Arquivo da categoria: Arte Contemporânea

Arte a partir de livros

Ah, os livros! Fonte de nossa alma, onde sempre podemos beber, seja com sofreguidão ou delicadeza, os pensamentos de nossos pares…

Hoje conheci mais um artista. Mike Stilkey. Um artista californiano que cria sua arte ao amontoar e pintar livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como assim? Ele não lê os livros? Não sei. Só sei que ele cria incríveis “pinturas” utilizando livros velhos como telas.

Mas isso é um sacrilégio! Será? E os livros que apodrecem nos sótãos, devorados por cupins? E os livros vendidos aos kilos como lixo?

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Mike Stilkey pintando…

Mike Stilkey é um artista estadunidense que usa livros para produzir obras de arte que ficam entre a pintura e a escultura. Seu belo trabalho já lhe rendeu exposições em vários países.

Seus personagens misteriosos, melancólicos, antropomórficos e impressionantes, que parecem saídos de algum filme.

Mike Stilkey refere que as suas pinturas são influenciadas por vários estilos: “adoro ilustração figurativa, expressionismo alemão e surrealismo”. Quantos aos protagonistas, tanto animais como pessoas são apenas situações recorrentes do dia-a-dia: representam qualquer um, mas não identificam ninguém em particular.

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Obra de Mike Stilkey

E, por falar em livros, vamos também falar de poesia. De poesia que fala de livros…

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Obra de Mike Stilkey

Humildade“, de Cecília Meireles

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Obra de Mike Stilkey

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.

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Mike Stilkey pintando…

Um dia, Fernando Pessoa escreveu:

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

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Obra de Mike Stilkey

Castro Alves também gostava de poemar…

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

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Obra de Mike Stilkey

E como não se deliciar com estes versos de Mario Quintana?

Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.

Ou esta sua “Dupla Delícia“?

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

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Obra de Mike Stilkey

Os ” Livros e flores“, de Machado de Assis, perfumam nossos pensamentos:

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

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Obra de Mike Stilkey

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

E Jorge Luis Borges…

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como não podia ser diferente, René Descartes foi cartesiano:

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

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Obra de Mike Stilkey

E, finalmente, Arthur Schopenhauer, lacrou:

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

Os livros estão aí. Para serem lidos. Relidos. Enfeitados. Restaurados. Abraçados. Beijados. Amados. Transformados. Em Arte.

Autor: Catherine Beltrão

As cinzas do Museu Nacional

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Museu Nacional em chamas, na noite de 02/09/2018

Na noite do dia 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ardia em chamas.  O fogo destruiu quase a totalidade do acervo histórico e científico construído ao longo de duzentos anos, com cerca de vinte milhões de itens catalogados.

O que se faz após uma tragédia desta magnitude? Cabe a cada um de nós refletir, planejar e agir. Foi o que Vik Muniz fez. Vik Muniz, brasileiro, um dos maiores nomes da arte contemporânea  mundial, que trabalha com materiais inusitados, como lixo, restos de demolição e componentes como açúcar, chocolate, café e … cinzas.

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“Museu Nacional”, de Vik Muniz, feito com suas cinzas.

Desta vez, o artista utilizou cinzas do Museu Nacional para produzir algumas obras que estão atualmente em exposição em uma Galeria de Nova York. Trabalhando com cinzas dos milhões de itens destruídos no incêndio, Vik reproduziu alguns deles: a Luzia, um dinossauro, sarcófagos, múmias, borboletas, vasos…

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O dinossauro Maxakalisaurus topai, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Este trabalho mostra o esqueleto reconstituído do dinossauro   Maxakalisaurus topai , uma das maiores atrações que o Museu Nacional apresentava…

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Um dos crânios de Luzia, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, achado em 1974, também fazia parte do acervo do Museu. Magnífico trabalho de Vik Muniz!

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O sarcófago de Sha-Amun-en-su, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

O artista também reproduziu o sarcófago de Sha-Amun-en-su. Ele, com sua múmia e todos os artefatos votivos conservados em seu interior, também se transformaram em cinzas no incêndio.

Palavras de Vik Muniz, acerca da exposição: “Nós já vivemos com um crescente deficit de realidade. Então, ver a História em chamas naquele momento, me fez sentir sem chão, preso a um presente infinito. Só é possível ser criativo num mundo de fatos e realidades tangíveis.”

Quando nos deparamos com as cinzas do passado, precisamos transformá-las no caminho do presente em direção ao futuro.

Fonte: matéria da GloboNews. Clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Weiwei e as raízes da liberdade

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Ai Weiwei

Ai Weiwei nasceu em 1957. É um artista chinês, designer arquitetônico, artista plástico, pintor, comentarista e ativista social.

Na Arquitetura, ele Ai Weiwei foi o assessor artístico na construção do Ninho de Pássaro – Estádio Nacional de Pequim – onde foram celebrados os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008.

Como artista plástico, e considerando a América Latina, Weiwei realizou algumas exposições artísticas marcantes, com foco nos refugiados internacionais da atualidade e sua origem chinesa, em três países: Argentina, Chile e Brasil.  No Brasil, montou sua exposição de maior acervo, até agora: “Raiz: Ai Weiwei“, que passou por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Como consequência de ser ativista político e extremamente crítico em relação à postura do Governo Chinês sobre a democracia e os
direitos humanos, Weiwei já teve estúdios demolidos, foi preso e espancado pela polícia e em 2010, foi colocado em prisão
domiciliar sob suposta investigação de crimes econômicos.

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“Forever Bicycles” (“Bicicletas Forever”), de Ai Weiwei

Ai Weiwei é conhecido por realizar grandes instalações. Um exemplo é a instalação “Forever Bicycles” (“Bicicletas Forever“).
Composta por mais de mil bicicletas de aço inoxidável, a obra monumental representa para o artista, que passou a infância em
exílio com sua família durante a Revolução Cultural Chinesa, a ideia de liberdade.

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“Martin” e “Level” (“Nível”), da série “Seven Roots” (“Sete Raízes”), de Ai Weiwei

Martin” e “Level” (“Nível“) fazem parte da série “Seven Roots” (“Sete Raízes“), criadas a partir de raízes encontradas desenterradas na região de Trancoso/BA.

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“FODA”, de Ai Weiwei

FODA” é uma obra criada por Ai Weiwei especialmente para suas exposições no Brasil.
 É composta por peças de porcelana produzidas a partir de moldes de frutas brasileiras, em colaboração com um ateliê de cerâmica local. Esse projeto nasceu de uma conversa de Ai Weiwei com
o curador Marcello Dantas.
 Ai perguntou a Dantas o que lhe vinha à mente quando pensava no Brasil, e a resposta foi: frutas. Em seguida, Weiwei perguntou o termo em português que correspondia à palavra inglesa “fuck”: “foda”. A partir daí, o artista buscou uma fruta para cada uma
das letras dessa palavra: “f” de “fruta do conde”; “a” de “abacaxi”, que ele adora; “d” de “dendê”, pois estavam na Bahia; e “o” de “ostra”, um fruto do mar.

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“Sementes de girassol”, de Ai Weiwei

Sunflower Seeds” (“Sementes de Girassol“) é um trabalho impressionante que teve milhões de sementes de girassol feitas de
porcelana e pintadas à mão por 1600 artesãs chinesas – em sua maioria mulheres.

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“Lei da Jornada (Protótipo B)”, de Ai Weiwei

Par realizar a instalação gigante “Lei da Jornada (Protótipo B)”, que representa um barco usado para fuga de refugiados, ele visitou 40 campos de refugiados em 23 países como Líbano, Grécia, Quênia, Bangladesh, além da fronteira entre o México e os Estados Unidos.

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“Duas Figuras”, de Ai Weiwei

Duas Figuras“, obra criada em 2018, mostra uma mulher nua, deitada sobre um colchão ao lado do corpo do artista também nu. Ormosias Arbóreas – sementes brasileiras vermelhas em profusão – contornam a cabeça do artista. Weiwei e a modelo não se conheceram, mas a instalação revela o cheiro de fantasia e turismo sexual baratos. Pode-se imaginar sonhos eróticos que orbitam o imaginário dos estrangeiros que vêm ao Brasil, de forma vulgar. Por ironia, a legenda da obra exposta é: “ a ostensiva sexualidade na cultura brasileira”.

Ai Weiwei é hoje considerado um dos principais nomes da cena contemporânea internacional.

Autor: Catherine Beltrão

Arte digital (parte I): Alexey Kondakov

O que vem a ser arte digital? Simples. Quando o artista cria no ambiente gráfico computacional, ele está produzindo arte digital. E a arte digital pode ser enquadrada na arte contemporânea? Sim, sobretudo se levarmos em conta que a arte contemporânea é representada por vários movimentos artísticos, revelando-se por meio de diversas linguagens, através da constante experimentação de novas técnicas.  No caso, a linguagem é visual mediática.

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Embora a arte digital possa ser expressada por várias técnicas – imagens fractais, imagens em 3D, animações, realidade virtual aumentada, entre outras – é bem interessante observar a ideia criativa do artista, ou seja, o que ele cria neste novo e sempre crescente ambiente tecnológico.

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Neste contexto, inicio apresentando a arte digital de Alexey Kondakov, designer ucraniano, cuja proposta é fundir personagens de obras clássicas em ambientes populares cotidianos, como o metrô, cafés, bares ou elevadores.

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As figuras escolhidas pelo artista são, em sua maioria, deuses e anjos. Dentro das obras, a grande maioria faz referência a movimentos como o Renascimento e o Barroco, onde a cultura da mitologia grega foi retomada. As obras de Caravaggio (1571-1610) estão entre as suas preferidas.

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E por que Alexey escolheu figuras do Renascimento? Talvez ele tenha se identificado com a liberdade de evolução artística que este movimento apresentou, através de estudos de novas técnicas… É possível fazer um paralelo entre o Renascimento e a arte de Alexey que mistura o digital e a pintura, o popular e o erudito.

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Mas o artista também utilizou personagens de obras acadêmicas, como as de William Bouguereau (1825-1905), pintor francês, considerado o último acadêmico…

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E que tal identificar, nas criações apresentadas neste post, as obras que Alexey Kondakov escolheu para compor suas criações? Uma pista: a primeira é de Bouguereau…

Autor: Catherine Beltrão

A arte com papel de Yulia Brodskaya

Qual é o papel do papel na Arte?

O que todo mundo sabe é que se usa o papel como suporte. Suporte para desenho. Suporte para pastel. Suporte para pintura.  Que, aliás, não é tão valorizado quanto a tela como suporte, por exemplo. Mas Yulia Brodskaya não faz arte em papel. Faz arte com papel. Ela é uma “paper artist“.

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Vídeo (em inglês) com entrevista de Yulia Brodskaya falando sobre a criação de sua obra para o Torneio de Wimbledon 2015

Yulia Brodskaya nasceu em Moscou, na Rússia, mas desde 2004 mora no Reino Unido, onde completou um mestrado em Comunicação Gráfica, na Universidade de Hertfordshire.

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“Moça com brincos de pavão”

Yulia Brodskaya começou a trabalhar como designer e ilustradora em 2006, mas rapidamente abandonou os programas de computador para se dedicar à arte com papel: “O papel sempre exerceu um fascínio sobre mim. Eu tentei vários métodos e técnicas diferentes para trabalhar com o papel, até eu encontrar a minha forma particular: agora eu desenho com o papel ao invés de desenhar sobre ele“.

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“Babushka”

A técnica utilizada é chamada de quilling e envolve o uso de tiras de papel que podem ser enroladas, torcidas ou espichadas, conforme o desenho a se criar. Essas tiras são coladas em um fundo de papel e compõem imagens impressionantes. Foi com essas ilustrações em papel inovadoras que Brodskaya ganhou reputação internacional.

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“Pombas de amor”

O material parece atuar sobre as percepções e ideias de maneira singular, de modo que a observação se torna uma parte importante da mensagem. Sendo um objeto tridimensional, a obra de Brodskaya oferece múltiplas visões. Dependendo do ângulo de observação, da intensidade e da direção da iluminação a mensagem emocional emitida pela obra a e a experiência visual do observador mudam significativamente.

Yulia4Yulia5Yulia Brodskaya é frequentemente convidada para falar em conferências de design e escolas de design no mundo inteiro.

Seus trabalhos originais em arte com papel pode ser encontrada tanto em museus como em eventos, campanhas publicitárias e clientes particulares. Museus como o Museu de Arte Moderna, eventos como o Torneio Mundial de Wimbledon e campanhas para Ferrero, Hermes e Paramount Pictures.

E por falar em papel, nada como terminar este post com o poema “Canivete de papel“, de Manoel de Barros:

Desde criança ele fora prometido para lata.
Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago.
Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel.
Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona.
Servia para não picar fumo.
Servia para não cortar unha.
Era bom para água mas obtuso para pedra.
Havia outro estrupício nos guardados de Bernardo.
Tratava-se de um Guindaste para Mosca.
Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar ligado por uma correia aos ventos da manhã.
Funcionava ao sabor dos ventos.
Imitava uma instalação.
Mas penso que seja um desobjeto artístico.

Os crânios de Basquiat

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Jean-Michel Basquiat

Jean-Michel Basquiat (1960 – 1988) foi um artista americano. Basquiat tinha ascendência porto-riquenha por parte de mãe e haitiana por parte de pai. Desde cedo mostrou uma aptidão para a arte e foi influenciado pela mãe, Matilde, a desenhar, pintar e a participar de atividades relacionadas ao mundo artístico. Aos seis anos, já frequentava o Museu de Arte Moderna de Nova York, de onde tinha carteira de sócio mirim.

Aos sete anos foi atropelado e no acidente teve o baço dilacerado. Foi submetido a uma cirurgia e ficou uma temporada no hospital. Sua mãe lhe deu de presente um livro de anatomia que teria grande influência em seu futuro de artista, revelado pelas pinturas de corpos humanos e detalhes de anatomia.

Aos 17 anos, Basquiat começou a fazer grafite em prédios abandonados em Manhattan. Ganhou popularidade primeiro como um grafiteiro na cidade onde nasceu e então como neo-expressionista.

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“Skull”, de Basquiat. 1981

No início dos anos 80, ele começou a namorar uma cantora desconhecida na época, Madonna. Neste mesmo ano, conheceu Andy Warhol, com quem colaborou ostensivamente e cultivou amizade.

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Outro crânio de Basquiat.

O período mais criativo da curta vida de Basquiat situa-se entre 1982-1985, e coincide com a amizade com Warhol, época em que fez colagens e quadros com mensagens escritas, que lembram o graffiti do início e que o remetem às suas raízes africanas. É também o período em que começa a participar de grandes exposições.

Com a morte do amigo e protetor Andy Warhol em 1987, Basquiat fica abalado, perdido e debilitado, e isso se reflete na sua criação. A crítica, exigente, já não o trata com unanimidade e Basquiat responde a essas cobranças como racismo. Vendo-se sozinho, passou a exagerar no consumo de drogas. Em 1988, põe fim à vida com uma overdose de heroína.

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Mais um crânio de Basquiat

Jean-Michel Basquiat utilizava imagens e palavras europeias e símbolos gráficos de cavernas africanas, além de imagens robotizadas e grafites em seus trabalhos. Basquiat procurava inspiração na arte histórica e até nos trabalhos figurativos de Jackson Pollock.

Na obra sem nome “Skull” (crânio), ele mostra uma seção da cabeça humana feita com pastiche e marcas de pontos que parecem juntar o crânio à cabeça. A parte azul ao redor da cabeça demonstra uma imagem eletrônica do mundo médico, e as letras na parte superior da obra parecem uma mensagem criptografada. A obra faz parte do acervo “The Eli Broad Family Foundation“, Santa Mônica, California, USA.

No próximo dia 18 de maio, será leiloado na Sotheby’s um dos crânios  de Basquiat. Esta tela foi comprada em um leilão por US$ 19 mil, em 1984, e permaneceu com a mesma família por 34 anos, segundo a casa de leilões. Pintada em 1982, é uma versão menor do quadro da coleção do bilionário Eli Broad, considerado uma das obras-primas do artista. Estima-se que a obra poderá chegar a US$ 60 milhões.

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Crânio de Basquiat, de 1982, a ser leiloado na Sothebys, em maio. Valor estimado: US$ 60 milhões

Jean-Michel Basquiat foi o primeiro afro-americano a ter sucesso nas artes plásticas de Nova York. O recorde atual para uma obra do artista é do bilionário japonês Yusaku Maezawa, que pagou US$ 57,3 milhões por um autorretrato de Basquiat em um leilão realizado pela Christie’s em maio de 2016.

Autor: Catherine Beltrão

Vik Muniz: reflexos e versos

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Vik Muniz. “Autorretrato”, feito com folhas, galhos, terra e sementes.

Vik Muniz (1961) é artista plástico, brasileiro, nascido em São Paulo e radicado em Nova York. A partir de 1988, começou a desenvolver trabalhos que faziam uso da percepção e representação de imagens a partir de materiais como o açúcar, chocolate, catchup e outros como o gel para cabelo, diamantes e lixo.

Vik define sua trajetória de artista da seguinte forma: “Meu sonho é mudar a forma elitista com a qual a arte é encarada. Não acredito na separação entre o popular e o inteligente, como se fossem coisas antagônicas.”

Ainda no século passado, Vik Muniz fez trabalhos inusitados, como a cópia da “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, usando manteiga de amendoim e geleia de uva, como matéria prima. Suas releituras de obras famosas  são inúmeras. Entre elas, “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam e “A Noite Estrelada“, de Vincent van Gogh, confeccionada com pedaços de papel colados.

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“Mona Lisas”, de Vik Muniz, a partir da obra de Da Vinci. Feitas com geleia de uva e com pasta de amendoim.

Um projeto inédito desenvolvido pelo artista e apresentado em diversos museus e galerias pelo mundo, inclusive no Brasil, é o intitulado “Versos“.

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Verso da obra “Mona Lisa”, de Da Vinci, por Vik Muniz

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“Mona Lisa”, de Da Vinci. 1503-1506

Vik Muniz começou fotografando os versos de pinturas famosas em 2002. Em seu livro “Reflexo” (2005), já manifestava o desejo de fazer impressões de tamanho natural dessas fotografias e exibi-las. As primeiras delas, meticulosas cópias em 3D dos lados reversos, foram feitas em 2008. Ele as intitulou “Versos“, imitações perfeitas do lado dos quadros que normalmente fica voltado para a parede.

Para Muniz, o verso de cada pintura é único: os furos, os suportes de metal, as etiquetas e todas as outras marcas, contando a sua história.

 

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“A Noite Estrelada”, de Vik Muniz, a partir da obra de Van Gogh. Feita com colagem de pedaços de papel.

À medida que os anos passam, o verso de uma pintura se modifica. Novos donos deixam sua marca.

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Verso da obra “A noite estrelada”, de Van Gogh, por Vik Muniz.

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“A noite estrelada”, de Van Gogh. 1889.

 Os processos mais recentes deixam uma marca. O verso revela os materiais dos quais a pintura é feita – tela, painéis – e mostra detalhes da tela e qualquer outra medida de segurança tomada enquanto estava em exposição. Seria como poder ver a intimidade de uma obra-prima, algo que deveria permanecer secreto mas que enfim se revela – como um segredo que não deveria ser mostrado, cicatrizes expostas, uma certa verdade de obras tão conhecidas quanto inacessíveis.

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Vik Muniz, a partir da obra de Picasso. Feita com peças de quebra-cabeças que não se encaixam.

Para recriar os versos das obras, Vik Muniz percorreu seis anos trabalhando com pesquisadores, curadores, artesãos, técnicos e até falsificadores, para executarem cada detalhe, como molduras, arranhões, manchas, etiquetas e ferragens.

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Verso da obra “Les demoiselles d’Avignon”, de Picasso, por Vik Muniz

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“Les demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso. 1907.

Assim, o espectador recria em sua cabeça a imagem icônica de cada obra, e a encaixa sobre o verso a sua frente, para que obras tão célebres ganhem enfim uma dimensão nova e, até então, desconhecida.

Em 2008, Muniz organizou sua primeira exposição de “Verso“, na galeria Sikkema, Jenkins & Co., em Nova Iorque. Na ocasião, ele apresentou o lado reverso de obras-primas como “Les Demoiselles d’Avignon“, de Picasso (MoMA, Nova Iorque) e “A Noite estrelada“, de Van Gogh (MoMA), entre outras. Outros “Versos“ foram mostrados em outras exposições, como “A Mona Lisa“, de Da Vinci (Louvre, Paris).

Reflexos e versos. Reflexo pode ser de espelho. Ou de reação. Verso pode ser de poesia. Ou o lado de trás. Vik Muniz, por ser artista, é o espelho, a reação, a poesia e o lado de trás.

 Autor: Catherine Beltrão

De Guignard a Tunga passando por Lea e Gerardo

Um dia, em 1940, Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) pintou a obra “As Gêmeas“, retratando as irmãs Léa e Maura, filhas do senador Barros Carvalho.

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“As Gêmeas”, de Guignard. 1940, ost , 130X111cm

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As duas Léas

Em 2002, em Nova Friburgo/RJ, por ocasião do depoimento do poeta Gerardo Mello Mourão, iniciando a série “Encontros com Guignard“, um pedaço vivo da história e da obra de Alberto da Veiga Guignard estava presente: Lea, a mulher de Gerardo, uma das irmãs retratadas no quadro “As Gêmeas“, datado de 1940.

Na ocasião, bastante emocionada, Lea falou de sua experiência e privilégio de ter posado para o grande mestre: mal sabia ela, quando posava com sua irmã Maura, naqueles idos dos anos 40, que esta obra viajaria mundo afora, e seria a obra brasileira mais famosa exposta no exterior. 

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão (1917-2007) foi o poeta que escreveu “Os Lusíadas” brasileiro: “Invenção do Mar“, poema épico dedicado a Luiz Gonzaga.  Dele disse Drummond: “É um poeta que não se pode medir a palmo e conseguiu o máximo de expressão usando recursos artísticos que nenhum outro empregou em nossa língua (…). Algumas pessoas pensam que sou o grande poeta do Brasil, mas o grande poeta do Brasil é o Gerardo Mello Mourão“.  E disse Tristão de Athayde: “Creio que jamais, em nossa história literária, se colocou a poesia em tão alto pódio“.

Gerardo e Lea foram os pais de Tunga (1952-2016).

Tunga nos deixou há pouco. Abriu caminhos para a arte brasileira no mundo. Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea nacional, ele foi o primeiro a ter uma obra exposta no museu do Louvre em Paris.

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“Lézart” (lagarto), de Tunga.1989, cobre , aço e ímã. Galeria Psicoativa Tunga, em Inhotim.

No Instituto Inhotim, em Brumadinho/MG, existem várias obras de Tunga. Algumas delas constam da Galeria Psicoativa Tunga.

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“True Rouge”, de Tunga. 1997, redes, madeira, vidro soprado, pérolas de vidro, tinta vermelha, esponjas do mar, bolas de sinuca, escovas limpa-garrafa, feltro, bolas de cristal, 1315 x 750 x 450 cm. Em Inhotim, desde 2002.

Com certeza a obra de Tunga já entrou para a história importante da arte brasileira e internacional. Ele foi extremamente inovador no desenvolvimento de suas estruturas, utilizando sempre pessoas, o corpo, fisicamente numa espécie de alquimia e ciência. E isso acabava se transformando em objetos“, avaliou a artista plástica Beatriz Milhazes.

Neste post, tentei fazer uma ligação entre Guignard e Tunga. Dois artistas. Duas mentes. Duas épocas. Unidos pela força poética e trajetória conturbada de um casal: Gerardo e Lea.

Não sei se consegui. Talvez como primeira tentativa, sim.

Autor: Catherine Beltrão

Giverny e Inhotim: sonhos e jardins…

Devo ter sido abençoada pois Giverny e Inhotim fazem parte de minhas lembranças. Lembranças ainda frescas pois só fui conhecer estes jardins há poucos anos: Inhotim em 2013 e Giverny em 2014.

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Lago das ninfeias. Foto: Catherine Beltrão.

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Jardins de Monet. Foto de F. Didillan

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Jardins de Monet. Extraída de: http://viagememfamilia.net/2015/04/23/jardins-de-monet-giverny/

Em 1883, Claude Monet (1840-1926) descobriu Giverny, pequena cidade da Normandia, na França:  passeando pela região, se apaixonou. Alugou uma vila e transformou todo o local em um maravilhoso jardim, onde se inspirava diariamente. Muitos dos seus quadros foram pintados neste cenário de sonhos.  Sonhou suas flores e pintou seu jardim. Em 1890, Monet comprou esta vila e viveu ali até a sua morte, em 1926. Foram 43 anos de amor e comunhão entre o artista e seu jardim…

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“A ponte Japonesa”, de Claude Monet. Ost, 1889.

Conheci o Jardim de Monet, após 40 anos de espera, por ocasião de minha última viagem à França, em 2014, quando fui fazer a dispersão das cinzas de minha mãe, que havia falecido dois meses antes. Na época, publiquei este post: “As Flores de Giverny“.

Inhotim é a Disneylândia dos amantes da arte contemporânea e dos imensos jardins de plantas tropicais. É considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina e está localizada em Brumadinho, pequena cidade a 60 km de Belo Horizonte.

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Foto: © Ricardo Mallaco

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Árvore suspensa de Giuseppe Penone. Escultura em bronze suspensa entre árvores de verdade, que se fundem com a escultura.

Os jardins de Inhotim também foram sonhados. O Instituto Inhotim começou a ser idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. A propriedade privada se transformou com o tempo, tornando-se um lugar singular, com um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras e de todos os continentes.

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Detalhe de uma piazzetta com 3 esculturas de bronze do Edgard de Souza.

O Instituto Inhotim abriga um complexo museológico com uma série de pavilhões e galerias com obras de arte e esculturas expostas ao ar livre. Inhotim é a única instituição brasileira que exibe continuamente um acervo de excelência internacional de arte contemporânea.

Para além da contemplação, os jardins são campo para estudos florísticos e catalogação de novas espécies botânicas. Em 2010, o Instituto Inhotim recebeu a chancela de Jardim Botânico, atribuída pela Comissão Nacional de Jardins Botânicos (CNJB), e, desde então, integra a Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RNJB). (Fonte: http://www.inhotim.org.br)

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“Inmensa”, de Cildo Meireles. Escultura em aço, 400 x 810 x 445 cm, 1982 – 2002. Foto: Tibério França

Também esperei anos para conhecer Inhotim. E, após a visita, também escrevi um post, o terceiro deste blog: “Primeiro contato com Inhotim“.

E assim, embora tardiamente, alguns sonhos meus vão se realizando e se misturam aos sonhos dos idealizadores destes dois magníficos jardins: Claude Monet e Bernardo Paz.

 Autor: Catherine Beltrão

Duas damas da Arte em Nova Friburgo

Hoje o foco é na cidade onde moro. Na Arte da cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. E neste mês de julho, esta arte se concentra no lugar-mor dos expositores, a Usina Cultural Energisa, no centro da cidade, bem em frente à Praça Getúlio Vargas, ou melhor, ao que restou da Catedral de Eucaliptos, após o abate de dezenas de árvores centenárias em janeiro passado. Mas voltemos ao foco.

Entre os dez expositores da Expoação, estão Adair Costa e Rose Aguiar, duas artistas de longa data, uma pintora e outra fotógrafa. Duas grandes damas que respiram e fazem brotar a arte do cotidiano, das pequenas e não pequenas coisas vivenciadas ou imaginadas.

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Rose Aguiar, com quatro de suas foto-artes.

Conheci Rose Aguiar faz pouco tempo. Suas foto-artes encantam o olhar e intrigam a mente. Enquanto alguns tentam fazer da arte uma fotografia, Rose caminha no sentido inverso, transformando fotos em arte. A partir de objetos e elementos reais, os espaços que surgem são quase abstratos, quase anamórficos.

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Rose Aguiar, com um tríptico foto-arte.

Extremamente bela a sua proposta e totalmente genuíno o seu propósito.  Paisagens urbanas vistas através de vidraças “enchuvaradas” nos deixam de alma lavada… assim como vidros coloridos engavetam cada um de nossos pensamentos!

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Adair Costa, com um de seus “Recortes urbanos”

Conheci Adair Costa em 2002, quando ela doou a obra “Silêncio” para o Museu ArtenaRede.

Como ela mesma define seu trabalho, é uma feliz mistura do real com o imaginário. A partir de alguns elementos reais, a imaginação elabora o resto…  “O artista já vive diariamente pensando como vai elaborar o seu trabalho”.

Na presente Expoação, Adair apresenta três “Recortes urbanos“, com acrílica sobre tela. Adair Costa atravessa uma fase de colorido intenso e provocante, que nos conduz também a um imaginário alegre e de bem com a vida. Sua arte contemporânea, contrariamente à maioria, não choca nem agride. Ela embala nossos sonhos e fantasias. Simples assim. E isso é fantástico!

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Adair Costa, com mais dois trabalhos da série “Recortes Urbanos”

 

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“Silêncio”, de Adair Costa. 2001, técnica mista, 100 X 100cm

Falei da obra “Silêncio“, doada ao Museu ArtenaRede. Aí está ela. E assim falava Adair Costa, em 2002: “Hoje, meu trabalho parte de exercícios de concentração. Deixo surgir livremente a sensibilidade para idéias que vão tomando corpo através de desenhos mentais. Assim sendo, prossigo caminhando para uma ação ( no caso da tela) onde vão se construindo e tomando forma imagens, através da apropriação de materiais e tintas que são cuidadosamente estudados, com vistas ao papel de interrelação, interação e transformação no tempo, dando origem a obras, sem a preocupação de identidades  pré-estabelecidas, mas com características de Abstração Informal.”

 Autor: Catherine Beltrão