Arquivo da categoria: Arquitetura

Velásquez e o Museu do Prado

O foco de hoje é a Espanha.

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“Autorretrato”, de Diego Velázquez. 1640.

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (1599-1660) foi um pintor espanhol e principal artista da corte do rei Filipe IV de Espanha. Era um artista individualista do período barroco contemporâneo, importante como um retratista. A este respeito, alguns críticos o consideram o maior retratista que o mundo já conheceu.

A obra de Velázquez também foi um modelo para os pintores realistas e impressionistas, em especial Édouard Manet que chegou a afirmar que Velásquez era o “pintor dos pintores“. Ele também influenciou artistas mais modernos, incluindo os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí, bem como o pintor anglo-irlandês Francis Bacon, que o homenageou recriando várias de suas obras mais famosas.

A grande maioria dos seus quadros estão no Museu do Prado, como:

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“O Triunfo de Baco”, de Diego Velázquez. 1629 – 165 X 225cm.

“O Triunfo de Baco”,  obra pintada para Filipe IV de Espanha. Baco é representado como o deus que recompensou ou presenteou o ser humano com o vinho. Na literatura barroca, Baco é considerado uma alegoria sobre libertação humana da escravidão da vida diária.

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“A Rendição de Breda”, de Diego Velázquez. 1634 – 307 X 367cm

A Rendição de Breda“, sua única obra com tema histórico. Também conhecida como “As lanças“, a obra é considerada por grande parte dos críticos como a mais perfeitamente equilibrada do artista.

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“As Meninas”, de Diego Velázquez. 1656 – 318 X 276cm

As Meninas“, a obra-prima de Diego Velázques, que foi reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental.

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“As Fiandeiras”, de Diego Velázquez. 1657 – 222 X 293cm

E “As Fiandeiras“, primeiro quadro na história da arte dedicado ao trabalho. Esta obra constitui um dos quadros em que é mais fácil identificar a personalidade estética do Museu do Prado.

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Fachada frontal do Museu do Prado, com a estátua de Diego Velázquez.

O Museu do Prado é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo.

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Interior do Museu do Prado.

Foi concebido por Juan de Villanueva, o arquiteto do rei Carlos III, sendo esta a maior e mais ambiciosa obra do neoclassicismo espanhol.

Após várias interrupções em sua construção, o museu foi inaugurado a 19 de novembro de 1819. Contendo coleções de pintura e escultura provenientes das coleções reais e da nobreza, o museu detinha, aquando da sua inauguração, cerca de 311 obras de arte, todas elas de autores espanhóis.

Atualmente, a coleção de pintura é bastante completa e complexa, existindo neste museu coleções de pintura espanhola, francesa, flamenga, alemã e italiana. Além de Velázquez, encontram-se neste museu milhares de obras de dezenas de pintores como El Greco, Goya, Georges de La Tour, Watteau, Bruegel, Bosh, Rubens, Rembrandt, Durer, Fra Angelico, Botticelli e Caravaggio, entre muitos outros…

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Interior do Museu do Prado. Sala onde se encontra “as Meninas”, de Diego Velázquez.

 Autor: Catherine Beltrão

Museu Nacional e Notre-Dame de Paris: partes de uma alma triste

Na Semana dos Museus, resolvi ficar triste.

Não foi uma decisão difícil. Foi só lembrar de duas tragédias. Imensas. Ocorridas em algumas horas de dois dias específicos. Pois as outras, não tão devastadoras, acontecem todos os dias. Todas as horas.

Localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, o  Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do país e uma das mais importantes do mundo. Fundado pelo rei Dom João VI em 1818, seu primeiro acervo surgiu a partir de doações da Família Imperial e de colecionares particulares.

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Museu Nacional, antes do incêndio de 02.09.2018

Mais de 20 milhões de itens catalogados, contando com uma das mais completas coleções de fósseis de dinossauros do mundo, múmias andinas e egípcias e artefatos importantes da arqueologia brasileira.

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Museu Nacional, durante o incêndio de 02.09.2018

A réplica do Maxakalisaurs topai, o maior dinossauro já montado no país, um animal herbívoro com cerca de 13 metros de comprimento e 9 toneladas;

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos, a “brasileira” mais antiga do nosso território. Luzia, nome dado ao fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos. Sua descoberta é um marco da ciência e ajuda a remontar a história da humanidade. Luzia também representava a “brasileira” mais antiga do nosso território;

a maior coleção egípcia da América Latina;

700 ítens de uma coleção de etnologia africana e afro-brasileira, uma das maiores do mundo;

o Herbário, com um acervo botânico de 550 mil espécimes de todos os biomas brasileiros.

2 de setembro de 2018. 19h30. Domingo. Em poucas horas, 90% deste acervo foi transformado em cinzas.

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Museu Nacional, depois do incêndio de 02.09.2018

Marco da civilização ocidental, a Catedral de Notre Dame de Paris tem 850 anos de história: palco da coroação de Napoleão Bonaparte e da beatificação de Joana d’Arc, foi saqueada durante a Revolução Francesa e  na Segunda Guerra Mundial, seus sinos anunciaram a libertação de Paris do jugo nazista, em abril de 1944.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, antes do incêndio de 15.04.2019

De arquitetura gótica, a catedral começou a ser construída em 1163 e finalizada em 1345. É uma das mais antigas catedrais góticas do mundo, visitada por cerca de 13 milhões de pessoas por ano.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, durante o incêndio de 15.04.2019

São muitos os atrativos da catedral: o telhado, conhecido como la fôret (a floresta), formado por  toneladas de troncos de carvalho usados para construí-lo (1.300 carvalhos ao todo), onde cada viga pertence a uma árvore diferente;

a escada de uma das torres, com seus 420 degraus, que leva à Galeria das Gárgulas (ou Quimeras), à “flecha” e aos campanários, com os nove sinos da Catedral;

os vitrais, com três belíssimas rosáceas;

os tesouros, com obras de arte e relíquias religiosas como um pedaço da cruz da crucificação de Jesus.

15 de abril de 2019. 18h50. Segunda-feira. Em poucas horas, o telhado e a “flecha” foram consumidos pelo fogo.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, depois do incêndio de 15.04.2019

É de Victor Hugo, o célebre escritor francês, autor de “O Corcunda de Notre-Dame“, a frase: “Na face dessa velha rainha das nossas catedrais, ao lado de uma ruga, encontra-se sempre uma cicatriz”.

Entre dezenas, centenas de tragédias, talvez essas tenham sido as que mais atingiram minha alma. E a alma de parte da humanidade.

Autor: Catherine Beltrão

Escadas

No início deste ano resolvi focar escadas. Vou precisar delas. Para subir. Para descer também. Pois as escadas são as grandes companheiras de nossa trajetória de vida. Sempre.

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Esta escada em espiral dos Museus Vaticanos foi construída em 1932 por Giuseppe Momo. Acima da estrutura, uma roseta octogonal de vidro permite a entrada da luz natural. Sua dupla hélice com duas rampas faz com que pareça mais longa. Os Museus Vaticanos também abriram outra escadaria famosa, mas fechada ao público, que costuma ser confundida com esta. Trata-se da criação de Donato Bramante, que viveu entre os séculos XV e XVI, e na qual Momo se inspirou.

Escadas“, de Mario Quintana

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam…
Quando as desce, a gente
Se desparafusa…
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica…
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado…
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E ‘sabes’ que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa…
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos…
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola…
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora…
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo…
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos…

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Livraria Lello: A beleza destas escadas conquistou fama mundial quando virou cenário da saga Harry Potter (a autora, J. K. Rowling, morou no Porto, dando aulas de inglês, antes de se tornar uma estrela da literatura juvenil). Classificada como monumento de interesse público, a escadaria fica no interior da livraria Lello. Há dois anos, o local passou a cobrar 3 euros (12 reais) de entrada, já que seus donos não conseguiam mais dar conta da grande quantidade de turistas.

Das Pedras“, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

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Escritório Zecc: O escritório de arquitetos Zecc , na Holanda, transformou uma antiga torre de água em mirante. Uma escada se eleva a 45 metros de altura para oferecer uma vista panorâmica através de quatro janelas. Os degraus mudam de linha e robustez à medida que a pessoa sobe, combinando rampas diferentes: a primeira é uma escada de aço já existente que circula seguindo a parede; a segunda, de criação recente em madeira comprimida, faz um ziguezague pela barriga da torre. Na cúpula se encontra o último trecho, que leva até o observatório.

O Tempo e o Vento“, de Mario Quintana

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos…

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Hotel em Hiroshima: Duas escadas em caracol entrelaçadas formam esta capela nupcial de um complexo hoteleiro de Hiroshima. Os dois braços da escadaria simbolizam a união matrimonial, o abraço entre os amantes. “As duas partes que antes percorriam caminhos separados se unem na parte superior”, explica o arquiteto Hiroshi Nakamura em seu site. No alto, a 15 metros de altura, descortina-se uma vista panorâmica para o mar interior do Japão, ou mar de Seto.

Vaticano. Portugal. Holanda. Japão.  Um dia, gostaria de fazer uma viagem com roteiro  focando escadas.

 Autor: Catherine Beltrão

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte II)

Após as monumentais bibliotecas (clique aqui) do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, do Clementinum,  em Praga e do Mosteiro Beneditino, na Áustria, é a vez de apresentar três magníficas livrarias.

Começo pela famosa Livraria Lello, localizada na cidade do Porto, em Portugal. Esta livraria ostenta uma estilo arquitetônico único, combinando neogótico com “art nouveau” e “art déco”.

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Livraria Lello, no Porto/Portugal. Escadaria principal.

A história da livraria Lello é também a história dos irmãos Lello. José e António Lello nasceram na Casa de Ramadas, freguesia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, filhos de um proprietário rural. José Lello é o primeiro a vir para o Porto. Homem de cultura, amante da leitura, dos livros e da música, sonha tornar-se livreiro, o que vem a acontecer com a abertura da primeira livraria e editora em 1881 com o seu cunhado. Após o falecimento deste, José Lello constitui a sociedade José Pinto de Sousa Lello & Irmão, com o irmão Antônio Lello, 9 anos mais novo.

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Livraria Lello.

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Livraria Lello. Fachada externa.

Os irmãos Lello estabelecem-se na Rua do Almada, desconhecendo ainda que o edifício que levaria o seu nome até ao próximo milênio se encontrava a poucos quarteirões. A atividade editorial da Lello e Irmãos era marcada por uma paixão pelos livros e pela cultura. Este amor à arte deu origem à criação de edições especiais, editadas em número reduzido, com a colaboração de artistas plásticos, como ilustradores e pintores, e com enorme cuidado gráfico.

É em 1894 que José Pinto de Sousa Lello compra a Livraria Chardron aos então donos, juntamente com todo o seu espólio. Embora estivesse já  em outras mãos, esta livraria tinha feito o seu nome pela mão do francês Ernesto Chardron. Este influente editor era um motor do setor, tendo publicado as primeiras edições de obras eternamente sonantes como as de Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco, por exemplo. Esta ambiciosa ampliação da Lello e Irmãos precisava de ser acompanhada de um quartel condizente com a renovada importância no setor. O edifício da Rua das Carmelitas é então moldado pela visão suntuosa do engenheiro Francisco Xavier Esteves. E é em 1906 a inauguração do espaço como hoje é conhecido.

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Livraria El Ateneo, em Buenos Aires/Argentina.

Em 2008, a livraria Ateneo Grand Splendid, uma das mais conhecidas de Buenos Aires, foi classificada pelo jornal britânico “The Guardian” como a segunda mais bonita do mundo.

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Livraria El Ateneo.

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Livraria El Ateneo

O edifício foi projetado pelos arquitetos Peró e Torres Armengol e aberto como um teatro em 1919. Palco de diversos espetáculos de tango feitos por artistas como Carlos Gardel e Roberto Firpo no passado, ela possui estilo eclético, com afrescos pintados pelo artista italiano Nazareno Orlandi, no teto, e cariátides esculpidas por Troiano Troiani. O teatro acabou sendo fechado e, em 2000 foi comprado pela cadeia de livrarias Yenni. Atualmente, a Ateneo Grand Splendid conta com 120 mil exemplares de livros, um bar e um café, localizados no palco do antigo teatro.

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Livraria Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen, em  Maastricht/Holanda

A livraria que foi considerada campeã na lista do “The Guardian” é a holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, localizada na cidade de Maastricht. O nome pomposo faz jus ao ambiente: a livraria foi montada em 2007 dentro de uma exuberante igreja dominicana do século XII que há anos encontrava-se abandonada, servindo de depósito de bicicletas. O contraste da estrutura gótica da igreja com a decoração interior moderna dá um charme extra à ideia que, por si só, já atrai curiosos.

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

A igreja Dominicana original foi construída em 1294, cerca de 80 anos após São Domingos ter formado a Ordem dos Pregadores. O fechamento é geralmente creditado a Napoleão Bonaparte. Seu exército fechou o edifício durante a invasão de 1794, apesar do respeito de Napoleão e seu carisma com a religião católica, forma de manter a ordem social.

A igreja não caiu em ruínas, mas passou os próximos dois séculos abandonada e negligenciada. A imponente igreja dominicana do século XII foi restaurada, resultando num contraste incrível entre a estrutura gótica externa e a decoração interior moderna, um charme para poucos. Hoje, a estrutura tem uma estante de três andares completa, com passarelas, escadas e elevadores.

Quando os livros se mesclam à beleza e à imponência de um lugar, não há limite para a nossa imaginação e nem mesmo para a nossa felicidade.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte I)

Estamos em plena Bienal Internacional do Livro. É a 18ª e acontece no Rio de Janeiro. É inevitável a lembrança das mais belas bibliotecas e livrarias que existem pelo mundo afora. O tema merece dois posts: um para as bibliotecas, outro para as livrarias. Três bibliotecas e três livrarias.

Começo pelas bibliotecas. E começo pela brasileira. O Real Gabinete Português de Leitura fica situado no Rio de Janeiro e é a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822.

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Real Gabinente Português de Leitura, Rio de Janeiro/Brasil

Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro reuniu-se na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), nº 20, e resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. É possível que os fundadores do “Gabinete” tenham sido inspirados pelo exemplo vindo da França, onde, logo seguir à revolução de 1789, começaram a aparecer as chamadas “boutiques à lire”, que nada mais eram do que lojas onde se emprestavam livros, por prazo certo, mediante o pagamento de uma determinada quantia.

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Real Gabinete Portuguêsde Leitura

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Real Gabinete Português de Leitura. Fachada externa.

Nas comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880), a sede do Gabinete irá ocupar um terreno na antiga rua da Lampadosa.  A sua nova sede, construída em estilo neomanuelino e que foi inaugurada pela Princesa Isabel em 1887, guarda cerca de 350.000 volumes (milhares de obras raras).  Esse acervo maravilhoso está disponível a qualquer um do povo, pois o Real Gabinete é uma biblioteca pública, a partir de 1900.Em 1906, o rei D. Carlos atribui o título de “Real” ao Gabinete e tem lugar, no Salão dos Brasões, uma grande exposição de pinturas de José Malhôa, a cuja inauguração comparece o Presidente Rodrigues Alves.

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Biblioteca Clementinum, Praga/República Tcheca

Construída em 1722, o edifício da Biblioteca Clementinum é uma obra da arquitetura barroca de Praga, capital da República Tcheca. A Biblioteca abriga mais de 20.000 volumes sobre literatura, medicina e teologia. Por muito tempo foi considerada o maior colégio jesuíta do mundo. Seu teto é repleto de afrescos do pintor Jan Hiebl.

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Biblioteca Clementinum. Fachada externa.

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Biblioteca Clementinum.

Sua história remonta à existência de uma capela dedicada a São Clemente, no século 11. Um mosteiro dominicano foi fundado no período medieval, sendo depois transformado, em 1556, em um colégio jesuíta. Em 1622, os jesuítas transferiram a biblioteca da Charles University para o Klementinum, e o colégio foi absorvido pela Universidade em 1654. Os jesuítas permaneceram até 1773, quando o Klementinum foi estabelecido como um observatório, biblioteca e universidade  pela imperatriz Maria Theresa da Áustria.Além dos afrescos que decoram o teto, a biblioteca abriga retratos de santos jesuítas, antigos patronos da biblioteca e outras pessoas proeminentes e  também uma preciosa coleção de globos geográficos e relógios astronômicos, na sua maioria, feitos por padres jesuítas.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino, em Admont/Áustria.

A Biblioteca do Mosteiro Beneditino fica situada em Admont, na Áustria.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Fachada externa.

Foi fundada em 1776 e está integrada num Mosteiro Beneditino.O salão biblioteca, construída em 1776 e  projetada pelo arquiteto Joseph Hueber, em estilo rococó, é de 70 metros de comprimento, 14 metros de largura e 13 metros de altura. É a maior biblioteca monástica do mundo. Possui mais de 180.000 obras, incluindo 1,4 mil manuscritos (o mais antigo do século 8) e os 530 incunábulos (livros impressos antes de 1500), além de volumes antigos e edições originais de obras raras. O teto é composto por sete cúpulas e  tem afrescos do artista austríaco Bartolomeo Altomonte (1657-1745), pintados entre 1775 e 1776, que celebram a ciência e a fé. A luz penetra  por 48 janelas e é refletida pelo esquema de cores originais de ouro e branco.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Sala de leitura.

Quando se eleva a leitura ao nível de uma prece, o homem chega perto de Deus.

Para ler a segunda parte deste texto, apresentando as livrarias Lello, na cidade do Porto, El Ateneo, em Buenos Aires e Boekhandel Selexyz Dominicanen, na Holanda, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Cassinos da serra: o que foi e o que poderia ter sido…

Datados do século XX, encontramos em cidades da região serrana do Rio de Janeiro dois belíssimos exemplos de construções que tinham como objetivo serem cassinos: o Cassino Quitandinha, em Petrópolis e o Cassino Cascata, em Nova Friburgo.

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Palácio Quitandinha, em Petrópolis

O Palácio Quitandinha foi construído a partir de 1941 pelo empreendedor mineiro Joaquim Rolla, para ser o maior cassino hotel da América do Sul.

Construído em 1944 por Joaquim Rolla e Antonnio Faustino para ser o maior hotel cassino da América Latina, seu estilo arquitetônico utiliza o rococó hollywoodiano, em sua parte interna  e o normando-francês, em sua parte externa.

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Restaurante Central, no Palácio Quitandinha. Anos 40.

Com 50 000 metros quadrados, sete andares com pé direito alto, mais a garagem no sub-solo, chega a atingir 10 andares nas torres; divididos em 440 apartamentos, 13 grandes salões com até 10 metros de altura que podem abrigar 10.000 pessoas simultaneamente. A cúpula do Salão Mauá, onde era localizado o cassino, é a 2ª maior do mundo, com 30 metros de altura e 50 metros de diâmetro.  Existe um Teatro Mecanizado, com três palcos giratórios com capacidade para 2.000 pessoas. e uma piscina térmica em formato de um piano de cauda, cuja profundidade chega a 5 metros, dotada de caldeiras que mantinham a água a uma temperatura de 30º C.

Na construção do lago em frente ao palácio, foi usada uma grande quantidade de areia da praia de Copacabana.

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Contagem do dinheiro arrecadado em uma noite no Cassino Quitandinha. Anos 40.

No seu auge, na década de 40, o Palácio Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas. Foi neste cenário que durante um curto período de esplendor, o hotel teve grandes personalidades brasileiras e internacionais desfilando por suas dependências, como os políticos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart… Entre os Artistas contratados para os shows em sua Boate, estiveram ali: Carmen Miranda, Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene, a vedete Virgínia Lane e outros ídolos do rádio como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Mário Reis e Nelson Gonçalves.

Passaram também por seus salões o presidente americano Harry S. Truman e a mais controvertida primeira dama e líder política
argentina Evita Perón. Estrelas de Hollywood não faltavam: a atriz Lana Turner, que teve uma estada de dois meses na suíte presidencial, Errol Flynn, Marlene Dietrich, Orson Welles, Henry Fonda, Maurice Chevalier, Greta Garbo, Bing Crosby e até Walt Disney, em visita ao Brasil para o lançamento do personagem Zé Carioca…

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Vídeo sobre o Palácio Quitandinha

Em 30 de maio de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra decretou a proibição do jogo no Brasil e o Quitandinha a partir da década de 1960 começou a ter dificuldades para sobreviver somente como hotel. Seu alto padrão exigia alto custo a seus hóspedes e sem o cassino começou a perder para concorrentes da época localizados mais próximos das classes mais abastadas e das maiores esferas de poder, como o Hotel Glória e o Copacabana Palace Hotel. Em 1962 o Palácio Quitandinha deixava de funcionar como hotel.

Nos dias de hoje, as áreas históricas e de lazer, que ficam no térreo, são administradas pelo Sesc desde 2007, e um condomínio residencial absorve os cinco andares acima.

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Colégio Nova Friburgo, projetado para ser o Cassino Cascata.

No início do século XX, Dermeval Barbosa Moreira, conhecido em Nova Friburgo como um médico caridoso, estranhamente resolve diversificar a sua atividade profissional. Juntamente com o seu cunhado, edificou no local denominado “Cascata” das Duas Pedras, um suntuoso prédio destinado a um hotel cassino, o Cassino Cascata. Construíra esse cassino, ao que parece, em sociedade com os mesmos empresários do Cassino da Pampulha, Cassino da Urca e do Quitandinha. No entanto, quando o prédio estava praticamente pronto, eis que o jogo de azar passa a ser proibido no país pelo Governo Dutra e o cassino virou um elefante branco. Desesperado, o médico procurou a equipe médica do Hospital de Tuberculosos de Corrêas, em Petrópolis, oferecendo o prédio do Cassino Cascata para a instalação de um hospital de tuberculosos. Houve interesse por parte daquele estabelecimento e as negociações começaram. Convém lembrar que Nova Friburgo já tinha sido o local escolhido pela Marinha do Brasil para a instalação do Sanatório Naval, estabelecimento destinado a cura de marinheiros tuberculosos. Mas será que a cidade comportaria dois hospitais para tuberculosos?

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Colégio Nova Friburgo. Anos 50.

Surge então um grupo liderado por Augusto Spinelli, e integrado por César Guinle, José Eugênio Müller, Tuffi El Jaick, entre outros, que se mobilizam para impedir a instalação de mais um sanatório, prejudicial à representação de Nova Friburgo como cidade salubre. Resolvem adquirir o prédio a fim de instalar no local um estabelecimento educacional. Criaram então a Empresa Educacional Fluminense, também denominada de Fundação Educacional, e adquiriram o Cassino Cascata de Dr. Dermeval com o propósito de instalar um ginásio. Acontece, entretanto, que a nova empresa, não dispondo de recursos financeiros à altura da iniciativa, e também não podendo retroceder na compra do edifício, sob pena de enorme prejuízo, toma a deliberação de procurar um novo proprietário para o prédio. A Empresa Educacional Fluminense entra em entendimentos com os clérigos do Colégio Anchieta a fim de prolongarem aquele estabelecimento até o Cascata, mas o valor para o empreendimento era superior aos recursos do Colégio Anchieta. Oferecem então ao Seminário de São José, no Rio de Janeiro, cujos clérigos vêm à Nova Friburgo estudar as possibilidades. Mas o Seminário também não pode arcar com o valor do imóvel. O tempo corria, os prejuízos cresciam, a hipoteca da Caixa Econômica vencendo juros, os fornecedores fazendo pressão e os compromissos com os construtores do Cascata avolumavam-se. A Empresa Educacional Fluminense resolve então abrir o ginásio por conta própria e assim iniciam ampla propaganda pelos grandes jornais do Rio de Janeiro, rádios, etc. No entanto, a empreitada é superior à sua condição econômica e a Empresa Educacional novamente volta ao ponto de partida no intuito de encontrar um comprador para o Cascata. Dessa vez urgia pressa ou uma catástrofe financeira desabaria sobre todos. Surge então a Fundação Getúlio Vargas. O fato do prefeito César Guinle ser amigo de Simões Lopes, presidente da Fundação Getúlio Vargas, teria provavelmente facilitado o acordo com essa instituição.

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Escadaria e lustre no prédio do Ginásio Nova Friburgo. Foto atual.

Inicia-se uma negociação que envolve a Prefeitura de Nova Friburgo, a Empresa Educacional Fluminense e a Fundação Getúlio Vargas. A Prefeitura precisaria desembolsar alguns milhões de cruzeiros para viabilizar a vinda de Fundação, o que acabou gerando protestos de alguns segmentos da sociedade friburguense. Porém, a mensagem do prefeito César Guinle foi aprovada pela Câmara Municipal, que conseguiu recursos para viabilizar a vinda da Fundação Getúlio Vargas para Nova Friburgo. Foi investido no Cascata um total de CR$6.000.000,00 (seis milhões de cruzeiros): a Prefeitura doou CR$2.000.000,00; uma subscrição realizada entre a população friburguense arrecadou CR$1.000.000,00 e foi feito um empréstimo junto à Caixa Econômica de CR$2.5000.000,00. A Fundação Getúlio Vargas entrou somente com CR$500.000,00. Cumpre destacar que particulares ainda doaram terrenos no Cascata para ampliação do colégio. Logo, o Cascata passou a abrigar, a partir de 1949, o Colégio Nova Friburgo sob a égide da Fundação Getúlio Vargas, cujo período letivo se inicia no ano seguinte. Ficou conhecido esse estabelecimento de ensino na cidade como “Fundação”. Tratava-se de um colégio de ensino secundário, em regime de internato, consistindo quase todos os internos do sexo masculino. Esse colégio foi considerado uma referência em todo país pelo alto nível de seu ensino e quadro docente. Era um colégio moderno, um colégio laboratório, onde nele seria aplicado um novo sistema de ensino: o estudo dirigido. Várias obras foram executadas. Adaptaram o prédio às salas de aula, construíram o primeiro ginásio esportivo da cidade, pista olímpica, piscina, auditório e um novo prédio para o “curso científico” com salas amplas, biblioteca, laboratórios de química e física, dormitórios e áreas de lazer. As atividades começavam às 8 horas e se estendiam até às 17. Professores de gabarito moravam em casas construídas em torno dos prédios do colégio.

Foi desativado em 1977, depois de 27 anos em atividade.

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Vídeo sobre o Colégio Nova Friburgo. Imagens antigas e atuais.

O local passou anos à deriva, até que em 1989, nas dependências do antigo GNF passou a funcionar o Instituto Politécnico do Rio de Janeiro (IPRJ). Em janeiro de 2011, o IPRJ teve seu campus interditado, em decorrência da tragédia climática que atingiu a região serrana do estado do Rio de Janeiro e, em particular, a cidade de Nova Friburgo. Hoje, o IPRJ foi transferido para a extinta fábrica Filó, na Vila Amélia.

O que poderia ter sido um dia o Cassino Cascata encontra-se, hoje, abandonado.

Cassino Quitandinha e Cassino Cascata. Duas construções majestosas. Ambiciosas. Duas histórias de resiliência.  Uma, com final feliz. Outra, não. Por quê?

Autor: Catherine Beltrão

Gaudí e o Parque Güell

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Antoni Gaudí

Antoni Gaudí (1852-1926)  foi um famoso arquiteto catalão e figura de ponta do modernismo mundial. Grande parte da obra de Gaudí absorveu traços de suas grandes paixões: arquitetura, natureza e religião. Ele dedicava atenção aos detalhes de cada uma das suas obras, incorporando nelas uma série de ofícios que dominava: cerâmica, vitral, ferro forjado e marcenaria. Entre as novas técnicas que introduziu no tratamento de materiais, destaca-se o trencadís,  uma espécie de mosaico realizado com pedaços irregulares de cerâmica.

As obras de Gaudí são inconfundíveis e estão em sua maioria na cidade de Barcelona. Entre as suas obras mais notáveis, destaca-se o O Parque Güell.

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Bancos ondulantes

 O Parque Güell, com uma extensão de 17,18 ha, é um grande parque urbano situado na cidade de Barcelona, na vertente virada para o Mar Mediterrâneo do Monte Carmelo. É o monumento mais visitado de Barcelona. Originalmente destinado a ser uma urbanização, foi concebido por Antoni Gaudí, expoente máximo do modernismo catalão, por encomenda do empresário Eusebi Güell.

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Muro de contenção

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Detalhe de um banco ondulante

O parque deve o seu nome a Eusebi Güell, conde de Güell, um rico empresário catalão membro de uma influente família burguesa de Barcelona, que foi quem idealizou construir uma urbanização de luxo na encosta de um monte nas imediações da cidade de Barcelona, então conhecido como Montanha Pelada, atualmente denominada Monte Carmelo. Güell encomendou o projeto ao arquiteto catalão Antoni Gaudí, com quem mantinha uma frutuosa relação pessoal e profissional desde 1878, quando ficara impressionado com o seu talento ao ver desenhos arquiteturais realizados por este na Exposição Universal desse ano em Paris.

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Escadaria do Parque

Uma das características mais marcantes do Parque Güell é o contraste entre as texturas e cores dos diferentes materiais de
construção (cerâmica brilhante e multicolorida versus pedra rústica castanha), tão apreciado pelos arquitetos do modernismo catalão.

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Segunda fonte da escadaria

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Terceira fonte da escadaria: El Drac

Do vestíbulo da entrada principal parte uma escadaria monumental de duplo tramo com três lances de escadas e revestida com trencadís que conduz à sala hipostila (grande sala com colunas que sustentam o teto), construída entre 1900 e 1903. A escadaria está implantada entre muros, cujas paredes estão revestidas com pedaços de cerâmica multicolorida formando um espécie de padrão em xadrez com retângulos brancos e quadrados coloridos. Na sua zona central existem três fontes com conjuntos escultóricos igualmente revestidos com trencadís, em cujo simbolismo os estudiosos veem diversos tipos de referências devido à complexa  iconografia aplicada por Gaudí.

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Rosetas de Josep Maria Jujol, no teto da Sala Hipostila

No topo da escadaria situa-se a Sala Hipostila ou sala das cem colunas, uma espécie de grande alpendre originalmente destinado a albergar um mercado ao ar livre para a urbanização, construída entre 1906 e 1913.

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Monumento ao Calvário

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Colunas na Sala Hipostila

A sala contém 86 colunas dóricas com cerca de 6 m de altura, construídas com entulho e argamassa imitando mármore e revestidas com trencadís branco liso até uma altura de 1,8 m, uma adaptação prática tendo em conta o uso previsto para o espaço mas que está deslocada neste tipo de coluna.

Numa colina isolada num ponto alto do monte Gaudí previu inicialmente instalar uma grande cruz de pedra e ferro forjado, tendo mais tarde mudado de ideias e decidido construir nesse local a capela da urbanização. No entanto, com o fracasso do projeto esta tornou-se desnecessária, pelo que Gaudí optou por construir nesse local um monumento em forma de Calvário, também conhecido como a Colina das Três Cruzes.

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Viaduto das Jardineiras

O fato de Gaudí rejeitar o uso de retas e ângulos retos por considerá-los antinaturais levou a que todas as abóbadas
dos pórticos sejam curvas e que predominem as colunas inclinadas.

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Pórtico da Lavadeira

No entanto, apesar das semelhanças conceptuais, os viadutos têm soluções estruturais diferenciadas, inspiradas em diferentes estilos arquitetônicos: o gótico, o barroco e o românico, como o Viaduto das Jardineiras. Os pórticos e os muros de contenção também têm formas diferenciadas. Um deles, o Pórtico da Lavadeira, cujas paredes e teto têm o formato do interior de uma interminável onda em rebentação suportada por uma fileira de colunas interiores inclinadas, cujos ângulos foram cuidadosamente calculados de forma a corresponder à forma teórica de maior estabilidade.

Antoni Gaudí. Um arquiteto. Eusebi Güell. Um empresário. Uma cidade. Barcelona. Três referências. Três reverências.

Fonte de pesquisa, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Fazenda Colubandê: História, Arte,Tragédia e Descaso (Parte I)

A Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. Marco da arquitetura colonial brasileira, a sua história começou no século XVII, quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século XVIII, tornando-se a propriedade uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região. Sua construção data provavelmente de 1618.

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Fazenda Colubandê. Foto de Isabela Kassow/Diadorim Ideias, em 2012

Em 1713, a fazenda foi confiscada pela Inquisição e seus donos presos levados para Portugal para julgamento pelo Santo Ofício. O engenho foi entregue aos jesuítas onde sofreu sérias mudanças devido a nova religião atuante.

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Poço interno da Fazenda Colubandê

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Conversadeiras na varanda, ainda intactas. 2012.

A casa grande possui 28 cômodos interligados, construída em adobe de barro cozido e argamassa de conchas moídas e óleo de baleia, tendo sido construída em torno de um poço do século XVII, de acordo com a tradição judaica, e não segue um estilo padrão, pois foi sendo reformada ao gosto de cada dono. O teto tem estilo oriental, as janelas mostram influência da época de Luís XV e o entorno da varanda possui 16 colunas em estilo grego-romano, com conversadeiras entre cada coluna. O casarão foi construído em estilo barroco e conta com quatro cômodos no subsolo, onde ficavam as senzalas que abrigavam os escravos.

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Painel de azulejos portugueses, junto ao altar-mor da Capela de Sant’Anna. Foto de Claudio Prado de Mello, em 2014.

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Retábulo barroco do Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em 2014.

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Altar-mor da Capela de Sant’Anna, em janeiro de 2017, após os saques e o vandalismo

A casa-sede foi erguida ao lado da capela de Sant’Anna, de estilo jesuítico e características mouras na parte de cima. Datada também de 1618, foi construída em homenagem a Nossa Senhora de Montserrat. Passou por reformas em 1740, quando foram instalados nas paredes da capela-mor dois painéis de azulejos portugueses Alentejanos em estilo barroco-rococó. Um mostra a imagem de Sant’Ana, mãe da Virgem Maria, ensinando-a a ler e outro retrata o pedido de casamento de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Cristo.

Próximo à casa principal, na antiga área de lazer existe um mural em homenagem às mulheres assinado pela artista plástica Djanira, da década de 1960. Há também o Bosque da Saudade, construído em 2006, onde cada árvore representa um policial morto em defesa do meio ambiente.

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Restos da piscina nos jardins abandonados, com painel de Djanira. 2017.

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Vídeo da Fazenda Colubandê. 2012, ainda sob a guarda do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar de São Gonçalo.

Em 1969, o antigo chão de madeira foi trocado pelo atual, de tijolo de barro. O conjunto arquitetônico da casa e fazenda foi tombado pelo IPHAN em 1940 e pelo INEPAC em 1965. Atualmente está abandonada e estava sob responsabilidade do Batalhão Florestal e de Meio Ambiente da Polícia Militar até 2012.

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Vídeo de 2015, mostrando a Fazenda Colubandê abandonada, mas ainda possuindo o retábulo na Capela de Sant’Anna.

Diante de toda a sua importância histórica, cultural e arquitetônica (sendo um dos únicos imóveis no Brasil com arquitetura setecentista preservada localizada em área urbana) a Fazenda está literalmente abandonada e largada a sua sorte, sendo alvo constante de vandalismo e a partir de 2016, de saques .

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Baner da chamada do Ato Público em favor da sensibilização pelo patrimônio representativo da Fazenda Colubandê

No próximo dia 25 de março, o historiador e arqueólogo Claudio Prado de Melo, um dos organizadores pelo movimento SOS Fazenda Colubandê, estará promovendo um Ato Público representativo, com apresentação de várias atividades. Entre elas, será encenada a peça teatral chamada O AUTO DE FÉ DA SANTA INQUISIÇÃO E A FAZENDA COLUBANDÊ, que reunirá grande elenco formado de 49 pessoas, entre elas a atriz Maria Luiza Faveri. O espetáculo, com Direção Artística do Prof. Jó Siqueira, mostrará como se processaram os acontecimentos na Fazenda Gonçalense nos séculos XVII e XVIII e terá um final surpreendente, com uma grande revelação histórica .

Neste relato, não sei o que é maior: se a esplêndida arquitetura colonial da Fazenda, se a arte do barroco-rococó do interior da capela, se a tragédia provocada pelos saques e vandalismo ou se o total descaso das autoridades competentes, ambos ocorridos desde 2013.

Autor: Catherine Beltrão