Arquivo da categoria: Arte a ser valorizada

Isadora

Como sempre faziam na maior parte dos finais de tarde, Katia e sua avó Edith, recostadas respectivamente no sofá e na poltrona bergère da sala, repetiam seus rituais de leitura: livros de pintura para a avó, livros de balé para a neta.

De repente,  a menina exclamou:

- Olha só, vó, descobri uma bailarina que faz aniversário no mesmo dia que eu: 27 de maio!

- É mesmo? E quem é?, perguntou Edith:

- Isadora Duncan! Você conhece, vó?

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Isadora Duncan, em 1904.

- Se conheço? Conheço, sim.  E a avó foi falando tudo que sabia sobre a bailarina.

Falou que Isadora Duncan tinha sido uma pioneira da dança moderna, para muitos a mais importante.  Ela era também revolucionária, amante das artes e um espírito livre e independente. Isadora se inspirava nos gregos e pelos movimentos da natureza, como o vento, plantas e animais.

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Isadora Duncan

- E como ela fazia o movimento do vento, vó?

- Isadora gostava de dançar de pés descalços, vestindo apenas uma simples túnica de seda. Quando ela rodava, era mais fácil representar o vento…

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Isadora Duncan

Katia também ficou sabendo que Isadora não concordava com as regras e exigências do balé clássico: coreografias rígidas, sapatilhas de ponta, corpetes apertados. Quanto à música, ela gostava de dançar ao som de melodias dos compositores Frédéric Chopin e de Richard Wagner, o que também não era comum na época.

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Isadora Duncan

E, antes que a neta falasse alguma coisa, a avó pintora decretou:

- Vou pintar uma bailarina Isadora pra você!

E Edith pintou a “Bailarina com véu lilás” para Katia.

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“Bailarina com véu lilás”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina, 50 X 38cm

Naquele dia, Katia soube que Isadora foi única e seu legado enorme, pois introduziu a liberdade na dança. Que seu nome é reconhecidamente um dos mais importantes da dança de todos os tempos. E que nunca haverá outra Isadora Duncan.

E, também naquele dia, Katia decidiu que iria deixar um legado. Não sabia ainda qual. Só sabia que este legado seria de Arte.

Autor: Catherine Beltrão

  Este é o 5º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”; 4º post: “Odete, Aurora ou Clara?”

Odete, Aurora ou Clara?

Katia e sua avó pintora estavam recostadas no sofá azul da sala, ouvindo música. Música de balé. Música do compositor  Peter Ilyich Tchaikovsky.

- Vou pintar uma bailarina!, disse a avó. E complementou:

- Qual você gosta mais? A Odete, a Aurora ou a Clara?

Katia respondeu:

- Chiii… não sei! Adoro as três!

E as duas, avó e neta, foram lembrando dos balés…

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Natalia Osipova e Matthew Golding, no balé “O Lago dos Cisnes”

A princesa Odete é a protagonista do balé “O Lago dos Cisnes“, o primeiro dos três balés musicados por Tchaikovsky. Um feiticeiro aprisionou Odete no corpo de um cisne, que vivia perto de um lago formado pelas lágrimas de sua mãe. De dia, Odete era cisne. À noite, ela voltava a ser princesa.

Mas o feitiço deixaria de existir quando um jovem lhe declarasse amor e fidelidade.  E, se fosse traída,  Odete permaneceria para sempre como cisne.

- É vó, lembro bem da Odete do ‘Lago dos Cisnes’… mas e a Aurora, ela é a princesa do balé ‘A Bela Adormecida’, não é?

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Natalia Osipova e David Hallberg, no balé “A Bela Adormecida”

É. Katia lembrava muito bem do conto de fadas de Charles Perrault: o personagem principal é a princesa Aurora que também é enfeitiçada por uma fada maligna, logo que acaba de nascer. Um dia ela terá um dedo picado pelo fuso de uma roca e irá cair num sono profundo. Só irá acordar quando um príncipe encantado lhe der um beijo de amor verdadeiro.

- Puxa, vó, tá difícil escolher… e a Clara lembra o Natal, certo?

- Certíssimo! Uma grande árvore de Natal é o cenário do balé ‘O Quebra Nozes’, disse a avó.

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Natalia Osipova e Mathias Heymann, no balé “O Quebra Nozes”

E ambas foram puxando pela memória…

No balé ‘O Quebra Nozes‘, a menina Clara ganha um presente muito especial, um boneco quebra nozes. Em disputa com o irmão, o boneco se quebra e ela vai dormir muito triste. Mas, em seus sonhos,  o boneco ganha vida e se transforma em um príncipe. Juntos, os dois fazem uma viagem mágica dentro de uma árvore de Natal.

- Tive uma ideia!, falou de repente a avó.

- Vou pintar uma bailarina. E você decide se é a Odete, a Aurora ou a Clara… Tá bom assim

- Tá ótimo!, respondeu a neta.

E a avó pintou “A bailarina ajoelhada de tutu branco” para Katia.

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“Bailarina ajoelhada de tutu branco”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina, 50 X 38cm

E você? Qual das três bailarinas você acha que a Katia escolheu para representar a pintura? A Odete? A Aurora? A Clara?

   Autor: Catherine Beltrão

 Este é o 4º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”.

 

A bailarina azul

Katia, a menina que tinha uma avó pintora que se chamava Edith, costumava sonhar acordada. Sonhava com quase tudo que a avó pintava: sonhava com ursos, palhaços, flores, praias e… bailarinas.

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“Bailarina vestida de azul”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

Um dia, Katia sonhou com uma bailarina azul. Não, não era uma bailarina vestida de azul. Era uma bailarina azul mesmo. E o cabelo era de ouro…

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“Bailarina vestida de lilás”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

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“Bailarina ajoelhada com tutu branco”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

A partir daquele dia, ela resolveu procurar a bailarina azul com cabelo de ouro entre os quadros da avó.

Primeiro achou uma bailarina vestida de lilás. Era linda, com aquela saia esvoaçante… parecia um pássaro!

Procurando mais um pouco, ela encontrou uma bailarina ajoelhada, toda de branco. Esta também parecia um pássaro. Pra dizer a verdade, parecia um cisne mesmo! Um cisne que se preparava para deslizar no lago…

E por entre flores e palhaços, Katia achou outra bailarina: ela estava na pontinha do pé, com um tutu todo dourado! Parecia uma princesa dançando solitária em seu castelo…

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“Bailarina de tutu amarelo”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

Mas nada da bailarina azul…

Foi aí que a avó de Katia perguntou:

- O que você está procurando?

A bailarina azul, respondeu a neta… E continuou:

- Eu sei que não existe, mas…

- Não existe?, disse Edith.

- Espera um pouco…, continuou ela.

E Edith fez uma linda bailarina azul para Katia. Com cabelo de ouro.

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“Bailarina azul”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina preta, 52 X 38cm.

A avó não precisou falar mais nada. Katia já tinha entendido. Se a gente tem um sonho, primeiro a gente procura. E, de tanto procurar, a gente encontra. De alguma forma. É só acreditar.

  Autor: Catherine Beltrão

O Jardim de Dentro e o Jardim de Fora

Como pode isso, vovó? Não entendi… Jardim de Dentro? Jardim de Fora?

Vou explicar. Primeiro você tem que acreditar que já fui criança um dia. Igualzinha a você. Sei que é difícil, mas faça um esforcinho…

Bem, tudo começou com o Jardim de Dentro. Eu já lhe contei que sua tataravó Edith era pintora, certo? Então… ela pintava retratos, pintava paisagens, pintava palhaços, pintava bailarinas… e pintava flores!

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“Braçada de flores”, de Edith Blin. Déc.50, ost, 60 X 50 cm.

Mas suas flores eram diferentes. Quase nunca ficavam presas dentro de vasos. As flores de Edith gostavam de ser livres, de dançar e de cantar.

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“Flores vermelhas em ascensão”, de Edith Blin. 1955, ost, 82 X 65cm.

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“Bouquet de la nuit”, de Edith Blin. 1956, ost, 81 X 65cm.

E eu adorava dançar e cantar com elas. Me levavam a lugares incríveis. Quase sempre, estes lugares eram muito coloridos, mas as vezes não.  Coloridos ou sem cor, tudo era tão bonito que eu até sonhava com estes lugares.

Uma noite, sonhei que os galhos das flores nos levavam para um lugar mágico, todo iluminado e cheiroso: era uma floresta encantada e cantante!

Outra vez, sonhei que um vento forte nos levava para bem longe. A gente rodopiou, rodopiou, até o vento parar. Nessa viagem, as flores tinham perdido muitas pétalas… mas não teve problema, pois eu remendei uma a uma.

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“Flores ao vento”, de Edith Blin.1957, ost, 54 X 72cm.

Pelo que me diziam (porque eu também conversava com as flores de Edith), só eu conhecia estes lugares. E eles passaram a ser o meu Jardim de Dentro!

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“Orquídea amarela com rosas”, de Edith Blin.1952, ost, 54 X 72cm.

Mas e o Jardim de Fora, vovó? Como era?

O Jardim de fora não “era”. Ele “é”. É o nosso Jardim dos Poetas!

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Cerejeira em flor no Jardim dos Poetas

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Samambaia portuguesa ao sol, no Jardim dos Poetas

É o jardim onde você brinca com seus irmãos e seus primos quando vem me visitar… é o jardim das bromélias, das orquídeas, das cerejeiras, dos beija-flores e dos bem-te-vis. É o jardim dos ipês, dos bambus, das camélias, dos jacus e dos sabiás. E é também o jardim das azaleias, dos antúrios, das palmeiras, das corujas e dos tico-ticos.

Eu tive o meu Jardim de Dentro quando criança, onde plantei as sementes do meu Jardim de Fora de hoje, o nosso Jardim dos Poetas. Quem sabe ele, o Jardim dos Poetas, não seja o seu Jardim de Dentro e que dê muitas sementes para você plantar em seu Jardim de Fora de amanhã…

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Buganvília no portão do Jardim dos Poetas

 Autor: Catherine Beltrão

Os sessenta anos de um urso e de um palhaço

Era uma vez um ursinho preto. De pelúcia. E também era uma vez um palhaço. De pano, listrado de vermelho e branco.  Eles se encontraram na casa de uma menina. Ela tinha seis anos. Seu nome era Katia.

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“Katia e seus amigos”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 48 X 30cm.

 Katia adorava brincar com eles. O ursinho preto e o palhacinho vermelho e branco. E eles adoravam brincar com ela.

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“Katia com ursinho preto”, de Edith Blin.1954, pastel sobre cartolina, 46 X 32cm

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso I”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 50 X 35cm.

A menina morava com a avó. E a avó de Katia era pintora! Ela gostava muito de pintar a Katia. Já tinha feito vários retratos dela. Então, um dia Edith – era o nome da avó -  resolveu pintar a Katia com os seus amigos, o ursinho e o palhaço. Primeiro, ela pintou a neta só com o ursinho que, a essa altura, já tinha nome e se chamava Teddy.

Katia já estava acostumada a posar… ela sabia que precisava ficar quietinha. Mas Edith não precisou falar nada  para o Teddy. Ele também não se mexeu nem um pouco enquanto posava.

Depois, Edith pintou Katia com o palhacinho listrado de vermelho e branco também. E pintou… e pintou… e pintou…

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso II”, de Edith Blin. 1956, pastel sobre cartolina, 63 X 47cm.

Muitas vezes, Katia ouvia os dois cochicharem: “Quando é que vamos posar de novo? ” Eles adoravam posar com a Katia para a Edith.

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“Retrato de Katia com palhacinho e urso III”, de Edith Blin. 1956, óleo sobre tela, 61 X 50cm.

Passaram-se anos. Na verdade, sessenta anos. Edith continua pintando no céu. Já ouvi dizer que pinta estrelas e arco-íris.

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O ursinho Teddy e o palhacinho vermelho e branco, sessenta anos depois…

Quanto ao ursinho Teddy e ao palhacinho listrado de vermelho e branco (nunca teve nome), eles continuam por aqui mesmo. Junto com a Katia. Que não é mais menina. Que teve filhos.  E netos.

Tem dia que os três ficam lembrando de como era bom ficar posando para Edith. De como era bom ter sido criança! Afinal, mesmo sexagenários, mesmo com a pele murchando, o pelo faltando ou o pano desbotando, os três continuam amigos e eternos nas pinturas…

 Autor: Catherine Beltrão

Sangue, tempo e aquarelas

Minha família veio de longe. De terras brumosas e brumas uivantes. E de tempos em tempos, a saudade costuma ganhar peso. Nessas horas, recorre-se a fotos antigas, a objetos que teimam não apodrecer… e que justificam nossas lembranças. Como algumas das aquarelas de Wambach.

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“Retrato de Edith”, de Georges Wambach. 1932, aquarela, 16 X 18cm

Georges Wambach (1902-1965), grande aquarelista nascido em Anvers/Bélgica, era muito boêmio e conheceu minha avó Edith Blin (1891-1983) em 1926, na época em que ela era atriz de teatro. Edith era uma mulher lindíssima e, mesmo sendo casada e mãe de três filhos, atraía olhares e provocava emoções masculinas. Wambach ficou fascinado por essa atriz apaixonante e foi se aproximando da família… Fez retratos da mãe de Edith, dos irmãos de Edith, dos sobrinhos, dos filhos… até chegar nela.

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“Bonne Maman” (mãe de Edith), de Georges Wambach. 1938, aquarela, 38 X 32cm

Para compor este post que fala de tempos passados e de sangues familiares, um poema sublime de Cecília Meireles: “Memória

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“Retrato de Jean” (irmão de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe,
 com trajos de circunstância:
 uns converteram-se em flores,
 outros em pedra, água, líquen;
 alguns, de tanta distância,
 nem têm vestígios que indiquem
 uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
 outros perdidos no chão.

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“Retrato de Raymonde” (irmã de Edith), de Georges Wambach. 1931, aquarela, 20 X 14cm

Tão longe a minha família!
 Tão dividida em pedaços!
 Um pedaço em cada parte…
Pelas esquinas do tempo,
 brincam meus irmãos antigos:
 uns anjos, outros palhaços…
Seus vultos de labareda
 rompem-se como retratos
 feitos em papel de seda.
 Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
 de repente, os mais exatos
 perdem sua exatidão.
 Se falo, nada responde.
 Depois, tudo vira vento,
 e nem o meu pensamento
 pode compreender por onde
 passaram nem onde estão.

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“Retrato de Jeannine” (sobrinha de Edith), de Georges Wambach. 1933, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Mas eu sei reconhecê-la:
 um cílio dentro do oceano,
 um pulso sobre uma estrela,
 uma ruga num caminho
 caída como pulseira,
 um joelho em cima da espuma,
 um movimento sozinho
 aparecido na poeira…
Mas tudo vai sem nenhuma
 noção de destino humano,
 de humana recordação.

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“Retrato de Georges” (filho de Edith), de Georges Wambach. 1928, aquarela, 20 X 14cm

Minha família anda longe.
 Reflete-se em minha vida,
 mas não acontece nada:
 por mais que eu esteja lembrada,
 ela se faz de esquecida:
 não há comunicação!
 Uns são nuvem, outros, lesma…
Vejo as asas, sinto os passos
 de meus anjos e palhaços,
 numa ambígua trajetória
 de que sou o espelho e a história.
 Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”

Mas sei que tudo é memória…

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“Retrato de Ivan” (filho de Edith, meu pai), de Georges Wambach. 1929, aquarela, 20 X 14cm

O tempo passa. E o sangue continua correndo nas veias da família Blin. Mesmo naqueles que não mais possuem o Blin em seu nome. Pois eu sou a última da família, aqui no Brasil, a ter este privilégio.

  Autor: Catherine Beltrão

Retratos de uma velha senhora

A velha senhora se chama Marie Pivert Blin. A velha senhora é mãe de Edith Blin. A velha senhora também era conhecida como a “Bonne Maman“. Minha bisavó.

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“Bonne Maman en noir”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre tela, 76 X 60cm

Não cheguei a conhecê-la. Nossos caminhos se cruzaram, mas em planos diferentes. Ela partiu em dezembro de 1947 e eu cheguei alguns meses depois.

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“Bonne Maman au tricot”, de Edith Blin. 1942, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Bonne Maman au journal” de Edith Blin. Década de 40, óleo sobre tela, 98 X 72cm

Edith foi nosso denominador comum. Marie e eu amamos Edith de uma forma que não dá para mensurar. Aquela forma que não cabe em formas de amor materno, de amor filial, ou de qualquer outro amor familiar. E Edith também nos amou desmedidamente.

Até onde sei, Marie era de pequena estatura, e possuía uma alma gigantesca. Normanda até o último fio de cabelo, passou para Edith a veneração pelo Mont Saint-Michel, aquele monumento que orgulha a nação francesa, senhor das marés e dos ventos uivantes.  Veneração que acabou passando também pra mim.

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“Portrait Maman”, de Edith Blin. 1943, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Bonne Maman au fauteuil”, de Edith Blin. Década de 40, desenho a carvão, 30 X 22cm

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“Les pensées de Maman sont vers la France”, de Edith Blin. 1942, desenho a carvão, 30 X 22cm

Não tenho lembranças diretas de Marie, a “Bonne Maman“. Mas guardo lembranças das lembranças de Edith de sua “Boa Mamãe“: algumas fotos, uma poltrona bergère Luis X V (ou Luis XVI, não sei ao certo), um armário normando com mais de três séculos de existência…

Lembranças que um dia não serão mais lembranças. Lembranças que irão se transformar em histórias. Sem afeto. Sem tristezas. Sem risos. E, quem sabe até, sem família.

 Autor: Catherine Beltrão

Um dia em 1972

Não lembro o dia. Nem o mês. Só o ano: 1972. Neste dia, eu fui, uma vez mais, modelo de Edith. Edith Blin, minha avó. Edith, cúmplice de vida e de alma.

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“Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Edith dando os últimos retoques na obra.

Minha avó me pintou 129 vezes, em 32 anos. Desde que eu nasci até a sua partida. Foram 32 anos de cumplicidade em 129 registros de amor.

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Nas telas e no cotidiano com minha avó Edith, meu nome é Katia. Catherine é para os outros.

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A cada vez que posava, um compositor se fazia presente: Bach, Chopin, Liszt, Debussy, Villa-Lobos. Não importa. A música nos unia.

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Neste dia de 1972, deve ter sido Franz Liszt. Talvez a “Bénédiction de Dieu dans la solitude“, com Claudio Arrau ao piano.

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E, como já escrevi em depoimento de 2006, acerca de ter sido modelo de Edith: “Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.”

Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesa

“Retrato de Katia vestida de roxo estilo marquesa”. 1972, ost, 92 X 73cm.

Ao lado, a obra “Retrato de Katia vestida de roxo, estilo marquesa.” Foi feita em 1972, a óleo sobre tela. Dimensão: 92 X 73cm. O vestido roxo era de veludo de seda, tendo sido de minha avó, quando jovem. O longo colar é feito de contas de âmbar. A gargantilha tem um pendente cujo desenho é um tucano feito com asas de borboleta. O vestido não existe mais. O colar e a gargantilha, sim.

Neste 8 de maio, Dia das Mães, quando o sentimento brota sem fazer esforço, a lembrança daquele dia em 1972, faz 44 anos já, traz para o presente o som e o cheiro de um daqueles momentos mágicos, partilhados com aquela que foi minha mãe de coração, mãe de alma, mãe de criação, mãe de Arte: minha avó Edith Blin.

Autor: Catherine Beltrão

 

O antigo que permanece

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Capa do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos”

 

Acaba de ser publicado, pela Gaps Editora, o belo livro “Rio – Casas e Prédios Antigos“, com textos de Rafael Bokor e fotografias de Milena Leonel e Renan Olivetti. Primoroso. Uma viagem pelo tempo e pelos caminhos sensíveis representados nos escritos e nas imagens, que se complementam como peças de um quebra-cabeças de histórias de vida…

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Hall de entrada do Edifício Brasil, em Copacabana

A maioria dos prédios incluídos no livro datam dos anos 30 e 40 e seguem o estilo art déco. Como a impressionante entrada do Edifício Brasil, situado na Rua Fernando Mendes, em Copacabana. Quase todo em mármore, ornamentado com lustres e arandelas de ferro, quantos não terão se imaginado príncipes e princesas, ao atravessar este “hall de palácio“…

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Castelinho do Flamengo

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Castelinho do Flamengo – escadaria interna

Quem nunca ouviu falar do “Castelinho do Flamengo“? Datado de 1918, possuindo 3 andares e 31 ambientes, esta construção detém uma história fantástica, com direito a prisioneira na torre e assombrações fantasmagóricas. Após décadas de ocupações irregulares e predatórias, com sucessivas restaurações, a partir de 1992, o castelo se tornou o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Viana Filho.

Considerado “O Rei dos Prédios Cariocas“, o Edifício Seabra também é conhecido como o Dakota carioca, aquele edifício nova-iorquino onde morou John Lennon, e também local onde foi assassinado. Sombrio, com muitas colunas e arcos, o prédio foi construído nos anos 30 e possui 12 andares, sendo os 3 últimos reservados para formar uma cobertura tríplex (voltaram à moda hoje em dia essas coberturas tríplex…).

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Edifício Seabra, no Flamengo

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Fachada externa.

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Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Um dos ambientes internos.

O lançamento do livro “Rio – Casas e Prédios Antigos” ocorreu a 22 de dezembro de 2015, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Situado na Rua Redentor, em Ipanema, o imóvel pertenceu ao produtor musical Guilherme Araújo por mais de 3 décadas. Uma joia preservada, repleta de história e de lembranças de festas de antigamente…

O livro contém 35 histórias de casas e prédios antigos do Rio, situados na zona Sul. São histórias e imagens apaixonantes, realizadas  por verdadeiros artistas apaixonados por esta cidade,  mostrando porque, um dia, ela foi tão maravilhosa…

Autor: Catherine Beltrão

Que será do amanhã do Museu Casa do Pontal, o maior museu popular do Brasil?

Era uma vez um francês, Jacques van de Beuque (1922-2000).  Ele foi preso na Segunda Guerra Mundial e enviado para Kiev, na Ucrânia, onde ficou dois anos. Em 1944 fugiu da prisão, voltou para a Europa e encontrou Cândido Portinari, que o convenceu de vir para o Brasil. Foi o que ele fez, em 1946.

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Jacques van de Beuque

Viajando por todo o país, Jacques ficou fascinado pela arte popular brasileira e reuniu, durante quase cinco décadas, mais de 8.000 obras de cerca de 200 artistas. Em 1976, criou o Museu da Casa do Pontal, simplesmente o maior e mais significativo museu de arte popular do Brasil.

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Uma das galerias da Casa do Pontal

A arte popular guarda a história das pessoas, do cotidiano de cada um de nós. O Museu Casa do Pontal permite valorizar essa arte e a expressão do sentimento de grandes mestres como Vitalino, Nhozim, Nhô Caboclo, Joel, Ulisses, Adriano, Adalton, Galdino, GTO, Dadinho e tantos outros artistas, até mesmo desconhecidos, que conseguiram fazer da arte popular a representação da própria vida.

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Vídeo com obras do Mestre Vitalino. Duração: 1:25

Vitalino (1909 – 1963), nasceu Vitalino Pereira dos Santos, na pequena vila de Ribeira dos Santos, próximo a Caruaru, (PE). Vitalino é mestre por seu virtuosismo e pela liderança que exerceu entre os demais ceramistas de sua localidade. Mestre Vitalino foi reconhecido como o maior representante da escola de cerâmica escultórica desenvolvida no Alto do Moura, em Pernambuco. A ele é atribuído o fato de ter elevado o trabalho da cerâmica a um nível jamais alcançado anteriormente por um artista popular.

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Vídeo sobre o setor “O Ciclo da Vida”. Duração: 2:37

A exposição permanente da Casa do Pontal é dividida em 12 setores temáticos que se sucedem no circuito da exposição, distribuídos harmonicamente nos 1500 m2 de galerias. Um destes setores é “O Ciclo da Vida“, muito bem definido por Angela Mascelani, diretora do Museu: “Um ciclo pressupõe que determinados acontecimentos ocorram, de tempos em tempos, seguindo uma dinâmica preestabelecida. Olhando a vida humana como um ciclo, pensa-se no que é comum a todos, sobretudo da vida que transcorre em sociedade: nascimentos, infância, meninice, juventude, maturidade e velhice.

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“O bunker”, de Os Gêmeos

Em março de 2015, foi inaugurado nos jardins da Casa do Pontal, a obra “O bunker“, de Os Gêmeos. Trata-se de uma fortaleza de concreto e aço, guardando em seu interior uma figura típica da dupla de artistas, carregando ex-votos (pequenas esculturas de barro) do acervo da instituição. A instalação é uma metáfora da história do museu que guarda, há 40 anos, a maior coleção de arte popular do Brasil.

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Galeria alagada com as recentes chuvas

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“O bunker” ilhado pelas recentes chuvas

Nas recentes chuvas deste mês de janeiro, o museu foi alagado. Tragédia anunciada, pois a água das chuvas que atingiram o Rio de Janeiro não escoou pelos canais de drenagem de seu terreno. Segundo administradores do museu, o problema na drenagem foi causado pela obra da Vila de Mídia da Olimpíada de 2016, construída 1,5 m acima do terreno do Museu. Era certo o alagamento do Museu com fortes chuvas. Mas, segundo a Prefeitura, outro terreno foi cedido na Barra da Tijuca para  a construção de um novo prédio para abrigar o fantástico acervo de arte popular. Será que as peças irão aguardar pacientes no atual museu até a próxima chuva? Será que o amanhã do Museu Casa do Pontal não será tarde demais?

 Autor: Catherine Beltrão