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Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

A Catedral de Notre-Dame de Rouen, por Claude Monet

É tempo de se falar de catedrais.

Catedral de Rouen

Catedral Notre-Dame de Rouen

Bastante similar à Catedral de Notre-Dame de Paris, a Catedral de Notre-Dame de Rouen é uma catedral católica, também em estilo gótico, situada em Rouen, na região da Normandia, no noroeste da França.

Claude Monet (1840-1926), o célebre pintor das ninfeias do Jardim de Giverny, onde morou em seus últimos quarenta anos de vida, também ficou conhecido pela série de mais de trinta obras sobre a Catedral de Rouen.

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Algumas das mais de 30 pinturas da Catedral de Rouen, pintadas por Claude Monet

As pinturas retratam o mesmo tema pintado em diferentes momentos do dia.

Monet disse: “Todos os dias eu capto e me surpreendo com alguma coisa que ainda não tinha sabido ver. Que difícil de fazer essa catedral! Quanto mais avanço, mais me fatiga restituir o que sinto; eu me digo que aquele que diz ter terminado uma tela é um terrível orgulhoso”.

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“La Cathédrale de Rouen – Le portail au soleil”, de Claude Monet

Para pintar os inúmeros quadros desta série, Monet submeteu-se a muitas sessões, indiferentemente da hora do dia e do tempo. Ele pintou sob o sol, sob a névoa, ao amanhecer, ao entardecer…

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie bleue”, de Claude Monet

Ele trabalhou no tema em dois períodos distintos, em que houve um intervalo de cerca de um ano, entre 1890 e 1894. Monet montou seu atelier frente para a catedral. Antes de iniciar cada pintura, estudou a construção e os efeitos luminosos. Foram pintadas cerca de trinta telas (alguns dizem que são mais de cinquenta), onde Monet reproduz o jogo de luz e as inúmeras mudanças na atmosfera, em vários momentos do dia, através da fachada da catedral.

Artistas e críticos acolheram muito bem essa série de Claude Monet, pois tratava-se de um grande acontecimento. Como escreveu Georges Clemenceau, grande estadista e jornalista francês, tratava-se de “uma forma nova de olhar, de sentir, de expressar uma revolução”.

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“Cathédrale de Rouen – Matin”, de Claude Monet. 1893

Também artistas como Picasso, Braque ou Lichtenstein viram essa série de pinturas sobre a Catedral de Rouen como “de importância fundamental na história da arte”, pois “obrigaria gerações inteiras a mudar suas concepções”.

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie brune”, de Claude Monet. 1894

Na tentativa de transferir para a tela as diferentes mudanças cromáticas, Monet desabafou dizendo que “tudo muda, inclusive a pedra”.

 Autor: Catherine Beltrão

Girassóis

Diz a lenda grega que Clície era uma ninfa apaixonada por Hélio, o deus do Sol. Helio a trocou por sua irmã e Clície começou a enfraquecer. Ela ficava sentada no chão frio, sem comer e sem beber, se alimentando apenas das suas próprias lágrimas. Enquanto o Sol estava no céu, dirigindo sua carruagem de fogo, Clície não desviava dele o seu olhar nem por um segundo. Durante a noite, o seu rosto se virava para o chão, continuando então a chorar.  Seus pés ganharam raízes e o seu rosto se transformou em uma flor,  que continuou seguindo o Sol. E assim nasceu o primeiro girassol.

Mas o girassol não é uma flor. É uma inflorescência, formada por  flores dispostas de acordo com um esquema em espiral, 34 num sentido e 55 no outro.

Flor ou não, vários pintores trouxeram para suas telas este pedaço de Sol. Haja vista Vincent van Gogh (1853-1890), o mais célebre.

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“Vaso com 14 girassóis”, de Vincent van Gogh. 1889.

Parece que Van Gogh pintou onze telas com girassóis. Difícil dizer a mais bela.  Quatorze deles foram pintados em uma obra, assim referida pelo pintor em uma carta a seu irmão Théo: “Sou intenso nisso, pintando com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse, o que não vai surpreendê-lo quando você sabe que o que eu estou pintando são alguns girassóis. Se eu levar a cabo esta ideia, haverá uma dúzia de painéis. Então a coisa toda será uma sinfonia em azul e amarelo. Estou trabalhando nisso todas as manhãs desde o nascer do sol, pois as flores desaparecem tão rapidamente. Estou agora na quarta pintura de girassóis. Este quarto é um arranjo com 14 flores … dá um efeito singular.”

Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo de Van Gogh, dividiu com ele, por alguns meses, um cômodo da famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Foi uma relação conflituosa, que culminou com a partida de Gauguin para Paris, testemunhada por uma carta deste ao mesmo Théo, irmão de Van Gogh: “Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta.”

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“Nature morte à l´Ésperance”, de Paul Gauguin – 1901

É famosa a obra “Nature morte à l´Ésperance“, em que Gauguin representa seu amigo pintando girassóis.

Voltemos um pouco no tempo. Claude Monet (1840-1926), o maior nome do Impressionismo, também pintou girassóis. Em vasos, colhidos de seu jardim de Vétheuil ou ainda florescendo  em seu jardim de Giverny.

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“Ramo de girassóis”, de Claude Monet. 1881.

O inebriante “Ramo de girassóis” é inconfundível, trazendo o frescor do jardim para dentro de casa, contrapondo cores e impressões que somente Monet teria condições de executar.

E que tal um girassol pintado por Gustav Klimt (1862-1918)?

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“O Girassol”, de Gustav Klimt. 1907

Além da célebre obra “Fazenda de campo com girassóis“, é também de Klimt “O Girassol“, solitário e imponente, majestoso, reinando na tela entre dezenas de flores miúdas. O pintor, mestre do Art Nouveau, cujo centenário é comemorado neste ano, nunca deixa de surpreender, na delicadeza de sua pintura, na textura impressa por suas cores…

No Brasil, talvez o nosso maior pintor de flores seja Alberto da Veiga Guignard, ou mais simplesmente Guignard (1896-1962).

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“Vaso de Flores”, de Alberto da Veiga Guignard. 1930

Nascido na cidade serrana de Nova Friburgo/RJ, cidade em que moro e trabalho e que recentemente me adotou como cidadã, o pintor das “paisagens imaginantes” foi extremamente generoso e profícuo em seu tema floral. Uma delas, a obra “Vaso de flores“, de 1930,   foi disputada por cinco compradores e finalmente arrematada na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,7 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista brasileiro vendida em leilão. Na obra, um imenso girassol impera, reverenciado e abraçado por centenas de pétalas e perfumes…

Autor: Catherine Beltrão

A bailarina de tutu amarelo

Era final de tarde. O sol se punha no horizonte. E Katia folheava um livro. Um livro cheio de imagens. Imagens de bailarinas.

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“Danseuses aux jupes jaunes”, de Edgar Degas.

As imagens das bailarinas eram do pintor Edgar Degas.

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“Fin d’arabesque”, de Edgar Degas.

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“Danseuse jaune”, de Edgar Degas

A avó de Katia já tinha falado muita coisa de Degas para a neta. Que ele era conhecido como “o pintor das bailarinas“. E que ele  tinha pintado mais de 1.000 bailarinas!

Mas ele não gostava de ser chamado assim. Se Degas gostava ou não, não importava. O que Katia tinha certeza é que ela nunca tinha visto bailarinas tão bonitas como neste livro!

Uma coisa que Katia percebeu nas imagens era a roupa que as bailarinas usavam. Todas vestiam um corpete apertado  e uma saia de várias cama­das, umas compridas e outras nem tanto.

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“Leçon de dance”, de Edgar Degas

Katia, que também estudava balé, sabia que essa roupa tinha um nome: “tutu“. Era uma palavra francesa, como quase todas as outras que conhecia neste mundo da dança: écarté, entrechat, fouetée, cambré…

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“Deus danseuses en jaune”, de Edgar Degas

E a menina continuava a prestar atenção nas bailarinas de Degas. Os tutus eram de várias cores… tinha tutu branco, tinha tutu azul. Mas Katia gostava mesmo era dos tutus amarelos. Na sua imaginação de menina, ela achava que o tutu amarelo bem que poderia ser um enorme girassol para vestir! A bailarina poderia ser um lindo girassol dançante…

E foi quando Katia pensava no girassol dançante que a avó chegou.

- Vó, me faz uma bailarina de tutu amarelo?, pediu ela.

A avó de Katia era pintora. Ela já tinha pintado bailarinas, mas nenhuma com tutu amarelo.

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“Deux danseuses jaunes et roses”, de Edgar Degas

- Faço, minha linda, respondeu a avó. E continuou:

- Mas tem que ser com tutu amarelo?”

- Tem sim, vó. Tutu amarelo parece girassol!

E a avó pintou a “Bailarina de Tutu Amarelo” para Katia.

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“Bailarina de tutu amarelo”, de Edith Blin. 1957. Pastel sobre cartolina preta.

- Uau, que bonita, vó! Parece mesmo um girassol dançando…

 Autor: Catherine Beltrão

 Este é o 3º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás

 

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Chuva e reflexos, pinturas e fotos

Quando a chuva cai na cidade, duas coisas costumam penetrar na alma das pessoas: o som dos pingos tocando os guarda-chuvas abertos e a cor que se espalha dos reflexos dos prédios produzidos no chão.

Dois artistas contemporâneos captaram, de forma singular, estes reflexos provocados pela chuva urbana: o pintor britânico Nathan Walsh, cujos trabalhos mais parecem fotografias e o fotógrafo russo Eduard Gordeev, cujas fotos mais parecem pinturas…

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“Times Square”, de Nathan Walsh. 2014 – ost – 170 X 254,2cm

Os trabalhos de Nathan Walsh já foram expostos nos principais museus de Zurique, Paris, Londres e Nova York.

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“Times Square”, de Nathan Walsh, ainda em construção.

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“Chicago in the rain”, de Nathan Walsh. 2012 – ost – 129 X 183cm

Seu estilo hiper-realista faz uso da fotografia como base para seus trabalhos, acrescentando recursos mecânicos ou ópticos para transferir a imagem fotográfica para a técnica de retículas para ampliação da imagem. O resultado alcançado é uma maior minúcia dos detalhes e uma alta definição geral da imagem, que torna os objetos representados aparentemente mais palpáveis e concretos, com uma ilusão de realidade maior do que a própria fotografia.

Walsh passou 8 meses pintando os detalhes intrínsecos da praça mais famosa do Mundo, a “Times Square“.

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“Central Camera”, de Nathan Walsh. 2012 – ost – 69,5 X 103cm

No extremo oposto, temos Eduard Gordeev, que trata suas fotos ao estilo impressionista, brincando com as cores e as luzes como as obras que conhecemos de Monet ou Renoir.

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Foto de Eduard Gordeev.

Gordeev gosta muito de fotografar cenas urbanas em dias chuvosos.

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Foto de Eduard Gordeev.

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Foto de Eduard Gordeev.

Morando em São Petersburgo, na Rússia, são famosas as fotos que o artista faz desta cidade, em dias e noites de chuva. Tratando cuidadosamente as fotografias, esfumaçando silhuetas de prédios e monumentos com os seus respectivos reflexos nas poças de água existentes nas ruas e avenidas, nosso olhar é induzido a confundir seus trabalhos com pinturas impressionistas.

Chuva, reflexos, pinturas e fotos… caminhos que artistas trilham à nossa frente, para podermos, mais tarde, encantar nossas mentes e acalentar nossos corações.

 Autor: Catherine Beltrão

Era uma vez o impressionismo de Renoir

A luz da manhã, o movimento da vida acontecendo, as cores desabrochando, tudo me fez pensar que hoje é dia de falar sobre o Impressionismo. Mais especificamente, sobre o impressionismo de Renoir: “Numa manhã um de nós já não tinha preto, e assim nasceu o Impressionismo“.

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“O Camarote”, de Renoir. 1876.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) passou pelo Impressionismo no período de 1870 a 1883. Pintou várias paisagens mas preferia  retratar a vida social urbana. E foi isso que o levou a pintar “L’avant-scène” (“O Camarote“), em 1876, em seu apartamento de Montmartre. A imagem descreve um casal burguês sentado no seu camarote do Opéra de Paris, já prenunciando os vários retratos que iria pintar no decorrer de sua existência.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1876.

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“Retrato de Madame Henriot”, de Renoir. 1874.

Renoir pintou muitos retratos. E teve vários modelos. Um deles foi a atriz de nome Madame Henriot, que trabalhava na Comédie Française. Os retratos de Mme Henriot, pintados por Renoir, são hoje considerados os mais belos e encantadores do movimento impressionista.

Sem trocadilhos, estas obras são de uma beleza que impressiona, cuja luz que emana das telas chega mesmo a ofuscar os olhos de quem as contempla.

Também em 1876, Renoir pinta “La balançoire” (“O balanço“). A pintura mostra uma jovem em um balanço, conversando com um homem. Ao pé deles, está uma menina e um segundo homem apoiado numa árvore. Os modelos são Edmond, irmão de Renoir, o pintor Norbert Goeneutte, e Jeanne, uma jovem de Montmartre (pode ser a filha de Mme Henriot).

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“O balanço”, de Renoir. 1876.

A obra “Le bal du  Moulin de la Galette” é a mais célebre e significativa obra de Renoir. Foi exibida pela primeira vez no Salon em 1877, na exposição dos impressionistas. Embora o rosto de alguns dos seus amigos apareçam na imagem, como o cubano Cárdenas à esquerda dançando com uma moça, e Frank Lamy, Norbert Goeneutte e Georges Rivière sentados à mesa, a intenção de Renoir era captar a vivacidade e a atmosfera alegre desta popular dança de jardim no bairro de Montmartre, nas imediações do Moulin, hoje celebrizado pela tela.

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“Le bal du Moulin de la Galette”, de Renoir. 1876.

Assim Renoir representou a Belle Époque (1870-1914) de Paris na França, um período de grande florescer artístico e econômico. A obra foi adquirida por Gustave Caillebotte que a deixou ao estado francês, juntamente com toda a sua coleção. Porém, Renoir fez uma pequena cópia desta tela, que se tornou uma das telas mais caras já vendida. (Mais “Moulin de la Galette“, clique aqui).

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“La liseuse”, de Renoir. 1876.

Mais uma obra de 1876 e a minha preferida de Renoir. Trata-se de “A liseuse“. Renoir gostava muito do tema de uma mulher deleitando-se com a leitura. Pintou várias liseuses… Mas essa tem uma luminosidade invulgar e o sorriso mais belo do impressionismo.

Nada se sabe sobre a jovem modelo. Mas ela continua lá, no Musée d’ Orsay, indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta e persistente. Os olhares de admiração de quem a contempla não a afetam, ela sabe do seu sorriso e acredita na luz de seu criador e mestre. (Mais “liseuses“, clique aqui).

 Em 1883, Renoir disse: “Por volta de 1883, eu tinha esgotado o Impressionismo e finalmente chegado à conclusão de que não sabia pintar nem desenhar“.

 Autor: Catherine Beltrão

Giverny e Inhotim: sonhos e jardins…

Devo ter sido abençoada pois Giverny e Inhotim fazem parte de minhas lembranças. Lembranças ainda frescas pois só fui conhecer estes jardins há poucos anos: Inhotim em 2013 e Giverny em 2014.

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Lago das ninfeias. Foto: Catherine Beltrão.

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Jardins de Monet. Foto de F. Didillan

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Jardins de Monet. Extraída de: http://viagememfamilia.net/2015/04/23/jardins-de-monet-giverny/

Em 1883, Claude Monet (1840-1926) descobriu Giverny, pequena cidade da Normandia, na França:  passeando pela região, se apaixonou. Alugou uma vila e transformou todo o local em um maravilhoso jardim, onde se inspirava diariamente. Muitos dos seus quadros foram pintados neste cenário de sonhos.  Sonhou suas flores e pintou seu jardim. Em 1890, Monet comprou esta vila e viveu ali até a sua morte, em 1926. Foram 43 anos de amor e comunhão entre o artista e seu jardim…

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“A ponte Japonesa”, de Claude Monet. Ost, 1889.

Conheci o Jardim de Monet, após 40 anos de espera, por ocasião de minha última viagem à França, em 2014, quando fui fazer a dispersão das cinzas de minha mãe, que havia falecido dois meses antes. Na época, publiquei este post: “As Flores de Giverny“.

Inhotim é a Disneylândia dos amantes da arte contemporânea e dos imensos jardins de plantas tropicais. É considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina e está localizada em Brumadinho, pequena cidade a 60 km de Belo Horizonte.

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Foto: © Ricardo Mallaco

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Árvore suspensa de Giuseppe Penone. Escultura em bronze suspensa entre árvores de verdade, que se fundem com a escultura.

Os jardins de Inhotim também foram sonhados. O Instituto Inhotim começou a ser idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. A propriedade privada se transformou com o tempo, tornando-se um lugar singular, com um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras e de todos os continentes.

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Detalhe de uma piazzetta com 3 esculturas de bronze do Edgard de Souza.

O Instituto Inhotim abriga um complexo museológico com uma série de pavilhões e galerias com obras de arte e esculturas expostas ao ar livre. Inhotim é a única instituição brasileira que exibe continuamente um acervo de excelência internacional de arte contemporânea.

Para além da contemplação, os jardins são campo para estudos florísticos e catalogação de novas espécies botânicas. Em 2010, o Instituto Inhotim recebeu a chancela de Jardim Botânico, atribuída pela Comissão Nacional de Jardins Botânicos (CNJB), e, desde então, integra a Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RNJB). (Fonte: http://www.inhotim.org.br)

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“Inmensa”, de Cildo Meireles. Escultura em aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 – 2002. Foto: Tibério França

Também esperei anos para conhecer Inhotim. E, após a visita, também escrevi um post, o terceiro deste blog: “Primeiro contato com Inhotim“.

E assim, embora tardiamente, alguns sonhos meus vão se realizando e se misturam aos sonhos dos idealizadores destes dois magníficos jardins: Claude Monet e Bernardo Paz.

 Autor: Catherine Beltrão

Renoir e Guignard: banhistas e flores no verão de fevereiro

55 anos e um oceano separam a vinda ao mundo destes dois imensos artistas. Ambos de 25 de fevereiro, Pierre Auguste Renoir nasceu em 1841, na cidade de Limoges/França e Alberto da Veiga Guignard nasceu em 1896, em Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro.

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“Banhista enxugando a perna direita”, de Renoir. ost, 1910

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“Banhista arrumando seus cabelos”, de Renoir. Ost, 1893.

Renoir, um dos grandes nomes do impressionismo, nunca deixou de lado o cuidado com a forma. Desde o princípio, sua obra foi influenciada pelo sensualismo e pela elegância do rococó. Embora tenha pintado naturezas mortas, flores e paisagens, foi na figura humana – sobretudo na figura feminina – que ele deixou seu maior legado. Ninguém pintou como ele as formas generosas das mulheres dos séculos XIX e XX, dando forma e fama à série “Banhistas“.

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“As grandes banhistas”, de Renoir. Ost, 1918-9.

 

Guignard_vasocomflores_1933Guignard_semtitulo_1937Guignard foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura: de naturezas mortas, paisagens e retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos. Mas foi pintando exuberantes vasos de flores é que Guignard alcançou, mais tarde, uma grande valorização em suas obras.  É dele o “Vaso de Flores“, arrematado em um leilão da Bolsa de Arte, em agosto de 2015, por R$ 5,7 milhões, tornando-se até então, a obra de arte mais valiosa de um brasileiro já vendida em um leilão.

 

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“Vaso de Flores”, de Guignard. Ost, 1933. A obra de arte mais valiosa de um pintor brasileiro já vendida em um leilão.

A tela foi pintada em 1933, sendo apresentada no 1° Salão Paulista de Belas Artes, em 1934. A obra já pertenceu a Mário de Andrade e fez parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Autor: Catherine Beltrão

 

A orelha cortada

É claro que a orelha é de Van Gogh.

Vincent Van Gogh (1853-1890) pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos 1886 e 1889.  Dois deles são com a orelha coberta com uma faixa branca.  Mas por que ele aparece com a orelha enfaixada? Existe mais de uma versão como resposta.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1989, ost, 60 X 49 cm. Instituto Courtauld de Arte, Londres

23 de dezembro de 1888. Antevéspera de Natal. Naquele ano, Vincent já morava na famosa Casa Amarela, em Arles, sul da França. Tinha o objetivo de realizar o sonho de montar uma colônia de artistas e pintar pessoas e paisagens utilizando a luz direta da região.

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“A Casa Amarela”, de Van Gogh. 1888, ost, 72 X 92cm. Museu Van Gogh, Amsterdam

Naquele dia, Van Gogh havia mais uma vez brigado com o amigo e também pintor Paul Gauguin (1848-1903), que morava com ele na Casa Amarela. Os dois já não conseguiam se entender.“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, reclamou Gauguin a Theo, irmão de Vincent. A situação tornou-se insustentável e Gauguin resolveu ir embora. Vincent se desesperou.

A primeira versão diz que, após o jantar, Vincent teria usado uma faca para cortar um pedaço de sua orelha esquerda.  Depois, embrulhou o pedaço da orelha com jornal e foi até um bordel das redondezas, onde entregou a parte mutilada para uma prostituta chamada Rachel, dizendo-lhe para que guardasse o objeto com cuidado. Essa é a versão mais conhecida.

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“Autorretrato com a orelha cortada”, de Van Gogh. 1889, ost, 51 X 45cm. Coleção particular.

Porém, existe outra versão para este acontecimento. De acordo com Hans Kaufmann e Rita Wildegans, dois pesquisadores de arte da Alemanha, a orelha de Vincent foi cortada por Paul Gauguin, que era um excelente esgrimista. Em entrevista ao portal do jornal britânico “The Guardian“, Kaufmann afirmou que “perto do bordel, a cerca de 300 metros da casa onde moravam, houve um último encontro entre os dois: Van Gogh teria atacado Gauguin, que, para se defender da fúria do holandês, sacou sua arma. Em seguida, fez alguns movimentos na direção de Van Gogh e depois disso cortou sua orelha“.

Segundo os historiadores, a verdade sobre o acontecido nunca veio à tona porque os dois amigos mantiveram um pacto de silêncio. Gauguin não queria ser acusado de um atentado e Van Gogh estaria apaixonado pelo amigo e queria mante-lo sempre por perto.

Dois autorretratos com a orelha cortada. Duas versões sobre o ocorrido. Alguém sabe aí de mais uma versão sobre a orelha cortada de Van Gogh?

Autor: Catherine Beltrão