Todos os post de Catherine Beltrão

Engenheira de formação, amante das artes por criação. Por que não se pode ter intimidade com a Matemática, gostar de ler Dostoievsky, e se emocionar com uma fuga de Bach? Nunca entendi certas dicotomias, que separam Ciência e Arte. Eu amo e preciso das duas.

De como “o pintor andarilho” fez nascer “a pintora da alma”

Georges Wambach (1901-1965), nasceu na Antuérpia/Bélgica e morreu no Rio de Janeiro. Chamado de “andarilho da pintura” pelo crítico José Roberto Teixeira Leite, Wambach viajou pelo Brasil afora, com cavalete, paleta, tintas e pincéis na mochila, registrando em pequenos álbuns uma grande variedade de locais desse imenso e belíssimo Brasil.

Edith Blin (1891-1983), nasceu em Pontorson/Bélgica e morreu também no Rio de Janeiro. Foi chamada de “pintora da alma”, pela forma como incorporava às figuras que pintava nas telas a alma dos modelos retratados e dos temas representados.

Edith-atriz

Edith, como atriz, nos anos 20

Wambach, muito boêmio, conheceu Edith em 1926, na época em que ela era atriz de teatro. Edith era uma mulher lindíssima e, mesmo sendo casada e mãe de três filhos, atraía olhares e provocava emoções masculinas. Wambach ficou fascinado por essa atriz apaixonante e foi se aproximando da família… Fez retratos dos irmãos de Edith, dos sobrinhos, dos filhos… até chegar nela. E chegou. É dele um magnífico óleo sobre tela, o “Pommiers en fleur”, datado de 1937, pintado em frente à casa onde morava Edith na Normandia. A obra representa uma paisagem da região, com macieiras em flor e possui uma dedicatória a Edith: “À Edith Blin de A. – son ami G. W.”

 

Wambach - Pommiers

Wambach – “Pommiers en fleur”, ost, 1937

 

Foi em companhia de Wambach e dos dois filhos mais novos que Edith aportou pela primeira vez no Brasil, a 25 de julho de 1935, a bordo do navio Bagé, fugindo do avanço do fascismo e do nazismo, que paralisavam a vida artística europeia.

No início dos anos 40, aqui no Brasil, quando a II Guerra Mundial estava no seu auge na Europa, Edith, sensibilidade à flor da pele, teria perguntado a Wambach como ele podia continuar a pintar lindas paisagens enquanto os seus patrícios sofriam e caíam mortos pelos campos da Europa devastada. Wambach teria se ofendido com a observação e respondido: “Por que não pinta você o sofrimento do seu povo?” E colocou no cavalete uma tela virgem, uma paleta recém lavada e duas cores: branco e ocre. Neste momento, os filhos de Edith, Georges e Ivan, passavam por ali. Ela os chamou: “Fiquem aqui, façam uma pose, parece que vou pintar!” Em cerca de meia hora, os retratos estavam feitos, de forma inesquecível e pessoal. Esse episódio se deu em 1942. Um ano depois, Edith fez sua primeira exposição. E a separação de Wambach estava consumada.

Edith - Normandie

Edith Blin – “Normandie!”, ost, 1944

Edith - Maquis

Edith Blin – “Maquis”, osm, 1945

 

Por ocasião da 2ª exposição de Edith Blin, em 1945, entre inúmeras matérias e críticas publicadas em jornais da época, eis o que dizia Edmundo Lys: “A essa exposição podíamos chamar “alma da França”, pois aquelas telas, aquelas figuras são momentos de beleza e heroísmo, espírito da França em imagens, por sobre as quais ondeia a bandeira tricolor e de cujo silêncio parece subir a voz da França, entoando o hino imortal da Liberdade.”

São de Edith estas palavras, ditas em 1979: “Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma”.

Mais informações: www.edithblin.com e www.artenarede.com/wambach

 Autor: Catherine Beltrão

 

Primeiro contato com Inhotim

Inhotim3

Vista deslumbrante de parte minúscula dos jardins de Inhotim, situada frente à Galeria True Rouge

 

Não conhecia Inhotim até novembro do ano passado. Só de ouvir falar e de acessar o site. Já sabia que é o maior museu a céu aberto do mundo, com 2 milhões de metros quadrados. Já sabia que, além de possuir um dos mais belos e variados acervos de arte contemporânea mundial e uma arquitetura de galerias e galpões fartamente premiada, desde 2010 Inhotim obteve a chancela de Jardim Botânico, com cerca de 5.000 espécies, representando mais de 28% das famílias botânicas conhecidas no planeta.

Mas então, no primeiro feriado de novembro, fui conhecer pessoalmente este lugar fantástico. Inebriante! Um choque na alma de qualquer um. Não precisa ser artista ou botânico. Basta ser alguém que se comova com a beleza de ver magistralmente integrados criações artísticas e jardins.

Desde o Som da Terra, do artista Doug Aitken, até o Galpão Cardiff & Miller, com a obra “The Murder of Crowd”, passando pelas galerias de Adriana Varejão, Miguel Rio Branco e Lygia Pape, só para citar alguns dos espaços criados no jardim monumental de Inhotim, o que se vê e o que se ouve atinge diretamente nossos pedaços ainda intactos do coração e do cérebro, que ficam totalmente linkados nestes momentos gloriosos de contemplação.

Não há como não voltar a Inhotim. Ainda são vários os espaços não visitados, os caminhos e aléas não trilhadas. Vou querer ter novas e antigas emoções. Mesmo porque se emocionar nos impulsiona a seguir em frente…

Para saber mais sobre Inhotim, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Os 129 retratos

EdithEdith Blin (1891-1983), artista plástica, nasceu em Pontorson, França e morreu no Rio de Janeiro. Autodidata, começou a pintar nos anos 40, já no Brasil, motivada pela necessidade interior de expressar o sofrimento de seu povo ante os horrores da Segunda Guerra Mundial.

“Retrato de Katia em verde e amarelo”, pastel sobre cartolina, 30 X 22cm, 1955

O tema Retrato acompanhou Edith em suas quatro décadas de trajetória na pintura. Foram muitos os seus modelos, retratados nas mais variadas técnicas: óleo, pastel, aquarela, crayon. Mas, sem dúvida alguma, uma modelo se destacou, sua neta Catherine. Dela, Edith realizou nada menos do que 129 retratos, desde quando a neta era bebê até às vésperas de sua morte, quando Catherine tinha 32 anos.

Depoimento de Catherine, em 2006:

“A sensação de ser retratada por um grande artista é extremamente gratificante. Se este artista é a pessoa que criou você, e consequentemente conhece muito você, é mais gratificante ainda. E se este artista tem como singularidade maior o fato de expressar os sentimentos – dele e do modelo – na obra que produz, aí é a glória! E eu fui glorificada nada menos do que 129 vezes, durante um período de 32 anos, desde o meu nascimento. De bebê a mulher feita, entre desenhos, aquarelas, pastéis e óleos, servi de modelo para Edith Blin. Como ambas gostávamos muito de música clássica, Bach, Beethoven, Chopin, Liszt, Debussy e Villa-Lobos eram presenças constantes nestes encontros entre pintora e modelo. As horas que passei posando para a criação de obras eternas foram das mais significativas da minha vida. Foram horas de comunhão com a Arte, de intensa interação com o processo de criação de uma artista maior. Hoje, percebo que esta comunhão e esta interação fundamentaram minha vida a tal ponto que a minha procura de felicidade passa através da Arte e de seu processo de criação.

“Retrato de Katia com bonecas”, psc, 63 X 49cm, 1955

Katia de trancinhas

“Katia de trancinhas”, psc, 52 X 38cm, 1954

Participei de todas as décadas e de todas as técnicas do processo criativo de Edith. Tendo nascido no final da década de 40, nesta época servi de modelo para vários desenhos feitos a carvão e a lápis em folhas de caderno de desenho. Na década de 50, fui retratada em alguns óleos e vários pastéis sobre cartolina, azul claro ou rosa. A maioria destes pastéis eu posei com dois objetos de estimação, que conservo até hoje: um palhacinho vestido de macacão listrado em vermelho e branco e um ursinho de pelúcia preto, o “Teddy”. São dezenas de retratos, em que a menina Katia – meu apelido quando criança – aprendia a ser modelo e a se encantar com os trabalhos feitos. Foi também nesta década que Edith começou a utilizar cartolina preta como suporte para os trabalhos feitos em pastel. Os traços de menina, sobre fundo preto, não perdiam de forma nenhuma sua delicadeza e ingenuidade, muito pelo contrário, realçavam toda a pureza que existia… 

Retrato de Katia em fundo colorido

“Retrato de Katia em fundo colorido”, ost, 65 X 54cm, 1966

Katia a la maniere antique

“Katia à la manière antique…”, psc, 63 X 48cm, 1964

 A década de 70, Edith octogenária e eu na faixa dos vinte e tantos anos, foi para ambas uma época de total entendimento artístico. Retrato de Katia com vestido roxo estilo marquesaCom um simples olhar de minha avó, eu já sabia que ela queria que eu posasse. Prontamente, eu atendia seu pedido e lá surgia mais uma obra fantástica, dessa mulher incrível em sua energia e entusiasmo! Tendo a música quase sempre como companhia, a produção dos óleos sobre cartolina preta imperava e, quando Edith não gostava do resultado, era mais uma cartolina rasgada… Posei as últimas vezes para Edith no ano de 1980, entre um derrame cerebral e outro.

Retrato de Katia meigaApós 32 anos de convivência e centenas de horas tendo posado para 129 obras de Edith Blin, tenho absoluta certeza que um pedaço de sua alma faz parte da minha”. 

Mais informações sobre Edith Blin: www.edithblin.com e sobre Catherine Beltrão: www.catherinebeltrao.com

 

Autor: Catherine Beltrão

Arte faz bem

Nicho Policrômico - Toca do Boqueirão da Pedra Furada - Serra da Capivara - PI

Nicho Policrômico – Toca do Boqueirão da Pedra Furada – Serra da Capivara – PI

Arte faz bem.

Pode ser música. Pode ser dança. Pode ser desenho. Não importa. O importante é a nossa interação com a arte. E isso desde sempre. As pinturas rupestres são a prova. Há milhares de anos, nossos ancestrais já deixavam testemunhos nas cavernas de suas angústias, medos e sonhos.

Hoje temos a Internet.  E continuamos com a mesma vontade de cantar, compor, dançar, desenhar.  Ou seja, de expor nossas angústias, medos e sonhos.  Nada mudou.

A Arte faz bem. Não importa onde. Não importa quando. Não importa como.

Lygia Pape - Tteia

Lygia Pape – “Ttéia 1C”, 2002, Fotos de Eduardo Eckenfels . Obra instalada na Galeria Lygia Pape, em Inhotim (Brumadinho, MG)

 Autor: Catherine Beltrão