Todos os post de Catherine Beltrão

Engenheira de formação, amante das artes por criação. Por que não se pode ter intimidade com a Matemática, gostar de ler Dostoievsky, e se emocionar com uma fuga de Bach? Nunca entendi certas dicotomias, que separam Ciência e Arte. Eu amo e preciso das duas.

Três pintores russos

Hora de falar da Rússia.

A arte russa é monumental. Música, balé, pintura… Sem falar na literatura. Vou focar na pintura. E somente em três pintores: Chagall, Kandinsky e Soutine.

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“A noiva”, de Marc Chagall. 1950

Marc Chagall (1887-1985) foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo-francês. Considerado  um pintor solar, abusou de cores, fantasias e sonhos em suas obras.

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“Paris, através da janela”, de Marc Chagall. 1913/14

E, por isso mesmo, precisou fugir das lideranças russas, que não viam relação entre Karl Marx, Lênin e uma vaca verde.  A França o adotou. Ela aceitava mais bodes tocando violino, vacas voando, peixes segurando vela…

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“Daphnis e Chloé”, de Marc Chagall. 1961. Detalhe

Em Paris, Chagall conheceu outros artistas, como Amadeo Modigliani e Guillaume Apollinaire.

Em 1956, Chagall recebeu uma encomenda de ilustrar um maravilhoso romance pastoral grego – “Daphnis e Chloé“. Ele passou 5 anos nesta tarefa, que resultou em 42 litografias magistrais.

Mas, embora tivesse passado pela Alemanha, França e EUA, Chagall sempre trouxe a alma russa para as suas obras:

Todo pintor nasce em algum lugar. Embora mais tarde ele possa reagir às influências de outros ambientes, uma certa essência – um certo ‘aroma’ de seu local de nascimento – adere à sua obra.”

“Vão se passando os anos e a gente se sente cada vez mais uma ‘árvore’ que precisa do solo que lhe é próprio, da chuva e do ar que são seus.”

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“Composição 8″, de Kandinsky. 1923

Wassily Kandinsky (1866-1944) foi um artista plástico russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das
artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.

Kandinsky foi muito influenciado pela Música e pela Teosofia.

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“Amarelo, Vermelho, Azul”, de Kandinsky. 1925

A influência da música foi bastante importante no nascimento da arte abstrata. A arte abstrata não representa o mundo exterior mas, sim, procura expressar, numa maneira imediata, os sentimentos interiores da alma humana. Kandinsky às vezes usava termos musicais para designar o seu trabalho; ele chamou a muitas das suas pinturas “Improvisações” e “Composições”.  O compositor Arnold Schönberg, com quem Kandinsky manteve correspondência entre 1911 e 1914, marcou muito de suas criações. Para saber mais, clique aqui.

Kandinsky_Composicao10_1939

“Composição 10″, de Kandinsky. 1939

A teoria teosófica propõe que a criação é uma proporção geométrica, começando num único ponto. O aspecto criativo das formas é expressado por uma série descendente de círculos, triângulos e quadrados.

Na obra “Composição X“, pequenos quadrados e faixas de cores variadas parecem projetar contra o fundo preto fragmentos de estrelas ou filamentos, enquanto hieróglifos – ou seriam abstrações de notas musicais? – com tons de pastel cobrem o grande plano marrom, que parece flutuar no canto esquerdo superior da lona, adotada como suporte para esta obra. E mais alguém identificou um pentagrama nesta composição?

Soutine_LesMaisons_1920-21

“Les Maisons”, de Chaïm Soutine. 1920/21

Chaïm Soutine (1893-1943) nasceu em uma pequena aldeia lituana, pertencente naquele momento ao Império Russo, sendo o décimo filho de uma família de onze irmãos. Seus problemas já começaram dentro de casa, pois seu pai não viu com bons olhos o interesse de Chaim por arte, visto que, dentro da comunidade judia ortodoxa onde viviam, estava proibida a representação de imagens.

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“Carcaça de carne”, de Chaïm Soutine. 1925

Ele também, assim como Chagall e Kandinsky, veio para Paris. Estabeleceu-se em Montparnasse, junto a outros artistas. Entre seus amigos estava também Amedeo Modigliani.

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“O pequeno pasteleiro”, de Chaïm Soutine. 1922/23

Nunca foi capaz de pintar a não ser que tivesse um modelo à sua frente. Certa vez, Soutine horrorizou seus vizinhos, por manter uma carcaça de boi em seu estúdio, para que pudesse pintá-la (“Boeuf écorché“). O fedor fez com que os vizinhos chamassem a polícia, a quem Soutine prontamente dissertou sobre a importância relativa da arte acima da higiene. Hoje, as três versões  dessa carcaça estão nos museus de Amsterdã, Grenoble e Buffalo.

Fazendo um paralelo entre Chagall e Soutine, o primeiro seria o dia, com o exterior predominando, a cor, a flor, a mulher… e o sonho, a imaginação. Já, Soutine representaria a noite, com a predominância do interior, do escuro, do sombrio, das entranhas, das carcaças.

Quanto à Kandinsky, a representação não se prende ao mundo exterior e ultrapassa o mundo interior. Seu abstracionismo remete a uma ligação com as sensações provocadas pela Música. Ou pelo Universo.

 Autor: Catherine Beltrão

 

O lote de US$ 1,63 bilhão… quem dá mais?

Da Vinci, Picasso, Modigliani, Bacon,  Giacometti, Munch, Basquiat e Warhol… o que eles têm em comum? Você sabe? Eles são os autores das dez obras mais caras já vendidas em leilão. Picasso e Giacometti aparecem duas vezes nesta lista. Os valores destas obras, em conjunto, ultrapassam US$ 1,63 bilhão!

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“Salvador do Mundo”, de Leonardo da Vinci.
45,4 cm x 65,6 cm – ost – cerca de 1500

Comecemos pela obra “Salvator Mundi” (“Salvador do Mundo“), de Leonardo da Vinci (1452-1519).  Ela representa Jesus Cristo, no estilo renascentista, dando uma bênção com a mão direita  levantada e os dedos cruzados enquanto segura uma esfera de cristal na mão esquerda. A obra precorreu uma extensa trajetória até ser   redescoberta em 2005. Alguns especialistas contestam a autoria de Da Vinci. Apesar disso, a obra foi vendida em leilão pela Christie’s em Nova York, em 15 de novembro de 2017, por US$ 450,3 milhões, estabelecendo uma nova marca para a pintura mais cara já vendida.

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“As mulheres de Argel”, de Pablo Picasso.
114 X 146,4cm – ost – 1954/55

A segunda obra mais cara é de autoria de Pablo Picasso (1881-1973). Sua obra “Les femmes d’Alger” (“As mulheres de Argel“) representa um harém, e foi arrematada por US$ 179,3 milhões em um leilão na casa Christie’s, em Nova York, em 11 de maio de 2015. Esta obra faz parte de uma série de 15 pinturas e vários desenhos feitos por Picasso, com o mesmo tema,  tendo o pintor sido inspirado pelo artista francês do século XIX, Eugène Delacroix.

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“Nu deitado”, de Amedeo Modigliani.
92 X 160cm – ost – 1917

No terceiro lugar, fica Amedeo Modigliani (1884-1920),  com a obra “Nu couché” (“Nu deitado“), vendida por US$ 170,4 milhões em 9 de novembro de 2015 na Christie’s de Nova York. A pintura é uma das famosas séries de nus que Modigliani pintou em 1917 sob o patrocínio de Léopold Zborowski, seu negociador polonês. Acredita-se que ela tenha sido incluída na primeira e única exposição de arte de Modigliani em 1917, na Galeria Berthe Weill, que foi encerrada pela polícia. Este grupo de nus de Modigliani serviu para reafirmar e revigorar o nu como sujeito da arte modernista.

Em seguida, temos a obra “Three Studies of Lucian Freud” (“Três estudos de Lucian Freud”), um tríptico de Francis Bacon (1909-1992), vendido por US$ 142,4 milhões em 12 de novembro de 2013  também na Christie’s de Nova York.

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“Três estudos de Lucien Freud”, de Francis Bacon.
147,5 X 198cm – ost – 1969

O tríptico é composto por telas do mesmo tamanho e emolduradas individualmente, que retrata o pintor Lucian Freud (neto de Sigmund Freud), grande amigo de Bacon, tendo um exercido grande influência sobre o outro. Os três painéis foram trabalhados ao mesmo tempo, mas foram vendidos separadamente em meados de 1970, após o tríptico ser exposto no Grand Palais/Paris (1971-1972), para tristeza do artista, que dizia que ficavam “sem sentido, a menos que um  estivesse unido aos outros dois painéis.” Mas em 1999 o trabalho voltou à sua forma original.

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“O homem que aponta”, de Alberto Giacometti.
177,5cm de altura – bronze – 1947

A quinta obra mais cara já vendida em leilão é a escultura “L’homme au doigt” (“O homem que aponta”), de Alberto Giacometti (1901-1966),  que se tornou em 11 de maio 2015, a escultura mais cara já leiloada ao alcançar o preço de US$ 141,28 milhões em um leilão promovido pela casa Christie’s, em Nova York. A obra é uma representação escultórica da filosofia do existencialismo e faz parte de uma série de seis peças, das quais é a única pintada à mão pelo artista. A peça de bronze faz parte de uma série de seis esculturas e foi vendida no mesmo leilão em que também foi vendida a obra “Mulheres de Argel” de Picasso.

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“O Grito”, de Edvard Munch.
83,5 X 66cm – óleo sobre tela, têmpera e pastel sobre cartão – 1895

Em sexto lugar, fica talvez a mais famosa desta lista de top10. Trata-se da obra “O Grito“, de Edvard Munch (1863-1944), vendida por US$ 119,9 milhões em 2 de maio de 2012 na Sotheby’s de Nova York.  Esta obra também pertence a uma série, com quatro pinturas conhecidas, que se encontram no Museu Munch, em Oslo, na Galeria Nacional de Oslo e a terceira em coleção particular. Em 2012, a quarta obra da série tornou-se a pintura mais cara da história a ser arrematada na época, num leilão. É uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Nesta versão de 1895 as cores são mais fortes do que nas outras três versões e é a única em que a moldura foi pintada pelo artista com o poema que descreve uma caminhada ao pôr-do-sol que inspirou a pintura. Outra particularidade única desta versão é que uma das figuras que está em segundo plano olha para baixo, para a cidade. O poema:
Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho – eu fiquei no lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza.”

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“Sem título”, de Jean-Michel Basquiat.
183 X 173cm – ost – 1982

Segue-se uma obra bastante controversa: a tela sem título de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), vendida por US$ 110,5 milhões em 18 de maio de 2017 na Sotheby’s de Nova York. Basquiat criou a obra com 21 anos, no momento mais importante de sua carreira como artista. “Tudo o que tocava era fantástico”, disseram os responsáveis da Sotheby’s durante a apresentação da tela antes do leilão. O comprador anterior pagou US$ 19 mil em um leilão em 1984. Desde então ela não voltou a ser vista em público. Os especialistas afirmam que é um dos três melhores quadros de Basquiat, transformado desde então em “uma grande obra prima”.

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“Nu, folhas verdes e busto”, de Pablo Picasso.
163 X 130cm – ost – 1932

O oitavo luga também pertence a uma outra obra de Pablo Picasso, o  “Nu au plateau de sculpteur” (“Nu, folhas verdes e busto“), vendida por US$ 106,4 milhões em 4 de maio de 2010 na Christie’s de Nova York.  A obra representa a amante de Picasso, Marie-Thérèse Walter, nua e reclinada, enquanto a cabeça do pintor está   representada num busto postado num pedestal, que observa a mulher logo abaixo. Faz parte de uma série de retratos que Picasso pintou de sua amante e musa Marie-Thérèse Walter, em 1932.

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“Silver car crash (double disaster)”, de Andy Warhol.
390 X 240cm – serigrafia – 1963

Segue mais uma obra polêmica, desta vez de Andy Warhol (1928-1987), a “Silver car crash (double disaster)”, vendida por US$ 105,4 milhões em 13 de novembro de 2013 na Sotheby’s de Nova York. A serigrafia é de tamanho monumental e pertence a um dos quatro trabalhos da série ‘Car Crash – Death and Disasters‘.  Especialistas afirmam que esta obra é um trabalho de grande escala e ambição, da mesma forma que  “Guernica“, de Picasso, ou a “ Balsa da Medusa” de Théodore  Géricault.

Para muitos, a série ‘Death and Disasters‘ é a conquista artística mais significativa de Warhol, considerado pai e expoente máximo da pop art.

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“O homem caminhando I”, de Alberto Giacometti.
183cm de altura – bronze – 1961.

Terminando esta lista, a segunda obra de Alberto Giacometti.  A escultura “L’homme qui marche” (“O Homem Caminhando I”) foi vendida  104,3 milhões de dólares em 4 de fevereiro de 2010 num leilão da Sotheby’s, em Londres. “Ela representa o ápice da experimentação de Giacometti com a forma humana e é tanto a imagem de um homem simples e submisso como um forte símbolo da humanidade“, afirmou a Sotheby’s, na época. Esta escultura é  considerada a principal obra de Giacometti e está estampada também na nota de 100 francos suíços. Existem seis originais da peça. O homem caminhando I faz parte de uma série de esculturas de bronze esbeltas feitas pelo artista suíço entre 1947 e sua morte e que representam homens e mulheres solitários.

Essa lista dos top10 é bastante intrigante. O mais amado dos pintores – Vincent van Gogh – já não consta da lista. Picasso e Giacometti estão representados duas vezes. Basquiat, um desconhecido para a maioria, está aí. Ele e Warhol talvez tomaram o lugar de Monet e de Van Gogh. Pop Art no lugar do Impressionismo. Munch e Modigliani seguram o expressionismo e o modernismo. E, acima de todos, o renascentista Leonardo da Vinci…

Autor: Catherine Beltrão

Isadora

Como sempre faziam na maior parte dos finais de tarde, Katia e sua avó Edith, recostadas respectivamente no sofá e na poltrona bergère da sala, repetiam seus rituais de leitura: livros de pintura para a avó, livros de balé para a neta.

De repente,  a menina exclamou:

- “Olha só, vó, descobri uma bailarina que faz aniversário no mesmo dia que eu: 27 de maio!”

- “É mesmo? E quem é?“, perguntou Edith:

- “Isadora Duncan! Você conhece, vó?

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Isadora Duncan, em 1904.

- “Se conheço? Conheço, sim. ” E a avó foi falando tudo que sabia sobre a bailarina.

Falou que Isadora Duncan tinha sido uma pioneira da dança moderna, para muitos a mais importante.  Ela era também revolucionária, amante das artes e um espírito livre e independente. Isadora se inspirava nos gregos e pelos movimentos da natureza, como o vento, plantas e animais.

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Isadora Duncan

- “E como ela fazia o movimento do vento, vó?

- “Isadora gostava de dançar de pés descalços, vestindo apenas uma simples túnica de seda. Assim, era mais fácil representar o vento… ”

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Isadora Duncan

Katia também ficou sabendo que Isadora não concordava com as regras e exigências do balé clássico: coreografias rígidas, sapatilhas de ponta, corpetes apertados. Quanto à música, ela gostava de dançar ao som de melodias dos compositores Frédéric Chopin e de Richard Wagner, o que também não era comum na época.

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Isadora Duncan

E, antes que a neta falasse alguma coisa, a avó pintora decretou:

- “Vou pintar uma bailarina Isadora pra você!

E Edith pintou a “Bailarina com véu lilás” para Katia.

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“Bailarina com véu lilás”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina, 50 X 38cm

Naquele dia, Katia soube que Isadora foi única e seu legado enorme, pois introduziu a liberdade na dança. Que seu nome é reconhecidamente um dos mais importantes da dança de todos os tempos. E que nunca haverá outra Isadora Duncan.

E, também naquele dia, Katia decidiu que iria deixar um legado. Não sabia ainda qual. Só sabia que este legado seria de Arte.

Autor: Catherine Beltrão

  Este é o 5º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”; 4º post: “Odete, Aurora ou Clara?”

Odete, Aurora ou Clara?

Katia e sua avó pintora estavam recostadas no sofá azul da sala, ouvindo música. Música de balé. Música do compositor  Peter Ilyich Tchaikovsky.

- “Vou pintar uma bailarina!“, disse a avó. E complementou:

- “Qual você gosta mais? A Odete, a Aurora ou a Clara?

Katia respondeu: “Chiii… não sei! Adoro as três!

E as duas, avó e neta, foram lembrando dos balés…

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Natalia Osipova e Matthew Golding, no balé “O Lago dos Cisnes”

A princesa Odete é a protagonista do balé “O Lago dos Cisnes“, o primeiro dos três balés musicados por Tchaikovsky. Um feiticeiro aprisionou Odete no corpo de um cisne, que vivia perto de um lago formado pelas lágrimas de sua mãe. De dia, Odete era cisne. À noite, ela voltava a ser princesa.

Mas o feitiço deixaria de existir quando um jovem lhe declarar amor e fidelidade.  E, se fosse traída,  Odete permaneceria para sempre como cisne.

- “É vó, lembro bem da Odete do ‘Lago dos Cisnes’… mas e a Aurora, ela é a princesa do balé ‘A Bela Adormecida’, não é?

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Natalia Osipova e David Hallberg, no balé “A Bela Adormecida”

É. Katia lembrava muito bem do conto de fadas de Charles Perrault: o personagem principal é a princesa Aurora que também é enfeitiçada por uma fada maligna, logo que acaba de nascer. Um dia ela terá um dedo picado pelo fuso de uma roca e irá cair num sono profundo. Só irá acordar quando um príncipe encantado lhe der um beijo de amor verdadeiro.

- ” Puxa, vó, tá difícil escolher… e a Clara lembra o Natal, certo?”

- “Certíssimo! Uma grande árvore de Natal é o cenário do balé ‘O Quebra Nozes’”, disse a avó.

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Natalia Osipova e Mathias Heymann, no balé “O Quebra Nozes”

E ambas foram puxando pela memória…

No balé ‘O Quebra Nozes‘, a menina Clara ganha um presente muito especial, um boneco quebra nozes. Em disputa com o irmão, o boneco se quebra e ela vai dormir muito triste. Mas, em seus sonhos,  o boneco ganha vida e se transforma em um príncipe. Juntos, os dois fazem uma viagem mágica dentro de uma árvore de Natal.

- “Tive uma ideia!“, falou de repente a avó.

- “Vou pintar uma bailarina. E você decide se é a Odete, a Aurora ou a Clara… Tá bom assim?

- “Tá ótimo!“, respondeu a neta.

E a avó pintou “A bailarina ajoelhada de tutu branco” para Katia.

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“Bailarina ajoelhada de tutu branco”, de Edith Blin. 1957, pastel sobre cartolina, 50 X 38cm

E você? Qual das três bailarinas você acha que a Katia escolheu para representar a pintura? A Odete? A Aurora? A Clara?

   Autor: Catherine Beltrão

 Este é o 4º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás“; 3º post: “A Bailarina de Tutu Amarelo”.

 

Origami, a arte milenar japonesa

Dobrar papel é educação. É arte. É terapia. É religião.

A palavra origami é oriunda do japonês ori, que significa dobrar, e kami, que significa papel. Os estudiosos acreditam que a arte do origami tenha se originado junto com o papel. Os primeiros registros do surgimento do papel vêm da China, no ano de 105 d.C.

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“Carneiros”. Imagem: Beth Johnson

Uma peça de origami usa apenas um pequeno número de dobras diferentes, mas estas peças, podem ser combinadas de diversas maneiras, para formar desenhos complexos. Geralmente, parte-se de um pedaço de papel quadrado, cujas faces podem ser de cores ou estampas diferentes, prosseguindo-se sem cortar o papel.

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“Cisne vermelho”

Ao contrário da crença popular, o origami tradicional japonês, que é praticado desde o Período Edo (1603-1868), frequentemente foi menos rígido com essas convenções, permitindo até mesmo o corte do papel durante a criação do desenho, ou o uso de outras formas de papel que não a quadrada (retangular, circular etc.).

A grande divisão entre a antiga dobradura do papel e a nova surgiu cerca de 1950, quando o trabalho de Akira Yoshizawa se tornou conhecido. Foi Yoshizawa quem criou a ideia da dobradura criativa (Sasaku Origami) e inventou um conjunto de métodos que nada deviam ao origami do passado, permitindo “dobrar” uma série de animais e pássaros.

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“Violino”. Imagem: Gen Hagiwara

Segundo a cultura japonesa, aquele que fizer mil grous de origami (Tsuru, “grou”) teria um pedido realizado – crença esta popularizada pela história de Sadako Sasaki, vítima da bomba atômica. E quem foi Sadako Sasaki?

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“Árvore de tsurus”

Sadako Sasaki (1943-1955) foi uma garota japonesa que vivia distante do epicentro da bomba lançada pelos Estados Unidos em 6 de agosto de 1945, juntamente com a mãe e o irmão, e que saiu ilesa do ataque. Mas consta que durante a fuga, eles foram encharcados pela chuva radioativa que caiu sobre Hiroshima ao longo daquele dia fatídico. Ela tinha apenas 2 anos de idade quando se tornou uma vítima da bomba atômica.

Em 3 de agosto de 1955, Chizuko Hamamoto, amiga de Sadako, visitou-a no hospital e fez para ela um origami de um Tsuru. Sua amiga lhe contou a lenda popular japonesa onde quem faz mil Tsurus de origami tem direito a um desejo atendido pelos deuses, desde então, todo dia Sadako passou a fazer seus Tsurus sempre com o mesmo pedido, se curar e voltar a viver normalmente, como sua doença foi causada pela bomba, ela pediu também pela paz da humanidade. Sadako conseguiu fazer 643 Tsurus de papel e após sua morte, seus amigos fizeram mais 357, para que ela fosse enterrada com os mil Tsurus. Sadako morreu no dia 25 de outubro de 1955, seus amigos ergueram um monumento em sua memória, no Parque da Paz (em Hiroshima), e lá gravaram as seguintes palavras, “Este é o nosso grito, esta é a nossa oração. Paz na terra!“.

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“Icosaedro estrelado”

Não seriam apenas os japoneses a dobrar o papel, mas também os mouros, no Norte de África, que trouxeram a dobradura do papel para Espanha na sequência da invasão árabe no século VIII. Os mouros usavam a dobradura de papel para criar  figuras geométricas, uma vez que a religião proibia-os de criar formas animais. Da Espanha, espalhou-se para a América do Sul. Com comerciais terrestres, o origami entrou na Europa e, mais tarde, nos Estados Unidos.

E o que a arte do origami tem a ver com a Matemática? Muita coisa!

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“Unicórnio”, de Roman Diaz

No ensino médio, a partir de  um pedaço de papel quadrado, podemos dobrar o papel formando figuras que contribuem para aperfeiçoar o estudo de divisões, frações, razão e proporção, fixar conceitos geométricos como bissetriz, simetria e congruência, além de organizar o pensamento e exercitar a memorização.

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O origami e a Matemática

Também é possível resolver qualquer equação cúbica usando apenas dobraduras de papel. Por exemplo, é possível calcular a raiz cúbica de 2, e resolver assim o famoso “problema deliano” da antiga Grécia. Outros problemas clássicos que envolvem equações cúbicas também podem ser similarmente resolvidos, tais como a trissecção de um ângulo e a construção de um heptágono regular.

Em tempo: já fiz milhares de tsurus. Isto significa que tenho disciplina, persistência e determinação. Se já realizei alguns desejos? Sim. Muitos.

Autor: Catherine Beltrão

Criar é uma forma de resistir

Há várias formas de resistir a um status quo, à inércia, a uma situação negativa, que vai contra o Ideal de qualquer um de nós. Uma delas é através da criação. A personagem é uma pintora francesa, autodidata, que pintou, nos anos 40, a Resistência Francesa em solo brasileiro.

Um tributo a Edith Blin, a “pintora da alma“.

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Cartaz convite para a palestra “Criar é uma forma de resistir”, na FECAP/SP, proferida em 11.05.2018.
Dueto de Arte e História, com a profa. Catherine Beltrão e a profa. Daniela Medeiros.

Edith Blin nasceu na cidade de Pontorson, na Normandia, região ao norte da França, em 22 de julho de 1891. Esta cidade fica bem em frente ao Mont Saint-Michel, uma das maravilhas do mundo. Edith casou duas vezes e teve três filhos.

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Edith como atriz de teatro, nos anos 20.

Nos anos 20 e início dos anos 30, foi atriz, adotando o nome de Edith Dereine. Como atriz, conheceu o pintor belga Georges Wambach, que iria ser decisivo em sua decisão de pintar. Em 1935, embarcou com a família e o amigo Wambach para o Brasil, no navio Bagé. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda no Brasil, ela teria perguntado ao pintor por que ele continuava pintando paisagens bucólicas enquanto a Europa era devastada pelos nazistas. E Wambach teria respondido: “ Por que não pinta você o que você sente?”.

E ela começou a pintar.

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“Maquis”, de Edith Blin. 1945, óleo sobre madeira, 41 X 33cm

Autodidata, um ano depois ela fazia sua primeira exposição. Sucesso total. Muitas matérias e artigos em jornais e revistas. O tema principal era a Resistência Francesa, mas ela também pintava nus e retratos. Em 1945 e 1946, mais duas exposições. Mais sucesso. Mais artigos em jornais. Teve até obra estampada em capa de revista.

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“Juin 1940″, de Edith Blin. 1943, óleo sobre tela, 100 X 65cm

Em 1947, sua mãe ficou doente e pediu para voltar para a França.

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“Piétà de Normandie”, de Edith Blin. 1947, óleo sobre madeira, 102 X 78cm

Elas voltaram e Edith doou duas obras para serem leiloadas em um evento visando obter fundos para a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na Batalha de Saillant -de-l’Odon, na Normandia. Em agradecimento pelas doações, ela recebeu, então, um pergaminho manuscrito da comunidade local, dotado de mapa, selos e insígnias, relatando a batalha e um texto sobre sua obra.

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Pergaminho sobre a Batalha de Saillant-sur-Odon, entregue a Edith Blin, em agradecimento à doação de duas obras visando a construção do portão do cemitério dos soldados mortos na batalha.

Ao final deste mesmo ano, sua mãe morreu. Edith não queria mais pintar. Em meados de 1948, sua neta Katia nasceu. A mãe de Katia estava doente e não podia cuidar do bebê. Edith então assumiu a criação da neta. Em 1949, voltou para o Brasil. Enquanto cuidava de Katia, voltou a pintar. Os temas eram variados: flores, paisagens, pierrôs, bailarinas, naturezas mortas e rostos. Muitos rostos. Entre eles, retratos. Muitos retratos.

Edith Blin só voltou a expor em 1969. Neste período, ela já tinha aprimorado muito a sua técnica, usando a cartolina preta como suporte, além da habitual tela. Pintava com pincéis e espátulas para espalhar a tinta a óleo na tela ou cartolina, e os próprios dedos, quando fazia uso do pastel. Fez tantos pastéis, que perdeu as digitais de alguns dedos. Como estudos, deixou muitos desenhos a carvão em vários cadernos. Participou de algumas exposições individuais e coletivas, até sofrer o primeiro derrame cerebral, em 1979. Continuou pintando por mais um ano, mas os derrames se sucederam até sua morte, que ocorreu em 29 de julho de 1983. Tinha 92 anos.

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“Paris”, de Edith Blin. 1944, óleo sobre tela, 64 X 53cm

Edith Blin , “la peintre de l’âme” (“a pintora da alma”), deixou um imenso legado. Seu legado não é dimensionado somente pelas obras pintadas, estimadas em cerca de 1300. O legado é muito mais qualitativo do que quantitativo. O que importa é por que pintou, o que pintou e como pintou. Autodidata, começou a pintar porque precisava expressar um sentimento de angústia por sua pátria e seus patrícios que eram dizimados na guerra. Pintou a resistência francesa, pintou os nus etéreos e pintou as flores ao vento. Pintou 148 retratos da neta Katia, de bebê aos 32 anos idade. E inovou na forma de pintar, com o uso da cartolina preta como suporte para suas obras, nos anos 60. Segundo ela mesma dizia, “era mais fácil de rasgar quando não gostava do que havia pintado”.

Autor: Catherine Beltrão

As mães de Portinari e de Cecília

Cândido Portinari (1903-1962) e Cecília Meireles (1901-1964) foram impressionantemente contemporâneos. Pintor e poeta atravessaram os mesmos tempos, respiraram o mesmo ar da pintura e literatura modernistas, sofreram as mesmas dores no parto de suas obras. Em algumas delas, a personagem “mãe” se fez representar.

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“Mãe Preta”, de Cândido Portinari – 1940

“Vigília das Mães”, de Cecília Meireles

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1936

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

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“Mulher e criança”, de Cândido Portinari – 1938

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

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“Criança morta”, de Cândido Portinari – 1944

“Lamento da mãe órfã”, de Cecília Meireles

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“Mãe chorando”, de Cândido Portinari – 1944

Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

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“Mulher e crianças”, de Cândido Portinari – déc. 40

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.

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“Sofrimento de mãe”, de Cândido Portinari – 1955

Cada mãe ficou mais rica depois de Portinari e de Cecília. Inclusive eu.

Variações sobre um mesmo tema: “As mães de Mary Cassatt descansando nos versos de Drummond, Vinicius e Quintana” e “As mães de Picasso”.

Autor: Catherine Beltrão

Van Gogh: 40 autorretratos e 800 cartas

Vincent van Gogh, sem dúvida o mais conturbado e valorizado pintor do século XIX, pintou mais de 40 autorretratos somente no período 1886 a 1889. Ele também teria escrito mais de 800 cartas, a maioria para o seu irmão Théo.  Por que Van Gogh tinha esta imensa necessidade de expor seu mundo interior?

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O último autorretrato de Van Gogh. 1889
Vídeo com alguns dos autorretratos.

Este post apresenta 17 destes autorretratos, além de trechos de algumas de suas cartas.

Em sua última carta, escreveu: “[...] em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte [...]”

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“Autorretrato, com orelha enfaixada e cachimbo”. 1889

VanGogh_autorretrato3Algumas vezes Vincent se referiu a Paul Gauguin, seu grande amigo: “Eu por mim acredito que Gauguin tinha se desanimado um pouco com a boa cidade de Arles, com a casinha amarela onde
trabalhamos e, sobretudo, comigo. De fato, tanto para ele quanto para mim, aqui ainda existiriam sérias dificuldades a vencer. Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte. Em suma, por mim eu acredito que ou ele vai decididamente partir, ou ele decididamente ficará aqui.”

E após decepar sua orelha, também se preocupou com Gauguin:

“Falemos agora de nosso amigo Gaugin, eu o assustei? Afinal porque ele não me dá nenhum sinal de vida? Ele deve ter ido embora contigo. Aliás, ele precisava rever Paris, e em Paris talvez ele se sinta mais em casa do que aqui. Diga a Gauguin que me escreva, e que sempre penso nele.”

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“Autorretrato”. 1889

Escreveu sobre ‘bondade’. E sobre ‘loucura’.

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“Autorretrato, dedicado a Gauguin”. 1888

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“Autorretratoi sem barba”. 1889

“Devo dizer que os vizinhos etc. são de uma bondade particular comigo, como todo mundo aqui sofre seja de febre, seja de
alucinação ou loucura, entendemo-nos como gente de família [...] Quanto a considerar-me totalmente são, não devemos fazê-lo [...] Peço-lhe, portanto, que não diga que eu não tenho nada, ou não teria nada.” 1889

O que me consola um pouco é que estou começando a considerar a loucura como uma doença qualquer, e aceito a coisa como ela é, enquanto que, durante as crises, parecia-me que tudo o que eu imaginava era real [...] Poupe-me das explicações, mas peço a você e aos Srs. Salles e Rey que ajam de maneira que fim do mês ou começo de maio eu vá para lá como pensionista internado.” 1889

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“Autorretrato”. 1888

E o “ser vagabundo”…

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“Autorretrato”. 1888

VanGogh_autorretrato4“Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.

Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.

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“Autorretrato”. 1887

VanGogh_autorretrato11Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”

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“Autorretrato”. 1887

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“Autorretrato”. 1887

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

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“Autorretrato”. 1886/87

E as cores. Benditas cores.

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“utorretrato com cachimbo”. 1886

VanGogh_autorretrato16“… As cores se sucedem como que sozinhas e ao tomar uma cor como ponto de partida me vem claramente a cabeça o que deduzir, e como chegar a dar-lhe vida. Não posso entender, por isso, a grosso modo, que um pintor faz bem quando parte das cores de sua palheta em vez de partir das cores da natureza. Interessa-me menos que minha cor seja precisamente idêntica, ao pé da letra, a partir do momento em que minha tela ela fique tão bela quanto na vida. A cor, por si só, exprime alguma coisa, não se pode prescindir disso, é preciso tomar partido. O que produz beleza, beleza verdadeira, também é verdadeiro e isso realmente é pintura e é mais belo que a imitação exata das próprias coisas.”E depois, como você bem sabe, gosto muito de Arles, embora Gauguin tenha uma tremenda razão em chamá-la de a mais suja cidade de todo o Midi. E encontrei tantas amizades já entre os vizinhos, junto ao sr. Rey, e aliás entre todo mundo no hospício, que realmente eu preferiria continuar a ficar doente aqui, que esquecer a bondade destas mesmas pessoas que têm os mais incríveis preconceitos para com os pintores e a pintura. 1889

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“”Autorretrato”. 1886

E, novamente, a “bondade”:

Esses dias, mudando, transportando todos os móveis, embalando as telas que lhe enviarei, foi triste, mas me parecia muito mais triste o fato de que isso me foi dado com tanta fraternidade por você, e que durante tantos anos foi no entanto você sozinho quem me sustentou, e afinal ser obrigado a vir lhe contar toda esta triste história; mas me é difícil exprimir isto como eu o sentia. A bondade que você teve para comigo não se perdeu, pois você a teve e isto permanece sendo seu, e mesmo que os resultados materiais fossem nulos, é razão a mais para que isto permaneça sendo seu [...]. 1889

Todas as suas bondades para comigo, hoje eu as achei maiores do que nunca, não consigo dizer-lhe como eu o sinto, mas eu lhe asseguro que essa bondade foi de um bom quilate, e se você não vê seus resultados, meu caro irmão, não se atormente por isto, sua bondade permanecerá.

O que fazer com tanta bondade, tanta loucura e a sensação de “ser vagabundo”? Pintar? Escrever? As duas coisas, sem dúvida alguma.

Autor: Catherine Beltrão

 

 

 

A Morte do Cisne

O que associa uma bailarina a um cisne?

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Anna Pavlova, em “A Morte do Cisne”, por Ernst Oppler.
Filmado em 1925.

Talvez o bater de suas asas que se confundem com o modo de mover os braços da bailarina… ou a curvatura de seu pescoço com os posicionamentos da cabeça no ato de dançar… ou a cor e a textura de sua penugem, facilmente associados à cor branca, com penas presas ao acessório de cabeça e tutus que remetem à pureza e beleza do cisne branco.

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Galina Ulanova, em “A Morte do CIsne”.
Vídeo de 1956

Embora quase todos associem o cisne ao balé “O Lago dos Cisnes”, que teve sua primeira montagem em 1877, é no “A Morte do Cisne” que a bailarina pode emprestar à coreografia toda a intensidade dramática que este balé exige.

A Morte do Cisne” foi criado em 1905 por Michel Fokine (1880-1942) para a grande bailarina Anna Pavlova  (1881-1931). Este balé, com a música “O cisne” de “O carnaval dos bichos” (“Le Carnaval des Animaux“), de Camile Saint-Saens (1835-1921), foi composto em 1875 e se tornou o balé assinatura da carreira da bailarina russa.

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Maya Plisetskaya, em “A Morte do Cisne”.
Vídeo de 1975.

Com duração de 3’20”, a coreografia de Fokine é composta de pequenos e leves movimentos da parte superior do corpo, com os pés executando “pas de bourée couru“, o que, muito mais de uma grande demanda técnica, exige da bailarina uma empressão dramática em cena. Com isso, cada intérprete tem a “liberdade” para imprimir sua assinatura na obra. Em última análise, cada bailarina pode interpretar a morte do cisne como sua própria morte. Em consequência, cada espectador pode enxergar na interpretação a sua própria morte.

Foram muitas as bailarinas que dançaram “A Morte do Cisne“. Mas, além de Anna Pavlova, que inspirou a obra, mais três bailarinas russas chegaram à interpretação magistral deste curto ballet: Galina Ulanova (1910-1998), Maya Plisetskaya (1925-2015) e Natalia Makarova (1940).

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Natalia Makarova, em “A Morte do Cisne”.
Vídeo de 1975.

Há um grande espaço de tempo entre a formação de Pavlova para a de Makarova, sendo que ambas se formaram na escola do Balé Mariinsky, em São Petersburgo. Neste período, vê-se nitidamente pelos vídeos que o corpo de uma bailarina sofre grandes mudanças: a musculatura é mais acentuada em Makarova, tanto nos braços quanto nas pernas, há nela uma força física mais aparente, o que na época da Pavlova não era valorizado, muito pelo contrário, evitava-se. O trabalho de ponta também é mais pronunciado, com o arco do pé mais trabalhado e mais perceptível. A força em Makarova é mais evidente mas, ao mesmo tempo, a leveza continua presente, já que se trata da técnica do balé.

Para mim, “A Morte do Cisne” sintetiza em pouco mais de três minutos, até aonde uma associação entre a arte da dança e da música pode nos levar a uma pura emoção.

 Autor: Catherine Beltrão

A bailarina de tutu amarelo

Era final de tarde. O sol se punha no horizonte. E Katia folheava um livro. Um livro cheio de imagens. Imagens de bailarinas.

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“Danseuses aux jupes jaunes”, de Edgar Degas.

As imagens das bailarinas eram do pintor Edgar Degas.

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“Fin d’arabesque”, de Edgar Degas.

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“Danseuse jaune”, de Edgar Degas

A avó de Katia já tinha falado muita coisa de Degas para a neta. Que ele era conhecido como “o pintor das bailarinas“. E que ele  tinha pintado mais de 1.000 bailarinas!

Mas ele não gostava de ser chamado assim. Se Degas gostava ou não, não importava. O que Katia tinha certeza é que ela nunca tinha visto bailarinas tão bonitas como neste livro!

Uma coisa que Katia percebeu nas imagens era a roupa que as bailarinas usavam. Todas vestiam um corpete apertado  e uma saia de várias cama­das, umas compridas e outras nem tanto.

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“Leçon de dance”, de Edgar Degas

Katia, que também estudava balé, sabia que essa roupa tinha um nome: “tutu“. Era uma palavra francesa, como quase todas as outras que conhecia neste mundo da dança: écarté, entrechat, fouetée, cambré…

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“Deus danseuses en jaune”, de Edgar Degas

E a menina continuava a prestar atenção nas bailarinas de Degas. Os tutus eram de várias cores… tinha tutu branco, tinha tutu azul. Mas Katia gostava mesmo era dos tutus amarelos. Na sua imaginação de menina, ela achava que o tutu amarelo bem que poderia ser um enorme girassol para vestir! A bailarina poderia ser um lindo girassol dançante…

E foi quando Katia pensava no girassol dançante que a avó chegou.

- “Vó, me faz uma bailarina de tutu amarelo?”, pediu ela.

A avó de Katia era pintora. Ela já tinha pintado bailarinas, mas nenhuma com tutu amarelo.

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“Deux danseuses jaunes et roses”, de Edgar Degas

- “Faço, minha linda”, respondeu a avó. “Mas tem que ser com tutu amarelo?”

- “Tem sim, vó. Tutu amarelo parece girassol!

E a avó pintou a “Bailarina de Tutu Amarelo” para Katia.

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“Bailarina de tutu amarelo”, de Edith Blin. 1957. Pastel sobre cartolina preta.

- “Uau, que bonita, vó! Parece mesmo um girassol dançando…”

 Autor: Catherine Beltrão

 Este é o 3º post da série “Bailarinas“.  1º post: “A Bailarina Azul”; 2º post: “A Fada Bailarina Lilás