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Pablos e Ediths

Em muitos de meus posts, gosto de colocar lado a lado pintura e poesia. Cores, formas e palavras. As cores ganham significado e as palavras ganham forma.

Neste post, vou além. Escolhi dois nomes. Pablo e Edith. Um Pablo da pintura e outro da poesia. Uma Edith da pintura e outra da canção.

A primeira dupla: Pablo Picasso e Pablo Neruda…

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“Guernica”, de Pablo Picasso. Painel a óleo, 7,77m X 3,49m. 1937.

Pablo Picasso (1881-1973) foi um pintor, escultor e desenhista espanhol.
Minha mãe me dizia: Se queres ser um soldado, serás general. Se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Então eu quis ser um pintor e agora sou Picasso.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno e um dos mais importantes da língua castelhana do século XX.

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Pablo Picasso

“Saudade”, de Pablo Neruda (vídeo com Aldo Bastos)

Pablo NerudaSaudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

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“Maternidade”, de Pablo Picasso. Ost, 1905.

A segunda dupla: Edith Blin e Edith Piaf…

Edith_Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. Osm. 1945.

Edith Blin (1891-1983) foi uma pintora francesa.
Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma“.

Edith Piaf (1915-1973) foi uma cantora francesa e, segundo pesquisa da BBC, considerada a 10ª maior francesa de todos os tempos.

Piaf

Edith Piaf

Edith

Edith Blin

“Rien de rien”, de (Charles Dumont e Michel Vaucaire). Clique aqui para ver o vídeo com Edith Piaf.

 

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
C’est payé, balayé et oublié.
Je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
J’ai allumé le feu.
Mes chagrins, mes plaisirs.
Je n’ai plus besoin d’eux.
Balayé les amours
Avec les trémolos.
Balayé pour toujours.
Je repars à zéro.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies aujourd’hui,
Ça commence avec toi!

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“Katia e seus amigos” (detalhe), de Edith Blin. Pastel sobre cartolina, 1955.

Uma curiosidade: Pablo Picasso (1881-1973) e Edith Blin (1891-1983) passaram ambos 92 anos neste nosso planeta. Quando Edith nasceu, Pablo tinha dez anos. Quando Edith morreu, Pablo tinha morrido fazia dez anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

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“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

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“Casa branca”. 1890

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“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

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“Casas de palha”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

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“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

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“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

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“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

Palhaços e Cristos de Georges Rouault

Rouault

Georges Rouault

Georges Rouault (1871-1958), o mais importante artista cristão do século XX, nasceu em Paris, em um 27 de maio. Eu também. Na mesma cidade. No mesmo dia. Mas muitos anos depois… Este foi o motivo que me levou a escrever este post. Nesta semana.

Na foto ao lado, Rouault em seu atelier. Parece mais um cozinheiro em sua cozinha, preparando um banquete. Cada obra, um prato. Que será posteriormente degustado. Ou devorado. Pelos olhos. Pelos corações. Pelas mentes. Por isso mesmo, suas obras serão perenes. Contrariamente aos pratos de um banquete.

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“Pierrots bleus au bouquet”, 1946

Georges Rouault ocupa um lugar singular entre os artistas do século XX. Contemporâneo do Cubismo, do Expressionismo e do Fauvismo, ele nunca reivindicou  pertencer a um desses movimentos.

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“The clown”, 1907

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“Clown tragique”, 1911

Frequentemente catalogado como pintor religioso, Rouault é antes de mais nada independente.  Não é num contexto abstrato que ele encontra sua inspiração, mas na realidade mais imediata e na espiritualidade mais elevada. Georges Rouault  é um pintor que não precisa de personagens religiosos para que suas obras estejam impregnadas de um caráter sagrado.

Georges Rouault trabalhou sem interrupção, com extrema dedicação, durante quase 70 anos. Esta é a razão de sua obra ser tão vasta e variada, tanto no que diz respeito à técnicas utilizadas quanto aos temas abordados. Mas alguns temas são recorrentes, como os palhaços e os cristos.

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“Le vieux clown”, 1930

Rouault, que sempre repudiou a definição de “arte sacra” aplicada à sua obra, iniciou a carreira como pintor de vitrais, antes de estudar pintura na École des Beaux Arts como aluno de Gustave Moreau.

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“Christ et docteur”, 1937

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“Cruxifixion”, 1937

Sua amizade com Léon Bloy, escritor de temas religiosos, reafirmou-o na fé católica, inspirando-lhe a composição de temas de conteúdo social. Assim, entre 1902 e 1917, ganharam forma em guaches e aquarelas as séries de palhaços, prostitutas, juízes e cenas de tribunais, nas quais o pintor parece sobrepor-se à fealdade dos modelos por meio de uma pincelada enérgica e de tonalidades sombrias.

Na década de 1910, Rouault dedicou-se à execução de obras de tendência monumental (como o ciclo Guerre et Misère, pintado entre 1917 e 1927, mas que só em 1948 seria conhecido pelo público). Realizou seguidamente diversos cenários para os Ballets Russes de Serguei Diaguilev.

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“Christ on the lake”

No final dos anos 20, retomou os temas clássicos, baseados em figuras de palhaços, pierrôs, mulheres, assim como em cenas do suplício de Cristo e do Antigo Testamento, impregnadas de uma sensibilidade mística e dolente. O cromatismo foi gradualmente adquirindo luminosidade, com contrastes extremos e contornos negros que recordavam a técnica do vitral.

Cristos e palhaços. O que levou Rouault a escolher estes personagens em suas criações? Talvez tentasse encontrar o humano do palhaço em Cristo ou o divino do Cristo em um palhaço…

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

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“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

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“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

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“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

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“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

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Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão

Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

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“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

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“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

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“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

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Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

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“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

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“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

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“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

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“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

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“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão

Kokoschka e Soutine, a manifestação do expressionismo dilacerado

Desde os meus primeiros anos, convivi com livros e imagens de obras de arte. Mas não eram só  obras de Monet, Renoir ou Degas, expoentes do impressionismo bucólico ou dançante. Sem fazer trocadilhos, o que me impressionava mesmo eram as imagens fortes e dilacerantes de Kokoschka e Soutine, grandes nomes do expressionismo.

O expressionismo foi um movimento artístico e cultural de vanguarda surgido na Alemanha no início do século XX, que atravessou os campos artísticos da arquitetura, artes plásticas, literatura, música, cinema, teatro, dança e fotografia.

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“Autorretrato”, de Oskar Kokoschka

 

Oskar Kokoschka (1886-1980) foi um pintor expressionista e escritor austríaco. Recebeu a influência de Van Gogh e também do passado clássico, sobretudo o barroco, via Rembrandt e a escola veneziana, via Tintoretto e Veronese. Também esteve ligado à figura de Klimt, seu professor. Contudo, criou o seu próprio estilo pessoal, visionário e atormentado. Em um espaço denso e sinuoso, submergem as figuras, que parecem estar sendo sugadas por uma corrente centrífuga, produzindo um movimento espiral.

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“Os pagãos”, de Oskar Kokoschka. 1915.

A sua temática costumava ser o amor, a sexualidade e a morte, dedicando-se também por vezes ao retrato e à paisagem. As suas primeiras obras tinham um estilo medieval e simbolista próximo dos Nabis ou da época azul de Picasso. Desde 1906, em que conheceu a obra de Van Gogh, começou num tipo de retrato de corte psicológico, que visava a refletir o desequilíbrio emocional do retratado, com supremacia da linha sobre a cor.

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“A noiva do vento”, de Oskar Kokoschka. 1914.

As suas obras mais puramente expressionistas destacam-se pelas figuras retorcidas, de expressão torturada, como “A noiva do vento“. É uma obra de ser vista em silêncio, porque ela grita. Chora. Sofre pela harmonia que existe entre a presença e a ausência. A presença da mulher – a sua mulher, Alma – e a ausência do homem, já morto – a de Gustav Mahler, o eterno fantasma/amante de Alma, jamais por ela esquecido.  Nesta obra, Kokoschka reconhece a utopia, a fragilidade e o fracasso pela ilusão de ser amado por uma mulher que não se livrará do passado.

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“Amantes com gato”, de Oskar Kokoschka. 1917.

A partir de 1920 Kokoschka dedicou-se mais à paisagem, com um certo aspecto barroco, de pincelada mais leve e cores mais brilhantes.

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“Autorretrato”, de Chaim Soutine.

Chaïm Soutine (1893 -1943) foi um pintor expressionista da Escola de Paris. Sua produção foi muito influenciada por artistas como Cézanne, Rembrandt e El Greco. Pintava de forma delirante, como possuído por um ataque febril, precipitando as cores na tela.

Seus quadros apresentam uma textura pastosa e também uma grande força cromática. Foi comparado com o grande mestre pós-impressionista Van Gogh, cuja obra Soutine admirava. Por outro lado, artistas da época o comparavam com Oskar Kokoschka pois, como este, tinha a capacidade de captar tipos psicológicos em seus retratos.

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“O pequeno pasteleiro com um lenço vermelho”, de Chaim Soutine. 1914.

Nunca foi capaz de pintar senão com um modelo à sua frente.

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“Carcaça de boi”, de Chaim Soutine. 1925.

 

Soutine horrorizou seus vizinhos certa vez, por manter uma carcaça de animal em seu estúdio, para que pudesse pintá-la. O fedor fez com que os vizinhos chamassem a polícia, a quem Soutine prontamente dissertou sobre a importância relativa da arte acima da higiene.

A sua personalidade violenta e autodestrutiva provocava uma relação apaixonada com a sua obra, levando-o muitas vezes a romper os seus quadros, e refletindo-se numa pincelada forte e incontrolada e uma temática angustiosa e desolada. É o caso desta obra - “Carcaça de boi“, inspirada no “Boi esfolado” de Rembrandt.

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“Enfant de coeur”, de Chaim Soutine. 1927/28.

Pintor impulsivo e espontâneo, Soutine tinha uma necessidade pungente de registrar imediatamente na tela a sua emotividade interior, motivo pelo qual as suas obras carecem de qualquer preparação prévia.

Kokoschka e Soutine. A determinação compulsiva da angústia na arte.

Autor: Catherine Beltrão

Um dia em 1972

Não lembro o dia. Nem o mês. Só o ano: 1972. Neste dia, eu fui, uma vez mais, modelo de Edith. Edith Blin, minha avó. Edith, cúmplice de vida e de alma.

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“Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Edith dando os últimos retoques na obra.

Minha avó me pintou 129 vezes, em 32 anos. Desde que eu nasci até a sua partida. Foram 32 anos de cumplicidade em 129 registros de amor.

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Nas telas e no cotidiano com minha avó Edith, meu nome é Katia. Catherine é para os outros.

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A cada vez que posava, um compositor se fazia presente: Bach, Chopin, Liszt, Debussy, Villa-Lobos. Não importa. A música nos unia.

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Neste dia de 1972, deve ter sido Franz Liszt. Talvez a “Bénédiction de Dieu dans la solitude“, com Claudio Arrau ao piano.

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E, como já escrevi em depoimento de 2006, acerca de ter sido modelo de Edith: “Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.”

Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesa

“Retrato de Katia vestida de roxo estilo marquesa”. 1972, ost, 92 X 73cm.

Ao lado, a obra “Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Foi feita em 1972, a óleo sobre tela. Dimensão: 92 X 73cm. O vestido roxo era de veludo de seda, tendo sido de minha avó, quando jovem. O longo colar é feito de contas de âmbar. A gargantilha tem um pendente cujo desenho é um tucano feito com asas de borboleta. O vestido não existe mais. O colar e a gargantilha, sim.

Neste 8 de maio, Dia das Mães, quando o sentimento brota sem fazer esforço, a lembrança daquele dia em 1972, faz 44 anos já, traz para o presente o som e o cheiro de um daqueles momentos mágicos, partilhados com aquela que foi minha mãe de coração, mãe de alma, mãe de criação, mãe de Arte: minha avó Edith Blin.

Autor: Catherine Beltrão

 

Artistas, mulheres e sombras

Ao escrever meu último post, “Modigliani e o amor de Jeanne Hébuterne“, me veio a ideia de escrever sobre artistas mulheres que foram mulheres de artistas homens e, por isso mesmo, tornaram-se meras sombras de seus homens. Ou quase isso.

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Jeanne Hébuterne, em 1917.

Inicio pela própria Jeanne Hébuterne (1898-1920). Tendo sido mulher de Amedeo Modigliani em seus três últimos anos de vida, ambos morreram muito jovens, ela com 21 e ele com 34 anos de vida. Ele de tuberculose meningítica e ela, grávida de seu segundo filho, cometendo suicídio um dia após a morte de Amedeo.

Menos de um século após sua morte, a obra de Modigliani é uma das mais valorizadas do mercado de arte, chegando algumas a dezenas de milhões de dólares. Enquanto isso, a obra de Jeanne Hébuterne é praticamente desconhecida.

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“Autorretrato”, de Jeanne Hébuterne

 

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Camille Claudel, aos 20 anos

Camille Claudel (1864-1943), deixou cedo a família por amor à escultura, sua paixão desde criança. Ela trabalhou vários anos a serviço de seu mestre Auguste Rodin, por quem foi secretamente apaixonada. Até hoje, às vezes um leigo se confunde em quem inspirou um ou copiou o outro . O tempo passou e Camille e Rodin se envolveram, e tiveram um caso ardente de amor. Mas Rodin não assumiu a relação e Camille, ferida e desorientada, ainda mais por descobrir que seu romance com Rodin não passou de uma aventura para ele, passou a nutrir por Rodin um estranho amor-ódio que a levou à paranoia e à loucura. Morreu em um sanatório, aos 79 anos de idade, após trinta anos de internação e desespero, passando todo esse tempo amarrada e sedada.

Hoje, as obras de Camille Claudel ocupam a sala de número 6 nas 16 salas do Museu Rodin, em Paris.

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“Profonde Pensée”, de Camille Claudel

 

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Dora Maar

Dora Maar (1907-1997) foi uma fotógrafa, poeta e pintora francesa descendente de croatas. Pablo Picasso e Dora Maar foram apresentados pelo poeta Éluard no café Deux Magots, em St.-Germain-des-Prés, numa noite em janeiro, 1936. Dora Maar é mais conhecida por ter sido a mais bela e culta das amantes de Picasso, inspiradora de vários retratos. Sua relação durou 9 anos.

Dora fotografou a produção de Guernica e seria uma de suas figuras – a mulher horrorizada segurando uma lâmpada. Posou também para a série Mulher chorando. “Nunca pude imaginá-la a não ser chorando”, dizia Picasso. A fama e o talento de seu companheiro ofuscou o brilho de Dora, que era uma excelente fotógrafa. Suas imagens seguiam o estilo surrealista, muito influenciada por Man Ray e André Breton.

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“Silêncio”, de Dora Maar

 

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Gabriele Munter

Gabriele Münter (1877-1962) foi uma pintora alemã do expressionismo, fotógrafa e salvadora das pinturas do movimento Blaue Reiter (“O Cavaleiro Azul“) durante a Segunda Guerra Mundial. No verão de 1903, Wassily Kandinsky comprometeu-se em matrimônio com Münter, apesar de estar ainda casado. Münter viveu abertamente com Kandisnky como amante, que só se divorciou em 1911. Viveram juntos até 1917.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Gabriele Münter escondeu mais de 80 obras de Kandinsky e outros membros do Blaue Reiter, além de obras próprias, salvando-as da destruição. Estas pinturas agora são exibidas na Lenbachhaus.

Hoje, Wassily Kandinsky é considerado o precursor da arte abstrata. Quantos conhecem a arte de Gabriele Münter?

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“Menina com fita vermelha”, de Gabriele Munter. 1908.

 

Talvez essas artistas mulheres, mulheres de artistas homens, sejam muito mais do que sombras. Talvez tenham sido eclipsadas pelo brilho de seus homens. Talvez o tempo deste eclipse ainda esteja em curso. Talvez o seu brilho ainda esteja para acontecer. Afinal, tudo depende de quem olha para as estrelas…

Autor: Catherine Beltrão

David Bowie: autorretratos

O mundo está consternado. Vitimado por um câncer de fígado, lá se foi David Bowie (1947-2016), um dos maiores artistas de música popular de todos os tempos, tendo influenciado gerações por mais de cinco décadas de constantes inovações em suas criações artísticas.

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Autorretrato de David Bowie. 1978

Aclamado em todo o mundo e por quase todos que conhecem sua música, no entanto são poucos os que sabem de suas produções nas artes plásticas. Vale a pena.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Em sua profícua trajetória musical, ele  também teve tempo de desenhar, pintar e esculpir.  São apresentados neste post alguns de seus autorretratos, realizados em 1996.

Três destes autorretratos foram vendidos durante um leilão em Penzance, na cidade inglesa de Cornwall. Segundo a publicação, o comprador pagou US$ 10 mil  pelas três obras. As pinturas  fazem parte da coleção “D-Heads”.

Uma óbvia previsão: em dez anos, o valor destas obras terá ultrapassado os US$ 100 mil. Alguém duvida?

 

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Autorretrato de David Bowie. 1996.

Para ver a série dos 7 autorretratos, clique aqui.

Embora o propósito deste texto tenha sido mostrar uma faceta pouco conhecida do artista, não há como escrever sobre David Bowie e não apresentar alguma referência musical. A seguir, três links de acesso para vídeos de Bowie com grandes parceiros: em 1975, com John Lennon  – “Fame“; em 1981, com Freddie Mercury – “Under pressure“; em 1996, com Phillip Glass – “Heroes“.

Autor: Catherine Beltrão

Um ícone cultural: ecos de “O Grito”

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“O Grito”, de Edvard Munch. 1893, Óleo sobre tela, Têmpera e Pastel sobre cartão. Galeria Nacional, Oslo.

A obra “O Grito” de Edvard Munch (1863 – 1944), possui quatro versões, pintadas de 1893 a 1895. A mais célebre data de 1893, tendo como plano de fundo a doca de Oslofjord, em Oslo, na Noruega, em pleno pôr do sol. A obra é uma das mais importantes do movimento expressionista.

Sobre ela, Munch escreveu em um diário: “Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol – o céu ficou de súbito vermelho-sangue – eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta– havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade – os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade e senti o grito infinito da Natureza”.

Algumas obras, não se sabe exatamente por quê, tornam-se ícones culturais. São reproduzidas ao infinito, sofrem centenas de releituras, servem de base para vários projetos. É o caso desta obra.

Baseado em “O Grito“, Sebastian Cosor realizou um magnifico curta-metragem de animação 3D, intitulado “The Scream“, com música de Pink Floyd -  “The great gig in the sky“.

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Vídeo “The Scream”, de Sebastian Cosor. Duração: 3:23

 

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Bernard Pras – reformação da obra “O Grito”, de Edvard Munch

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Releitura de “O Grito”, por Omid Asadi.

Uma releitura fantástica desta obra foi a realizada pelo francês Bernard Pras (1952), representante da arte anamórfica, baseada no conceito de anamorfose, que se refere ao retorno, à reiteração e à reversão da forma.  Com fios, cabos, canos, cadeiras, tesouras, bichos, personagens e carrinhos de plástico, ele transforma sucata em obra de arte.

Outra releitura da obra “O Grito” é o delicado trabalho do artista iraniano Omid Asadi, feito através de cortes na textura de folhas secas. Em seu site, há uma citação anônima: “Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso um tempo para se amar uma folha. É comum se amar o belo mas é belo se amar o que é comum.

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Releitura de “O Grito”, por Ida Skivenes

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Releitura de “O Grito”, por Maria Aristidou

Também existe um sem número de criações realizadas mesclando arte e comida: é a food art. Entre as que mais gostei, selecionei os projetos “The art toast“, realizada por Ida Skivenes, uma artista norueguesa e o “Art on cakes“, da grega Maria Aristidou. Seja em torradas, seja em bolos, a arte original de Munch – entre outros gigantes como Picasso, Van Gogh e Da Vinci - é transformada em puro prazer degustativo, associado ao olhar preliminar de admiração.

Três da quatro versões da obra “O Grito“ estão em museus na Noruega, enquanto a quarta estava nas mãos de Petter Olsen, um empresário norueguês cujo pai foi amigo e patrono de Munch, tendo adquirido inúmeros quadros ao artista.

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Quarta versão de “O Grito”, de Edvard Munch. 1895.

Nesta quarta versão, de 1895, as cores são mais fortes do que nas outras três versões e é a única em que a moldura foi pintada pelo artista com o poema que descreve uma caminhada ao pôr-do-sol que inspirou a pintura. Outra particularidade única desta versão é que uma das figuras que está em segundo plano olha para baixo, para a cidade.

Em 2 de Maio de 2012 esta versão foi vendida pelo preço recorde de 119,9 milhões de dólares, tornando-se a obra mais cara em leilão, até aquela data, superando o quadro até então recordista, de Pablo Picasso, “Nu, Folhas e Busto“, que em maio de 2010 foi leiloado por 106,5 milhões de dólares .

O Grito“, de Edvard Munch, da mesma forma que “Monalisa“, de Leonardo da Vinci, são obras definitivas que, à medida que o tempo passa, povoam o consciente de mais e mais pessoas, a ponto de ecoarem eternamente em nosso inconsciente coletivo.

 Autor: Catherine Beltrão