Arquivo da categoria: Arte naïf

Frevo em HP

9 de fevereiro é o Dia do Frevo. E, neste ano, este dia é também terça-feira (gorda) de Carnaval. Não dá pra deixar passar em branco. Nem dá pra se falar de frevo sem falar do HP: Heitor do Prazeres!

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“Frevo”, de Heitor dos Prazeres

Surgido em Pernambuco no fim do século XIX, o frevo caracteriza-se pelo ritmo extremamente acelerado. Muito executado durante o Carnaval, eram comuns conflitos entre blocos de frevo, em que capoeiristas saíam à frente dos seus blocos para intimidar blocos rivais e proteger seu estandarte. E, pasmem, o frevo possui mais de 120 passos catalogados!

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“Frevo”, de Heitor dos Prazeres

A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, que passou a designar: efervescência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai e vem em direções opostas.

O frevo foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO no ano de 2012.

Heitor dos Prazeres (1898-1966) foi músico, poeta e pintor. E seu universo era festeiro, tanto na música como na pintura. Compôs e pintou o carnaval, a festa junina, o samba, o frevo. Mas a música chegou primeiro. Em 1933, compôs a célebre “Canção do jornaleiro”, na qual descrevia a vida dos meninos que andavam pelas ruas da cidade vendendo jornais, numa lembrança de sua infância. A música deu origem à campanha da construção da Casa do Pequeno Jornaleiro.

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“Frevo na rua”, Heitor dos Prazeres

Carlos Drummond de Andrade, certa noite, levou um poema dedicado ao amigo para que fosse transformado em música. Na época, o compositor não conseguiu musicar o poem. Mais tarde o pintor iria criar um quadro com o nome do poema que Drummond lhe dedicara: “O Homem e seu Carnaval ” (1934).

Em 1943, a prefeitura do Distrito Federal promoveu o Primeiro Concurso Oficial de Música para o Carnaval:  Heitor dos Prazeres foi vencedor com o samba “Mulher de malandro”, interpretado por Francisco Alves.

Uma curiosidade: o compositor descobriu o pintor ao ilustrar, através de um desenho colorido, sua mais nova criação musical, em parceria com Noel Rosa: “O pierrot apaixonado.” Quem não se lembra?

“Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando…”

Autor: Catherine Beltrão

As Fridas de Luiza

Estamos na semana de Frida Kahlo (1907-1954).  Ícone da pintura mexicana, Frida nasceu em Coyoacán no dia 6 de julho e morreu na mesma cidade em 13 de julho. Luiza Caetano, pintora e escritora, nasceu em Mafra, Portugal, em 1946. A primeira eu não conheci. A segunda, tive esta felicidade em 2001.

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Frida Kahlo e Diego Rivera, em 1949.

A vida de Frida Kahlo se resume a uma sucessão de tragédias. Quando criança, foi vítima de poliomielite que lhe afetaria a perna direita e aos 18 anos sofreu um grave acidente automobilístico que dilacerou seu corpo e a levou a sofrer mais de 30 cirurgias durante sua vida. Começou a pintar durante a convalescença em sua cama.  Casou-se duas vezes com Diego Rivera (1886-1957), expoente da pintura muralista mexicana. As cirurgias não permitiram Frida exercer a maternidade. Teve três abortos. “A pintura tem ocupado minha vida. Perdi três filhos e uma série de coisas que poderiam ter preenchido a minha vida horrível. A pintura substituiu tudo. Eu acho que não há nada melhor do que trabalhar.” Teve também casos amorosos com homens e mulheres, entre eles o marxista Leon Trotsky. Um ano antes de morrer, sua perna direita foi amputada por gangrena. “Para que pés, se tenho asas para voar?”

Sem dúvida alguma a vida trágica e a força da sua pintura fazem de Frida Kahlo um dos personagens mais emblemáticos da História da Arte. A coragem com a qual ela enfrentou suas dores e seus amores provocam reflexão e admiração. É o que acontece com Luiza Caetano, a excelência na arte naïve e cuja alma apresenta o mesmo DNA de Fernando Pessoa.

Luiza - Frida e Diego

“Diego Rivera e Frida Kahlo”, de Luiza Caetano. 2002, ast. Obra doada pela autora para o Museu ArtenaRede.

Luiza Caetano, que se define “órfã de pais, filhos e maridos“, retratou Frida Kahlo várias vezes. Uma dessas obras, a artista doou para o Museu ArtenaRede, sendo hoje uma das mais importantes do acervo do Museu, contundente até, ultrapassando qualquer estilo ou escola a que possa pertencer.

Tentei achar poemas de Luiza sobre Frida. Não achei. Isto não significa que não existam. Só não consegui achar. Por isso, resolvi aliar algumas das pinturas que Luiza fez de Frida a poemas de Luiza que não se referem a Frida.

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“Seis rosas”, de Luiza Caetano

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“Frida Kahlo com pássaro – meu tributo”, de Luiza Caetano

RASTRO DAS ESTRELAS

Assisto ao dobrar dos dias
dentro de cada madrugada,

Sinto a neve
sulcada em meus cabelos,
sorvo a chuva mágoa dos meus olhos
onde os lírios e a esperança
se rasgam em rugas cansadas
de gestos e de nadas.

Invento o dia que não chega
na pura ressonância
do esquecimento.

Órfã do teu sorriso
feito de promessas e de horizontes,
me deixo inesperadamente
apaixonar pelo rasto luminoso
das estrelas.

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“Feridamente ferida”, de Luiza Caetano

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“Ferida de Amor”, de Luiza Caetano

“PONTES”

Do lado esquerdo da vida
há uma ponte que te segue
Apenas metade de inteira
porque a outra, talvez perdida te pressegue na margem direita

braço estendido no horizonte
dolorido de tanta esperança
ferindo o espaço e a fonte
onde o desejo te espreita        e a sede não te alcança.

As Fridas de Luiza. Feridas e luzes. Frida e Luiza. Kahlo e Caetano. Duas mulheres que são oceanos. Ou universos. Na emoção e na expressão.

 Autor: Catherine Beltrão

Misabel Pedroza, a imperatriz do folclore brasileiro

Misabel Pedroza (1927-2005) foi, sem dúvida alguma, uma das maiores defensoras, preservadoras e divulgadoras do folclore brasileiro. Talvez a maior.

Desde 1949, Misabel Pedroza estudou o folclore do Brasil, documentando suas manifestações em trabalhos de pintura, gravura em metal, xilogravuras e esculturas. Como pintora naive, foi reconhecida nacional e internacionalmente, tendo sido premiada diversas vezes.

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Bumba-meu-boi. Década de 80.

 

Conheci Misabel nos anos 80, quando  comecei a me interessar pelo mercado de arte. Cheguei a organizar uma exposição de suas pinturas no IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada. As obras a cores apresentadas neste post foram extraídas de algumas das fotos que consegui achar das que participaram da exposição. Mas, como pode se perceber, as imagens destas obras não apresentam identificação – título, ano, dimensão (a técnica é de óleo sobre tela). Fico no aguardo de alguém que possa fornecer estes dados.

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“Portão do cemitério”, xilogravura, 1973, 54 X 32cm

Em 2003, dois anos antes de sua morte, Misabel Pedrosa lançou quatro livros, frutos de mais de 50 anos de pesquisas e vivências com índios e com populações rurais do norte e nordeste do Brasil. Acerca deste lançamento, transcrevo abaixo a matéria publicada no site do 24horasnews, publicada em 2003. Lamentavelmente, foi o único material que encontrei na Internet sobre a artista, além de pouquíssimas imagens de suas obras.

“Artista plástica lança livros com 50 anos de pesquisas e vivências com índios. O amor à arte fez com que a artista plástica, professora e pesquisadora da cultura popular brasileira Misabel Pedroza, passasse a vida economizando dinheiro para poder publicar suas aventuras com os índios do norte e nordeste e as manifestações folclóricas que também documentou naquela região do país. Aos 75 anos, finalmente, Misabel Pedroza está realizando o sonho de lançar, com recursos próprios, os livros “Folclore do Brasil“, “Festas e Costumes dos Índios“, ” Curso de Decoração e Estudos de Estilos” e ” Desenho, Composição e Gravura“. Todo o trabalho é o resultado de 50 anos de pesquisas e vivências que a escritora teve com os índios das tribos tucanos, canelas, guajajaras e timbiras e, também, com populações rurais do norte e nordeste do Brasil. Os outros dois livros são frutos de suas experiências como professora de arte, decoradora e criadora do Museu do Crato, no Ceará.

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 No livro Folclore do Brasil, Misabel Pedroza catalogou 97 manifestações folclóricas, da década de 60; um verdadeiro tesouro para a nova geração de pesquisadores e amantes da Misabel4cultura brasileira. Durante anos ela viajou com o marido Francisco Xavier Alvarenga, pelo Brasil à fora, documentando a cultura do povo: “o que mostro no meu trabalho é o folclore puro e com três tendências: a africana, a portuguesa e a indígena“.  A autora descreve as festas, ritos e folguedos populares com extrema riqueza de detalhes: os trajes, as cores, os personagens, os instrumentos, reproduz as letras das músicas originais (cujas gravações sonoras ainda estão por ser editadas), e os movimentos das danças, que também são desenhados nas ilustrações do livro para melhor compreensão. O livro surpreende pela criatividade e diversidade cultural das festas e danças descritas como o Reisado de Crato, a Festa de São Sebastião, Tambor de Choro, Pajelança, Curandeira, Terreiro das Portas Verdes, Bumbá meu Boi, As Filhas de Belém, Congada de N. S. do Rosário, Tambor de Crioula, Festa de São Bento, Tambor do Avô Akossi, Dança do Sapo, Tambor de Cigano, Os Caboclinhos, Dança dos Punhais e etc…

Misabel6O livro Festas e Costumes dos Índios é quase um manual de como fazer os adereços, enfeites, adornos, utensílios, roupas, casas e rituais indígenas. O livro surgiu do convívio da pesquisadora com diversas tribos, o que também lhe rendeu muitas histórias interessantes e engraçadas, como a do jacaré que Misabel ganhou numa aldeia e depois quase ficou louca para se livrar do presente de grego, sem que para isso tivesse que matar o bicho ou abandoná-lo em local inadequado. A escritora deixa claro que não é fácil documentar e mostrar a cultura brasileira: é preciso andar por lugares desconhecidos e isolados. “Eu andei no meio do mato, sem saber o que encontraria. Fui a lugares, onde as pessoas pediam para que eu devolvesse a voz delas, pois não conheciam o sistema de gravação por fita cassete. Uma vez ganhei uma viagem para Manaus, fui deixada numa balsa no meio do Rio Amazonas e perguntei para o homem da balsa se ele tinha certeza de que havia índios por ali e ele confirmou. Combinamos dele me pegar dentro de 16 dias. Algumas horas depois, chegaram umas canoas com índios que me resgataram. Passados os dias, ouvimos o ronco do avião e os índios me levaram para a balsa, com muitos presentes. Já com outros índios perto do Maranhão, virei prisioneira; eles me tomaram tudo que eu tinha, me deixando apenas com a roupa do corpo. Mas, nem por isso deixei de catalogar suas manifestações, pois eles me deixavam ver suas danças. Depois de alguns dias, me libertaram.”

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No livro Curso de Decoração e Estudo de Estilos, Misabel monta um interessantíssimo painel sobre os variados estilos e móveis de época do Brasil, Europa, Ásia e África, ilustrado com mais de 260 desenhos a bico de pena. A escritora descreve o clássico, o colonial, primeiro e segundo império, o art-noveau, o arabesco, o bizantino, rococó, elizabetano, victoriano e muito mais. Mostra como se deve decorar ambientes diversos como casas de praia, campo e escritório; como fazer e modificar móveis, aplicar décapé, pátinas, etc.

Misabel9Desenho, Composição e Gravura é ilustrado com 600 desenhos explicativos e oferece um vasto e rico material informativo e formativo para estudantes de desenho, pintura, gravura e xilogravura, descrevendo técnicas, ensinando a utilizar materiais, a pensar e a criar obras de artes plásticas, começando pelo passo a passo do desenho da figura humana, objetos, proporções, equilíbrio, ângulos, planos, perspectivas, erros clássicos, composição, movimentos, claros e escuros e até exercícios. No prefácio, diz Câmara Cascudo: “A observação de 33 anos de prática explica este curso de desenho miraculosamente simples e poderoso. Os problemas desaparecem na luz didática. Não o porquê, mas como fazer“.

Misabel7Misabel8Filha da pintora Olga Mary, (a primeira artista a documentar o desmonte do Morro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro) e do pintor surrealista e teatrólogo Raul Pedroza, artistas consagrados do início do século XX no Rio; com apenas 11 anos Misabel fez sua primeira exposição individual, à qual compareceram Austregésilo de Athayde, Celso Kelly, Peregrino Jr, Quirino Campofiorito, entre outros convidados famosos. Em 1948 foi convidada a expor na Metropolitan Gallery, em Nova York, iniciando uma série de 38 exposições internacionais por toda a Europa e até na Índia. No Brasil realizou mais de 45 exposições individuais e coletivas, recebendo uma centena de medalhas e prêmios. Sua obra encontra-se em importantes museus e acervos particulares no Brasil e no exterior, e seu nome e biografia figuram nos melhores dicionários de arte brasileiros. Entre os amigos que Misabel Pedroza conquistou ao longo da vida se destacam Guignard, Malagoli, Darel Valença e o presidente Juscelino Kubitscheck. Como professora, Misabel Pedroza lecionou pintura, desenho, gravura e xilogravura em escolas de arte do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Pernambuco.”

O folclore brasileiro deve muito a Misabel Pedroza. Por mais que se faça para a valorização de sua obra, para o resgate de sua memória, a retribuição será sempre muito pequena. E, pelo que sei, nada foi feito até hoje.

Autor: Catherine Beltrão

Luiza e Fernando, DNA de almas

Se alma tivesse DNA, Luiza Caetano era filha de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935), o mais universal poeta português, deixou para os leitores do mundo um mundo de poemas e pensamentos sobre a sensibilidade de ser. O autor de “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena“, transformou a alma de  muita gente, inclusive a minha, em meus jovens anos de adolescência. Naqueles anos, eu também acreditava que “Tenho em mim  todos os sonhos do mundo.”

Aos poucos fui também, como ele, fazer a travessia:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos“.

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Durante a travessia, fui aprender a amar. Várias lições se passaram até que fui entender o que o poeta quis dizer: “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.” Aí, fui me perceber, com todas as minhas fraquezas e covardias. “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios“.

Luiza

Luiza Caetano

Daí, após anos de estrada com Fernando Pessoa, fui conhecer Luiza Caetano, a grande dama da pintura e da poesia portuguesa
destes nossos novos tempos. Iniciada de forma virtual, nossa amizade tomou corpo em três cidades, duas de morada – Nova
Friburgo e Lisboa – e a outra, Rio de Janeiro, servindo de ponte.

Encontrei em Luiza a alma de Fernando. Alma que expõe tormento e angústia. Mesmo adulta, alma que procura a liberdade: “Não tenho para onde fugir sou um pássaro de asas cortadas”. E que constata a inexorável passagem do tempo: “No calendário do mundo, tombam folhas como lágrimas… Tão longe o que já foi perto!

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Obra de Luiza Caetano, retratando Fernando Pessoa e seus heterônimos

 

Talvez no poema “Almas gêmeas” Luiza não pensou em Fernando… mas quem conhece Fernando Pessoa e Luiza Caetano, com certeza pensa neles ao ler estes versos:

Tal qual dois espíritos
se encontram e se perdem
na volatidade dos dias,

Dois espíritos
necessitados
do oxigénio do sonho
para reinventarem a vida,

Dois rios
que se encontram
na confluência dos mares
explodindo as marés,

Dois rios,
duas estrelas
ou dois vulcões

que se cruzam
se abraçam
ou se anulam

lutando contra
o inexorável limite
dos limites.

Para quem quiser o deleite máximo, vale a pena clicar aqui neste vídeo de Jorge Soares, que reúne Maria Bethânia, Fernando Pessoa e Luiza Caetano, e que começa com “Todas as cartas de amor são ridículas …”

 Autor: Catherine Beltrão

Luiza Caetano, simplesmente a excelência na arte naïve

E lá se vão quase treze anos que Luiza e seu universo naïf me fizeram evoluir no entendimento da arte. Até então, eu pertencia àquele grupo – ainda bem que este grupo encolhe a cada dia – que considera o naïf uma arte produzida por artistas menores, artistas que desconsideram fatores como profundidade, luminosidade ou mesmo perspectiva na criação de suas obras. A minha ignorância não percebia que, sem estas pilastras, a obra produzida deve ser sustentada muito mais fortemente por outras como a firmeza no traço, a cor e, sobretudo, a sua significância. Aos poucos, penetrando neste universo, descobri a beleza e a grandiosidade desta arte maior, que tem a capacidade de atingir facilmente corações descobertos e mentes libertas.

Luiza - Frida e Diego

“Frida Kahlo e Diego de Rivera”, ast, 2000

Luiza Caetano nasceu e habita Portugal, mas frequentemente frequenta terras brasileiras, sobretudo o Rio e S.Paulo. Os primeiros contatos que tive com ela foram em 2001, pela Internet, através do site www.artenarede.com.br, quando tive o privilégio de tê-la como uma das primeiras artistas a se cadastrar e a catalogar suas obras no site. Também foi Luiza uma das primeiras artistas cadastradas a doar uma obra – “Diego Rivera e Frida Kahlo” – para o futuro Museu ArtenaRede.

Com o passar dos anos, pude conhecer Luiza pessoalmente, participando de aberturas de algumas de suas exposições no Rio de Janeiro e apresentando-lhe a cidade de Nova Friburgo/RJ, onde moro. Nosso último encontro foi em Lisboa, em 2009. Magnífica e pujante a força pessoal e criativa desta grande artista!

Luiza - Carlota e D.João VI

“Carlota e D.João VI no Brasil”, ast, 2001

Em Estoril, escreveu Edgardo Xavier, em 2002: “Interagindo com  factos, objectos, pessoas e obras da sua predilecção,  Luiza Caetano apropria-se do real e do fantástico para, com assinalável autenticidade, construir roteiros diversificados onde pontificam evocações e sentimentos que nos remetem para as fontes da sua inspiração. Pintar passa a ser, também, um acto de recuperação de heróis e mitos, de lendas e realidades douradas,de trivialidades que fazem história ou, se quisermos, apenas um reflexo desta mulher que usa a fantasia para que melhor a aceitem na plenitude da sua verdade.

Através de sua arte, Luiza Caetano gosta de interagir com diversos personagens como Amália Rodrigues, Carmem Miranda, Frida Kahlo, Botero, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa. São obras repletas de significado e de sonoridade, verdadeiras conversas entre almas gêmeas, as quais ficamos extasiados ao admirar e, por que não, delas participar.

Luiza - Pessoa

“Heterônimos”, ast, 2003

 

E, por falar em almas que se comunicam, é de Luiza Caetano este poema, intitulado “Almas Gêmeas”, pois a artista também expressa sentimentos em palavras, com a mesma pureza e paixão que dedica às telas:

Tal qual dois espíritos
se encontram e se perdem
na volatidade dos dias,

Dois espíritos
necessitados
do oxigénio do sonho
para reinventarem a vida,

Dois rios
que se encontram
na confluência dos mares
explodindo as marés,

Dois rios,
duas estrelas
ou dois vulcões

que se cruzam
se abraçam
ou se anulam

lutando contra
o inexorável limite
dos limites.

Mais informações:

- obras de Luiza Caetano catalogadas no site artenarede.com.br.

Autor: Catherine Beltrão