Todos os post de Catherine Beltrão

Engenheira de formação, amante das artes por criação. Por que não se pode ter intimidade com a Matemática, gostar de ler Dostoievsky, e se emocionar com uma fuga de Bach? Nunca entendi certas dicotomias, que separam Ciência e Arte. Eu amo e preciso das duas.

Clarice, Nélida e os vasos comunicantes

Lispector - Carlos Scliar, 1972

Retrato de Clarice Lispector, por Carlos Scliar. 1972

Quase todo mundo conhece a Clarice Lispector ( 1920-1977) escritora. Minha primeira incursão em seus escritos foi quando cursava o ginásio, no início dos anos 60, ao ler “Perto do coração selvagem“. Não foi amor à primeira leitura. Precisei ler e reler o livro várias vezes para que nossas almas se ajustassem.

Com o passar do tempo, e com o passar das leituras, entendi a máxima: não se concebe o espanhol sem Cervantes, o inglês sem Shakespeare e o português sem Clarice.

Mas este post versará sobre o que pouca gente sabe: a Clarice Lispector pintora.

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“Explosão”, de Clarice Lispector. 1975

Clarice pintou vinte e dois quadros, sendo dezenove sobre madeira, principalmente pinho-de-riga, e três sobre tela.

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“Escuridão e luz centro da vida”, de Clarice Lispector. 1975

Um dia, ela se perguntou: “Quem sabe escrevo por não saber pintar?

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“Luta sangrenta pela paz”, de Clarice Lispector. 1975

Em “A descoberta do mundo“, Clarice registrou:

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“Pássaro da liberdade”, de Clarice Lispector. 1975

Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho.

Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas”.

Ou ainda:

Antes de mais nada, pinto pintura.
Acho que o processo criador de um pintor
e do escritor são da mesma fonte.

Quando eu escrevo,
misturo uma tinta a outra e nasce uma nova cor”.

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“O Sol da meia-noite”, de Clarice Lispector. 1975

Nélida Piñon e Clarice Lispector foram grandes amigas. Grande escritora e primeira presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida, nascida em 1937, continua nos fustigando com registros antológicos, como:

Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças”.

Ou esse:

Pensar é um dos atos mais eróticos na vida de uma pessoa“.

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“Eu te pergunto por quê”, de Clarice Lispector. 1975

E onde entra os “vasos comunicantes” entre Clarice e Nélida?

Então.

Em 11 de julho de 2019, no leilão de Soraia Cals, no Rio de Janeiro, Nélida arrematou um dos raros quadros de Clarice Lispector. Em acirrada disputa com o Instituto Moreira Salles, a obra “Sem título“, com um primeiro lance de R$ 8 mil, saiu pelo valor de R$ 220 mil.

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“Sem título”, de Clarice Lispector. 1976

Esta obra, de pequenas dimensões, 30 X 40cm, datada de 1976, pintada a óleo sobre madeira, apresenta uma inscrição na frente: “Olhe o que está escrito atrás“,  e outra no verso: “Você já conheceu, como eu, o desespero. Mas é um erro. Tudo vai dar certo.”

A obra “Sem título“, agora, precisa mudar de título. Sugiro “Vasos comunicantes“, em homenagem à amizade entre duas escritoras monumentais: Clarice Lispector e Nélida Piñon.

Autor: Catherine Beltrão

Os abajures Tiffany

Tiffany

Louis Comfort Tiffany

A empresa Tiffany & Co. surgiu em meados de 1837 e começou com um investimento de apenas US$ 1 mil. Logo se estabeleceu como uma empresa que vendia artigos de luxo para casa e, em seguida, transformou-se numa das maiores joalherias do mundo.

Mas o abajur Tiffany só apareceu no ano de 1895, através de Louis Comfort Tiffany (1848-1933), filho de um dos fundadores da empresa e uma das principais figuras do movimento de Art Nouveau.

O aspecto do abajur é bem parecido com os vitrais de uma igreja medieval. Isto se deve ao fato de o designer Comfort Tiffany ter trabalhado com técnicas utilizadas desde a Idade Média, produzindo manualmente a coloração do vidro e acrescentando qualidade e durabilidade na peça.

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Abajures de mesa Tiffany

Conhecido como Favrile, e projetado com pedaços de um tipo especial de vidro fundido com óxidos metálicos, no abajur Tiffany  este vidro ganha diversas tonalidades, formando um pequeno vitral no abajur.

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Abajures de escrivaninha Tiffany

No processo de fabricação do abajur são utilizadas técnicas nas quais são usam-se fitas de cobre soldadas que, junto ao pequeno vitral, formam uma peça de aspecto único.

A maioria dos modelos disponíveis possui uma base com pátina em tons de marrom e marrom esverdeado, dando ao item ainda mais
opulência e presença na decoração.

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Lustres Tiffany

Os abajures Tiffany estão disponíveis em 6 diferentes modelos trabalhados de maneira similar, com os efeitos vitrificados que
tanto deram às peças a sua fama e charme.

Entre os modelos estão abajures para escrivaninha, de teto, de mesa, lustre, abajures de chão e também arandelas.

Quanto aos temas dos desenhos dos vitrais, um legítimo abajur Tiffany é trabalhado principalmente com estampas florais e temas como árvores, insetos e pássaros.

E qual seria o valor de um abajur Tiffany?

Podem variar de US$ 4 mil a mais de US$ 3 milhões!

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Abajur Tiffany “Pink Lotus”

Em um leilão da Christie’s de 1997, o abajur “Pink Lotus” foi arrematado por US$ 2,8 milhões.

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Abajur Tiffany “Pond Lily”

Mas em 2018, também na Christie’s, o abajur “Pond Lily” alcançou o incrível preço de US$ 3,3 milhões!

E vale a pena relembrar uma frase de Louis Comfort Tiffany:

Cor é para o olho o que música é para o ouvido.
(“Color is to the eye what music is to the ear.”)

Autor: Catherine Beltrão

Os carretéis de Iberê

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Iberê Camargo

Iberê Camargo (1914 – 1994), pintor gaúcho, é um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX.  É autor de uma obra extensa, incluindo pinturas, desenhos, guaches e gravuras. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942 e lá viveu por 40 anos.

Sem dúvida, o tema mais recorrente em sua obra é o carretel. De acordo com o próprio Iberê, o carretel traz à superfície as mais profundas memórias de sua infância. Ele significa a distância entre inocência e maturidade, figuração e abstração.

O próprio título das obras muda, e a palavra ‘carretel’ é substituída por ‘brinquedo’, ‘figura’, ‘contraste’, ‘símbolos’ ou, ainda, ‘signos’.

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“Desdobramento II”, de Iberê Camargo. 1972

Acerca dos carretéis, ele explica:

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“Ascensão I”, de Iberê Camargo. 1973

Minha pintura em nenhum momento abandonou a estruturação da fase dos carretéis. Esses, embora pareçam soltos, livres no espaço (fundo) do quadro, estão solidamente interligados por linhas de força, como os corpos celestes no sistema planetário.

Por isso, não sinto nenhuma afinidade com Pollock ou De Kooning. Minha volta à figura (em verdade nunca a abandonei) se deve ao esgotamento do tema e à necessidade de tocar a realidade que é a única segurança do nosso estar no mundo – o existir. […]

E vale muito a pena apresentar aqui algumas de suas frases:

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“Contraste”, de Iberê Camargo. 1982

Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão.”

“As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias da minha infância.”

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“Símbolos”, de Iberê Camargo. 1976

É preciso que o fruto que está dentro do artista amadureça no vagar do tempo. Aquele que tem pressa em vendê-lo, fará frutos de cera ou irá apanhá-los no pomar do vizinho.

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“Carretel azul”, de Iberê Camargo. 1981

Só a imaginação pode ir mais longe no mundo do conhecimento. Os poetas e os artistas intuem a verdade. Não pinto o que vejo, mas o que sinto.

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“Composição”, de Iberê Camargo. 1980

O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.

A realidade é um enigma que o tempo não banaliza, e o homem não decifra. Ela é a esfinge que nos devora.”

Debruço-me sobre este misterioso poço, insondável, que existe em cada homem.”

A realidade é um enigma que o tempo não banaliza, e o homem não decifra. Ela é a esfinge que nos devora.

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“Carretéis com figuras”, de Iberê Camargo. 1984

O pintor é o mágico que imobiliza o tempo.”

“No fundo, um quadro para mim é um gesto, é o último gesto.

Esta última frase é perturbadora. Para Iberê, cada obra pintada poderia ser a última. E, um dia, foi. Assim como para qualquer um de nós, cada refeição preparada (ou degustada), cada sala varrida, cada verso escrito, cada página lida, cada abraço dado, poderá ser o último. E um dia, será.

Autor: Catherine Beltrão

Djanira, o Chagall dos trópicos

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Djanira da Motta e Silva

Djanira da Motta e Silva (1914-1979) foi uma pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa brasileira. Nasceu em Avaré, São Paulo e passou por Santa Catarina, antes de voltar para a sua terra natal. No final da década de 1930, Djanira contraiu tuberculose e foi se tratar em Campos do Jordão.

Em 1939, Djanira mudou-se para o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e adquiriu a Pensão Mauá, que se tornou um local de convívio de diversos artistas e intelectuais da época. Teve aulas com os pintores Emeric Marcier e Milton Dacosta, seus hóspedes na pensão.

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“Mercado da Bahia”, de Djanira. 1959

Com uma temática bem brasileira, Djanira reproduziu em sua obra a paisagem nacional em estilo de arte primitiva, com linhas e cores simplificadas. Em sua obra coexistem uma diversidade de cenas, como as festas folclóricas, as temáticas religiosas, o cotidiano dos tecelões, os pescadores, os batedores de arroz…

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“Mercado de peixe”, de Djanira. 1957

Entre 1950 e 1951, pintou o mural “Candomblé”, para a residência de Jorge Amado, em Salvador. E são de Jorge Amado estas palavras sobre Djanira:

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“Candomblé”, de Djanira.
In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: . Acesso em: 25 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.

Djanira traz o Brasil em suas mãos, sua ciência é a do povo,
seu saber é esse do coração aberto à paisagem, à cor, ao perfume,
às alegrias, dores e esperanças dos brasileiros.

Sendo um dos grandes pintores de nossa terra,
ela é mais do que isso, é a própria terra,
o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba,
as máquinas de fiação, o homem resistindo à miséria.
Cada uma de sua telas é um pouco do Brasil.”

Entre 1963 e 1964, confeccionou o painel “Santa Bárbara”, com 130 m2 e 5.300 azulejos, no túnel do mesmo nome, que liga os bairros de Catumbi e Laranjeiras, no Rio de Janeiro. A obra foi uma homenagem aos 18 operários mortos na abertura do túnel.

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“Painel Santa Bárbara”, de Djanira.

Posteriormente, o painel foi instalado no Museu Nacional de Belas Artes.

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“Santa’Ana de pé”, de Djanira.

Muito religiosa, em 1963, entrou para a Ordem Terceira Carmelita, recebendo o hábito com o nome de Irmã Teresa do Amor Divino. Em 1972 recebeu um diploma e uma medalha, do Papa Paulo VI. Djanira foi a primeira artista latino-americana a ser representada no Museu do Vaticano, com a obra “Sant’Ana de Pé“.

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“Três orixás”, de Djanira.1966

Nosso grande poeta Ferreira Gullar falou assim de Djanira:

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“Serradores”, de Djanira. 1959

(…) Moça do interior de São Paulo, que viveu a primeira fase de sua vida em contato com os animais, os trabalhadores do campo, a vida simples e dura, que foi também a sua, Djanira iria mais tarde dar forma de arte a essa experiência indelével. 

(…) Procuraria manter, ao longo da vida, o vínculo com esse passado: viveu cercada de pássaros, plantas e bichos, e, sempre que as condições de saúde permitiam, viajava pelo interior do país, como para renovar o contato com as fontes inspiradoras de sua arte e mesmo de sua vida. Nascida do povo, manteve-se uma mulher do povo, uma artista do povo identificada com ele em seus sofrimentos e em suas lutas. (…) Essa identificação com seu povo e sua terra, essa generosidade de sentimentos teriam, inevitavelmente, que se refletir na obra da pintora, onde a paisagem e os homens brasileiros ocupam o primeiro plano. Esses elementos – como outros também ligados a eles – constituem o seu universo, o mundo que ela necessitava organizar, transfigurar, salvar da morte. E o fez instilando neles a força do seu lirismo e a beleza que a sua sensibilidade apreendia e revelava nas coisas mais simples, nas cenas mais comuns do trabalho e da vida diária”.

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“Indústria Automobilística”, de Djanira,1962

Quem também escreveu sobre Djanira foi Paulo Mendes Campos, grande poeta e jornalista, em sua “Cantiga para Djanira“:

O vento é o aprendiz das horas lentas,
Traz suas invisíveis ferramentas,
Suas lixas, seus pentes-finos,
Cinzela seus castelos pequeninos,
Onde não cabem gigantes contrafeitos,
E, sem emendar jamais os seus defeitos,
Já rosna descontente e guaia
De aflição e dispara à outra praia,
Onde talvez possa assentar
Seu monumento de areia – e descansar.

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“Embarque de bananas”, de Djanira.1957

Sua obra teve influências: Pieter Brueghel, Fernand Léger, Joan Miró e Marc Chagall. Sobre este último, disse o historiador e crítico Mario Barata:

” (…) Diferentemente doutro poeta do mundo exterior – o russo israelita Marc Chagall -,  Djanira não é sonhadora. É realista, efetivamente realista. Sua obra emana de uma visão aplicada às coisas, com lirismo.”

Autor: Catherine Beltrão

Arte na areia

Nem toda arte é eterna e sobrevive por séculos.  A arte na areia é uma arte efêmera, que consiste em desenhar sobre a areia molhada à maré baixa. Pode ser praticada sobre pequenas ou grandes superfícies.

Neste post, apresento dois artistas que criam obras de arte na areia: Jben e Andres Amador.

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Obra de Jben

Jehan-Benjamin, Mais conhecido com Jben,  pratica a arte na areia deste 2014.

Seus desenhos medem cerca de 45m de diâmetro e podem passar de 100m de envergadura.

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Obra de Jben

Equipado de seus ancinhos e de seu drone, Jben percorre principalmente as praias do sudoeste da França, para realizar fantásticos desenhos que, em seguida, são fotografados e filmados, para deleite de suas redes sociais.

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Obra de Jben

Antes uma paixão, a arte na areia tornou-se, desde 2016, a atividade principal de Jben, que cria sobre a areia  desenhos personalizados, e também realiza oficinas de iniciação para particulares, associações e até mesmo, empresas.

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Diz Jben:

Parece que a Terra é mais bonita vista do alto, tentarei então compartilhar com vocês minha arte efêmera vista do céu!

Um outro grande artista de desenhos na areia é o paisagista Andres Amador, natural de São Francisco, Califórnia.

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Obra de Andres Amador

Ao invés de comprar uma tela e pintá-la em casa, o artista passa os dias na praia esculpindo e usando a areia como sua própria tela.

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Obra de Andres Amador

Mesmo com todo o trabalho, ele sabe que dentro de algumas horas sua obra prima não estará mais por lá, devido à água do mar que pode apagá-la. Por isso, Andres está sempre atento à maré, certificando-se de que esteja baixa quando for desenhar.

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Obra de Andres Amador

Suas imagens chegam a 500 metros, e são maravilhosas quando vistas de cima. Para completá-las, o artista conta com a ajuda de voluntários, além de promover workshops com certificados, estando sempre aberto para ensinar suas técnicas.

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Obra de Andres Amador

E, mais uma vez, temos aqui um exemplo de como a tecnologia está a serviço da arte. Se não fossem os drones, dificilmente estes artistas de arte tão efêmera poderiam criar tais obras e, menos ainda, estaríamos apreciando estas maravilhas junto ao mar…

Autor: Catherine Beltrão

O ouro de Klimt

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Gustav Klimt

Gustav Klimt (1862 – 1918) foi um pintor simbolista austríaco. Além do Simbolismo, destacou-se dentro do movimento Art Nouveau austríaco e foi um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que ía de encontro à tradição acadêmica nas artes. Os seus maiores trabalhos incluem pinturas, murais, esboços e outros objetos de arte, muitos dos quais estão em exposição na Galeria da Secessão de Viena.

De 1905 a 1909, ocorreu a sua célebre “Fase dourada“, com a criação de obras que viraram ícones da arte mundial.

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“As três idades da Mulher”, de Gustav Klimt. 1905, ost, 180 x 180 cm Localização: Galleria Nazionale d’Arte Moderna, Roma, Itália

Na composição “As Três Idades da Mulher“, a temática sobre o ciclo da vida é mostrada diretamente. Para muitos estudiosos de arte, o artista inspirou-se no quadro “As Três Idades da Mulher e a Morte”, obra do pintor renascentista alemão Hans Baldung Grie.

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“Retrato de Adele Bloch-Bauer I”,de Gustav Klimt. 1907, ost, 138 X 138cm

O “Retrato de Adele Bloch-Bauer I” tem uma história tão interessante que foi contada no filme “A Dama Dourada” (“Woman in Gold“).  A obra foi vendida em junho de 2006, a Ronald Lauder, proprietário da Neue Galerie em Nova Iorque, por 135 milhões de dólares, tendo sido, na época, a segunda pintura mais cara do mundo. Para saber mais sobre esta obra, clique aqui.

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“O beijo”, de Gustav Klimt.1907-1908, ost, 180 X 180cm

O Beijo” talvez seja a obra mais icônica de Gustav Klimt. Especialistas explicam que a tela, fazendo parte da fase dourada do artista, tem, de fato, uma estética cintilante e elementos de ouro em sua composição, além de detalhes que simulam ametistas, safiras, rubis, opalas e esmeraldas. “O Beijo” retrata sensualidade e erotismo: um homem e uma mulher abraçados sobre um tapete de flores. As roupas do casal foram pintadas como se fossem mosaicos e se distinguem uma da outra, apesar de estarem muitos próximas, dando a sensação de que ao se abraçarem, os dois se tornam um só.

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“O beijo”, de Klimt, replicado pelo artista Tamman Azzam em uma parede de um edifício bombardeado em Damasco, na Síria

Em 2013, o artista Tamman Azzam replicou a obra em uma parede de um edifício bombardeado em Damasco, na Síria, como uma forma de protesto contra a guerra. Para saber mais, clique aqui.

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“Danae”, de Gustav Klimt.1908, ost, 77 X 83cm

O tema da pintura “Danaë” esteve muito em voga no início da década de 1900 entre muitos artistas; a personagem foi utilizada como um símbolo de perfeição do amor divino, e transcendência. Durante a sua prisão pelo seu pai, Rei de Argos, numa torre de bronze, Danaë recebeu a visita de Zeus, aqui simbolizado pela chuva dourada entre as suas pernas. No trabalho, ela está enrolada com um véu púrpura o qual faz referência à sua linhagem imperial. Algum tempo depois da sua visita celestial, deu à luz um filho, Perseu, que é citado na mitologia grega como tendo morto Medusa e salvo Andrômeda.

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“A Árvore da Vida”, de Gustav Klimt. 1909, ost,102 X 195cm

A obra “A Árvore da Vida” apresenta um estilo art nouveau. Os mosaicos foram criados no último período do artista, e mostram Árvores da Vida com os ramos enrolados, uma figura feminina de pé, e um casal abraçado.

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“Morte e Vida”, de Gustav Klimt. 1908-1916, ost,198 X 178cm

Em “Morte e Vida“, Klimt apresenta a temática da morte, que seria pessimista, mas, também introduz uma nota de esperança e reconciliação; em vez de se sentir ameaçado pela figura da morte, os seres humanos à direita dela parecem desprezá-la. A imaginação do artista já não se concentra na união física, mas sim na expectativa que a precede. Talvez esta recém-descoberta serenidade tenha origem na própria consciência de envelhecimento de Klimt e proximidade dele com a morte. Mas antes que chegasse esse momento, ele escolheu representar apenas momentos de intenso prazer ou beleza e juventude milagrosas.

Gustav Klimt foi único. Sua obra, já internacionalmente reconhecida e admirada, ainda tem um longo caminho a percorrer, até chegar ao conhecimento dos que ainda não sabem de sua existência. É dele a frase:

Qualquer um que desejar saber algo sobre mim deve olhar atentamente para as minhas pinturas e procurar reconhecer nelas o que eu sou e o que eu quero”.

Autor: Catherine Beltrão

Brennand e a cerâmica dos sonhos

Francisco Brennand, nascido na cidade de Recife em 1927, é um dos grandes nomes da arte sincrética brasileira, arte que propõe e entende a vida e o mundo como um todo, onde a proposta é agregar e não excluir.

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Francisco Brennand em frente à entrada da Oficina, com as quatro figuras de Os Comediantes

Em uma viagem a Paris, em 1948, Brennand conheceu as obras em cerâmica de artistas consagrados como Picasso, Chagall, Matisse,
Braque, Gauguin e Miró. E, em 1950, passando por Barcelona, descobriu a obra de Antoni Gaudí, artista que o influenciou
fortemente.

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Pátio externo

A Oficina Cerâmica Francisco Brennand surgiu no ano de 1971 nas ruínas da Cerâmica São João da Várzea, uma olaria datada do ano de 1917, fundada pelo pai de Francisco, o industrial Ricardo Lacerda de Almeida Brennand.

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Templo Central, com o Ovo Primordial em sua cúpula

A antiga fábrica de tijolos e telhas herdada pelo artista, instalada nas terras do Engenho Santos Cosme e Damião, no bairro histórico da
Várzea, é cercada por remanescentes da Mata Atlântica e pelas águas do Rio Capibaribe, principal curso d’água do Recife.

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Um ovo de Brennand, emblema de imortalidade

Trata-se de um complexo monumental — museu e ateliê — com aproximadamente 2 mil obras, entre esculturas, murais, painéis, pinturas, desenhos e objetos cerâmicos. A principal temática da obra de Francisco Brennand é a origem da vida e a eternidade das coisas.

No trabalho de Brennand, os ovos de argila estão sempre presentes, depositados como um emblema de imortalidade. O ovo simboliza o que é potencial, o germe da geração, o mistério da vida. O ovo do mundo, símbolo cósmico que se encontra na maioria das tradições culturais de todos os povos.

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Salão de Esculturas

Lugar único no mundo, a Oficina Brennand constitui-se num conjunto arquitetônico monumental de grande originalidade, em
constante processo de mutação, onde a obra se associa à arquitetura para dar forma a um universo abissal, dionisíaco, subterrâneo, obscuro, sexual e religioso.

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Anfiteatro, com piso em forma de mandala

São 15 km² de área construída. O complexo conta com espaços como  a entrada com Os Comediantes, o Anfiteatro, o Salão de
Esculturas, o Templo Central, o Templo do Sacrifício, a Accademia, o Cine  Teatro, uma loja-café com souvenirs, além de jardins projetados por Burle Marx.

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Mosaico de azulejos Brennand

Palavras não descrevem a arte de Brennand. Ela precisa ser vista e sentida. Com os olhos e com as mãos. Sobretudo com as mãos. Como se faz com a cerâmica.

Autor: Catherine Beltrão

Museu Nacional e Notre-Dame de Paris: partes de uma alma triste

Na Semana dos Museus, resolvi ficar triste.

Não foi uma decisão difícil. Foi só lembrar de duas tragédias. Imensas. Ocorridas em algumas horas de dois dias específicos. Pois as outras, não tão devastadoras, acontecem todos os dias. Todas as horas.

Localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, o  Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do país e uma das mais importantes do mundo. Fundado pelo rei Dom João VI em 1818, seu primeiro acervo surgiu a partir de doações da Família Imperial e de colecionares particulares.

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Museu Nacional, antes do incêndio de 02.09.2018

Mais de 20 milhões de itens catalogados, contando com uma das mais completas coleções de fósseis de dinossauros do mundo, múmias andinas e egípcias e artefatos importantes da arqueologia brasileira.

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Museu Nacional, durante o incêndio de 02.09.2018

A réplica do Maxakalisaurs topai, o maior dinossauro já montado no país, um animal herbívoro com cerca de 13 metros de comprimento e 9 toneladas;

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos, a “brasileira” mais antiga do nosso território. Luzia, nome dado ao fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos. Sua descoberta é um marco da ciência e ajuda a remontar a história da humanidade. Luzia também representava a “brasileira” mais antiga do nosso território;

a maior coleção egípcia da América Latina;

700 ítens de uma coleção de etnologia africana e afro-brasileira, uma das maiores do mundo;

o Herbário, com um acervo botânico de 550 mil espécimes de todos os biomas brasileiros.

2 de setembro de 2018. 19h30. Domingo. Em poucas horas, 90% deste acervo foi transformado em cinzas.

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Museu Nacional, depois do incêndio de 02.09.2018

Marco da civilização ocidental, a Catedral de Notre Dame de Paris tem 850 anos de história: palco da coroação de Napoleão Bonaparte e da beatificação de Joana d’Arc, foi saqueada durante a Revolução Francesa e  na Segunda Guerra Mundial, seus sinos anunciaram a libertação de Paris do jugo nazista, em abril de 1944.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, antes do incêndio de 15.04.2019

De arquitetura gótica, a catedral começou a ser construída em 1163 e finalizada em 1345. É uma das mais antigas catedrais góticas do mundo, visitada por cerca de 13 milhões de pessoas por ano.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, durante o incêndio de 15.04.2019

São muitos os atrativos da catedral: o telhado, conhecido como la fôret (a floresta), formado por  toneladas de troncos de carvalho usados para construí-lo (1.300 carvalhos ao todo), onde cada viga pertence a uma árvore diferente;

a escada de uma das torres, com seus 420 degraus, que leva à Galeria das Gárgulas (ou Quimeras), à “flecha” e aos campanários, com os nove sinos da Catedral;

os vitrais, com três belíssimas rosáceas;

os tesouros, com obras de arte e relíquias religiosas como um pedaço da cruz da crucificação de Jesus.

15 de abril de 2019. 18h50. Segunda-feira. Em poucas horas, o telhado e a “flecha” foram consumidos pelo fogo.

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Catedral de Notre-Dame de Paris, depois do incêndio de 15.04.2019

É de Victor Hugo, o célebre escritor francês, autor de “O Corcunda de Notre-Dame“, a frase: “Na face dessa velha rainha das nossas catedrais, ao lado de uma ruga, encontra-se sempre uma cicatriz”.

Entre dezenas, centenas de tragédias, talvez essas tenham sido as que mais atingiram minha alma. E a alma de parte da humanidade.

Autor: Catherine Beltrão

Selos de pintores brasileiros

O Brasil foi o segundo país a emitir um selo, em 1843, o célebre Olho de Boi. Em 1840, a Inglaterra emitiria o Penny Black, o primeiro selo postal do mundo.

Como falamos de Arte, resolvi escrever sobre selos de pintores brasileiros. Achei que iria encontrar centenas. Mas só encontrei 23 selos!

Estes 23 selos são referentes a oito artistas, todos modernistas!

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Selos Portinari: “A primeira missa”, em 1968; “Natal”, em 1970; “O lavrador de café”, em 1980; “Presépio”, em 2002.

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Selo de Portinari: detalhe do painel “Paz”, no ano internacional da paz, em 1986

O grande Cândido Portinari foi homenageado com doze selos:  “A primeira missa”, em 1968; “Natal“, em 1970; “O lavrador de café“, em 1980; o detalhe do painel “Paz“, no ano internacional da paz, em 1986; “Presépio“, em 2002; em seu centenário de nascimento com o selo de um de seus autorretratos, o “Menino de Brodowski” e “Cangaceiro“, emitidos em 2003 e com “Negrinha”, “Composição“, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro“, como obras desaparecidas, em 2004.

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Selos de Portinari: o “Menino de Brodowski”, “Cangaceiro” e um de seus autorretratos, no centenário de seu nascimento, em 2003

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Selos de Portinari: “Negrinha”, “Composição”, “Marcel Gontrau” e “Menino sentado com carneiro”, como obras desaparecidas, em 2004.

Eliseu Visconti, em seu centenário, foi homenageado com o selo “Juventude“, em 1966 e em seu sesquicentenário, com o selo representando um de seus autorretratos, em 2016.

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Selos Eliseu Visconti: “Juventude”, homenageando seu centenário, em 1966 e um de seus autorretratos, em seu sesquicentenário, em 2016.

O pintor Di Cavalcanti foi homenageado com três selos: “A mulher com filho à janela“, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá“, em 1974 e “Ciganos“, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

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Selos de Di Cavalcanti: “A mulher com filho à janela”, da X Bienal de São Paulo, em 1969; “As cinco moças de Guaratinguetá”, em 1974 e “Ciganos”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1997.

Anita Malfatti teve direito à emissão de um selo, “O homem amarelo“, também em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

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Selo de Anita Malfatti: “O homem amarelo”, em comemoração ao centenário de seu nascimento, em 1989.

Outro artista que participou da Semana de 22, Victor Brecheret, teve emissão de dois selos: o “Monumento às Bandeiras“, em 1984 e “Eva“, em 2015.

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Selos de Victor Brecheret: “Monumento às Bandeiras”, em 1984 e “Eva”, em 2015.

Alberto da Veiga Guignard, o pintor das paisagens imaginantes, foi homenageado em seu centenário de nascimento, em 1996, com o selo “Paisagem de Ouro Preto“.

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Selo de Guignard: “Paisagem de Ouro Preto”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996.

Também em 1996, e também em comemoração ao centenário de seu nascimento, Alfredo Volpi, o pintor das bandeirinhas, ganhou o seu selo de homenagem, o “Barco com bandeirinhas e pássaros“.

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Selo de Alfredo Volpi: “Barco com bandeirinhas e pássaros”, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 1996

Finalmente, Tarsila do Amaral, a pintora mais valorizada do Brasil, também tem um selo: o “Urutu“, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

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Selo de Tarsila do Amaral: “Urutu”, referente à XIV Bienal de São Paulo, emitido em 1998.

Destes 23 selos, qual é o seu preferido?

Autor: Catherine Beltrão

A Catedral de Notre-Dame de Rouen, por Claude Monet

É tempo de se falar de catedrais.

Catedral de Rouen

Catedral Notre-Dame de Rouen

Bastante similar à Catedral de Notre-Dame de Paris, a Catedral de Notre-Dame de Rouen é uma catedral católica, também em estilo gótico, situada em Rouen, na região da Normandia, no noroeste da França.

Claude Monet (1840-1926), o célebre pintor das ninfeias do Jardim de Giverny, onde morou em seus últimos quarenta anos de vida, também ficou conhecido pela série de mais de trinta obras sobre a Catedral de Rouen.

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Algumas das mais de 30 pinturas da Catedral de Rouen, pintadas por Claude Monet

As pinturas retratam o mesmo tema pintado em diferentes momentos do dia.

Monet disse: “Todos os dias eu capto e me surpreendo com alguma coisa que ainda não tinha sabido ver. Que difícil de fazer essa catedral! Quanto mais avanço, mais me fatiga restituir o que sinto; eu me digo que aquele que diz ter terminado uma tela é um terrível orgulhoso”.

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“La Cathédrale de Rouen – Le portail au soleil”, de Claude Monet

Para pintar os inúmeros quadros desta série, Monet submeteu-se a muitas sessões, indiferentemente da hora do dia e do tempo. Ele pintou sob o sol, sob a névoa, ao amanhecer, ao entardecer…

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie bleue”, de Claude Monet

Ele trabalhou no tema em dois períodos distintos, em que houve um intervalo de cerca de um ano, entre 1890 e 1894. Monet montou seu atelier frente para a catedral. Antes de iniciar cada pintura, estudou a construção e os efeitos luminosos. Foram pintadas cerca de trinta telas (alguns dizem que são mais de cinquenta), onde Monet reproduz o jogo de luz e as inúmeras mudanças na atmosfera, em vários momentos do dia, através da fachada da catedral.

Artistas e críticos acolheram muito bem essa série de Claude Monet, pois tratava-se de um grande acontecimento. Como escreveu Georges Clemenceau, grande estadista e jornalista francês, tratava-se de “uma forma nova de olhar, de sentir, de expressar uma revolução”.

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“Cathédrale de Rouen – Matin”, de Claude Monet. 1893

Também artistas como Picasso, Braque ou Lichtenstein viram essa série de pinturas sobre a Catedral de Rouen como “de importância fundamental na história da arte”, pois “obrigaria gerações inteiras a mudar suas concepções”.

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“Cathédrale de Rouen – Harmonie brune”, de Claude Monet. 1894

Na tentativa de transferir para a tela as diferentes mudanças cromáticas, Monet desabafou dizendo que “tudo muda, inclusive a pedra”.

 Autor: Catherine Beltrão