Arquivo da categoria: Arte sacra

Meditação no presépio de areia

Este ano um presépio diferente ornamenta a Praça São Pedro no Vaticano: um presépio feito de areia.

O “Presépio de areia” foi feito por três escultores: a holandesa Susanne Ruseler, que trabalhou nos pastores e animais instalados à esquerda, a russa Ilya Filimontsev, autora da Sagrada Família e do anjo, e o checo Radovan Zivny, que esculpiu os rostos e a roupa dos três reis magos à direita. O presépio tem 16 metros de comprimento, cinco de altura e seis de profundidade, totalizando uma área de 25 metros quadrados.

presepio2

“Presépio de areia”, no Vaticano

Os escultores começaram a criar o presépio na célebre esplanada no fim de novembro, a partir de uma pirâmide formada por 700 toneladas de areia, proveniente da região montanhosa de Dolomitas.

A prefeitura da comuna italiana de Jesolo, perto de Veneza, doou ao papa esse presépio e convidou os escultores para fazer a obra.

E, para compor as imagens do “Presépio de areia”, um belo texto de Cecília Meireles: “A meditação no presépio

presepio3

“Presépio de areia”, no Vaticano. Detalhe

Quando São Francisco de Assis inventou o primeiro presépio, e falou das coisas do céu numa gruta, dizem que, ao ajoelhar-se, desceu-lhe aos braços estendidos um Menino todo de luz. O Santo Poeta colocara ali apenas umas poucas imagens: as da Sagrada Família, a do irmão jumento e a do irmão boi. O áspero cenário de pedra tinha a nudez franca da pobreza, a rispidez dos desertos do mundo, o recorte bravio dos lugares de sofrimento. Aí, o Menino de luz pode descer, porque ele vinha para ensinar caminhos difíceis, e restituir às coisas naturais da terra o sentido da sua presença na ordem universal.

O amor humano é um perigoso jogo. Por amor, os homens foram construindo presépios ao longo do mundo, e já não lhes bastava a pedra desguarnecida: queriam recobri-la do ornamento da sua devoção. Trouxeram folhagens e flores, dispuseram frutos e pássaros, desceram o céu, num pálio de seda azul, colheram as estrelas, dos ramos que se alongam na noite. Caçaram a lua, no meio da sua viagem, e pescaram o sol, redondo peixe de nadadeiras flamejantes.

presepio4

“Presépio de areia”, no Vaticano. Detalhe do menino Jesus.

Mas era preciso não esquecer os Profetas, anunciadores do acontecimento, e das ruas da Bíblia os fizeram descer com suas barbas, seus cajados, suas visões e ainda cheios de voz.

Os Reis vieram por si, de olhos postos na Estrela; e como os Reis traziam os camelos; e os pastores, carneiros, também os Profetas arrastaram leões, e cabras sem defeito — e depois, em muita confusão, toda besta que remói, umas de unha fendida, outras não; e até os animais que caminham sobre o peito e os que têm muitos pés e ainda assim se arrastam pelo chão.

E, puxados uns pelos outros, vieram o cavalo e a mula, o cão e o elefante, o macaco, a hiena, o chacal e o leopardo, e o imundo crocodilo, com a cordilheira dos seus dentes, e a lagosta abominável, sem escama nem barbatana.

Foi talvez a lagosta que açulou os apetites, e os nobres italianos, com aquela pompa que o Renascimento lhes incutiu, trouxeram para os presépios a escamosa alcachofra e o labiado repolho, e cachos de uvas e salsichas, e o queijo e a rosca e o vinho — tudo que o amor ama e, por amor, quer repartir.

presepio5

“Presépio de areia”, no Vaticano. Detalhe.

E tão bem se sentiriam que, sem desejo de regresso, iriam buscar suas casas e suas montanhas, seus rios e seus moinhos, seus arados e seus fornos, suas embarcações e suas tendas, e ali se poriam a trabalhar, ao som de doces cânticos ali mesmo inventados, e ali bailariam, com gaitas e sanfonas, adufes e harpas, ocarinas e violas e tudo quanto, com metal, corda ou sopro, é capaz de produzir um som de feitura harmoniosa, comparável ao gorjeio das aves, ao suspiro das águas, ao adejar do vento e à voz humana quando quer ser mais que linguagem.

E o sol e a lua e as estrelas ainda pareceram apagados, para tão ambiciosa festa, e as mulheres e as moças puseram-se a dançar com círios acesos nas mãos, e tudo foi recamado de ouro em pó, e cada qual começou a escolher trajos mais cintilantes, de cetins mais lustrosos, com lavores mais ricos, e do mar e da terra se desentranharam todas as coisas que brilham e deslumbram, e não houve príncipe nem sacerdote nem mercador nem escravo que não gastasse os olhos e as pontas dos dedos, cosendo em seus estofos as gemas que os tornassem mais resplandecentes.

presepio6

“Presépio de areia”, no Vaticano. Em construção.

E nesse esplendor de fitas e rendas, de colares e anéis, com os animais de chifres dourados, de testa empenachada, de manto lavrado e guarnições de fina cinzelura, até se recordou que o Menino não podia estar ali despido como simples deus humanado — e teceram-lhe camisinhas e envolveram-no em brancas sedas, e para a tímida Virgem e o submisso carpinteiro trouxeram finas roupagens esmaltadas de cintos e fivelas, com barras de arabescos e densas pregas faustosas.

E as belas canções subiam como, nas hastes gladioladas, abrem os lírios verticalmente, de salto em salto.

E houve assim uma existência de amor, e alguém pensaria estar o mundo apaziguado, e a família terrena compreendida e satisfeita, trabalhando e cantando, bailando e dormindo tendo em redor de si a parede rústica do Presépio.

Mas, na verdade, a parede do Presépio deixara de existir. O que havia eram muitas paredes, de palácios e de mosteiros, de chácaras e de cozinhas de quartéis e de fábricas, de lojas e de manicômios.

Porque essa humanidade se arruinou e adoeceu; esqueceu-se que a oferenda não lhe pertencia, e estendeu a mão para a alcachofra e para a lagosta, para o cavalo do guerreiro e a coroa do suserano, e o que tocava cítara quis brandir espada, e o que varria o estábulo apoderou-se da cítara.

De modo que se chegou a ver o legionário romano, de agulha e dedal, bordando flores sobre cetim, e as dríades empunhando lanças, e os javalis sentados em cadeiras de ouro, abanados por leques de plumas.

Ninguém mais podia amar a sua oferta, mas a do seu vizinho; e já não amava com amor de dar, mas com amor de possuir. E não houve mais quem se despojasse, mas só quem apreendesse.

Notou-se que o sol e a lua e as estrelas não tinham mais sua substância própria: eram de ouro e de gemas, eram pintados e incrustados; não se moviam nem aqueciam mais.

Notou-se que os cantores tinham ficado melancólicos e a dança não se levantava em asas tênues: arrastava caudas fúnebres, patas desconfiadas, pontas de espadas surdas.

E aquilo que foi um Presépio era um mundo de contradições, sem equilíbrio nem sentido. Os Profetas eram
alucinados — e as Sibilas, dementes; os Reis, uns conquistadores mesquinhos; os guerreiros, uns assassinos convictos.

Nuvens de seda e pó de danças toldaram a íntima, pequena cena de um nascimento sobrenatural. Tudo tinha ficado mais importante que o Menino chegado para ensinar o amor. Tudo tinha formado sucessivos planos, anteriores uns aos outros, sobrepostos uns aos outros, escondendo-se uns aos outros, num amontoado de riqueza, ambição, prepotência, vaidade, cobiça, rapina, mentira, traição e ódio.

E tudo isso foi desabando por si mesmo, porque estava armado sem fundamento; e viram-se os Profetas fugitivos, arrastando os animais santificados e os imundos; e as Sibilas recolhiam seus oráculos perdidos, e as Medéias e as Circes enrolaram seus velhos feitiços; e os que tinham vindo por engano choraram pelas palavras que tinham entendido; e os que tinham vindo por verdadeiro amor deixaram pender a cabeça, e foram empurrados na onda devastadora, porque o amor é distraído e desatento de si, sem agressão nem defesa, e fica sempre esmagado, no torvelinho dos atropelos.

Mas quando tudo ruir completamente, — porque sempre chegam novos forasteiros ao Presépio, e cada um se diz o único verídico, o mais sincero e o mais poderoso, o mais rico e o mais fiel — quando tudo ruir completamente, o Menino continuará na sua gruta, com a sua família humilde, o irmão boi e o irmão jumento, para recomeçarem a vida, na simplicidade humana das coisas naturais e universais.

E se outro São Francisco se ajoelhar na gruta rústica, o Menino virá todo em luz aos seus braços, porque só o Santo Poeta entendia dessa irmandade geral do céu e da terra, e da graça de todos os despojamentos, e da alegria de não precisar ter, pela contemplação de todos os enganos, e da leveza da vida em expressão absoluta.

 Autor: Catherine Beltrão

Arquitetura e oração

Mas por que juntar arquitetura com oração? Porque na semana em que se comemora o Dia do Arquiteto, em 15 de dezembro, resolvi homenagear três dos maiores arquitetos que já existiram - Gaudí, Le Corbusier e Niemeyer – com uma oração que poderia ser feita em  uma capela, uma igreja, ou, quem sabe, em uma catedral…

arquiteto_gaudi1

Templo Expiatório da Sagrada Família, projeto de Antoni Gaudí.
Vídeo, com duração de 3:03.

As obras de Antoni Gaudí (1852-1926) revelam um estilo único e individual e estão em sua maioria na cidade de Barcelona. Grande parte da obra de Gaudí é marcada pelas suas grandes paixões: arquitetura, natureza e religião. Gaudi dedicava atenção aos mais ínfimos detalhes de cada uma das suas obras, incorporando nelas uma série de ofícios que dominava: cerâmica, vitral, ferro forjado e marcenaria.

arquiteto_gaudi2

Fachada da Natividade, do templo da Sagrada Família.

A sua obra-prima, a inacabada Sagrada Família, é um dos monumentos mais visitados de Espanha. O projeto foi iniciado em 1882 e assumido por Gaudí em 1883, quando tinha 31 anos de idade, dedicando-lhe os seus últimos 40 anos de vida, os últimos quinze de forma exclusiva. A construção começou em estilo neogótico, mas o projeto foi reformulado completamente por Gaudí ao assumi-lo. O templo foi projetado para ter três grandes fachadas: a Fachada da Natividade, quase terminada com Gaudí ainda em vida, a Fachada da Paixão, iniciada em 1952, e a Fachada da Glória.

Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), conhecido como Le Corbusier, foi arquiteto, urbanista, escultor e pintor. De origem suíça e naturalizado francês em 1930, Le Corbusier defendia que, “por lei, todos os edifícios deviam ser brancos“, criticando qualquer esforço artificial de ornamentação. As estruturas por ele idealizadas, de uma simplicidade e austeridade espartanas, nas cidades, foram largamente criticadas por serem monótonas e desagradáveis. A cidade de Brasília foi concebida segundo as suas teorias. A sua influência estendeu-se principalmente ao urbanismo. Nada menos do que 17 obras de Le Corbusier foram declaradas Patrimônio Mundial pela Unesco em sua 40° reunião, que aconteceu em julho de 2016 em Istambul, na Turquia.

arquiteto_corbusier1

Capela Notre-Dame-du-Haut ou Capela de Ronchamp, de Le Corbusier. Vídeo, com duração de 2:45

arquiteto_corbusier2

Interior da capela de Notre-Dame-du-Haut.

Encarapitada no alto de uma colina na pequena cidade de Ronchamp, no oeste da França, perto da fronteira com a Suíça, a capela Notre-Dame-du-Haut, iniciada em 1950 e concluída em 1955, é uma das obras mais emblemáticas de Le Corbusier. Apesar de bastante conhecida, é pouco visitada por conta de sua localização, literalmente no meio do nada. É preciso ter vontade suficiente para justificar a viagem. Apesar de pequena e das linhas simples, a capela se destaca por sua posição isolada no alto da colina, tendo o céu como pano de fundo. Contrastando com sua cor branca, o famoso telhado cinza curvado parece levitar sobre a capela. Nos dias de chuva, a água que cai escorre por sua inclinação formando uma pequena cascata natural que alimenta uma fonte de formas abstratas na fachada do lado oeste.

© Bruno Pinheiro

Catedral Metropolitana de Brasília, projeto de Oscar Niemeyer.
Vídeo com duração de 2:05

Oscar Niemeyer (1907-2012) foi um dos maiores – talvez o maior – arquitetos brasileiros, considerado uma das figuras-chave no desenvolvimento da arquitetura moderna. Elogiado e criticado por ser um “escultor de monumentos”, Niemeyer foi um grande artista e um dos maiores arquitetos de sua geração. Criador de centenas de projetos, que vão desde o famoso Edifício Copan, em São Paulo, até o Palácio Alvorada, em Brasília, Niemeyer também projetou vários templos religiosos, entre eles, a Catedral Metropolitana de Brasília.

arquiteto_niemeyer2

Interior da Catedral Metropolitana de Brasília.

A Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida é mais conhecida como Catedral Metropolitana de Brasília. Foi o primeiro monumento a ser criado em Brasília. Sua pedra fundamental foi lançada em 12 de setembro de 1958, mas foi inaugurada em 31 de maio de 1970, já com os vidros externos transparentes.  A cobertura da nave tem um vitral composto por dezesseis peças em fibra de vidro em tons de azul, verde, branco e marrom inseridas entre os pilares de concreto. No interior da nave, estão as esculturas de três anjos, suspensos por cabos de aço. As esculturas são de Alfredo Ceschiatti, com a colaboração de Dante Croce em 1970.

Mas e a oração? A oração fica por conta de cada um.

Autor: Catherine Beltrão

São Silvestre

31 de dezembro, dia da Corrida de São Silvestre. Criada em 1925, é a corrida de rua mais famosa e tradicional do Brasil e da América do Sul.  Mas quem foi São Silvestre?

SaoSilvestre_NotreDame

Imagem de São Silvestre na catedral de Notre Dame, Paris

Poucas pessoas sabem quem foi este santo, cuja festa acontece no último dia do ano. Natural de Roma, São Silvestre foi papa e governou a Igreja de 314 a 355 d.C, ano em que morreu, exatamente no dia 31 de dezembro. A Igreja Católica escolheu esta data para canoniza-lo.

Em seu pontificado, São Silvestre estabeleceu novas bases doutrinais e disciplinares colocando a Igreja em um novo contexto social e político. Ocorreu o entrosamento entre o clero e o Estado. Com o Édito de Milão, o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano, na época governado por Constantino Magno. Com essa aliança, os cristãos puderam professar abertamente sua crença e a Igreja saiu de um período de perseguição que já se arrastava por 300 anos.

Com a ajuda do imperador Constantino, São Silvestre também construiu as basílicas de São Pedro sobre o túmulo do apóstolo, que se tornou a residência dos papas, e a de São Paulo.

SaoSilvestre4

Catacumbas de Priscila, na Basílica de São Silvestre. Link do Google Maps.

Os restos mortais do papa São Silvestre I encontram-se na Basílica São Silvestre, em Roma. A basílica compõe-se de dois ambientes, um dedicado na sua totalidade ao culto e o outro utilizado no passado como depósito dos materiais antigos escultóricos encontrados durante as escavações arqueológicas realizadas de 2008 a 2013. Entre estes materiais encontram-se mais de 700 fragmentos de sarcófagos – que foram cuidadosamente restaurados -, que procedem da necrópole que na época imperial tardia se estendia na zona da via Salaria Nueva, um notável testemunho da escultura funerária da antiguidade.

SaoSilvestre2

Basílica de São Silvestre

Cabe destacar a restauração do cubículo de Lázaro, no cemitério subterrâneo que se encontra próximo da basílica papal, sendo esta a última de uma grande série de intervenções de conservação realizadas no cemitério de Priscila.

As Catacumbas de Priscila, na Via Salária, em Roma, estão situadas num local que foi uma pedreira na antiguidade. Ela foi utilizada para a realização de sepultamentos cristãos a partir do final do século II até o século IV.

Uma curiosidade: entre as dezenas de milhares de participantes da corrida de São Silvestre, quantos sabem de onde vem o seu nome? E quantos sabem da relação da famosa corrida paulista com as Catacumbas de Priscila?

Autor: Catherine Beltrão