Todos os post de Catherine Beltrão

Engenheira de formação, amante das artes por criação. Por que não se pode ter intimidade com a Matemática, gostar de ler Dostoievsky, e se emocionar com uma fuga de Bach? Nunca entendi certas dicotomias, que separam Ciência e Arte. Eu amo e preciso das duas.

Macieiras em flor

Aqui em Nova Friburgo, as cerejeiras começam a florir. É um espetáculo único e efêmero, para os que gostam do inverno e das montanhas. E aí, eu me lembro de outras flores, depositadas no eterno por artistas e poetas: as flores das macieiras!

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“Pommiers en fleurs”, de Georges Wambach. 1937

“Solau à moda antiga”, de Mário Quintana

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto…

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Que seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa,
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor…

Claude Monet's Le Printemps.

“Le Printemps”, de Claude Monet. 1901

“Declaração de amor”, de Carlos Drummond de Andrade

Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona. florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus. meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Munch_Macieiraemflornojardim

“Macieira em flor no jardim”, de Edvard Munch.

“Poema duma macieira”, de Miguel Torga

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

 

Monet_PommiersenfleurspresdeVetheuil

“Pommiers en fleurs près de Vetheuil”, de Claude Monet.

Ode à tristeza, de Pablo Neruda

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“Macieira em flor”, de Vincent van Gogh. 1888

Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado,
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.

Sisley_Macieirasemflor

“Macieiras em flor”, de Alfred Sisley.

“A História da Macieira”, de Clarice Lispector

A macieira ficava a mesma durante todo o dia espiando as árvores frondosas que cresciam ao seu redor

Durante a noite a macieira olhava para o alto e via as estrelas no céu…e debaixo de sua pequenez, imaginava que as mesmas
estavam penduradas nos galhos das árvores ao seu redor e pensava – “por que razão Deus deu estrelas para essas árvores e
nada cresce nos meus galhos?”.

Ficava tristonha e esbravejava contra a sua sorte.

Pois que chega a primavera e os ganhos da macieira enchem-se de flores – lindas e perfumadas. As pessoas que frequentavam o
bosque correram para sua sombra, todos queriam descansar sob os galhos da pequena macieira. Ela, sempre querendo as
estrelas, desdenhava de suas flores.

_ Por que razão me destes flores ao invés de estrelas? Flores morrem e caem e eu não as terei mais em breve. Dizia a
macieira para Deus que respondia:

_ Não vês, então, macieira, que és a única que abriga pessoas sob teus galhos? Mas a pequena árvore não se satisfazia.

Chega o outono e um vento forte corta os ares do bosque. Macieira percebe que algo cai de seus galhos e olha para o chão.

_ Nossa, meu Deus, já não bastassem as flores que caíram e agora essas bolas vermelhas???!!!

Deus olha risonho para a pequena e petulante arvorezinha e pergunta:

_ Não vês, minha querida, o presente que te dei? Olha com atenção para este que partiu-se em dois.

Macieira, então, olha para a maçã que partira-se em dois e percebe, encantada, a pequena estrela escondida dentro dela.

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“Macieira em flor”, de Claude Monet.

“Mulheres são como maçãs”, de Machado de Assis

As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos,
mulheres são como maçãs em árvores.
As melhores estão no topo,
os homens não querem alcançar essas boas,
porque eles têm medo de cair e se machucar.
Preferem pegar as maçãs mais podres que ficam no chão,
que não são boas como as do topo,
mas são fáceis de se conseguir.
Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade,
ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar…
Aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

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“Macieira em flor”, de Piet Mondrian. 1912

A flor da macieira não é só beleza, não é só perfume, não é só ternura. É também a presença de Monet e de Neruda. De Van Gogh e de Machado. De Munch e de Torga. De Sisley e de Quintana. De Wambach e de Clarice. De Mondrian e de Drummond.

Autor: Catherine Beltrão  

Museu da Humanidade, o passado que sensibiliza

Em 2009, conheci um museu: o Museu da Humanidade. A impressão que tive na época me marca até hoje: um castelo fantástico, em estilo oriental, com milhares de artefatos antigos, muito bem organizados em inúmeras salas e aposentos formando um labirinto de mistérios a desvendar. E tudo aquilo que via tinha sido idealizado por um só homem: Claudio Prado de Mello.

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O Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro – IPHARJ – foi criado em 1990 e em 2002, nascia o Museu da Humanidade, uma instituição privada ligada ao Instituto, onde são guardados mais de 90 mil itens arqueológicos, entre estátuas, vidros, joias, armas, tecidos, roupas, objetos em metais, madeira e pedra, entre muitos outros, do Brasil e do mundo. Peças que vão dos primórdios da História até o século XIX. Na biblioteca, mais de 40 mil títulos.

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Claudio Prado de Mello com uma turma de crianças, em uma oficina de escavação

IPHARJ2O museu é uma criação do arqueólogo Claudio Prado de Mello, que também preside o IPHARJ. A construção não conseguiu patrocínio até hoje e os recursos são advindos das contribuições dos fundadores do instituto.

Com uma área total de 2.500 metros quadrados, o Museu da Humanidade é um castelo construído em estilo Islâmico (Mamalik) e possui quatro andares distribuídos em 14 metros de altura. O andar subterrâneo ainda está em implantação, onde está sendo montada uma galeria de arqueologia funerária.  A ideia é recriar um setor subterrâneo da forma que só conseguimos ver na velha Europa e no Mundo Oriental, trazendo para o público brasileiro a oportunidade de visitar tumbas egípcias,  pré-colombianas, romanas e inusitadamente a recriação de uma tumba de Palmira que foi implodida pelo Estado Islâmico em 2015. A propósito, cripta é sempre o lugar mais introspectivo e misterioso de um monumento, como acontece com as criptas da Catedral de Notre Dame e do imponente Panteão, ambas localizadas em Paris. Para quem conhece, sabe de que estou falando…

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No térreo, funciona a pleno vapor uma área de eventos e pesquisa, além de uma sala de exposições. Atualmente, há uma síntese do que é o museu, com peças como estátuas de calcário medievais, mármores romanos, itens de madeira asiática, instrumentos de tortura da época da escravidão e cerâmicas egípcia e grega.

IPHARJ6IPHARJ10O segundo andar, também ainda sendo implantado, tem 23 salas, cada uma com o objetivo de mostrar uma época da sociedade humana e ainda antes, desde a formação do planeta Terra até o século XIX, passando por Pré-História, Egito, Grécia, Roma, Bizâncio e mundo islâmico.

No terceiro e último andar, o museu reúne uma área de pesquisa, com dois laboratórios — um de lavagem e higienização das peças, outro de análise —, para averiguar os itens que são encontrados em escavações pelo país. Também nessa área, existe um jardim suspenso e quatro salas de reserva técnica, onde são depositados os materiais já analisados.

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As peças do museu vindas de fora do país são dos cinco continentes e foram compradas em leilões. Já as do Brasil foram adquiridas em escavações realizadas pelo IPHARJ. Elas pertencem à União, e nós ganhamos, em julho deste ano, o reconhecimento do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), ou seja, nos tornamos reserva oficial do Estado brasileiro. Para conseguirmos isso, seguimos uma série de determinações oficiais”, disse Claudio Prado em 2014.

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O Museu da Humanidade também dispõe de um bistrô – o Corniche – que disponibiliza algumas das mais finas iguarias de quatro continentes.

 

Mais informações:

Endereço: Av. Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, 443 B 1, Anchieta
Rio de Janeiro, RJ
www.ipharj.com.br
Face: https://www.facebook.com/Museu-da-Humanidade-Ipharj-1681895928797221/
e-mail: pradodemello@hotmail.com

Autor: Catherine Beltrão

Casas de Vincent van Gogh

Nos seus 37 anos de vida, Vincent van Gogh (1853-1890) habitou 37 endereços. Estes números fazem do artista um nômade. Casas, albergues, pousadas, não importa, ele precisava sempre mudar de ares, mudar de cheiros, mudar de luzes.

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“Casa amarela”. 1888. Uma das poucas obras em que Van Gogh representou a casa onde morava.

Associamos Van Gogh a girassóis, campos de trigo e autorretratos. Algumas flores… talvez. E a uma casa: a famosa “Casa amarela“. Mas ele pintou muitas casas!

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“Casa branca”. 1890

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“Casas em Auvers-sur-Oise”. 1890

Resolvi apresentar algumas das casas pintadas por Van Gogh, aquelas que ele resolveu eternizar em telas, tendo sido por ele habitadas ou não.

Van Gogh nasceu na pequena vila de Zundert, na Holanda. Em 1869 foi morar na cidade de Haia, e em 1872 em Bruxelas, na Bélgica. Dois anos depois, vai para Londres. Em 1875, encontra-se em Paris. Mas no ano seguinte, volta para a Inglaterra. Depois, volta a morar com os pais, em Etten, Holanda e em 1877, em Amsterdam. Depois, volta para a Bélgica.

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“Casas de palha”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em 1880, ele está em Bruxelas e escreve para o irmão “Eu não quero pintar quadros, eu quero pintar a vida”. Também ficou em Cuesmes, perto de Bruxelas. Foi nessa época que decidiu tornar-se um artista. Faz muitos desenhos, usa carvão e pastel. Neste mesmo ano, viajou para Bruxelas. Em 1881, mais um tempo em Etten e outro em Haia. Em julho de 1882 pinta seu primeiro quadro a óleo. No ano seguinte volta para a casa dos pais, onde passa os dias lendo e pintando.

Em 1883, foi para Drente, na Holanda e depois Nuenen, para morar novamente com os pais, focando o desenho e a pintura.

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“Igreja em Auvers”. 1890.  Sobre esta obra, escreveu Van Gogh: “Tenho um quadro maior da igreja, com um efeito em que a construção parece ser violeta, contra um céu azul escuro, cobalto puro; as janelas parecem manchas de azul marinho, o telhado é violeta e, em uma parte, alaranjado…”

Em 1885, Van Gogh começou a trabalhar no que é considerada a sua primeira obra-prima, “Comedores da Batata“. Van Gogh decidiu se mudar para Paris, em 1886, e ficou na casa de seu irmão Theo.

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“Casas em fazenda perto de Auvers”. 1890

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“Casas em Auvers”. 1890

Em fevereiro de 1888, aconselhado pelo amigo Toulouse-Lautrec, Van Gogh embarcou em um trem para o sul da França, à busca de luz. Desembarcou em Arles e foi morar na que depois se tornou a célebre “Casa amarela“, junto com seu amigo Paul Gauguin.

Em 1890, Van Gogh foi para Auvers, morar no Albergue Ravoux. Por uma diária de 3F50, Van Gogh ocupou um quarto minúsculo no sótão, de apenas 7 metros quadrados e uma claraboia no teto.

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“Albergue Ravoux”. Foto c. 1890, com a família Ravoux. Van Gogh não chegou a pintar esta casa…

A propósito: o quarto que ocupou em sua última morada nunca mais foi alugado por ninguém…

 Autor: Catherine Beltrão

As ilusões óticas de Oleg Shuplyak

Quando pesquisamos sobre ilusão de ótica no google, encontramos o seguinte texto: “A interpretação do que vemos no mundo exterior é uma tarefa muito complexa. Já se descobriram mais de 30 áreas diferentes no cérebro usadas para o processamento da visão. Umas parecem corresponder ao movimento, outras à cor, outras à profundidade (distância) e mesmo à direção de um contorno. E o nosso sistema visual e o nosso cérebro tornam as coisas mais simples do que aquilo que elas são na realidade. E é essa simplificação, que nos permite uma apreensão mais rápida (ainda que imperfeita) da «realidade exterior», que dá origem às ilusões de óptica.

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“Verão”, de Giuseppe Arcimboldo

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“Céu e água”, de M.C. Escher. 1938

Talvez um dos primeiros artistas que tenha usado este conceito tenha sido Giuseppe Arcimboldo (1527-1593). Suas obras principais incluem a série “As quatro estações“, onde usou, pela primeira vez, imagens da natureza, tais como frutas, verduras e flores, para compor fisionomias humanas. A sua obra haveria de influenciar, mais tarde no século XX, os pintores surrealistas, sendo redescoberto por Salvador Dalí.

Mas, sem dúvida alguma, foi M. C.Escher (1898-1971) quem mais fez uso do conceito de ilusionamento ótico para compor suas obras, com explorações do infinito e metamorfoses – padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Ele também era conhecido pela execução de transformações geométricas (isometrias) nas suas obras.

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“Autorretrato”, de Oleg Shuplyak

Mas quem conhece Oleg Shuplyak, um artista ucraniano nascido em 1967, que usa ilusões de ótica para criar várias obras em uma só?

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De quem são os rostos acima representados?

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E esse?

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Esse todo mundo sabe…

Oleg foi estudante de Arquitetura. No curso, aprendeu a criar imagens dentro de outras imagens.   Em seu tempo livre, ele começou a pintar paisagens, desenhando rostos de pessoas famosas dentro das pinturas.

O artista escolheu personagens como Salvador Dali, Paul Cezanne, Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Charles Darwin, Michelangelo, Leonardo da Vinci, John Lenon, William Shakespeare, entre muitos outros.

Em algumas de suas pinturas, a imagem do rosto está tão visível que a primeira imagem se  perde. Fica difícil para o espectador lembrar-se dessa primeira imagem… Então ele a procura, acaba encontrando, e é a segunda imagem que se perde. E assim, sucessivamente… É um verdadeiro jogo de pique-esconde de imagens em nossas mentes!

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Mais dois desafios…

Fui procurar em nossos poetas uma ilusão de ótica. Talvez aquele que mais brinca com as palavras a ponto de nos iludir e nos transviar seja Manoel de Barros. Senão, vejamos “O poeta“:

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Esse não é difícil…

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E esse, alguém sabe?

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria 13 anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

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Esse é um pequeno barco na imensidão do “deep blue”…

Ilusão de ótica. Pinturas duplas. Imagens ocultas. Vários nomes para um só sentimento: deslumbramento…

Autor: Catherine Beltrão

Palhaços e Cristos de Georges Rouault

Rouault

Georges Rouault

Georges Rouault (1871-1958), o mais importante artista cristão do século XX, nasceu em Paris, em um 27 de maio. Eu também. Na mesma cidade. No mesmo dia. Mas muitos anos depois… Este foi o motivo que me levou a escrever este post. Nesta semana.

Na foto ao lado, Rouault em seu atelier. Parece mais um cozinheiro em sua cozinha, preparando um banquete. Cada obra, um prato. Que será posteriormente degustado. Ou devorado. Pelos olhos. Pelos corações. Pelas mentes. Por isso mesmo, suas obras serão perenes. Contrariamente aos pratos de um banquete.

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“Pierrots bleus au bouquet”, 1946

Georges Rouault ocupa um lugar singular entre os artistas do século XX. Contemporâneo do Cubismo, do Expressionismo e do Fauvismo, ele nunca reivindicou  pertencer a um desses movimentos.

Rouault_1907

“The clown”, 1907

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“Clown tragique”, 1911

Frequentemente catalogado como pintor religioso, Rouault é antes de mais nada independente.  Não é num contexto abstrato que ele encontra sua inspiração, mas na realidade mais imediata e na espiritualidade mais elevada. Georges Rouault  é um pintor que não precisa de personagens religiosos para que suas obras estejam impregnadas de um caráter sagrado.

Georges Rouault trabalhou sem interrupção, com extrema dedicação, durante quase 70 anos. Esta é a razão de sua obra ser tão vasta e variada, tanto no que diz respeito à técnicas utilizadas quanto aos temas abordados. Mas alguns temas são recorrentes, como os palhaços e os cristos.

Rouault_1930

“Le vieux clown”, 1930

Rouault, que sempre repudiou a definição de “arte sacra” aplicada à sua obra, iniciou a carreira como pintor de vitrais, antes de estudar pintura na École des Beaux Arts como aluno de Gustave Moreau.

Rouault_1937

“Christ et docteur”, 1937

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“Cruxifixion”, 1937

Sua amizade com Léon Bloy, escritor de temas religiosos, reafirmou-o na fé católica, inspirando-lhe a composição de temas de conteúdo social. Assim, entre 1902 e 1917, ganharam forma em guaches e aquarelas as séries de palhaços, prostitutas, juízes e cenas de tribunais, nas quais o pintor parece sobrepor-se à fealdade dos modelos por meio de uma pincelada enérgica e de tonalidades sombrias.

Na década de 1910, Rouault dedicou-se à execução de obras de tendência monumental (como o ciclo Guerre et Misère, pintado entre 1917 e 1927, mas que só em 1948 seria conhecido pelo público). Realizou seguidamente diversos cenários para os Ballets Russes de Serguei Diaguilev.

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“Christ on the lake”

No final dos anos 20, retomou os temas clássicos, baseados em figuras de palhaços, pierrôs, mulheres, assim como em cenas do suplício de Cristo e do Antigo Testamento, impregnadas de uma sensibilidade mística e dolente. O cromatismo foi gradualmente adquirindo luminosidade, com contrastes extremos e contornos negros que recordavam a técnica do vitral.

Cristos e palhaços. O que levou Rouault a escolher estes personagens em suas criações? Talvez tentasse encontrar o humano do palhaço em Cristo ou o divino do Cristo em um palhaço…

 Autor: Catherine Beltrão

As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana

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Mary Cassatt, “Autorretrato”, 1880

Mary Cassatt (1844-1926) foi uma pintora nascida na Pensilvânia, Estados Unidos. Considerada uma grande pintora impressionista, Mary passou boa parte da vida adulta na França, tendo sido grande amiga de Edgar Degas .

Seus trabalhos costumam ser sobre o cotidiano de mulheres, com ênfase nos momentos íntimos de mães e seus filhos. É uma das “les trois grandes dames” (três grandes damas) do impressionismo, junto de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.

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“Mãe e filho”. 1897

Para sempre“, de Carlos Drummond de Andrade

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“A mãe costurando”

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“Maternidade”

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Mãe”, de Mário Quintana

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“Mãe e criança”. 1900

Mãe… São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras…
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer…
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

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“Mãe penteando o cabelo de sua filha”. 1898

Minha mãe“, de Vinicius de Moraes

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“O banho da criança”. 1880

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Tenho medo da vida, minha mãe.
 Canta a doce cantiga que cantavas
 Quando eu corria doido ao teu regaço
 Com medo dos fantasmas do telhado.
 Nina o meu sono cheio de inquietude
 Batendo de levinho no meu braço
 Que estou com muito medo, minha mãe.
 Repousa a luz amiga dos teus olhos
 Nos meus olhos sem luz e sem repouso
 Dize à dor que me espera eternamente
 Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
 Do meu ser que não quer e que não pode
 Dá-me um beijo na fronte dolorida
 Que ela arde de febre, minha mãe.

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“Na janela”. 1889

Aninha-me em teu colo como outrora
 Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
 Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
 Dorme. Os que de há muito te esperavam
 Cansados já se foram para longe.
 Perto de ti está tua mãezinha
 Teu irmão, que o estudo adormeceu
 Tuas irmãs pisando de levinho
 Para não despertar o sono teu.
 Dorme, meu filho, dorme no meu peito
 Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
 Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
 Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
 Afugenta este espaço que me prende
 Afugenta o infinito que me chama
 Que eu estou com muito medo, minha mãe.

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“Mãe Jeanne amamentando o seu filho”. 1907-8

Ninguém melhor do que Mary Cassatt soube representar a intimidade maternal. E deitar algumas de suas obras nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana, faz este berço ser feito de sonho, de poesia e de infinitos.

 Autor: Catherine Beltrão

Nos dias de Van Gogh, as batatas eram assim…

Quase sempre, associamos Van Gogh a girassóis. Ou à famosa “Noite Estrelada“. Ou a sua orelha cortada.   Ou ainda a campos de trigo. Com ou sem corvos. Mas quem associa Van Gogh a batatas?

Uma das mais eloquentes obras de Vincent van Gogh (1853-1890) é “Os comedores de batatas“.

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“Os Comedores de Batatas”, de Vincent van Gogh. 1885. 82 X 114cm, ost.
Museu van Gogh, Amsterdam

Este quadro pertence à primeira fase da pintura do artista, ainda desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do artista Jean François Millet (1814-1875), tendo feito várias releituras do pintor.

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“Os plantadores de batata”, de Jean François Millet. 1861. ost.
Museu de Belas Artes, Boston

Na época de Millet, muitas pessoas consideravam a batata um alimento inadequado até para animais (os tempos mudaram…).

Antes de pintar “Os comedores…“, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os comedores de batatas resume esse período.

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“Cabana”, de Vincent Van Gogh (1885). Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra “Os Comedores de Batatas”

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“Estudo para as mãos”, de Vincent van Gogh para a obra “Os Comedores de Batatas”

Na carta a seu irmão Théo, quando se refere a esse trabalho, diz: “Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”.

A obra é eloquente no seu conteúdo social. A preocupação do artista foi ser fiel à simplicidade dos camponeses, não apenas mostrando a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.

Van Gogh realizou diversos estudos para esse quadro, pintando cerca de quarenta cabeças de camponeses e desenhando diversas partes da composição, principalmente mãos. Foi sua primeira pintura composta por um grupo de personagens.

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Um dos estudos para a obra “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh

Para Van Gogh, tudo era cor. Inclusive a escuridão. Na obra “Os comedores de batatas“, ele trabalhou as sombras com azuis que, junto ao interior pouco iluminado pelo lampião, dão um aspecto frio ao ambiente. Bem diferente dos amarelos solares que viriam depois, nos girassóis e campos de trigo.

 Autor: Catherine Beltrão

Os crânios de Basquiat

Basquiat

Jean-Michel Basquiat

Jean-Michel Basquiat (1960 – 1988) foi um artista americano. Basquiat tinha ascendência porto-riquenha por parte de mãe e haitiana por parte de pai. Desde cedo mostrou uma aptidão para a arte e foi influenciado pela mãe, Matilde, a desenhar, pintar e a participar de atividades relacionadas ao mundo artístico. Aos seis anos, já frequentava o Museu de Arte Moderna de Nova York, de onde tinha carteira de sócio mirim.

Aos sete anos foi atropelado e no acidente teve o baço dilacerado. Foi submetido a uma cirurgia e ficou uma temporada no hospital. Sua mãe lhe deu de presente um livro de anatomia que teria grande influência em seu futuro de artista, revelado pelas pinturas de corpos humanos e detalhes de anatomia.

Aos 17 anos, Basquiat começou a fazer grafite em prédios abandonados em Manhattan. Ganhou popularidade primeiro como um grafiteiro na cidade onde nasceu e então como neo-expressionista.

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“Skull”, de Basquiat. 1981

No início dos anos 80, ele começou a namorar uma cantora desconhecida na época, Madonna. Neste mesmo ano, conheceu Andy Warhol, com quem colaborou ostensivamente e cultivou amizade.

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Outro crânio de Basquiat.

O período mais criativo da curta vida de Basquiat situa-se entre 1982-1985, e coincide com a amizade com Warhol, época em que fez colagens e quadros com mensagens escritas, que lembram o graffiti do início e que o remetem às suas raízes africanas. É também o período em que começa a participar de grandes exposições.

Com a morte do amigo e protetor Andy Warhol em 1987, Basquiat fica abalado, perdido e debilitado, e isso se reflete na sua criação. A crítica, exigente, já não o trata com unanimidade e Basquiat responde a essas cobranças como racismo. Vendo-se sozinho, passou a exagerar no consumo de drogas. Em 1988, põe fim à vida com uma overdose de heroína.

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Mais um crânio de Basquiat

Jean-Michel Basquiat utilizava imagens e palavras europeias e símbolos gráficos de cavernas africanas, além de imagens robotizadas e grafites em seus trabalhos. Basquiat procurava inspiração na arte histórica e até nos trabalhos figurativos de Jackson Pollock.

Na obra sem nome “Skull” (crânio), ele mostra uma seção da cabeça humana feita com pastiche e marcas de pontos que parecem juntar o crânio à cabeça. A parte azul ao redor da cabeça demonstra uma imagem eletrônica do mundo médico, e as letras na parte superior da obra parecem uma mensagem criptografada. A obra faz parte do acervo “The Eli Broad Family Foundation“, Santa Mônica, California, USA.

No próximo dia 18 de maio, será leiloado na Sotheby’s um dos crânios  de Basquiat. Esta tela foi comprada em um leilão por US$ 19 mil, em 1984, e permaneceu com a mesma família por 34 anos, segundo a casa de leilões. Pintada em 1982, é uma versão menor do quadro da coleção do bilionário Eli Broad, considerado uma das obras-primas do artista. Estima-se que a obra poderá chegar a US$ 60 milhões.

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Crânio de Basquiat, de 1982, a ser leiloado na Sothebys, em maio. Valor estimado: US$ 60 milhões

Jean-Michel Basquiat foi o primeiro afro-americano a ter sucesso nas artes plásticas de Nova York. O recorde atual para uma obra do artista é do bilionário japonês Yusaku Maezawa, que pagou US$ 57,3 milhões por um autorretrato de Basquiat em um leilão realizado pela Christie’s em maio de 2016.

Autor: Catherine Beltrão

Ave, índio!

O 19 de abril é o Dia do Índio. Desde 1943, três anos após os índios terem decidido participar do I Congresso Indigenista, no México.

Neste dia, hoje,  homenageio o índio representado por alguns artistas e um poeta. Debret, Victor Meirelles, Antonio Parreiras, Rodolfo Amoedo, Tarsila do Amaral, Carybé e Élon Brasil são os artistas. Gonçalves Dias, o poeta.

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J.B. Debret (1778-1848): “O caçador de escravos”

Gonçalves Dias (1823-1864), o poeta nacional do Brasil, foi um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como “indianismo“. Famoso por ter escrito o poema “Canção do Exílio” — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira — escreveu também muitos poemas dedicados ao índio brasileiro. Um deles é a “Canção do Tamoio“.

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Victor Meirelles (1832-1903): “Moema”

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

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Rodolfo Amoedo (1857-1941): “Último Tamoio”

III

O forte, o covarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

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Antônio Parreiras (1860-1937): “Iracema”

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

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Tarsila do Amaral (1886-1973): “O Batizado de Macunaíma”

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

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Carybé (1911-1997): “Dois índios”

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Nascido em 1957, Élon Brasil, assim como Gonçalves Dias, também tem três sangues percorrendo suas veias: o índio, o negro e o branco.

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Élon Brasil (1957): “O iniciado Kraho”

Quanto a mim, eu me orgulho de ter sangue índio nas veias. É pouco, mas tem. Talvez isso justifique meu amor à terra e aos rios. Às árvores e à liberdade.

Autor: Catherine Beltrão

As asas de Lalique e de Victor Hugo

Resolvi escrever sobre René Jules Lalique (1860-1945), mestre vidreiro e joalheiro francês. Lalique criou jóias, frascos de perfume, copos, taças, candelabros, relógios, entre outros objetos, dentro do estilo modernista, sobretudo Art nouveau e Art déco.

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Libélula, de Lalique.

Entre centenas de obras deslumbrantes, me deparei com as borboletas e as libélulas, jóias de sublime beleza, com suas asas de cristal voando até nossa alma.

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Lalique, pingente de libélula.

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Lalique, pingente de libélula

E, percorrendo as asas de Lalique, de repente me lembrei das asas de Victor Hugo (1802-1885), o grande poeta, dramaturgo e ensaísta francês, autor de “Os Miseráveis” e de “Notre Dame de Paris“,  entre diversas outras obras clássicas. 

Victor Hugo amava versos. Victor Hugo amava asas. E assim escreveu um de seus mais belos poemas: “Si mes vers avaient des ailes” (“Se meus versos tivessem asas“):

 

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Lalique, borboleta

 

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Lalique, borboleta

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Lalique, borboleta

Mers vers fuiraient doux et frèles
Vers votre jardin si beau
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’oiseau

Ils s’envoleraient, étincelles
Vers votre foyer qui rit
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’esprit

Près de vous purs et fidèles
Ils s’envoleraient nuit et jour
Si mes vers avaient des ailes
Des ailes comme l’amour.

Tradução livre:

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Lalique, libélula

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Lalique, libélula

Meus versos fugiriam doces e frágeis
Para teu jardim tão belo
Se meus versos tivessem asas
Asas como o pássaro

Eles voariam, faíscas
Para tua morada que ri
Se meus versos tivessem asas
Asas como o espírito

Perto de ti puros e fiéis
Eles voariam noite e dia
Se meus versos tivessem asas
Asas como o amor.

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Lalique, borboleta

E, para terminar,  Victor Hugo também dizia: “Adoro esta sensação de ter asas nas costas e uma borboleta no coração.” (“J’adore cette sensation d’avoir des ailes dans le dos et un papillon das le coeur. “)

Autor: Catherine Beltrão