Arquivo da categoria: Arte barroca

Velásquez e o Museu do Prado

O foco de hoje é a Espanha.

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“Autorretrato”, de Diego Velázquez. 1640.

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (1599-1660) foi um pintor espanhol e principal artista da corte do rei Filipe IV de Espanha. Era um artista individualista do período barroco contemporâneo, importante como um retratista. A este respeito, alguns críticos o consideram o maior retratista que o mundo já conheceu.

A obra de Velázquez também foi um modelo para os pintores realistas e impressionistas, em especial Édouard Manet que chegou a afirmar que Velásquez era o “pintor dos pintores“. Ele também influenciou artistas mais modernos, incluindo os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí, bem como o pintor anglo-irlandês Francis Bacon, que o homenageou recriando várias de suas obras mais famosas.

A grande maioria dos seus quadros estão no Museu do Prado, como:

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“O Triunfo de Baco”, de Diego Velázquez. 1629 – 165 X 225cm.

“O Triunfo de Baco”,  obra pintada para Filipe IV de Espanha. Baco é representado como o deus que recompensou ou presenteou o ser humano com o vinho. Na literatura barroca, Baco é considerado uma alegoria sobre libertação humana da escravidão da vida diária.

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“A Rendição de Breda”, de Diego Velázquez. 1634 – 307 X 367cm

A Rendição de Breda“, sua única obra com tema histórico. Também conhecida como “As lanças“, a obra é considerada por grande parte dos críticos como a mais perfeitamente equilibrada do artista.

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“As Meninas”, de Diego Velázquez. 1656 – 318 X 276cm

As Meninas“, a obra-prima de Diego Velázques, que foi reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental.

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“As Fiandeiras”, de Diego Velázquez. 1657 – 222 X 293cm

E “As Fiandeiras“, primeiro quadro na história da arte dedicado ao trabalho. Esta obra constitui um dos quadros em que é mais fácil identificar a personalidade estética do Museu do Prado.

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Fachada frontal do Museu do Prado, com a estátua de Diego Velázquez.

O Museu do Prado é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo.

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Interior do Museu do Prado.

Foi concebido por Juan de Villanueva, o arquiteto do rei Carlos III, sendo esta a maior e mais ambiciosa obra do neoclassicismo espanhol.

Após várias interrupções em sua construção, o museu foi inaugurado a 19 de novembro de 1819. Contendo coleções de pintura e escultura provenientes das coleções reais e da nobreza, o museu detinha, aquando da sua inauguração, cerca de 311 obras de arte, todas elas de autores espanhóis.

Atualmente, a coleção de pintura é bastante completa e complexa, existindo neste museu coleções de pintura espanhola, francesa, flamenga, alemã e italiana. Além de Velázquez, encontram-se neste museu milhares de obras de dezenas de pintores como El Greco, Goya, Georges de La Tour, Watteau, Bruegel, Bosh, Rubens, Rembrandt, Durer, Fra Angelico, Botticelli e Caravaggio, entre muitos outros…

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Interior do Museu do Prado. Sala onde se encontra “as Meninas”, de Diego Velázquez.

 Autor: Catherine Beltrão

A Física na pintura de Vermeer

Muito já se escreveu sobre a relação da Matemática com a Arte. Por exemplo, o numéro Phi, ou número áureo, definido por Euclides há mais de 2000 anos, foi ilustrado pela primeira vez por Leonardo da Vinci, em seu célebre “Homem Vitruviano.” Michelangelo, Botticelli e Salvador Dali também utilizaram a proporção áurea em algumas de suas obras.

Mas e a Física? Haveria alguma relação da Física com a Arte?

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“Girl with a Pearl Earring c. 1665-1666″. Real Galeria de Arte Mauritshuis, em Haia

Johannes Vermeer (1632-1675), um dos maiores pintores holandeses junto com Rembrandt, responde a esta pergunta.

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Vídeo sobre a Era de ouro da Pintura holandesa.

No século XVII, (1632-1675), a Holanda era certamente um centro para manufatura de instrumentos ópticos de alta qualidade. Naquela época, já se conhecia um dispositivo ótico chamado “câmara escura”,  que reproduzia uma imagem fiel de uma cena real para uma tela. Era uma espécie de antecedente da câmara fotográfica, 150 anos antes de sua invenção!

Supõe-se que Vermeer utilizou este dispositivo para conseguir um posicionamento preciso em suas composições, nas quais os efeitos da luz geram uma perspectiva cujo resultado não pode ser obtido a olho nu, ou seja, sem o auxilio de uma lente. Além disso, Vermeer também teria utilizado espelhos na confecção de suas pinturas. Os espelhos também necessitam de luz para refletir uma imagem, ou seja, para um observador visualizar a imagem, ele precisa receber raios luminosos provenientes do objeto.

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“The Music Lesson”, pintura (1662), óleo sobre tela, 73,3 x 64,5 cm . Na The Real Collection, Windsor, Londres.

Saído em 2013, o documentário “Tim’s Vermeer” pretendeu mostrar como um inventor texano – Tim Jenison – conseguiu reproduzir à perfeição a obra “The Music Lesson“, com a utilização de uma câmara escuro e espelhos. Foi um projeto que durou cinco anos, desde a sua concepção, passando pela construção dos objetos existentes na obra e fora dela, até chegar à sua execução. Para ver o documentário na íntegra, clique aqui.

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“A Kitchen Maid”, c. 1658

Não há um número exato de obras atribuídas a Johannes Vermeer, mas especula-se que seja entre 35 e 40 pinturas, pintando apenas duas ou três telas por ano. A maioria era de interiores e cenas cotidianas, com técnica peculiar e inconfundível.

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“Girl with the red hat”. c.1665-66

Arte e Ciência, entidades totalmente conectadas: ontem, hoje e para sempre!

 Autor: Catherine Beltrão

Fazenda Colubandê: História, Arte,Tragédia e Descaso (Parte I)

A Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. Marco da arquitetura colonial brasileira, a sua história começou no século XVII, quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século XVIII, tornando-se a propriedade uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região. Sua construção data provavelmente de 1618.

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Fazenda Colubandê. Foto de Isabela Kassow/Diadorim Ideias, em 2012

Em 1713, a fazenda foi confiscada pela Inquisição e seus donos presos levados para Portugal para julgamento pelo Santo Ofício. O engenho foi entregue aos jesuítas onde sofreu sérias mudanças devido a nova religião atuante.

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Poço interno da Fazenda Colubandê

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Conversadeiras na varanda, ainda intactas. 2012.

A casa grande possui 28 cômodos interligados, construída em adobe de barro cozido e argamassa de conchas moídas e óleo de baleia, tendo sido construída em torno de um poço do século XVII, de acordo com a tradição judaica, e não segue um estilo padrão, pois foi sendo reformada ao gosto de cada dono. O teto tem estilo oriental, as janelas mostram influência da época de Luís XV e o entorno da varanda possui 16 colunas em estilo grego-romano, com conversadeiras entre cada coluna. O casarão foi construído em estilo barroco e conta com quatro cômodos no subsolo, onde ficavam as senzalas que abrigavam os escravos.

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Painel de azulejos portugueses, junto ao altar-mor da Capela de Sant’Anna. Foto de Claudio Prado de Mello, em 2014.

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Retábulo barroco do Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em 2014.

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Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em janeiro de 2017, após os saques e o vandalismo

A casa-sede foi erguida ao lado da capela de Sant’Anna, de estilo jesuítico e características mouras na parte de cima. Datada também de 1618, foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat. Passou por reformas em 1740, quando foram instalados nas paredes da capela-mor dois painéis de azulejos portugueses Alentejanos em estilo barroco-rococó. Um mostra a imagem de Sant’Ana, mãe da Virgem Maria, ensinando-a a ler e outro retrata o pedido de casamento de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Cristo.

Próximo à casa principal, na antiga área de lazer existe um mural em homenagem às mulheres assinado pela artista plástica Djanira, da década de 1960. Há também o Bosque da Saudade, construído em 2006, onde cada árvore representa um policial morto em defesa do meio ambiente.

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Restos da piscina nos jardins abandonados, com painel de Djanira. 2017.

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Vídeo da Fazenda Colubandê. 2012, ainda sob a guarda do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar de São Gonçalo.

Em 1969, o antigo chão de madeira foi trocado pelo atual, de tijolo de barro. O conjunto arquitetônico da casa e fazenda foi tombado pelo IPHAN em 1940 e pelo INEPAC em 1965. Atualmente está abandonada e estava sob responsabilidade do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar até 2012.

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Vídeo de 2015, mostrando a Fazenda Colubandê abandonada, mas ainda possuindo o retábulo na Capela de Sant’Anna.

Diante de toda a sua importância histórica, cultural e arquitetônica (sendo um dos únicos imóveis no Brasil com arquitetura setecentista preservada localizada em área urbana) a Fazenda está literalmente abandonada e largada a sua sorte, sendo alvo constante de vandalismo e a partir de 2016, de saques .

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Baner da chamada do Ato Público em favor da sensibilização pelo patrimônio representativo da Fazenda Colubandê

No próximo dia 25 de março, o historiador e arqueólogo Claudio Prado de Melo, um dos organizadores pelo movimento SOS Fazenda Colubandê, estará promovendo um Ato Público representativo, com apresentação de várias atividades. Entre elas, será encenada a peça teatral chamada O AUTO DE FÉ DA SANTA INQUISIÇÃO E A FAZENDA COLUBANDÊ, que reunirá grande elenco formado de 49 pessoas, entre elas a atriz Maria Luiza Faveri. O espetáculo, com Direção Artística do Prof. Jó Siqueira, mostrará como se processaram os acontecimentos na Fazenda Gonçalense nos séculos XVII e XVIII e terá um final surpreendente, com uma grande revelação histórica .

Neste relato, não sei o que é maior: se a esplêndida arquitetura colonial da Fazenda, se a arte do barroco-rococó do interior da capela, se a tragédia provocada pelos saques e vandalismo ou se o total descaso das autoridades competentes, ambos ocorridos desde 2013.

Autor: Catherine Beltrão

Algumas gotas de cinco fontes romanas

Em se tratando de monumentos, quando se fala em Roma, lembramos logo de quê? Coliseu, Capitólio e… fontes! Não se sabe ao certo, mas parece que existem mais de 2000 fontes em Roma.  Mas como surgiram as fontes romanas?

Fonte - aqueduto Appio

Aqueduto Appio

As cidades antigas eram geralmente construídas perto de onde havia muita água, como foi o caso de Roma. Originalmente, o rio Tibre e as fontes e poços nas proximidades forneciam toda água de que a cidade precisava.  Com o passar dos séculos, foi necessário a construção de estruturas que levassem a água para um número cada vez maior de habitantes. Assim, apareceram os aquedutos, que são galerias subterrâneas ou expostas à superfície que servem para conduzir água. Em 312 a.C, os romanos projetaram o seu primeiro aqueduto, denominado Acquedotto Appio, demonstrando uma inigualável habilidade na construção desse tipo de obra arquitetônica. Já no final do século I d.C, a cidade era abastecida por onze deles, que levavam diariamente, até a capital, nada menos que mil litros de água por habitante, o maior deles possuindo 90 km de extensão.

Fonte - aqueduto Acqua Virgo

Aqueduto Acqua Virgo – vídeo

A construção destes 11 aquedutos fez de Roma uma das cidades mais ricas em água de todos os tempos, suprindo-a com milhões de metros cúbicos que a cada dia alimentava inúmeras fontes e magnificas Termas, os banhos de Roma. Entretanto, no século VI, os godos saquearam Roma e cortaram o fornecimento hídrico da cidade, acabando com essa riqueza e causando o abandono dos grandes Banhos. Somente no século XVI, os papas resolveram o problema renovando os antigos aquedutos e decorando Roma com fontes monumentais que celebram a magnificência e o poder dos pontífices.

Impossível apresentar aqui todas as fontes romanas. Resolvi selecionar cinco delas, todas servidas pelas águas do Aqueduto Água Virgem (Acqua Virgo).

A mais conhecida entre as fontes de Roma é, certamente, a Fontana di Trevi. 

Fonte - di Trevi

Fontana di Trevi

A Fontana di Trevi é o ponto terminal do antigo aqueduto Aqua Virgo, construído por Agripa. Teve intervenções de Nicola Salvi entre 1732 e 1751. De estilo barroco,  esta fonte monumental mede cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura.

A fonte foi restaurada em 1998: as esculturas foram limpas e polidas, e a fonte foi provida de bombas para circulação da água e sua oxigenação. Este cartão postal de Roma passa atualmente pela maior reforma em 252 anos. A restauração da Fontana di Trevi deverá ser encerrada apenas no segundo semestre de 2015.

O ritual de jogar uma moedinha na fonte para garantir um retorno à Roma é planejado por quase todos os turistas. A prefeitura de Roma recolhe anualmente cerca de 600 mil euros em moedas de mais de 130 países que centenas de turistas jogam nas águas da fonte.

Além da Fontana di Trevi, outras quatro fontes também são desservidas pelas águas do Acquedotto Virgo: a Fonte da Tartaruga, a Fonte de Netuno, a Fonte do Mouro e a Fonte dos Quatro Rios. Estas três últimas se situam na Piazza Navona.

Fonte - Tartuaruga

Fontana delle Tartarughe

A Fonte da Tartaruga (Fontana delle Tartarughe), construída em 1558, está situada na Piazza Mattei, no centro histórico de Roma, tendo sido projetada por Giacomo Della Porta (1533-1602), e executada, provavelmente, por Taddeo Landini (1561–1596). Esta fonte está ligada a uma lenda romântica: o duque Mattei, para demonstrar ao pai da sua amada que era um homem poderoso, construiu essa linda fonte em uma noite, diante da sua janela.

Fonte de Netuno

Fontana di Nettuno

Fonte - del Moro

Fontana di Moro

Na Piazza Navona, onde inclusive se situa a Embaixada Brasileira em Roma, se encontram três das mais belas e monumentais fontes de Roma: a  Fonte de Netuno (Fontana di Nettuno), construída em 1557, também projetada por Giacomo Della Porta, e que fica no extremo norte da Praça, com a imponente escultura de Netuno lutando contra um polvo. Situada no outro extremo da Praça,  a Fonte do Mouro (Fontana del Moro), construída em 1576, por Giacomo Della Porta e finalizada mais tarde por Bernini, é uma das mais antigas fontes renascentistas de Roma, representando um mouro circundado por golfinhos e tritões, com a base em mármore cor de rosa.  E, ocupando o centro da praça, a Fonte dos Quatro Rios (Fontana dei Quattro Fiumi), construída em 1651, de autoria de Bernini (1598-1680), um dos maiores artistas do barroco italiano. Nela, as quatro figuras humanas saem de rochas e cavernas, simbolizando os quatro rios conhecidos na época: o Nilo, representando a África, o Ganges, representando a Ásia, o Danúbio, representando a Europa e o Rio da Prata, representando as Américas.

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Fontana dei Quattro Fiumi – Vídeo

 

Roma, cidade eterna, não se equipara a nenhuma outra neste planeta. Nenhuma outra cidade conseguiu mostrar, até hoje, de forma tão bela e pujante, a relação água, arquitetura, engenharia e arte, tudo a serviço do ser humano.

 Autor: Catherine Beltrão