Arquivo da categoria: Arte a ser relembrada sempre

Criar é uma forma de resistir

Há várias formas de resistir a um status quo, à inércia, a uma situação negativa, que vai contra o Ideal de qualquer um de nós. Uma delas é através da criação. A personagem é uma pintora francesa, autodidata, que pintou, nos anos 40, a Resistência Francesa em solo brasileiro.

Um tributo a Edith Blin, a “pintora da alma“.

PalestraFecap

Cartaz convite para a palestra “Criar é uma forma de resistir”, na FECAP/SP, proferida em 11.05.2018.
Dueto de Arte e História, com a profa. Catherine Beltrão e a profa. Daniela Medeiros.

Edith Blin nasceu na cidade de Pontorson, na Normandia, região ao norte da França, em 22 de julho de 1891. Esta cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, uma das maravilhas do mundo. Edith casou duas vezes e teve três filhos.

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Edith como atriz de teatro, nos anos 20.

Nos anos 20 e início dos anos 30, foi atriz, adotando o nome de Edith Dereine. Como atriz, conheceu o pintor belga Georges Wambach, que iria ser decisivo em sua decisão de pintar. Em 1935, embarcou com a família e o amigo Wambach para o Brasil, no navio Bagé. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda no Brasil, ela teria perguntado ao pintor por que ele continuava pintando paisagens bucólicas enquanto a Europa era devastada pelos nazistas. E Wambach teria respondido: “ Por que não pinta você o que você sente?”.

E ela começou a pintar.

Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre madeira, 41 X 33cm

Autodidata, um ano depois ela fazia sua primeira exposição. Sucesso total. Muitas matérias e artigos em jornais e revistas. O tema principal era a Resistência Francesa, mas ela também pintava nus e retratos. Em 1945 e 1946, mais duas exposições. Mais sucesso. Mais artigos em jornais. Teve até obra estampada em capa de revista.

Juin 1940

“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, óleo sobre tela, 100 X 65cm

Em 1947, sua mãe ficou doente e pediu para voltar para a França.

Pieta

“Piétà de Normandie”, de Edith Blin. 1947, óleo sobre madeira, 102 X 78cm

Elas voltaram e Edith doou duas obras para serem leiloadas em um evento visando obter fundos para a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na Batalha de Saillant -de-l’Odon, na Normandia. Em agradecimento pelas doações, ela recebeu, então, um pergaminho manuscrito da comunidade local, dotado de mapa, selos e insígnias, relatando a batalha e um texto sobre sua obra.

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Pergaminho sobre a Batalha de Saillant-sur-Odon, entregue a Edith Blin, em agradecimento à doação de duas obras visando a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na batalha.

Ao final deste mesmo ano, sua mãe morreu. Edith não queria mais pintar. Em meados de 1948, sua neta Katia nasceu. A mãe de Katia estava doente e não podia cuidar do bebê. Edith então assumiu a criação da neta. Em 1949, voltou para o Brasil. Enquanto cuidava de Katia, voltou a pintar. Os temas eram variados: flores, paisagens, pierrôs, bailarinas, naturezas mortas e rostos. Muitos rostos. Entre eles, retratos. Muitos retratos.

Edith Blin só voltou a expor em 1969. Neste período, ela já tinha aprimorado muito a sua técnica, usando a cartolina preta como suporte, além da habitual tela. Pintava com pincéis e espátulas para espalhar a tinta a óleo na tela ou cartolina, e os próprios dedos, quando fazia uso do pastel. Fez tantos pastéis, que perdeu as digitais de alguns dedos. Como estudos, deixou muitos desenhos a carvão em vários cadernos. Participou de algumas exposições individuais e coletivas, até sofrer o primeiro derrame cerebral, em 1979. Continuou pintando por mais um ano, mas os derrames se sucederam até sua morte, que ocorreu em 29 de julho de 1983. Tinha 92 anos.

Paris

“Paris”, de Edith Blin. 1944, óleo sobre tela, 64 X 53cm

Edith Blin , “la peintre de l’âme” (“a pintora da alma”), deixou um imenso legado. Seu legado não é dimensionado somente pelas obras pintadas, estimadas em cerca de 1300. O legado é muito mais qualitativo do que quantitativo. O que importa é por que pintou, o que pintou e como pintou. Autodidata, começou a pintar porque precisava expressar um sentimento de angústia por sua pátria e seus patrícios que eram dizimados na guerra. Pintou a resistência francesa, pintou os nus etéreos e pintou as flores ao vento. Pintou 148 retratos da neta Katia, de bebê aos 32 anos idade. E inovou na forma de pintar, com o uso da cartolina preta como suporte para suas obras, nos anos 60. Segundo ela mesma dizia, “era mais fácil de rasgar quando não gostava do que havia pintado”.

Autor: Catherine Beltrão

Arte da lama de Mariana

Em 5 de novembro de 2015, ocorreu a maior tragédia ambiental brasileira, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG, liberando 55 milhões de metros cúbicos de lama e minérios que varreram parte do município. 19 pessoas morreram e duas ainda continuam desaparecidas. Mas o pior legado foi o que sobrou da tragédia. Histórias e registros perdidos para sempre, vidas sem passado, comunidades sem futuro. Terras e águas atravessando parte do país, envenenadas até o oceano.

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Rastros da lama me árvores de Mariana. Foto de Alex Takaki.

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Um dos retratos feitos por Tolentino, com a lama de Mariana. Vídeo do projeto “A Arte Nunca Esquece”. Duração: 1:50

Mas A Arte Nunca Esquece. Este é o nome do projeto criado pela Panamericana Escola de Arte e Design, trazendo de volta ao debate público a tragédia de Mariana. O artista plástico Marcelo Tolentino visitou a região coberta pela lama e conheceu as histórias de quem perdeu tudo na maior tragédia ambiental ocorrida no Brasil. A lama que devastou a cidade foi transformada em arte sob a forma de retratos das vítimas de Mariana.

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Outdoor em rua de Brasília, sobre o projeto “A Arte Nunca Esquece”.

Mas o projeto está indo além. Para que a obra chegasse ao público certo, os retratos estão sendo expostos nas ruas de Brasília, numa espécie de exposição a céu aberto, próxima ao Congresso Nacional. Assim, os políticos que estiveram ausentes nas duas sessões da Comissão Parlamentar da Câmara dos Deputados que, em março, discutiriam o caso de Mariana, ambas canceladas por falta de quórum, estão sendo lembrados da tragédia que nunca sairá da memória de suas vítimas. Fonte de informações: clique aqui.

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Instalação de Haroon Gunn-Salie, representando parte dos destroços de uma casa soterrada pela lama de Mariana.

Outro projeto envolvendo a tragédia de Mariana é o intitulado “Agridoce“, com instalações do artista sul africano Haroon Gunn-Salie. Ele foi ver de perto o local do desastre, tendo passado um mês no que sobrou do lugar soterrado em novembro de 2015. Diz Haroon: “Uma questão que todo mundo pensava era o som da lama. Ninguém consegue descrever muito bem, mas pessoas se lembram do barulho líquido, pedaços de bambu se quebrando, o grito dos bichos”. Ele conta que primeiro tentou comprar as ruínas da casa agora na exposição, mas acabou ganhando os destroços de uma moradora que fazia questão que o mundo visse de perto o que aconteceu ali. Informações sobre a exposição: clique aqui.

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Fotografia de Christian Cravo, do livro “Mariana”.

O livro recém-lançado “Mariana“, com fotografias de Christian Cravo, no instituto Tomie Ohtake/SP, também traz lembranças da lama da tragédia ocorrida há pouco mais de seis meses. O fotógrafo trouxe para o livro a cor avermelhada do minério de ferro e o ocre do barro que cobriu toda a cidade mineira. Suas fotos retratam os vestígios de vida no meio da lama: um sapato de mulher, um fogão, pedaços de móveis. “Não é preciso mostrar a desgraça carnal para narrar o drama humano. Você pode mostrar todo o drama sem a confusão, o desespero, a tristeza da carne.” Mais fotos, clique aqui.

Retratos, outdoors, instalações, livros.  Alguns dos primeiros registros artísticos desta monumental tragédia, que jamais poderá ser esquecida.

Autor: Catherine Beltrão

Que será do amanhã do Museu Casa do Pontal, o maior museu popular do Brasil?

Era uma vez um francês, Jacques van de Beuque (1922-2000).  Ele foi preso na Segunda Guerra Mundial e enviado para Kiev, na Ucrânia, onde ficou dois anos. Em 1944 fugiu da prisão, voltou para a Europa e encontrou Cândido Portinari, que o convenceu de vir para o Brasil. Foi o que ele fez, em 1946.

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Jacques van de Beuque

Viajando por todo o país, Jacques ficou fascinado pela arte popular brasileira e reuniu, durante quase cinco décadas, mais de 8.000 obras de cerca de 200 artistas. Em 1976, criou o Museu da Casa do Pontal, simplesmente o maior e mais significativo museu de arte popular do Brasil.

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Uma das galerias da Casa do Pontal

A arte popular guarda a história das pessoas, do cotidiano de cada um de nós. O Museu Casa do Pontal permite valorizar essa arte e a expressão do sentimento de grandes mestres como Vitalino, Nhozim, Nhô Caboclo, Joel, Ulisses, Adriano, Adalton, Galdino, GTO, Dadinho e tantos outros artistas, até mesmo desconhecidos, que conseguiram fazer da arte popular a representação da própria vida.

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Vídeo com obras do Mestre Vitalino. Duração: 1:25

Vitalino (1909 – 1963), nasceu Vitalino Pereira dos Santos, na pequena vila de Ribeira dos Santos, próximo a Caruaru, (PE). Vitalino é mestre por seu virtuosismo e pela liderança que exerceu entre os demais ceramistas de sua localidade. Mestre Vitalino foi reconhecido como o maior representante da escola de cerâmica escultórica desenvolvida no Alto do Moura, em Pernambuco. A ele é atribuído o fato de ter elevado o trabalho da cerâmica a um nível jamais alcançado anteriormente por um artista popular.

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Vídeo sobre o setor “O Ciclo da Vida”. Duração: 2:37

A exposição permanente da Casa do Pontal é dividida em 12 setores temáticos que se sucedem no circuito da exposição, distribuídos harmonicamente nos 1500 m2 de galerias. Um destes setores é “O Ciclo da Vida“, muito bem definido por Angela Mascelani, diretora do Museu: “Um ciclo pressupõe que determinados acontecimentos ocorram, de tempos em tempos, seguindo uma dinâmica preestabelecida. Olhando a vida humana como um ciclo, pensa-se no que é comum a todos, sobretudo da vida que transcorre em sociedade: nascimentos, infância, meninice, juventude, maturidade e velhice.

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“O bunker”, de Os Gêmeos

Em março de 2015, foi inaugurado nos jardins da Casa do Pontal, a obra “O bunker“, de Os Gêmeos. Trata-se de uma fortaleza de concreto e aço, guardando em seu interior uma figura típica da dupla de artistas, carregando ex-votos (pequenas esculturas de barro) do acervo da instituição. A instalação é uma metáfora da história do museu que guarda, há 40 anos, a maior coleção de arte popular do Brasil.

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Galeria alagada com as recentes chuvas

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“O bunker” ilhado pelas recentes chuvas

Nas recentes chuvas deste mês de janeiro, o museu foi alagado. Tragédia anunciada, pois a água das chuvas que atingiram o Rio de Janeiro não escoou pelos canais de drenagem de seu terreno. Segundo administradores do museu, o problema na drenagem foi causado pela obra da Vila de Mídia da Olimpíada de 2016, construída 1,5 m acima do terreno do Museu. Era certo o alagamento do Museu com fortes chuvas. Mas, segundo a Prefeitura, outro terreno foi cedido na Barra da Tijuca para  a construção de um novo prédio para abrigar o fantástico acervo de arte popular. Será que as peças irão aguardar pacientes no atual museu até a próxima chuva? Será que o amanhã do Museu Casa do Pontal não será tarde demais?

 Autor: Catherine Beltrão

Clovis Bornay, a Arte no Carnaval

Há exatos cem anos, nascia o friburguense Clovis Bornay. Tendo sido museólogo e carnavalesco, Bornay trouxe a Arte para o carnaval, através de dezenas de fantasias.

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Clovis Bornay, com a fantasia de “Fauno”

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Bornay, com uma de suas resplandecentes fantasias… alguém lembra o nome dela?

Na sua juventude, durante a década de 1920, descobriu no carnaval sua grande paixão. Começou a carreira em 1937, quando conseguiu convencer o diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro a instituir bailes de carnaval de gala com concurso de fantasias de luxo, inspirado no modelo dos bailes de Veneza. Estreou neste ano com sua fantasia intitulada “Príncipe Hindu” e obteve o primeiro lugar.

Era um grande nome desses desfiles e, com o passar dos anos, chegou a “hors concours” (concorrente de honra), ficando fora da competição em razão da beleza de suas criações, que sempre conquistavam os títulos, impedindo outros participantes de chegarem perto da vitória.

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Clovis Bornay, o maior nome do Carnaval Carioca

No carnaval de rua, Clovis Bornay foi carnavalesco das escolas de samba Salgueiro em 1966, Portela em 1969 e 1970 e da Mocidade em 1972 e 1973. Com a Portela ganhou o campeonato de 1970 com o enredo “Lendas e mistérios da Amazônia”. Foi jurado de figuras importantes na TV, como Chacrinha e Silvio Santos.

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Vídeo com Clovis Bornay contando um de seus inúmeros “causos”, este antológico… Duração: 1:08

Após 77 anos dedicados ao Carnaval, Bornay morreu em 2005, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Em 2011, foi realizada no Centro de Referência da Música Carioca, na Tijuca/RJ, a exposição “Abram Alas para Clovis Bornay“, uma belíssima homenagem póstuma a este que muito mais do que um carnavalesco, foi um artista do Carnaval.

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Vídeo com entrevistas sobre a exposição “Abram Alas para Clovis Bornay”. Duração: 3:54

A cidade de Nova Friburgo continua esperando um museu, um memorial que seja, homenageando Clovis Bornay, um de seus filhos mais ilustres e, certamente, o que mais realizou para tornar o Carnaval a festa mais exuberante do planeta!

Autor: Catherine Beltrão

 

A Arte do “Burning Man”

The Burning Man” – “Homem em chamas” – é uma espécie de festival de contracultura, realizado anualmente desde 1986 em Black Rock Desert, no estado americano de Nevada, e costuma atrair dezenas de milhares de pessoas.

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Vista aérea de parte de Black Rock City (Jim Urquhart/Reuters)

 

Burning_man4Burning_man1Black Rock City tem cinema, templos e mesmo um aeroporto, mas lá não existem lojas. Não há trâmite de dinheiro e cada um precisa trazer o que irá necessitar durante a estada de uma semana. A região parece mais um local “onde Mad Max encontra Woodstock”. O tema deste ano foi “Carnival of Mirrors“-”Carnaval dos Espelhos”, quando as pessoas foram confrontadas com seus vários “eus”: o “eu” que elas querem ser (mas não são), o “eu” que elas repudiam (mas são), o “eu” que não podem imaginar ser”(mas que poderiam ser).

Light is reflected from the Temple of Promise during the Burning Man 2015 "Carnival of Mirrors" arts and music festival in the Black Rock Desert of Nevada

“The Promise Temple” (JimUrquhart/Reuters)

Burning_man2Burning_man3Durante 7 dias, imensas esculturas e instalações em madeira são criadas e montadas em pleno deserto. Contrariamente ao que acontece com obras de arte e com o mercado de arte, nenhuma destas obras irá se eternizar, muito menos se valorizar através do tempo, percorrendo os caminhos tradicionais de galerias e leilões. Na última noite, todas as obras serão queimadas intencionalmente. Todos os presentes ao evento estão lá para ver isso acontecer. Grandes fogueiras crepitando e transformando em fumaça e cinzas o resultado de sentimentos de seus criadores.

Mas por quê? Por que destruir arte? Os artistas dizem que precisam se libertar do que já passou para dar espaço ao futuro. Há  controvérsias. E muitas.

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Uma obra, uma vez criada, não pertence mais ao artista. Ela pertence ao mundo. E ao futuro. Só cabe ao homem virar cinzas. E pó. Não cabe às suas criações virarem cinzas. Nem pó.

Para ver fotos magistrais do “Burning man” de 2015, clique aqui. E mais dois fantásticos vídeos feitos por drones (duração: 5:45 e duração 5:51)

Autor: Catherine Beltrão

 

E pra não dizer que não falei das flores

Resolvi comemorar o primeiro aniversário do blog ArtenaRede falando de flores. Tendo escolhido o tema, é natural que apresentasse neste post obras do mestre Monet, com as flores do seu grandioso Jardim de Giverny, ou com os vigorosos girassóis de van Gogh, ou ainda com as maravilhosas composições florais de Guignard.

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Lírios

Mas não escolhi essa vertente. Resolvi, desta vez, apresentar fotos. E também não serão apresentadas imagens de grandes e renomados fotógrafos. Neste post, as fotos são  minhas, tiradas no Jardim dos Poetas, com exceção de uma, tirada na praça Getúlio Vargas, em Nova Friburgo.  Estas imagens irão tão somente emoldurar a letra antológica da música “Pra não dizer que não falei das flores“, também conhecida como “Caminhando” (ou será o contrário?), de Geraldo Vandré (1935).

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Gérberas

Em 1968, a música participou do III Festival Internacional da Canção da TV Globo, ficando em segundo lugar, sob as vaias ensurdecedoras do público perante o primeiro lugar dado à belíssima “Sabiá“, de Tom Jobim e Chico Buarque.  “Pra não dizer que não falei das flores” teve sua execução proibida durante anos, após tornar-se um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar brasileira.

Em 1968, eu cursava o meu primeiro ano de Engenharia na PUC/RJ. Abençoada mais uma vez, eu estava na plateia de um auditório lotado de jovens que, como eu, tinham ido ver o Vandré e ouvir a canção.

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Flor de cerejeira

Pra nao dizer_CB7Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não
 Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Pelos campos há fome
 Em grandes plantações
 Pelas ruas marchando
 Indecisos cordões
 Ainda fazem da flor
 Seu mais forte refrão
 E acreditam nas flores
 Vencendo o canhão

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Amarilis

 Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

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Flor de cactus

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Buganvile

Nas escolas, nas ruas
 Campos, construções
 Somos todos soldados
 Armados ou não
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Somos todos iguais
 Braços dados ou não

Os amores na mente
 As flores no chão
 A certeza na frente
 A história na mão
 Caminhando e cantando
 E seguindo a canção
 Aprendendo e ensinando
 Uma nova lição

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Vem, vamos embora
 Que esperar não é saber
 Quem sabe faz a hora
 Não espera acontecer

Para quem quiser ouvir a canção, na voz do próprio Geraldo Vandré, clique aqui. Trata-se de um vídeo-montagem, com fotos da época e áudio extraído do III Festival Internacional da Canção, em 1968.

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Ninfeia

Alguns anos se passaram desde 1968. Na verdade, quase meio século! Os anos 60 eram os anos de “paz e amor”. A juventude acreditava na força das flores para combaterem as armas da ditadura. Que era importante caminhar e cantar, junto ou sozinho, para fazer a hora. Que era preciso, sobretudo, jamais esperar.

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Últimas flores do monumental eucalipto tombado na praça Getúlio Vargas, em 28.01.2015. Autor: Marcelo Brantes.

Passado esse tempo, em que podem estar acreditando os jovens de hoje? Será que acreditam em alguma coisa? Com certeza, as flores murcharam. Com certeza, as lágrimas foram rareando até as águas dos rios secarem. E, com certeza, as árvores também continuam tombando, dia após dia.

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Passeata dos Cem Mil, com Tonia Carrero, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker

Este post é uma homenagem à Odete Lara, falecida hoje, 04.02.2015. Acima, a artista junto a Tonia Carrero, Eva Vilma, Norma Benguell e Cacilda Becker, na Passeata dos Cem Mil, um dos mais importantes protestos contra a ditadura militar, em junho de 1968, nas ruas do centro do Rio de Janeiro.

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Autor: Catherine Beltrão

Misabel Pedroza, a imperatriz do folclore brasileiro

Misabel Pedroza (1927-2005) foi, sem dúvida alguma, uma das maiores defensoras, preservadoras e divulgadoras do folclore brasileiro. Talvez a maior.

Desde 1949, Misabel Pedroza estudou o folclore do Brasil, documentando suas manifestações em trabalhos de pintura, gravura em metal, xilogravuras e esculturas. Como pintora naive, foi reconhecida nacional e internacionalmente, tendo sido premiada diversas vezes.

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Bumba-meu-boi. Década de 80.

 

Conheci Misabel nos anos 80, quando  comecei a me interessar pelo mercado de arte. Cheguei a organizar uma exposição de suas pinturas no IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada. As obras a cores apresentadas neste post foram extraídas de algumas das fotos que consegui achar das que participaram da exposição. Mas, como pode se perceber, as imagens destas obras não apresentam identificação – título, ano, dimensão (a técnica é de óleo sobre tela). Fico no aguardo de alguém que possa fornecer estes dados.

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“Portão do cemitério”, xilogravura, 1973, 54 X 32cm

Em 2003, dois anos antes de sua morte, Misabel Pedrosa lançou quatro livros, frutos de mais de 50 anos de pesquisas e vivências com índios e com populações rurais do norte e nordeste do Brasil. Acerca deste lançamento, transcrevo abaixo a matéria publicada no site do 24horasnews, publicada em 2003. Lamentavelmente, foi o único material que encontrei na Internet sobre a artista, além de pouquíssimas imagens de suas obras.

“Artista plástica lança livros com 50 anos de pesquisas e vivências com índios. O amor à arte fez com que a artista plástica, professora e pesquisadora da cultura popular brasileira Misabel Pedroza, passasse a vida economizando dinheiro para poder publicar suas aventuras com os índios do norte e nordeste e as manifestações folclóricas que também documentou naquela região do país. Aos 75 anos, finalmente, Misabel Pedroza está realizando o sonho de lançar, com recursos próprios, os livros “Folclore do Brasil“, “Festas e Costumes dos Índios“, ” Curso de Decoração e Estudos de Estilos” e ” Desenho, Composição e Gravura“. Todo o trabalho é o resultado de 50 anos de pesquisas e vivências que a escritora teve com os índios das tribos tucanos, canelas, guajajaras e timbiras e, também, com populações rurais do norte e nordeste do Brasil. Os outros dois livros são frutos de suas experiências como professora de arte, decoradora e criadora do Museu do Crato, no Ceará.

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 No livro Folclore do Brasil, Misabel Pedroza catalogou 97 manifestações folclóricas, da década de 60; um verdadeiro tesouro para a nova geração de pesquisadores e amantes da Misabel4cultura brasileira. Durante anos ela viajou com o marido Francisco Xavier Alvarenga, pelo Brasil à fora, documentando a cultura do povo: “o que mostro no meu trabalho é o folclore puro e com três tendências: a africana, a portuguesa e a indígena“.  A autora descreve as festas, ritos e folguedos populares com extrema riqueza de detalhes: os trajes, as cores, os personagens, os instrumentos, reproduz as letras das músicas originais (cujas gravações sonoras ainda estão por ser editadas), e os movimentos das danças, que também são desenhados nas ilustrações do livro para melhor compreensão. O livro surpreende pela criatividade e diversidade cultural das festas e danças descritas como o Reisado de Crato, a Festa de São Sebastião, Tambor de Choro, Pajelança, Curandeira, Terreiro das Portas Verdes, Bumbá meu Boi, As Filhas de Belém, Congada de N. S. do Rosário, Tambor de Crioula, Festa de São Bento, Tambor do Avô Akossi, Dança do Sapo, Tambor de Cigano, Os Caboclinhos, Dança dos Punhais e etc…

Misabel6O livro Festas e Costumes dos Índios é quase um manual de como fazer os adereços, enfeites, adornos, utensílios, roupas, casas e rituais indígenas. O livro surgiu do convívio da pesquisadora com diversas tribos, o que também lhe rendeu muitas histórias interessantes e engraçadas, como a do jacaré que Misabel ganhou numa aldeia e depois quase ficou louca para se livrar do presente de grego, sem que para isso tivesse que matar o bicho ou abandoná-lo em local inadequado. A escritora deixa claro que não é fácil documentar e mostrar a cultura brasileira: é preciso andar por lugares desconhecidos e isolados. “Eu andei no meio do mato, sem saber o que encontraria. Fui a lugares, onde as pessoas pediam para que eu devolvesse a voz delas, pois não conheciam o sistema de gravação por fita cassete. Uma vez ganhei uma viagem para Manaus, fui deixada numa balsa no meio do Rio Amazonas e perguntei para o homem da balsa se ele tinha certeza de que havia índios por ali e ele confirmou. Combinamos dele me pegar dentro de 16 dias. Algumas horas depois, chegaram umas canoas com índios que me resgataram. Passados os dias, ouvimos o ronco do avião e os índios me levaram para a balsa, com muitos presentes. Já com outros índios perto do Maranhão, virei prisioneira; eles me tomaram tudo que eu tinha, me deixando apenas com a roupa do corpo. Mas, nem por isso deixei de catalogar suas manifestações, pois eles me deixavam ver suas danças. Depois de alguns dias, me libertaram.”

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No livro Curso de Decoração e Estudo de Estilos, Misabel monta um interessantíssimo painel sobre os variados estilos e móveis de época do Brasil, Europa, Ásia e África, ilustrado com mais de 260 desenhos a bico de pena. A escritora descreve o clássico, o colonial, primeiro e segundo império, o art-noveau, o arabesco, o bizantino, rococó, elizabetano, victoriano e muito mais. Mostra como se deve decorar ambientes diversos como casas de praia, campo e escritório; como fazer e modificar móveis, aplicar décapé, pátinas, etc.

Misabel9Desenho, Composição e Gravura é ilustrado com 600 desenhos explicativos e oferece um vasto e rico material informativo e formativo para estudantes de desenho, pintura, gravura e xilogravura, descrevendo técnicas, ensinando a utilizar materiais, a pensar e a criar obras de artes plásticas, começando pelo passo a passo do desenho da figura humana, objetos, proporções, equilíbrio, ângulos, planos, perspectivas, erros clássicos, composição, movimentos, claros e escuros e até exercícios. No prefácio, diz Câmara Cascudo: “A observação de 33 anos de prática explica este curso de desenho miraculosamente simples e poderoso. Os problemas desaparecem na luz didática. Não o porquê, mas como fazer“.

Misabel7Misabel8Filha da pintora Olga Mary, (a primeira artista a documentar o desmonte do Morro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro) e do pintor surrealista e teatrólogo Raul Pedroza, artistas consagrados do início do século XX no Rio; com apenas 11 anos Misabel fez sua primeira exposição individual, à qual compareceram Austregésilo de Athayde, Celso Kelly, Peregrino Jr, Quirino Campofiorito, entre outros convidados famosos. Em 1948 foi convidada a expor na Metropolitan Gallery, em Nova York, iniciando uma série de 38 exposições internacionais por toda a Europa e até na Índia. No Brasil realizou mais de 45 exposições individuais e coletivas, recebendo uma centena de medalhas e prêmios. Sua obra encontra-se em importantes museus e acervos particulares no Brasil e no exterior, e seu nome e biografia figuram nos melhores dicionários de arte brasileiros. Entre os amigos que Misabel Pedroza conquistou ao longo da vida se destacam Guignard, Malagoli, Darel Valença e o presidente Juscelino Kubitscheck. Como professora, Misabel Pedroza lecionou pintura, desenho, gravura e xilogravura em escolas de arte do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Pernambuco.”

O folclore brasileiro deve muito a Misabel Pedroza. Por mais que se faça para a valorização de sua obra, para o resgate de sua memória, a retribuição será sempre muito pequena. E, pelo que sei, nada foi feito até hoje.

Autor: Catherine Beltrão

As três orquídeas de Edith e de Cecília

Um tanto quanto difícil foi escolher o tema do primeiro post do ano que se inicia. Percorri algumas alternativas e resolvi me decidir por flores, e mais especificamente, as orquídeas de Edith Blin (1891-1983) e de Cecília Meireles (1901-1964).

Já escrevi sobre As flores de Edith neste blog. Naquele texto, eu já tinha apresentado uma das suas orquídeas, a obra “Orquídea, rosas e violão“.

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“Orquídea, rosas e violão”, ost, 73 X 60cm, 1952.

Edith pintou somente três obras com orquídeas, ou melhor, com uma orquídea.  Amarela. E as três obras foram pintadas em 1952.

Infelizmente, não conheço a história destas obras. Mas, com certeza, sua criação deve ter sido motivada por uma linda história. Me atrevo a dizer que foi uma única história, pois a flor é única e a data também.

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“Orquídea amarela com rosas I”, ost , 70 X 70cm, 1952

Também sei que Edith, frequentemente, transformava sua emoção em pinturas. E quando recebia flores que a emocionavam, ela pintava sua emoção. Deve ter sido o caso. E a emoção deve ter sido grande, pois pintou três vezes a mesma flor…

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“Orquídea amarela com rosas II”, ost, 56 X 42cm, 1952

 

As três orquídeas de Cecília Meireles não eram amarelas. Eram brancas. E perfumaram seu último poema, escrito no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, em agosto de 1964…

“As três orquídeas”

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Cecília Meireles

As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.

Que dia? que dia? dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E aspira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.

As flores sempre inspiraram  artistas, pintores e poetas. Ou qualquer um que tenha alma sensível como os artistas, pintores e poetas. E é com esta inspiração em forma de pintura-orquídea e poema-orquídea que brindo o ano de 2015 com você, amiga e amigo leitor!

Autor: Catherine Beltrão

 

 

Jacques Klein, de lenda a mito

Jacques Klein 1Jacques Klein (1930 – 1982), considerado um dos maiores pianistas do século XX, era brasileiro. Cearense de nascimento, foi no Rio de Janeiro que viveu plenamente a sua carreira e a sua vida. Em 1953, o artista começou sua grande carreira ao conquistar o 1º lugar no Concurso Internacional de Genebra que, na época, era considerado o mais importante concurso no mundo. Venceu outros 113 candidatos, vindos de 33 países, com interpretações de Bach, Beethoven e Chopin. Dois detalhes: desde 1948, o concurso não dava o primeiro lugar a ninguém e o primeiro lugar de Jacques foi uma unanimidade entre o júri. Também foi um grande professor de piano, tendo como seu mais importante discípulo o pianista Arnaldo Cohen. Na parte burocrática, foi diretor  da Sala Cecília Meireles e fez parte da direção da Orquestra Sinfônica Brasileira.

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Jacques Klein e a professora Lucia Branco, com três jovens promissores pianistas: Nelson Freire, Arthur Moreira Lima e Luiz Eça. Quem reconhece quem na foto?

 

Jacques Klein 2Klein era um músico admirado por todos, e em todos os continentes. Tinha um toque quase divino e um som dourado, difícil de se encontrar. Seus concertos eram de sonhos, iluminados. Foi protagonista de vários episódios memoráveis. Uma vez, tocando a Sonata de J.Brahms nº3, a luz da Sala Cecília Meireles apagou e Jacques continuou tocando no escuro para delírio de seus ouvintes. Foi ovacionado quando acabou a obra, já com a luz acesa.

Outro episódio. Contam que, certa vez, durante o carteado, um amigo de Jacques Klein se levantou da cadeira provocando um determinado ruído. “Arrastado em fá sustenido”, atirou Klein em tom certeiro. Logo, todos foram ao piano conferir: estava correto. A história, com cara de lenda, não é o resultado de uma habilidade mágica ou bruxaria. O músico tinha o que se chama de ouvido absoluto, a capacidade de reconhecer qualquer som. Assim como tem ouvido absoluto o grande compositor e meu grande amigo, Ronaldo Miranda. Mas isso é assunto para outro post.

Diferentemente de Gleen Gould, que abandonou os palcos com 32 anos, dedicando-se então somente a registros fonográficos, Jacques Klein deixou pouquíssimos registros de seu virtuosismo pianístico. Poucos aúdios e quase nenhum vídeo. Esta entrevista, dada em 1964, é uma verdadeira relíquia. Nela, ele toca um trecho final da “Alma Brasileira“, de Villa-Lobos.

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Jacques Klein, frente ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Nos anos 60, Jacques Klein deu muitos concertos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Eu não perdia um. Junto ao maestro Isaac Karabtchevsky, foram inúmeras as vezes em que o pianista tocou o Concerto Nº 1 de Tchaikowsky ou o Concerto Nº 2 de Rachmaninoff. Após pesquisar na Internet, consegui reunir alguns vídeos, apresentando áudios da interpretação de Klein destes dois concertos. Para os interessados, vale a pena clicar nos links abaixo:  Concerto Nº 2 de Rachmaninoff: parte1, parte 2 e parte 3 e Concerto Nº 1 de Tchaikowsky: parte 1 e parte 2.

Hoje, eu não me surpreenderia que grandes artistas brasileiros como Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Arthur Moreira Lima, Isaac Karabtchevsky e Ronaldo Miranda, só para citar alguns, consideram Jacques Klein como um ícone da arte pianística brasileira, um mito a ser permanentemente lembrado.

  Autor: Catherine Beltrão

Três divas da dança

Por ter sido criada pela minha avó Edith Blin, iniciei muito cedo minha relação com a arte.  Aos 4 anos, bem antes de começar a ler ou escrever, eu já distinguia obras de grandes pintores como Renoir, Van Gogh, Monet, Modigliani, Da Vinci. Aos seis anos, foi a vez da dança, mais precisamente, do balé. Passei sete anos fazendo pliés, écartés, entrechats, écartés, pirouettes… e foi ainda criança que aprendi a endeusar três das maiores bailarinas de todos os tempos: Anna Pavlova, Galina Ulanova e Margot Fonteyn.

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Anna Pavlova

Anna Pavlova (1881-1931) foi uma das pioneiras do balé russo e talvez a primeira estrela mundial do balé. Com sua leveza e maestria conquistou plateias e difundiu o balé por todos os continentes. Uma curiosidade: ela esteve no Brasil em 1919, logo depois de finalizada a Primeira Grande Guerra Mundial.

Anna Pavlova marcou a história da dança, tendo influenciado Sarah Bernhardt e Isadora Duncan, duas de suas admiradoras.

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Anna Pavlova

 

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Galina Ulanova

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“Bailarina em azul”, de Edith Blin. Pastel sobre cartolina preta, 1957, 52 X 38cm

Galina Ulanova (1910 – 1988) nasceu em São Petersburgo e morreu em Moscou. Descendente de uma família de bailarinos, Ulanova é uma das bailarinas de maior força vital que os palcos já conheceram. Sua dança é extremamente expressiva, tendo interpretado diversos papéis devido a sua versatilidade artística. Tendo iniciado suas apresentações em 1928, interpretou vários balés no Teatro Kirov, em Leningrado e em 1944 foi transferida para oTeatro Bolshoi de Moscou. Nos anos 50, quando eu estudava balé, Edith fez este magnífico pastel – “Bailarina em azul“, inspirada em movimentos de Galina Ulanova.

Galina Ulanova e Margot Fonteyn são consideradas as maiores bailarinas do século XX.

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Galina Ulanova

 

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Margot Fonteyn

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Margot Fonteyn

Margot Fonteyn (1919 – 1991), diferentemente de Pavlova e Ulanova, foi uma bailarina inglesa. Em 1935, Fonteyn tornou-se primeira bailarina com apenas dezesseis anos. Mais tarde, começou a dançar com o bailarino soviético exilado Rudolf Nureyev, vinte anos mais jovem do que ela, formando a dupla mais famosa do balé conhecida até hoje. Fonteyn e Nureyev eram idolatrados até Margot se aposentar em 1979.

Antes de morrer, Margot Fonteyn foi homenageada, junto com Nureyev, como a grande dama do balé do século XX.

Tive a ocasião de ver esta dupla dançar no Theatro Municipal/RJ, nos anos 60. Foi uma das maiores emoções de minha vida.

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Margot Fonteyn

Alguém poderia me dizer quem seriam as divas na dança do século XXI?

Autor: Catherine Beltrão