Baobás

A primeira vez que ouvi falar em baobá foi quando li, também pela primeira vez,  “O Pequeno Príncipe” (“Le Petit Prince“), de Saint-Exupéry. Ainda criança, soube o que era amor à primeira leitura, amor ao primeiro personagem.

Transcrevo aqui o capítulo V, onde o pequeno príncipe conversa com o autor sobre o drama dos baobás em seu asteroide:

Baoba_SaintExupery

Aquarela de Saint-Exupéry para o livro “Le Petit Prince”

Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro dia, o drama dos baobás.

 Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me interrogou, tomado de grave dúvida:

- É verdade que os carneiros comem arbustos?

- Sim. É verdade.

 - Ah! Que bom!

 Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem arbustos. Mas o principezinho acrescentou:

- Por conseguinte eles comem também os baobás?

 Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá.

 A idéia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:

 - Seria preciso botar um por cima do outro…

 Mas notou, em seguida, sabiamente:

- Os baobás, antes de crescer, são pequenos.

- É fato! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos?

- Por que haveria de ser? respondeu-me, como se se tratasse de uma evidência. E foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse problema.

 Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando se trata de uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.

Baoba_BethMoon

“Avenida dos baobás”, foto de Beth Moon. Clique sobre a foto para acessar um post sobre Beth Moon, escrito em fevereiro de 2015.

Ora, havia sementes terríveis no planeta do principezinho: as sementes de baobá… O solo do planeta estava infestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.

 “É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distingam das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução.”

 Em um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez na cabeça das crianças. “Se algum dia tiverem de viajar, explicou-me, poderá ser útil para elas. Às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos…”

 E, de acordo com as indicações do principezinho, desenhei o tal planeta.

 Não gosto de tomar o tom de moralista. Mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos daquele que se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, faço exceção à minha reserva. E digo portanto: “Meninos! Cuidado com os baobás!” Foi para advertir meus amigos de um perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez: Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A resposta é simples: tentei, mas não consegui. Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de urgência.

Baoba_ThomasBaines

“Baobá”, de Thomas Baines (1820-1875)

Os baobás pertencem ao gênero Adansonia, que apresenta seis espécies, naturais da África, Madagascar e Austrália. São típicas do ambientes semiáridos, e possuem a capacidade de armazenar grandes quantidades de água em seu caule. São árvores realmente muito grandes, que podem chegar a 30 metros de altura e mais de 10 metros de diâmetro. Apesar de não ocorrer naturalmente no Brasil, algumas mudas foram trazidas para o país por sacerdotes africanos, e plantadas em locais específicos para cultos religiosos. Há fontes que relatam que a inspiração de Saint-Exupéry para utilizar essa árvore em seu livro veio de uma visita a Recife, Pernambuco, onde há, na Praça da República, um baobá centenário, com mais de 10 metros de circunferência.

Nunca estive frente a frente com um baobá. Mas hoje, era fundamental escrever sobre baobás. Porque estava inteiramente possuída pelo sentimento de urgência.

  Autor: Catherine Beltrão

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