, a cor do sol cobrindo tudo, e eu chorando, menina, pedindo perdão por meus pecados.

Tarsila_Solpoente

“Sol Poente”. 1929, ost, 54 X 65cm

Finalmente, a obra “Composição (ou Figura só “), única obra pintada em 1930. Pintada após a crise de 1929, quando Tarsila já havia perdido quase a totalidade de sua fortuna, mostra uma figura solitária em busca de uma sobrevivência psicológica e intelectual.

Tarsila__c

“Composição (ou Figura só)”. 1930, ost, 83 X 129cm

Tarsila do Amaral é hoje a mais valorizada pintora brasileira.

Autor: Catherine Beltrão

O lote de US$ 1,63 bilhão… quem dá mais?

Da Vinci, Picasso, Modigliani, Bacon,  Giacometti, Munch, Basquiat e Warhol… o que eles têm em comum? Você sabe? Eles são os autores das dez obras mais caras já vendidas em leilão. Picasso e Giacometti aparecem duas vezes nesta lista. Os valores destas obras, em conjunto, ultrapassam US$ 1,63 bilhão!

Recorde_DaVinci

“Salvador do Mundo”, de Leonardo da Vinci.
45,4 cm x 65,6 cm – ost – cerca de 1500

Comecemos pela obra “Salvator Mundi” (“Salvador do Mundo“), de Leonardo da Vinci (1452-1519).  Ela representa Jesus Cristo, no estilo renascentista, dando uma bênção com a mão direita  levantada e os dedos cruzados enquanto segura uma esfera de cristal na mão esquerda. A obra precorreu uma extensa trajetória até ser   redescoberta em 2005. Alguns especialistas contestam a autoria de Da Vinci. Apesar disso, a obra foi vendida em leilão pela Christie’s em Nova York, em 15 de novembro de 2017, por US$ 450,3 milhões, estabelecendo uma nova marca para a pintura mais cara já vendida.

Recorde_Picasso

“As mulheres de Argel”, de Pablo Picasso.
114 X 146,4cm – ost – 1954/55

A segunda obra mais cara é de autoria de Pablo Picasso (1881-1973). Sua obra “Les femmes d’Alger” (“As mulheres de Argel“) representa um harém, e foi arrematada por US$ 179,3 milhões em um leilão na casa Christie’s, em Nova York, em 11 de maio de 2015. Esta obra faz parte de uma série de 15 pinturas e vários desenhos feitos por Picasso, com o mesmo tema,  tendo o pintor sido inspirado pelo artista francês do século XIX, Eugène Delacroix.

Recorde_Modigliani

“Nu deitado”, de Amedeo Modigliani.
92 X 160cm – ost – 1917

No terceiro lugar, fica Amedeo Modigliani (1884-1920),  com a obra “Nu couché” (“Nu deitado“), vendida por US$ 170,4 milhões em 9 de novembro de 2015 na Christie’s de Nova York. A pintura é uma das famosas séries de nus que Modigliani pintou em 1917 sob o patrocínio de Léopold Zborowski, seu negociador polonês. Acredita-se que ela tenha sido incluída na primeira e única exposição de arte de Modigliani em 1917, na Galeria Berthe Weill, que foi encerrada pela polícia. Este grupo de nus de Modigliani serviu para reafirmar e revigorar o nu como sujeito da arte modernista.

Em seguida, temos a obra “Three Studies of Lucian Freud” (“Três estudos de Lucian Freud”), um tríptico de Francis Bacon (1909-1992), vendido por US$ 142,4 milhões em 12 de novembro de 2013  também na Christie’s de Nova York.

Recorde_Bacon

“Três estudos de Lucien Freud”, de Francis Bacon.
147,5 X 198cm – ost – 1969

O tríptico é composto por telas do mesmo tamanho e emolduradas individualmente, que retrata o pintor Lucian Freud (neto de Sigmund Freud), grande amigo de Bacon, tendo um exercido grande influência sobre o outro. Os três painéis foram trabalhados ao mesmo tempo, mas foram vendidos separadamente em meados de 1970, após o tríptico ser exposto no Grand Palais/Paris (1971-1972), para tristeza do artista, que dizia que ficavam “sem sentido, a menos que um  estivesse unido aos outros dois painéis.” Mas em 1999 o trabalho voltou à sua forma original.

Recorde_Giacometti

“O homem que aponta”, de Alberto Giacometti.
177,5cm de altura – bronze – 1947

A quinta obra mais cara já vendida em leilão é a escultura “L’homme au doigt” (“O homem que aponta”), de Alberto Giacometti (1901-1966),  que se tornou em 11 de maio 2015, a escultura mais cara já leiloada ao alcançar o preço de US$ 141,28 milhões em um leilão promovido pela casa Christie’s, em Nova York. A obra é uma representação escultórica da filosofia do existencialismo e faz parte de uma série de seis peças, das quais é a única pintada à mão pelo artista. A peça de bronze faz parte de uma série de seis esculturas e foi vendida no mesmo leilão em que também foi vendida a obra “Mulheres de Argel” de Picasso.

Record_Munch

“O Grito”, de Edvard Munch.
83,5 X 66cm – óleo sobre tela, têmpera e pastel sobre cartão – 1895

Em sexto lugar, fica talvez a mais famosa desta lista de top10. Trata-se da obra “O Grito“, de Edvard Munch (1863-1944), vendida por US$ 119,9 milhões em 2 de maio de 2012 na Sotheby’s de Nova York.  Esta obra também pertence a uma série, com quatro pinturas conhecidas, que se encontram no Museu Munch, em Oslo, na Galeria Nacional de Oslo e a terceira em coleção particular. Em 2012, a quarta obra da série tornou-se a pintura mais cara da história a ser arrematada na época, num leilão. É uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Nesta versão de 1895 as cores são mais fortes do que nas outras três versões e é a única em que a moldura foi pintada pelo artista com o poema que descreve uma caminhada ao pôr-do-sol que inspirou a pintura. Outra particularidade única desta versão é que uma das figuras que está em segundo plano olha para baixo, para a cidade. O poema:
Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho – eu fiquei no lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza.”

Recorde_Basquiat

“Sem título”, de Jean-Michel Basquiat.
183 X 173cm – ost – 1982

Segue-se uma obra bastante controversa: a tela sem título de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), vendida por US$ 110,5 milhões em 18 de maio de 2017 na Sotheby’s de Nova York. Basquiat criou a obra com 21 anos, no momento mais importante de sua carreira como artista. “Tudo o que tocava era fantástico”, disseram os responsáveis da Sotheby’s durante a apresentação da tela antes do leilão. O comprador anterior pagou US$ 19 mil em um leilão em 1984. Desde então ela não voltou a ser vista em público. Os especialistas afirmam que é um dos três melhores quadros de Basquiat, transformado desde então em “uma grande obra prima”.

Recorde_Picasso2

“Nu, folhas verdes e busto”, de Pablo Picasso.
163 X 130cm – ost – 1932

O oitavo luga também pertence a uma outra obra de Pablo Picasso, o  “Nu au plateau de sculpteur” (“Nu, folhas verdes e busto“), vendida por US$ 106,4 milhões em 4 de maio de 2010 na Christie’s de Nova York.  A obra representa a amante de Picasso, Marie-Thérèse Walter, nua e reclinada, enquanto a cabeça do pintor está   representada num busto postado num pedestal, que observa a mulher logo abaixo. Faz parte de uma série de retratos que Picasso pintou de sua amante e musa Marie-Thérèse Walter, em 1932.

Recorde_Andy

“Silver car crash (double disaster)”, de Andy Warhol.
390 X 240cm – serigrafia – 1963

Segue mais uma obra polêmica, desta vez de Andy Warhol (1928-1987), a “Silver car crash (double disaster)”, vendida por US$ 105,4 milhões em 13 de novembro de 2013 na Sotheby’s de Nova York. A serigrafia é de tamanho monumental e pertence a um dos quatro trabalhos da série ‘Car Crash – Death and Disasters‘.  Especialistas afirmam que esta obra é um trabalho de grande escala e ambição, da mesma forma que  “Guernica“, de Picasso, ou a “ Balsa da Medusa” de Théodore  Géricault.

Para muitos, a série ‘Death and Disasters‘ é a conquista artística mais significativa de Warhol, considerado pai e expoente máximo da pop art.

Recorde_Giacometti2

“O homem caminhando I”, de Alberto Giacometti.
183cm de altura – bronze – 1961.

Terminando esta lista, a segunda obra de Alberto Giacometti.  A escultura “L’homme qui marche” (“O Homem Caminhando I”) foi vendida  104,3 milhões de dólares em 4 de fevereiro de 2010 num leilão da Sotheby’s, em Londres. “Ela representa o ápice da experimentação de Giacometti com a forma humana e é tanto a imagem de um homem simples e submisso como um forte símbolo da humanidade“, afirmou a Sotheby’s, na época. Esta escultura é  considerada a principal obra de Giacometti e está estampada também na nota de 100 francos suíços. Existem seis originais da peça. O homem caminhando I faz parte de uma série de esculturas de bronze esbeltas feitas pelo artista suíço entre 1947 e sua morte e que representam homens e mulheres solitários.

Essa lista dos top10 é bastante intrigante. O mais amado dos pintores – Vincent van Gogh – já não consta da lista. Picasso e Giacometti estão representados duas vezes. Basquiat, um desconhecido para a maioria, está aí. Ele e Warhol talvez tomaram o lugar de Monet e de Van Gogh. Pop Art no lugar do Impressionismo. Munch e Modigliani seguram o expressionismo e o modernismo. E, acima de todos, o renascentista Leonardo da Vinci…

Autor: Catherine Beltrão

As mães de Portinari e de Cecília

Cândido Portinari (1903-1962) e Cecília Meireles (1901-1964) foram impressionantemente contemporâneos. Pintor e poeta atravessaram os mesmos tempos, respiraram o mesmo ar da pintura e literatura modernistas, sofreram as mesmas dores no parto de suas obras. Em algumas delas, a personagem “mãe” se fez representar.

Portinari_MaePreta_1940

“Mãe Preta”, de Cândido Portinari – 1940

“Vigília das Mães”, de Cecília Meireles

Portinari_Mulherecrianca_1936

“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1936

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

Portinari_Mulherecrianca_1938

“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1938

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

Portinari_criancamorta_1944

“Criança morta”, de Cândido Portinari – 1944

“Lamento da mãe órfã”, de Cecília Meireles

Portinari_Maechorando_1944

“Mãe chorando”, de Cândido Portinari – 1944

Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Portinari_Mulherecriancas_

“Mulher e crianças”, de Cândido Portinari – déc. 40

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.

Portinari_SofrimentodeMae_1955

“Sofrimento de mãe”, de Cândido Portinari – 1955

Cada mãe ficou mais rica depois de Portinari e de Cecília. Inclusive eu.

Variações sobre um mesmo tema: “As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana” e “As mães de Picasso”.

Autor: Catherine Beltrão

Do barroco ao moderno, perucas… hoje, de papel

No período barroco, lá pelos idos do século XVII, imensas perucas estilizadas, enfeitando cabeças de homens e mulheres, costumavam fazer sentido como parte da indumentária da época.  Já mais tarde. um século depois, talvez tenha sido a rainha Maria Antonieta, aquela que foi decapitada, a figura mais lembrada portando o tal acessório.

Asya1a

 Nos tempos atuais, iniciando o terceiro milênio, a artista russa Asya Kozina resolveu reviver as tais perucas. Mas, desta vez, esculpindo em papel.

Asya4Desde 2007 Kozina trabalha com as esculturas, que chama a atenção logo no primeiro olhar. A artista já contou que todo seu gosto pelo papel vem da infância, e desde então ela segue
fascinada pelo material.

Dentre os trabalhos feitos com papel, se destacam os trajes e as perucas fascinantes e detalhadas. As perucas lembram muito os famosos poufs – acessórios de cabeça – usados pela rainha Maria Antonieta, extravagantes e volumosos, e copiado por milhares de mulheres em sua época.

Asya2

No livro Rainha da Moda, Caroline Weber define o adereço:

Asya5Pouf é um adorno construído sobre uma armação de arame, tecido, gaze, crina de cavalo, cabelo falso e os cabelos da própria mulher que o usava, eriçados altos acima da testa. E no meio dos poufs ainda iam miniaturas de natureza morta: flores, animais, frutos.”

Todas as perucas são na cor branca, e algumas contêm elementos do cotidiano (assim como Antonieta também adorava adornar sua cabeleira, com pássaros e até pequenos barcos). Primeiramente a artista faz um esboço do que será feito, e em seguida parte para o trabalho todo manual.

Asya6A série mais recente é uma combinação de luxo antigo e novo, onde o arranha-céus sobe no topo de um penteado ornamentado e o avião está decorado com flores e penas de avestruz“, descreve Asya Kozina.  Seus projetos emprestam do passado, mas também representam o presente, integrando símbolos da tecnologia moderna – aviões, edifícios – a um dos estilos históricos mais generosos que existiram, o barroco.

Finaliza Kozina: “Isso é arte pela arte, estética pela estética. Sem sentido prático. Somente a beleza é o destaque.

 Autor: Catherine Beltrão

Guerra e Arte

Guernica” talvez seja a obra mais conhecida de Pablo Picasso (1881-1973), um dos maiores pintores do século XX.

Com 3,49 m de altura por 7,76 m de comprimento, “Guernica” é um imenso mural pintado a óleo em 1937, sendo uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”. A obra é hoje um símbolo do antimilitarismo mundial e da luta pela liberdade do homem, além de ser um ícone da Guerra Civil. 

Picasso_guernica

“Guernica”, de Pablo Picasso

Tendo sido produzida em Paris para representar a Espanha na Exposição Internacional de Artes e Técnicas, a obra influenciou vários artistas, incluindo os brasileiros Cícero Dias e Cândido Portinari. Após ver “Guernica“, naquele mesmo ano de 1937, Cícero Dias transformou sua temática e forma de pintar.   E foi através da amizade que se formou entre os dois pintores que possibilitou a vinda desta obra para o Brasil em 1953, para participar da Segunda Bienal de São Paulo.

Quanto a Portinari, ele viu o quadro espanhol pela primeira vez, em 1942, em Nova York. Sua temática característica, de retratar os dramas oriundos do Brasil, foi inspirada no tema da dor e das questões sociais advindas da representação de “Guernica“.

Tamman Azzam nasceu em Damasco, na Síria, em 1980. Após um treinamento artístico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco, e quando iniciou a revolta na Síria ele voltou-se para a mídia digital e arte gráfica para criar composições visuais do conflito, com grande repercussão internacional.

Klimt_Beijo_TammanAzzam2

Superposição do obra “O beijo”, de Gustav Klimt em prédio devastado pela guerra, na Siria. Por Tamman Azzam.

Uma das criações mais famosas de Azzam é a superposição da icônica obra “O beijo“, de Gustav Klimt, em paredes de um prédio devastado pela guerra em sua terra natal, o que provoca sentimentos contraditórios, oscilando do horror à contemplação, e vice-versa…

Em 2004, foram doados ao Museu ArtenaRede 27 obras da artista paulista Théta C. Miguez, oriundas da série “Retratos do Apocalipse”. Entre as obras, algumas evidenciam os horrores da guerra, como a inesquecível imagem da pequena vietnamita fugindo de um ataque com bombas de napalm…

Theta2

“Holocausto”, de Theta C. Miguez. 2002 – Téc.mista – 50 X 70 cm
Série “Retratos do Apocalipse”

Assim se expressou a artista, sobre a citada série:

Theta1

“O choro da menina vietnamita”, de Théta C. Miguez. 2002 – Técnica mista – 70 X 50cm.
Série “Retratos do Apocalipse”.

“A escolha do tema “Retratos do Apocalipse” se dá em face do desejo de retratar a situação das profundas transformações que estão ocorrendo em nosso mundo, em pleno apogeu da era tecnológica e dos expressivos avanços dos meios de comunicação.

Como o apocalipse representa previsões, no que tange o fim da humanidade, expresso através desse projeto, que a mesma não está em vias de acabar, como alude tais previsões místicas, mas que de certa forma, vem falindo nos seus propósitos sociais, humanitários e existenciais.

Guerra se faz com armas, o Bom Combate se faz com a mente. Na condição de artista plástica, continuarei a guerrear através dos pincéis, registrando em minhas obras, palavras e sentimentos, como ponto de partida para a Paz.”

Geralmente, o contraponto da guerra é a paz. E se o contraponto da guerra fosse a arte?

 Autor: Catherine Beltrão

As asas de Lalique e de Victor Hugo

Resolvi escrever sobre René Jules Lalique (1860-1945), mestre vidreiro e joalheiro francês. Lalique criou jóias, frascos de perfume, copos, taças, candelabros, relógios, entre outros objetos, dentro do estilo modernista, sobretudo Art nouveau e Art déco.

Lalique_libelula1

Libélula, de Lalique.

Entre centenas de obras deslumbrantes, me deparei com as borboletas e as libélulas, jóias de sublime beleza, com suas asas de cristal voando até nossa alma.

Lalique_libelula2_pendant

Lalique, pingente de libélula.

Lalique_libelula3

Lalique, pingente de libélula

E, percorrendo as asas de Lalique, de repente me lembrei das asas de Victor Hugo (1802-1885), o grande poeta, dramaturgo e ensaísta francês, autor de “Os Miseráveis” e de “Notre Dame de Paris“,  entre diversas outras obras clássicas. 

Victor Hugo amava versos. Victor Hugo amava asas. E assim escreveu um de seus mais belos poemas: “Si mes vers avaient des ailes” (“Se meus versos tivessem asas“):

 

Lalique_borboleta3

Lalique, borboleta

 

Lalique_borboleta2

Lalique, borboleta

Lalique_borboleta4

Lalique, borboleta

Mers vers fuiraient doux et frèles
Vers votre jardin si beau
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’oiseau

Ils s’envoleraient, étincelles
Vers votre foyer qui rit
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’esprit

Près de vous purs et fidèles
Ils s’envoleraient nuit et jour
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’amour.

Tradução livre:

Lalique_libelula5

Lalique, libélula

Lalique_libelula4

Lalique, libélula

Meus versos fugiriam doces e frágeis
Para teu jardim tão belo
Se meus versos tivessem asas
Asas como o pássaro

Eles voariam, faíscas
Para tua morada que ri
Se meus versos tivessem asas
Asas como o espírito

Perto de ti puros e fiéis
Eles voariam noite e dia
Se meus versos tivessem asas
Asas como o amor.

Lalique_borboleta1

Lalique, borboleta

E, para terminar,  Victor Hugo também dizia: “Adoro esta sensação de ter asas nas costas e uma borboleta no coração.” (“J’adore cette sensation d’avoir des ailes dans le dos et un papillon das le coeur. “)

Autor: Catherine Beltrão

Gaudí e o Parque Güell

Gaudi

Antoni Gaudí

Antoni Gaudí (1852-1926)  foi um famoso arquiteto catalão e figura de ponta do modernismo mundial. Grande parte da obra de Gaudí absorveu traços de suas grandes paixões: arquitetura, natureza e religião. Ele dedicava atenção aos detalhes de cada uma das suas obras, incorporando nelas uma série de ofícios que dominava: cerâmica, vitral, ferro forjado e marcenaria. Entre as novas técnicas que introduziu no tratamento de materiais, destaca-se o trencadís,  uma espécie de mosaico realizado com pedaços irregulares de cerâmica.

As obras de Gaudí são inconfundíveis e estão em sua maioria na cidade de Barcelona. Entre as suas obras mais notáveis, destaca-se o O Parque Güell.

Gaudi_bancosondulantes

Bancos ondulantes

 O Parque Güell, com uma extensão de 17,18 ha, é um grande parque urbano situado na cidade de Barcelona, na vertente virada para o Mar Mediterrâneo do Monte Carmelo. É o monumento mais visitado de Barcelona. Originalmente destinado a ser uma urbanização, foi concebido por Antoni Gaudí, expoente máximo do modernismo catalão, por encomenda do empresário Eusebi Güell.

Gaudi_Murodecontencao

Muro de contenção

Gaudi_detalhebancoondulante

Detalhe de um banco ondulante

O parque deve o seu nome a Eusebi Güell, conde de Güell, um rico empresário catalão membro de uma influente família burguesa de Barcelona, que foi quem idealizou construir uma urbanização de luxo na encosta de um monte nas imediações da cidade de Barcelona, então conhecido como Montanha Pelada, atualmente denominada Monte Carmelo. Güell encomendou o projeto ao arquiteto catalão Antoni Gaudí, com quem mantinha uma frutuosa relação pessoal e profissional desde 1878, quando ficara impressionado com o seu talento ao ver desenhos arquiteturais realizados por este na Exposição Universal desse ano em Paris.

Gaudi_Escadariadoparque

Escadaria do Parque

Uma das características mais marcantes do Parque Güell é o contraste entre as texturas e cores dos diferentes materiais de
construção (cerâmica brilhante e multicolorida versus pedra rústica castanha), tão apreciado pelos arquitetos do modernismo catalão.

Gaudi_segundafontedaescadaria

Segunda fonte da escadaria

Gaudi_terceirafontedaescadaria

Terceira fonte da escadaria: El Drac

Do vestíbulo da entrada principal parte uma escadaria monumental de duplo tramo com três lances de escadas e revestida com trencadís que conduz à sala hipostila (grande sala com colunas que sustentam o teto), construída entre 1900 e 1903. A escadaria está implantada entre muros, cujas paredes estão revestidas com pedaços de cerâmica multicolorida formando um espécie de padrão em xadrez com retângulos brancos e quadrados coloridos. Na sua zona central existem três fontes com conjuntos escultóricos igualmente revestidos com trencadís, em cujo simbolismo os estudiosos veem diversos tipos de referências devido à complexa  iconografia aplicada por Gaudí.

Gaudi_RosetasdeJosepMariaJujol_tetosalahipostila

Rosetas de Josep Maria Jujol, no teto da Sala Hipostila

No topo da escadaria situa-se a Sala Hipostila ou sala das cem colunas, uma espécie de grande alpendre originalmente destinado a albergar um mercado ao ar livre para a urbanização, construída entre 1906 e 1913.

Gaudi_MonumentoaoCalvario

Monumento ao Calvário

Gaudi_salahipostila

Colunas na Sala Hipostila

A sala contém 86 colunas dóricas com cerca de 6 m de altura, construídas com entulho e argamassa imitando mármore e revestidas com trencadís branco liso até uma altura de 1,8 m, uma adaptação prática tendo em conta o uso previsto para o espaço mas que está deslocada neste tipo de coluna.

Numa colina isolada num ponto alto do monte Gaudí previu inicialmente instalar uma grande cruz de pedra e ferro forjado, tendo mais tarde mudado de ideias e decidido construir nesse local a capela da urbanização. No entanto, com o fracasso do projeto esta tornou-se desnecessária, pelo que Gaudí optou por construir nesse local um monumento em forma de Calvário, também conhecido como a Colina das Três Cruzes.

Gaudi_ViadutodasJardineiras

Viaduto das Jardineiras

O fato de Gaudí rejeitar o uso de retas e ângulos retos por considerá-los antinaturais levou a que todas as abóbadas
dos pórticos sejam curvas e que predominem as colunas inclinadas.

Gaudi_PorticodaLavadeira

Pórtico da Lavadeira

No entanto, apesar das semelhanças conceptuais, os viadutos têm soluções estruturais diferenciadas, inspiradas em diferentes estilos arquitetônicos: o gótico, o barroco e o românico, como o Viaduto das Jardineiras. Os pórticos e os muros de contenção também têm formas diferenciadas. Um deles, o Pórtico da Lavadeira, cujas paredes e teto têm o formato do interior de uma interminável onda em rebentação suportada por uma fileira de colunas interiores inclinadas, cujos ângulos foram cuidadosamente calculados de forma a corresponder à forma teórica de maior estabilidade.

Antoni Gaudí. Um arquiteto. Eusebi Güell. Um empresário. Uma cidade. Barcelona. Três referências. Três reverências.

Fonte de pesquisa, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão