Arquivo da categoria: Expressionismo

Criar é uma forma de resistir

Há várias formas de resistir a um status quo, à inércia, a uma situação negativa, que vai contra o Ideal de qualquer um de nós. Uma delas é através da criação. A personagem é uma pintora francesa, autodidata, que pintou, nos anos 40, a Resistência Francesa em solo brasileiro.

Um tributo a Edith Blin, a “pintora da alma“.

PalestraFecap

Cartaz convite para a palestra “Criar é uma forma de resistir”, na FECAP/SP, proferida em 11.05.2018.
Dueto de Arte e História, com a profa. Catherine Beltrão e a profa. Daniela Medeiros.

Edith Blin nasceu na cidade de Pontorson, na Normandia, região ao norte da França, em 22 de julho de 1891. Esta cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, uma das maravilhas do mundo. Edith casou duas vezes e teve três filhos.

teatro_Edithatriz4

Edith como atriz de teatro, nos anos 20.

Nos anos 20 e início dos anos 30, foi atriz, adotando o nome de Edith Dereine. Como atriz, conheceu o pintor belga Georges Wambach, que iria ser decisivo em sua decisão de pintar. Em 1935, embarcou com a família e o amigo Wambach para o Brasil, no navio Bagé. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda no Brasil, ela teria perguntado ao pintor por que ele continuava pintando paisagens bucólicas enquanto a Europa era devastada pelos nazistas. E Wambach teria respondido: “ Por que não pinta você o que você sente?”.

E ela começou a pintar.

Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre madeira, 41 X 33cm

Autodidata, um ano depois ela fazia sua primeira exposição. Sucesso total. Muitas matérias e artigos em jornais e revistas. O tema principal era a Resistência Francesa, mas ela também pintava nus e retratos. Em 1945 e 1946, mais duas exposições. Mais sucesso. Mais artigos em jornais. Teve até obra estampada em capa de revista.

Juin 1940

“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, óleo sobre tela, 100 X 65cm

Em 1947, sua mãe ficou doente e pediu para voltar para a França.

Pieta

“Piétà de Normandie”, de Edith Blin. 1947, óleo sobre madeira, 102 X 78cm

Elas voltaram e Edith doou duas obras para serem leiloadas em um evento visando obter fundos para a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na Batalha de Saillant -de-l’Odon, na Normandia. Em agradecimento pelas doações, ela recebeu, então, um pergaminho manuscrito da comunidade local, dotado de mapa, selos e insígnias, relatando a batalha e um texto sobre sua obra.

Pergaminho1

Pergaminho sobre a Batalha de Saillant-sur-Odon, entregue a Edith Blin, em agradecimento à doação de duas obras visando a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na batalha.

Ao final deste mesmo ano, sua mãe morreu. Edith não queria mais pintar. Em meados de 1948, sua neta Katia nasceu. A mãe de Katia estava doente e não podia cuidar do bebê. Edith então assumiu a criação da neta. Em 1949, voltou para o Brasil. Enquanto cuidava de Katia, voltou a pintar. Os temas eram variados: flores, paisagens, pierrôs, bailarinas, naturezas mortas e rostos. Muitos rostos. Entre eles, retratos. Muitos retratos.

Edith Blin só voltou a expor em 1969. Neste período, ela já tinha aprimorado muito a sua técnica, usando a cartolina preta como suporte, além da habitual tela. Pintava com pincéis e espátulas para espalhar a tinta a óleo na tela ou cartolina, e os próprios dedos, quando fazia uso do pastel. Fez tantos pastéis, que perdeu as digitais de alguns dedos. Como estudos, deixou muitos desenhos a carvão em vários cadernos. Participou de algumas exposições individuais e coletivas, até sofrer o primeiro derrame cerebral, em 1979. Continuou pintando por mais um ano, mas os derrames se sucederam até sua morte, que ocorreu em 29 de julho de 1983. Tinha 92 anos.

Paris

“Paris”, de Edith Blin. 1944, óleo sobre tela, 64 X 53cm

Edith Blin , “la peintre de l’âme” (“a pintora da alma”), deixou um imenso legado. Seu legado não é dimensionado somente pelas obras pintadas, estimadas em cerca de 1300. O legado é muito mais qualitativo do que quantitativo. O que importa é por que pintou, o que pintou e como pintou. Autodidata, começou a pintar porque precisava expressar um sentimento de angústia por sua pátria e seus patrícios que eram dizimados na guerra. Pintou a resistência francesa, pintou os nus etéreos e pintou as flores ao vento. Pintou 148 retratos da neta Katia, de bebê aos 32 anos idade. E inovou na forma de pintar, com o uso da cartolina preta como suporte para suas obras, nos anos 60. Segundo ela mesma dizia, “era mais fácil de rasgar quando não gostava do que havia pintado”.

Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh: 40 autorretratos e 800 cartas

Vincent van Gogh, sem dúvida o mais conturbado e valorizado pintor do século XIX, pintou mais de 40 autorretratos somente no período 1886 a 1889. Ele também teria escrito mais de 800 cartas, a maioria para o seu irmão Théo.  Por que Van Gogh tinha esta imensa necessidade de expor seu mundo interior?

VanGogh_autorretrato8

O último autorretrato de Van Gogh. 1889
Vídeo com alguns dos autorretratos.

Este post apresenta 17 destes autorretratos, além de trechos de algumas de suas cartas.

Em sua última carta, escreveu: “[...] em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte [...]”

VanGogh_autorretrato2

“Autorretrato, com orelha enfaixada e cachimbo”. 1889

VanGogh_autorretrato3Algumas vezes Vincent se referiu a Paul Gauguin, seu grande amigo: “Eu por mim acredito que Gauguin tinha se desanimado um pouco com a boa cidade de Arles, com a casinha amarela onde
trabalhamos e, sobretudo, comigo. De fato, tanto para ele quanto para mim, aqui ainda existiriam sérias dificuldades a vencer. Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte. Em suma, por mim eu acredito que ou ele vai decididamente partir, ou ele decididamente ficará aqui.”

E após decepar sua orelha, também se preocupou com Gauguin:

“Falemos agora de nosso amigo Gaugin, eu o assustei? Afinal porque ele não me dá nenhum sinal de vida? Ele deve ter ido embora contigo. Aliás, ele precisava rever Paris, e em Paris talvez ele se sinta mais em casa do que aqui. Diga a Gauguin que me escreva, e que sempre penso nele.”

VanGogh_autorretrato7

“Autorretrato”. 1889

Escreveu sobre ‘bondade’. E sobre ‘loucura’.

VanGogh_autorretrato6

“Autorretrato, dedicado a Gauguin”. 1888

VanGogh_autorretrato9

“Autorretratoi sem barba”. 1889

“Devo dizer que os vizinhos etc. são de uma bondade particular comigo, como todo mundo aqui sofre seja de febre, seja de
alucinação ou loucura, entendemo-nos como gente de família [...] Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo [...] Peço-lhe, portanto, que não diga que eu não tenho nada, ou não teria nada.” 1889

O que me consola um pouco é que estou começando a considerar a loucura como uma doença qualquer, e aceito a coisa como ela é, enquanto que, durante as crises, parecia-me que tudo o que eu imaginava era real [...] Poupe-me das explicações, mas peço a você e aos Srs. Salles e Rey que ajam de maneira que fim do mês ou começo de maio eu vá para lá como pensionista internado.” 1889

VanGogh_autorretrato14

“Autorretrato”. 1888

E o “ser vagabundo”…

VanGogh_autorretrato17

“Autorretrato”. 1888

VanGogh_autorretrato4“Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.

Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.

VanGogh_autorretrato10

“Autorretrato”. 1887

VanGogh_autorretrato11Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”

VanGogh_autorretrato15

“Autorretrato”. 1887

VanGogh_autorretrato12

“Autorretrato”. 1887

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

VanGogh_autorretrato13

“Autorretrato”. 1886/87

E as cores. Benditas cores.

VanGogh_autorretrato5

“utorretrato com cachimbo”. 1886

VanGogh_autorretrato16“… As cores se sucedem como que sozinhas e ao tomar uma cor como ponto de partida me vem claramente a cabeça o que deduzir, e como chegar a dar-lhe vida. Não posso entender, por isso, a grosso modo, que um pintor faz bem quando parte das cores de sua palheta em vez de partir das cores da natureza. Interessa-me menos que minha cor seja precisamente idêntica, ao pé da letra, a partir do momento em que minha tela ela fique tão bela quanto na vida. A cor, por si só, exprime alguma coisa, não se pode prescindir disso, é preciso tomar partido. O que produz beleza, beleza verdadeira, também é verdadeiro e isso realmente é pintura e é mais belo que a imitação exata das próprias coisas.”E depois, como você bem sabe, gosto muito de Arles, embora Gauguin tenha uma tremenda razão em chamá-la de a mais suja cidade de todo o Midi. E encontrei tantas amizades já entre os vizinhos, junto ao sr. Rey, e aliás entre todo mundo no hospício, que realmente eu preferiria continuar a ficar doente aqui, que esquecer a bondade destas mesmas pessoas que têm os mais incríveis preconceitos para com os pintores e a pintura. 1889

VanGogh_autorretrato1

“”Autorretrato”. 1886

E, novamente, a “bondade”:

Esses dias, mudando, transportando todos os móveis, embalando as telas que lhe enviarei, foi triste, mas me parecia muito mais triste o fato de que isso me foi dado com tanta fraternidade por você, e que durante tantos anos foi no entanto você sozinho quem me sustentou, e afinal ser obrigado a vir lhe contar toda esta triste história; mas me é difícil exprimir isto como eu o sentia. A bondade que você teve para comigo não se perdeu, pois você a teve e isto permanece sendo seu, e mesmo que os resultados materiais fossem nulos, é razão a mais para que isto permaneça sendo seu [...]. 1889

Todas as suas bondades para comigo, hoje eu as achei maiores do que nunca, não consigo dizer-lhe como eu o sinto, mas eu lhe asseguro que essa bondade foi de um bom quilate, e se você não vê seus resultados, meu caro irmão, não se atormente por isto, sua bondade permanecerá.

O que fazer com tanta bondade, tanta loucura e a sensação de “ser vagabundo”? Pintar? Escrever? As duas coisas, sem dúvida alguma.

Autor: Catherine Beltrão

 

 

 

As gotas de Pollock

Jackson Pollock (1912-1956) é um dos maiores pintores norte-americanos do século XX, referência no movimento do expressionismo abstrato. Ele desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o ‘dripping’ (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas telas.

Pollock2

“Convergence”. 1952.
A mais famosa obra do pintor.

Pollock pintava com a tela no chão, e não utilizava cavaletes, isto para sentir-se dentro do quadro.

Pollock pintando

Pollonk pintando.

Pollock5On the floor I am more at ease. I feel nearer, more a part of the painting, since this way I can walk around it, work from the four sides and literally be in the painting.”

No chão eu me sinto mais à vontade. Eu me sinto mais perto, sendo uma parte da pintura, podendo caminhar em volta dela, trabalhando nos quatro lados e literalmente estando dentro da pintura.”

Acima, a obra “Number 18“, de 1950.

Pollock3

“Number 8″. 1949

A técnica de “gotejamento” utilizada por Pollock misturava movimentos com as latas de tinta – sacudindo, espirrando e pingando – quase não usando pincéis.

Pollock4

“Alchemy”. 1947

Ao desenvolver essa técnica, Pollock passou a utilizá-la quase que exclusivamente – de 1947 a 1950 -, fazendo uso de ferramentas não convencionais: ao invés dos pincéis, fazia uso de varas, escovas duras e até seringas, regando para criar.

Pollock6

“Autumn Rhythm”. 1950

“A pintura tem vida própria. Procuro deixar que ela se manifeste.”

Pollock1

“Number 16″.1950

A obra “Number 16“, de Jackson Pollock, foi doada ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM-RJ – pelo multimilionário norte-americano Nelson Rockefeller, em 1954. É uma das 16 mil obras do acervo do museu e uma das mais requisitadas para empréstimo.

A “Number 16” também é a única obra de Pollock existente no Brasil em um museu. E tudo indica que deverá ser vendida. Para garantir a sustentabilidade do MAM, durante pelo menos 30 anos. Uma única obra garantindo a sobrevivência de um espaço cultural brasileiro  que, como quase todos os demais, não consegue se gerir pela própria competência administrativa, sem utilizar do artifício de vender seu patrimônio.

Pollock7

“Mural”. 1943

A propósito: o recorde para uma obra de Jackson Pollock é de 160,8 milhões de dólares. O valor da “Number 16” está estimada em 25 milhões de reais.

 Autor: Catherine Beltrão

Pablos e Ediths

Em muitos de meus posts, gosto de colocar lado a lado pintura e poesia. Cores, formas e palavras. As cores ganham significado e as palavras ganham forma.

Neste post, vou além. Escolhi dois nomes. Pablo e Edith. Um Pablo da pintura e outro da poesia. Uma Edith da pintura e outra da canção.

A primeira dupla: Pablo Picasso e Pablo Neruda…

Picasso_guernica

“Guernica”, de Pablo Picasso. Painel a óleo, 7,77m X 3,49m. 1937.

Pablo Picasso (1881-1973) foi um pintor, escultor e desenhista espanhol.
Minha mãe me dizia: Se queres ser um soldado, serás general. Se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Então eu quis ser um pintor e agora sou Picasso.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno e um dos mais importantes da língua castelhana do século XX.

picasso

Pablo Picasso

“Saudade”, de Pablo Neruda (vídeo com Aldo Bastos)

Pablo NerudaSaudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Picasso_maternidade

“Maternidade”, de Pablo Picasso. Ost, 1905.

A segunda dupla: Edith Blin e Edith Piaf…

Edith_Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. Osm. 1945.

Edith Blin (1891-1983) foi uma pintora francesa.
Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma“.

Edith Piaf (1915-1973) foi uma cantora francesa e, segundo pesquisa da BBC, considerada a 10ª maior francesa de todos os tempos.

Piaf

Edith Piaf

Edith

Edith Blin

“Rien de rien”, de (Charles Dumont e Michel Vaucaire). Clique aqui para ver o vídeo com Edith Piaf.

 

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
C’est payé, balayé et oublié.
Je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
J’ai allumé le feu.
Mes chagrins, mes plaisirs.
Je n’ai plus besoin d’eux.
Balayé les amours
Avec les trémolos.
Balayé pour toujours.
Je repars à zéro.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies aujourd’hui,
Ça commence avec toi!

Edith_katiaeseusamigos

“Katia e seus amigos” (detalhe), de Edith Blin. Pastel sobre cartolina, 1955.

Uma curiosidade: Pablo Picasso (1881-1973) e Edith Blin (1891-1983) passaram ambos 92 anos neste nosso planeta. Quando Edith nasceu, Pablo tinha dez anos. Quando Edith morreu, Pablo tinha morrido fazia dez anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

Vangogh_casaamarela_1888

“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

Vangogh_casabranca_1890

“Casa branca”. 1890

Vangogh_auverssuroise_1890

“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

Vangogh_casasdepalha_1890

“Casas de palha”. 1890

Vangogh_casasemauvers_1890

“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

Vangogh_igrejaemauvers_1890

“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

Vangogh_casasemfazendapertodeAuvers_1890

“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

Vangogh_casasemauvers2_1890

“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

Vangogh_AubergeRavoux_1890

“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

Palhaços e Cristos de Georges Rouault

Rouault

Georges Rouault

Georges Rouault (1871-1958), o mais importante artista cristão do século XX, nasceu em Paris, em um 27 de maio. Eu também. Na mesma cidade. No mesmo dia. Mas muitos anos depois… Este foi o motivo que me levou a escrever este post. Nesta semana.

Na foto ao lado, Rouault em seu atelier. Parece mais um cozinheiro em sua cozinha, preparando um banquete. Cada obra, um prato. Que será posteriormente degustado. Ou devorado. Pelos olhos. Pelos corações. Pelas mentes. Por isso mesmo, suas obras serão perenes. Contrariamente aos pratos de um banquete.

Rouault_1946

“Pierrots bleus au bouquet”, 1946

Georges Rouault ocupa um lugar singular entre os artistas do século XX. Contemporâneo do Cubismo, do Expressionismo e do Fauvismo, ele nunca reivindicou  pertencer a um desses movimentos.

Rouault_1907

“The clown”, 1907

Rouault_1911

“Clown tragique”, 1911

Frequentemente catalogado como pintor religioso, Rouault é antes de mais nada independente.  Não é num contexto abstrato que ele encontra sua inspiração, mas na realidade mais imediata e na espiritualidade mais elevada. Georges Rouault  é um pintor que não precisa de personagens religiosos para que suas obras estejam impregnadas de um caráter sagrado.

Georges Rouault trabalhou sem interrupção, com extrema dedicação, durante quase 70 anos. Esta é a razão de sua obra ser tão vasta e variada, tanto no que diz respeito à técnicas utilizadas quanto aos temas abordados. Mas alguns temas são recorrentes, como os palhaços e os cristos.

Rouault_1930

“Le vieux clown”, 1930

Rouault, que sempre repudiou a definição de “arte sacra” aplicada à sua obra, iniciou a carreira como pintor de vitrais, antes de estudar pintura na École des Beaux Arts como aluno de Gustave Moreau.

Rouault_1937

“Christ et docteur”, 1937

Rouault_1937_crux

“Cruxifixion”, 1937

Sua amizade com Léon Bloy, escritor de temas religiosos, reafirmou-o na fé católica, inspirando-lhe a composição de temas de conteúdo social. Assim, entre 1902 e 1917, ganharam forma em guaches e aquarelas as séries de palhaços, prostitutas, juízes e cenas de tribunais, nas quais o pintor parece sobrepor-se à fealdade dos modelos por meio de uma pincelada enérgica e de tonalidades sombrias.

Na década de 1910, Rouault dedicou-se à execução de obras de tendência monumental (como o ciclo Guerre et Misère, pintado entre 1917 e 1927, mas que só em 1948 seria conhecido pelo público). Realizou seguidamente diversos cenários para os Ballets Russes de Serguei Diaguilev.

Rouault_

“Christ on the lake”

No final dos anos 20, retomou os temas clássicos, baseados em figuras de palhaços, pierrôs, mulheres, assim como em cenas do suplício de Cristo e do Antigo Testamento, impregnadas de uma sensibilidade mística e dolente. O cromatismo foi gradualmente adquirindo luminosidade, com contrastes extremos e contornos negros que recordavam a técnica do vitral.

Cristos e palhaços. O que levou Rouault a escolher estes personagens em suas criações? Talvez tentasse encontrar o humano do palhaço em Cristo ou o divino do Cristo em um palhaço…

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

Batatas_VanGogh2

“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

Batatas_Millet

“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

Batatas_VanGogh5

“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

Batatas_VanGogh4

“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

Batatas_VanGogh3

Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão

Três mulheres: Edith, Katia e Cecília

Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi escrever mais de um post. Este é reunindo três mulheres: a escritora Cecília Meireles, a pintora Edith Blin e a sua modelo Katia (eu).

Katia5

“Retrato de Katia com fita azul no cabelo”, 1956. Óleo sobre tela, 55 X 45cm.

“Mulher adormecida”, de Cecília Meireles

Katia8

“Retrato de Katia em verde e amarelo”, 1955. Pastel sobre cartolina, 30 X 22cm.

Katia3

“Retrato de Katia com os olhos no além”, 1957. Óleo sobre tela, 55 X 46cm.

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?

Katia4

“Retrato de Katia vestindo azul”, 1971. Pastel sobre cartolina preta, 75 X 50cm.

“Mulher ao espelho”, de Cecília Meireles

Katia2

Figura 43 – “Katia! Mon modèle!”, 1961. Desenho a carvão, 70 X 50cm.

Katia9

“Retrato de Katia com margarida no cabelo”, 1967. Desenho a carvão e pastel, 30 X 22cm

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

Katia10

“Retrato de Katia com mechas”, 1971. Patel sobre cartolina preta, 35 X 28cm.

“Retrato de Mulher Triste”, de Cecília Meireles

Katia6

“Retrato de Katia por inteiro”, 1968. Óleo sobre tela, 146 X 50cm.

Katia7

“Retrato de Katia com rabo-de-cavalo”, 1964. Pastel sobre cartolina preta, 50 X 38cm.

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Katia1

“Retrato de Katia meiga”, 1976. Óleo sobre cartolina preta, 51 X 38cm.

A poesia e a pintura sempre foram amigas. Minhas amigas. Edith chegou a ser cúmplice. Cecília, confidente de meus segredos de alma. Somos as três, mulheres. Mulheres da Arte e da Literatura. Que dádiva!

Fotos das obras: Ana Cláudia Gadini.

Autor: Catherine Beltrão

Kokoschka e Soutine, a manifestação do expressionismo dilacerado

Desde os meus primeiros anos, convivi com livros e imagens de obras de arte. Mas não eram só  obras de Monet, Renoir ou Degas, expoentes do impressionismo bucólico ou dançante. Sem fazer trocadilhos, o que me impressionava mesmo eram as imagens fortes e dilacerantes de Kokoschka e Soutine, grandes nomes do expressionismo.

O expressionismo foi um movimento artístico e cultural de vanguarda surgido na Alemanha no início do século XX, que atravessou os campos artísticos da arquitetura, artes plásticas, literatura, música, cinema, teatro, dança e fotografia.

kokoschka_autorretrato

“Autorretrato”, de Oskar Kokoschka

 

Oskar Kokoschka (1886-1980) foi um pintor expressionista e escritor austríaco. Recebeu a influência de Van Gogh e também do passado clássico, sobretudo o barroco, via Rembrandt e a escola veneziana, via Tintoretto e Veronese. Também esteve ligado à figura de Klimt, seu professor. Contudo, criou o seu próprio estilo pessoal, visionário e atormentado. Em um espaço denso e sinuoso, submergem as figuras, que parecem estar sendo sugadas por uma corrente centrífuga, produzindo um movimento espiral.

Kokoschka_the-pagans-1915

“Os pagãos”, de Oskar Kokoschka. 1915.

A sua temática costumava ser o amor, a sexualidade e a morte, dedicando-se também por vezes ao retrato e à paisagem. As suas primeiras obras tinham um estilo medieval e simbolista próximo dos Nabis ou da época azul de Picasso. Desde 1906, em que conheceu a obra de Van Gogh, começou num tipo de retrato de corte psicológico, que visava a refletir o desequilíbrio emocional do retratado, com supremacia da linha sobre a cor.

Kokoschka_A-Noiva-do-Vento

“A noiva do vento”, de Oskar Kokoschka. 1914.

As suas obras mais puramente expressionistas destacam-se pelas figuras retorcidas, de expressão torturada, como “A noiva do vento“. É uma obra de ser vista em silêncio, porque ela grita. Chora. Sofre pela harmonia que existe entre a presença e a ausência. A presença da mulher – a sua mulher, Alma – e a ausência do homem, já morto – a de Gustav Mahler, o eterno fantasma/amante de Alma, jamais por ela esquecido.  Nesta obra, Kokoschka reconhece a utopia, a fragilidade e o fracasso pela ilusão de ser amado por uma mulher que não se livrará do passado.

Kokoschka_lovers-with-cat-1917

“Amantes com gato”, de Oskar Kokoschka. 1917.

A partir de 1920 Kokoschka dedicou-se mais à paisagem, com um certo aspecto barroco, de pincelada mais leve e cores mais brilhantes.

Soutine_Autorretrato

“Autorretrato”, de Chaim Soutine.

Chaïm Soutine (1893 -1943) foi um pintor expressionista da Escola de Paris. Sua produção foi muito influenciada por artistas como Cézanne, Rembrandt e El Greco. Pintava de forma delirante, como possuído por um ataque febril, precipitando as cores na tela.

Seus quadros apresentam uma textura pastosa e também uma grande força cromática. Foi comparado com o grande mestre pós-impressionista Van Gogh, cuja obra Soutine admirava. Por outro lado, artistas da época o comparavam com Oskar Kokoschka pois, como este, tinha a capacidade de captar tipos psicológicos em seus retratos.

Soutine_PastryCookWithARedHandkerchief

“O pequeno pasteleiro com um lenço vermelho”, de Chaim Soutine. 1914.

Nunca foi capaz de pintar senão com um modelo à sua frente.

Soutine_CarcassOfBeef

“Carcaça de boi”, de Chaim Soutine. 1925.

 

Soutine horrorizou seus vizinhos certa vez, por manter uma carcaça de animal em seu estúdio, para que pudesse pintá-la. O fedor fez com que os vizinhos chamassem a polícia, a quem Soutine prontamente dissertou sobre a importância relativa da arte acima da higiene.

A sua personalidade violenta e autodestrutiva provocava uma relação apaixonada com a sua obra, levando-o muitas vezes a romper os seus quadros, e refletindo-se numa pincelada forte e incontrolada e uma temática angustiosa e desolada. É o caso desta obra - “Carcaça de boi“, inspirada no “Boi esfolado” de Rembrandt.

Soutine_crianca

“Enfant de coeur”, de Chaim Soutine. 1927/28.

Pintor impulsivo e espontâneo, Soutine tinha uma necessidade pungente de registrar imediatamente na tela a sua emotividade interior, motivo pelo qual as suas obras carecem de qualquer preparação prévia.

Kokoschka e Soutine. A determinação compulsiva da angústia na arte.

Autor: Catherine Beltrão

Um dia em 1972

Não lembro o dia. Nem o mês. Só o ano: 1972. Neste dia, eu fui, uma vez mais, modelo de Edith. Edith Blin, minha avó. Edith, cúmplice de vida e de alma.

Catherine_Edith3

“Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Edith dando os últimos retoques na obra.

Minha avó me pintou 129 vezes, em 32 anos. Desde que eu nasci até a sua partida. Foram 32 anos de cumplicidade em 129 registros de amor.

Catherine_Edith2

Nas telas e no cotidiano com minha avó Edith, meu nome é Katia. Catherine é para os outros.

Catherine_Edith5

A cada vez que posava, um compositor se fazia presente: Bach, Chopin, Liszt, Debussy, Villa-Lobos. Não importa. A música nos unia.

Catherine_Edith1

Neste dia de 1972, deve ter sido Franz Liszt. Talvez a “Bénédiction de Dieu dans la solitude“, com Claudio Arrau ao piano.

Catherine_Edith4

E, como já escrevi em depoimento de 2006, acerca de ter sido modelo de Edith: “Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.”

Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesa

“Retrato de Katia vestida de roxo estilo marquesa”. 1972, ost, 92 X 73cm.

Ao lado, a obra “Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Foi feita em 1972, a óleo sobre tela. Dimensão: 92 X 73cm. O vestido roxo era de veludo de seda, tendo sido de minha avó, quando jovem. O longo colar é feito de contas de âmbar. A gargantilha tem um pendente cujo desenho é um tucano feito com asas de borboleta. O vestido não existe mais. O colar e a gargantilha, sim.

Neste 8 de maio, Dia das Mães, quando o sentimento brota sem fazer esforço, a lembrança daquele dia em 1972, faz 44 anos já, traz para o presente o som e o cheiro de um daqueles momentos mágicos, partilhados com aquela que foi minha mãe de coração, mãe de alma, mãe de criação, mãe de Arte: minha avó Edith Blin.

Autor: Catherine Beltrão