Todos os post de Catherine Beltrão

Engenheira de formação, amante das artes por criação. Por que não se pode ter intimidade com a Matemática, gostar de ler Dostoievsky, e se emocionar com uma fuga de Bach? Nunca entendi certas dicotomias, que separam Ciência e Arte. Eu amo e preciso das duas.

Do barroco ao moderno, perucas… hoje, de papel

No período barroco, lá pelos idos do século XVII, imensas perucas estilizadas, enfeitando cabeças de homens e mulheres, costumavam fazer sentido como parte da indumentária da época.  Já mais tarde. um século depois, talvez tenha sido a rainha Maria Antonieta, aquela que foi decapitada, a figura mais lembrada portando o tal acessório.

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 Nos tempos atuais, iniciando o terceiro terceiro, a artista russa Asya Kozina resolveu reviver as tais perucas. Mas, desta vez, esculpindo em papel.

Asya4Desde 2007 Kozina trabalha com as esculturas, que chama a atenção logo no primeiro olhar. A artista já contou que todo seu gosto pelo papel vem da infância, e desde então ela segue
fascinada pelo material.

Dentre os trabalhos feitos com papel, se destacam os trajes e as perucas fascinantes e detalhadas. As perucas lembram muito os famosos poufs – acessórios de cabeça – usados pela rainha Maria Antonieta, extravagantes e volumosos, e copiado por milhares de mulheres em sua época.

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No livro Rainha da Moda, Caroline Weber define o adereço:

Asya5Pouf é um adorno construído sobre uma armação de arame, tecido, gaze, crina de cavalo, cabelo falso e os cabelos da própria mulher que o usava, eriçados altos acima da testa. E no meio dos poufs ainda iam miniaturas de natureza morta: flores, animais, frutos.”

Todas as perucas são na cor branca, e algumas contêm elementos do cotidiano (assim como Antonieta também adorava adornar sua cabeleira, com pássaros e até pequenos barcos). Primeiramente a artista faz um esboço do que será feito, e em seguida parte para o trabalho todo manual.

Asya6A série mais recente é uma combinação de luxo antigo e novo, onde o arranha-céus sobe no topo de um penteado ornamentado e o avião está decorado com flores e penas de avestruz“, descreve Asya Kozina.  Seus projetos emprestam do passado, mas também representam o presente, integrando símbolos da tecnologia moderna – aviões, edifícios – a um dos estilos históricos mais generosos que existiram, o barroco.

Finaliza Kozina: “Isso é arte pela arte, estética pela estética. Sem sentido prático. Somente a beleza é o destaque.

 Autor: Catherine Beltrão

Musicais dos anos dourados

Os anos 60 foram meus anos dourados. E três musicais douraram estes anos. Os três já cinquentões…

Começo por “West Side Story” (“Amor Sublime Amor“), de 1961.

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Vídeo com a canção “Somewhere”.

Com direção de Jerome Robbins e Robert Wise e música de
Leonard Bernstein, ganhou o Oscar de melhor filme em 1962.

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Cartaz do filme

West_gangsA história é uma adaptação livre de “Romeu e Julieta“, de William Shakespeare. No lado oeste de Nova York, à sombra dos arranha-céus, ficam os guetos de imigrantes e classes menos favorecidas. Duas gangues, os Sharks, de porto-riquenhos, e os Jets, de brancos de origem anglo-saxônica, disputam a área, seguindo um código próprio de guerra e honra. Tony (Richard Beymer), antigo líder dos Jets, se apaixona por Maria (Natalie Wood), irmã do líder dos Sharks, e tem seu amor correspondido. A paixão dos dois fere princípios em ambos os lados, acirrando ainda mais a disputa.

O segundo a colorir  minha adolescência foi “My Fair Lady” (“Minha Bela Dama“), de 1965.

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Vídeo com a canção “I Could Have Danced All Night”

Dirigido por George Cukor e música de Frederick Loewe, ganhou o  Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1965.

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Cartaz do filme

Fair_TheraininSpainTendo sido adaptado de “Pygmalion“, de George Bernard Shaw, “My Fair Lady” conta a história de Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma mendiga que vende flores pelas ruas escuras de Londres em busca de uns trocados. Em uma dessas rotineiras noites, Eliza conhece um culto professor de fonética Henry Higgins (Rex Harrison) e sua incrível capacidade de descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seus sotaques. Quando ouve o horrível sotaque de Eliza, aposta com o amigo Hugh Pickering, que é capaz de transformar uma simples vendedora de flores numa dama da alta sociedade, num espaço de seis meses.

Também de 1965, é o musical “The Sound o Music” (“A Noviça Rebelde“).

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Vídeo com a canção “The Sound of Music”

O filme teve direção de Robert Wise e música de Richard Rodgers e
Oscar Hammerstein II, ganhando o Oscar de melhor filme em 1966.

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Cartaz do filme

Novica_SolongfarewellAdaptado do livro “The Story of the Trapp Family Singers“, escrito por Maria von Trapp, o filme se passa no final da década de 1930, na Áustria, quando o pesadelo nazista estava prestes a se instaurar no país. Uma noviça (Julie Andrews) que vive em um convento mas não consegue seguir as rígidas normas de conduta das religiosas, vai trabalhar como governanta na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), que tem sete filhos, viúvo e os educa como se fizessem parte de um regimento. Sua chegada modifica drasticamente o padrão da família, trazendo alegria novamente ao lar da família Von Trapp e conquistando o carinho e o respeito das crianças. Mas ela termina se apaixonando pelo capitão, que está comprometido com uma rica baronesa.

Estes três musicais marcaram minha adolescência. Por consequência, minha vida. Canto algumas de suas canções até hoje, passados mais de cinquenta anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Fadas de ferro

Da fada de “Cinderela” à fada “Sininho” de “Peter Pan“, estes seres mitológicos saltitam por entre as árvores e flores de nossa imaginação. Crianças ou não, as fadas se fazem presentes em alguns momentos de nossa existência, tocando nossos corações e mentes com suas varinhas de condão abençoadas.

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Em 1920, duas pequenas garotas fotografaram fadas no fundo do jardim da casa onde moravam. A notícia se espalhou na época e apesar de tanto as fotos como os fatos não serem reais, a história alimentou a imaginação de diversas pessoas, que passaram a acreditar nas pequeninas fadas.

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Mas nunca ninguém teria imaginado que pudessem existir fadas de ferro!

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Um dia, mais precisamente em 2010, o engenheiro Robin Wight, resolveu criar esculturas com fios de arame galvanizados representando fadas. Abaixo, o relato do engenheiro/artista:

Robin6“Meu nome é Robin Wight e provavelmente me descreverei mais como designer e não como artista. Minha carreira sempre foi na fabricação, resolvendo problemas práticos através do design. Minha filosofia é, obter o design certo e os fluxos estéticos do projeto (a forma segue a função). Eu fui um artista amador toda a minha vida e fazer fadas de fio ainda é (tecnicamente) apenas um hobby (estou trabalhando nisso!).

Robin2Em cada fada, tento aplicar critérios de design, incluindo uma história, movimento, alguma ilusão visual, emoção e forças naturais. 

À medida que meus novos projetos se desenvolvem, eu também gostaria de criar uma visão nova e contemporânea das fadas, evitando os clichês e espero que, como resultado, entregue um equilíbrio da fantasia infantil tradicional, com a estética de uma forma feminina enrolada em torno de um tipo de ação persona.

Foi ao consertar uma cerca que a ideia de fio como meio escultural me impressionou. O fio é perfeito para o escultor amador. É barato, é acessível a todos, não exige processos de soldagem ou especiais e é praticamente ilimitado no que você pode produzir. É como argila metálica. Tudo o que você precisa é uma bobina de fio, um par de alicates e sua imaginação.

Robin8Como não é como eu ganho a vida, na verdade não tenho tempo para possuir representações e prefiro continuar projetando e criando novas, mas eu vendo a maioria dos que eu faço.

Estou totalmente espantado e encantado com a popularidade do FantasyWire e é um testemunho dos benefícios das mídias sociais de que um amador completo como eu pode conseguir seu trabalho compartilhado e visto por tantas pessoas. Então, obrigado por transformar meu hobby em um negócio de conto de fadas / família.

A pergunta mais comum que perguntei é “Como você começou?” Se você gostaria de saber a resposta para isso e como o FantasyWire surgiu, baixe The Fairytale, que lhe dará toda a história.”

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Em várias de suas esculturas, Robin inseriu “dandelions” (dentes de leão) às suas fadas de ferro, tornando-as ainda mais belas e etéreas…

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Vídeo com uma fada e um “dandalion”…

 Autor: Catherine Beltrão

Arte digital (parte I): Alexey Kondakov

O que vem a ser arte digital? Simples. Quando o artista cria no ambiente gráfico computacional, ele está produzindo arte digital. E a arte digital pode ser enquadrada na arte contemporânea? Sim, sobretudo se levarmos em conta que a arte contemporânea é representada por vários movimentos artísticos, revelando-se por meio de diversas linguagens, através da constante experimentação de novas técnicas.  No caso, a linguagem é visual mediática.

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Embora a arte digital possa ser expressada por várias técnicas – imagens fractais, imagens em 3D, animações, realidade virtual aumentada, entre outras – é bem interessante observar a ideia criativa do artista, ou seja, o que ele cria neste novo e sempre crescente ambiente tecnológico.

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Neste contexto, inicio apresentando a arte digital de Alexey Kondakov, designer ucraniano, cuja proposta é fundir personagens de obras clássicas em ambientes populares cotidianos, como o metrô, cafés, bares ou elevadores.

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As figuras escolhidas pelo artista são, em sua maioria, deuses e anjos. Dentro das obras, a grande maioria faz referência a movimentos como o Renascimento e o Barroco, onde a cultura da mitologia grega foi retomada. As obras de Caravaggio (1571-1610) estão entre as suas preferidas.

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E por que Alexey escolheu figuras do Renascimento? Talvez ele tenha se identificado com a liberdade de evolução artística que este movimento apresentou, através de estudos de novas técnicas… É possível fazer um paralelo entre o Renascimento e a arte de Alexey que mistura o digital e a pintura, o popular e o erudito.

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Mas o artista também utilizou personagens de obras acadêmicas, como as de William Bouguereau (1825-1905), pintor francês, considerado o último acadêmico…

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E que tal identificar, nas criações apresentadas neste post, as obras que Alexey Kondakov escolheu para compor suas criações? Uma pista: a primeira é de Bouguereau…

Autor: Catherine Beltrão

O quarto secreto de Michelangelo

Michelangelo Buonarroti (1475-1564) é considerado um dos maiores representantes do Renascimento Italiano, criador de ícones da arte ocidental, como a “Pietá“, o “David” e o “Teto da Capela Sistina“.  Mas foi somente em 1975 que foi desvendado um segredo: o quarto que ocupou durante algumas semanas, em 1530, em uma das capelas dos Médici, em Florença.

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Quarto secreto, na Capela de Médici, em Florença

Neste anos de 1975, Paolo Dal Poggetto, o então diretor do Museu das Capelas dos Médici, encontrou, por acaso, este tesouro. Por quê tesouro?

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Acesso para o quarto secreto de Michelangelo

Michelangelo_capela3Porque as paredes do quarto da capela, localizado perto da Nova Sacristia, está repleto de desenhos a carvão e giz, tudo indicando tendo sido feitos pela mão do famoso artista Michelangelo.O quarto era uma espécie de alçapão de difícil acesso, contendo somente uma pequena janela pela qual entrava um pouco de ar. Após algumas pesquisas, Dal Poggetto concluiu que o artista ocupou o interior da câmara durante cerca de dois meses, em 1530, para se esconder da família Médici.  Em 1527, uma revolta popular forçou o exílio dos governantes da família Médici, que tinham sido mecenas de seu trabalho até então. Michelangelo mudou de lado, alinhando-se aos florentinos. Mas os Médici voltaram ao poder e o artista, com medo, resolveu procurar abrigo no quarto da capela.

Ao serem descobertas, as paredes do quarto estavam cobertas de gesso. Foram necessárias algumas semanas de remoção da argamassa e de uma cuidadosa limpeza para serem revelados dezenas de desenhos.

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Esboços de pernas, encontrados em uma das paredes do quarto

Mas como os desenhos não estão assinados, eles podem ser atribuídos a Michelangelo?

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Estátua de Giuliano de Médici

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Esboço de “Apolo”, encontrado em uma das paredes do quarto

Basta compararmos os desenhos com algumas das obras atribuídas ao artista.Um dos desenhos expostos em uma das paredes do quarto é um esboço de pernas sem corpo em diferentes posições. Ao compararmos estes esboços com a a estátua de Giuliano de Médici, produzida pelo artista e que está localizada sobre o túmulo do governante, na própria Nova Sacristia, não se tem mais dúvida: o desenho é de Michelangelo!

Um outro desenho que está figurado no quarto evoca a pose distinta e retorcida da estátua de “Apolo“, um trabalho inacabado de Michelangelo.  Apolo foi encomendada por Baccio Valori, que era um político indicado pela família Médici que tentava voltar ao poder na cidade de Florença.

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Estátua inacabada de Apolo

E o que dizer do esboço do desenho “Leda e o cisne“,  baseado em uma história popular da mitologia grega? O esboço que figura no quarto é um espelho do desenho feito por Michelangelo…

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Esboço para “Leda e o cisne” … será?

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“Leda e o cisne”, desenho de Michelangelo

A história mitológica é bem interessante… Leda, de casamento marcado com um rei de Esparta, descansava em seu belo jardim, quando um enorme cisne apareceu. Não demorou muito para Leda se entregar, de corpo e alma, à bela ave, que era nada mais nada menos que Zeus, o deus maior. Dessa união amorosa, Leda deu à luz quatro ovos, sendo um deles a famosa Helena de Troia.

Ao se comparar o esboço revelado em uma das paredes do quarto secreto com o desenho de Michelangelo, é impossível não assegurar que ambos foram feitos pelo mesmo artista!

Uma curiosidade: além de Michelangelo, outros grandes artistas também reproduziram essa história em suas obras: Leonardo da Vinci, Rubens, Cézanne, Boucher, Matisse, Botero…

Em 2020, o quarto secreto de Michelangelo finalmente poderá ser visitado por todos. Talvez uma brincadeira interessante seria adivinhar à qual obra cada esboço está associado…

 Autor: Catherine Beltrão

A Física na pintura de Vermeer

Muito já se escreveu sobre a relação da Matemática com a Arte. Por exemplo, o numéro Phi, ou número áureo, definido por Euclides há mais de 2000 anos, foi ilustrado pela primeira vez por Leonardo da Vinci, em seu célebre “Homem Vitruviano.” Michelangelo, Botticelli e Salvador Dali também utilizaram a proporção áurea em algumas de suas obras.

Mas e a Física? Haveria alguma relação da Física com a Arte?

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“Girl with a Pearl Earring c. 1665-1666″. Real Galeria de Arte Mauritshuis, em Haia

Johannes Vermeer (1632-1675), um dos maiores pintores holandeses junto com Rembrandt, responde a esta pergunta.

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Vídeo sobre a Era de ouro da Pintura holandesa.

No século XVII, (1632-1675), a Holanda era certamente um centro para manufatura de instrumentos ópticos de alta qualidade. Naquela época, já se conhecia um dispositivo ótico chamado “câmara escura”,  que reproduzia uma imagem fiel de uma cena real para uma tela. Era uma espécie de antecedente da câmara fotográfica, 150 anos antes de sua invenção!

Supõe-se que Vermeer utilizou este dispositivo para conseguir um posicionamento preciso em suas composições, nas quais os efeitos da luz geram uma perspectiva cujo resultado não pode ser obtido a olho nu, ou seja, sem o auxilio de uma lente. Além disso, Vermeer também teria utilizado espelhos na confecção de suas pinturas. Os espelhos também necessitam de luz para refletir uma imagem, ou seja, para um observador visualizar a imagem, ele precisa receber raios luminosos provenientes do objeto.

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“The Music Lesson”, pintura (1662), óleo sobre tela, 73,3 x 64,5 cm . Na The Real Collection, Windsor, Londres.

Saído em 2013, o documentário “Tim’s Vermeer” pretendeu mostrar como um inventor texano – Tim Jenison – conseguiu reproduzir à perfeição a obra “The Music Lesson“, com a utilização de uma câmara escuro e espelhos. Foi um projeto que durou cinco anos, desde a sua concepção, passando pela construção dos objetos existentes na obra e fora dela, até chegar à sua execução. Para ver o documentário na íntegra, clique aqui.

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“A Kitchen Maid”, c. 1658

Não há um número exato de obras atribuídas a Johannes Vermeer, mas especula-se que seja entre 35 e 40 pinturas, pintando apenas duas ou três telas por ano. A maioria era de interiores e cenas cotidianas, com técnica peculiar e inconfundível.

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“Girl with the red hat”. c.1665-66

Arte e Ciência, entidades totalmente conectadas: ontem, hoje e para sempre!

 Autor: Catherine Beltrão

Guerra e Arte

Guernica” talvez seja a obra mais conhecida de Pablo Picasso (1881-1973), um dos maiores pintores do século XX.

Com 3,49 m de altura por 7,76 m de comprimento, “Guernica” é um imenso mural pintado a óleo em 1937, sendo uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”. A obra é hoje um símbolo do antimilitarismo mundial e da luta pela liberdade do homem, além de ser um ícone da Guerra Civil. 

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“Guernica”, de Pablo Picasso

Tendo sido produzida em Paris para representar a Espanha na Exposição Internacional de Artes e Técnicas, a obra influenciou vários artistas, incluindo os brasileiros Cícero Dias e Cândido Portinari. Após ver “Guernica“, naquele mesmo ano de 1937, Cícero Dias transformou sua temática e forma de pintar.   E foi através da amizade que se formou entre os dois pintores que possibilitou a vinda desta obra para o Brasil em 1953, para participar da Segunda Bienal de São Paulo.

Quanto a Portinari, ele viu o quadro espanhol pela primeira vez, em 1942, em Nova York. Sua temática característica, de retratar os dramas oriundos do Brasil, foi inspirada no tema da dor e das questões sociais advindas da representação de “Guernica“.

Tamman Azzam nasceu em Damasco, na Síria, em 1980. Após um treinamento artístico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco, e quando iniciou a revolta na Síria ele voltou-se para a mídia digital e arte gráfica para criar composições visuais do conflito, com grande repercussão internacional.

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Superposição do obra “O beijo”, de Gustav Klimt em prédio devastado pela guerra, na Siria. Por Tamman Azzam.

Uma das criações mais famosas de Azzam é a superposição da icônica obra “O beijo“, de Gustav Klimt, em paredes de um prédio devastado pela guerra em sua terra natal, o que provoca sentimentos contraditórios, oscilando do horror à contemplação, e vice-versa…

Em 2004, foram doados ao Museu ArtenaRede 27 obras da artista paulista Théta C. Miguez, oriundas da série “Retratos do Apocalipse”. Entre as obras, algumas evidenciam os horrores da guerra, como a inesquecível imagem da pequena vietnamita fugindo de um ataque com bombas de napalm…

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“Holocausto”, de Theta C. Miguez. 2002 – Téc.mista – 50 X 70 cm
Série “Retratos do Apocalipse”

Assim se expressou a artista, sobre a citada série:

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“O choro da menina vietnamita”, de Théta C. Miguez. 2002 – Técnica mista – 70 X 50cm.
Série “Retratos do Apocalipse”.

“A escolha do tema “Retratos do Apocalipse” se dá em face do desejo de retratar a situação das profundas transformações que estão ocorrendo em nosso mundo, em pleno apogeu da era tecnológica e dos expressivos avanços dos meios de comunicação.

Como o apocalipse representa previsões, no que tange o fim da humanidade, expresso através desse projeto, que a mesma não está em vias de acabar, como alude tais previsões místicas, mas que de certa forma, vem falindo nos seus propósitos sociais, humanitários e existenciais.

Guerra se faz com armas, o Bom Combate se faz com a mente. Na condição de artista plástica, continuarei a guerrear através dos pincéis, registrando em minhas obras, palavras e sentimentos, como ponto de partida para a Paz.”

Geralmente, o contraponto da guerra é a paz. E se o contraponto da guerra fosse a arte?

 Autor: Catherine Beltrão

Búfalos, bisões, touros e bois

A família bovina data de 5 a 10 milhões de anos. A evolução desta família deu origem a várias espécies, até chegar aos nossos atuais bois, que encontramos hoje nos pampas, nos churrascos e nos supermercados.

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O “Bisão” de Altamira, Espanha.

Uma destas espécies, o bisão da estepe, surgiu há cerca de 2 a 5 milhões de anos atrás, se espalhando pela Eurásia e foi este o bisão retratado nos desenhos rupestres antigos descobertos em Altamira/Espanha e Lascaux/sul da França.

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“Os bisões cruzados” da Caverna de Lascaux, na França.

Vestígios de mais de 20 mil anos indicam a ocupação da caverna de Altamira, norte da Espanha. Provavelmente foi ocupada há muito mais tempo. As pinturas mais elaboradas, como o “Bisão“, datam de 15 mil anos, mas concorrem com obras de várias épocas.

A pintura “Os Bisões Cruzados” da Caverna de Lascaux, França,  foi descoberta em 12 de Setembro de 1940. A figura, feita com carvão vegetal e óxido de ferro, data de aproximadamente 17.300 a.C.

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“Os últimos búfalos”, de Albert Bierstadt. 1888, ost, 153 X 245cm.

Albert Bierstadt (1830-1902) foi um pintor prussiano radicado nos Estados Unidos. Sua fama derivou de suas paisagens monumentais sobre o oeste selvagem americano, com tendências realistas, expressas na descrição minuciosa de detalhes. É o que se observa na pintura “Os últimos búfalos“, talvez a maior pintura sobre este animal já realizada.

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“O combate do tigre e do búfalo”, de Henri Rousseau. 1891,  ost, 46 × 55 cm. Museu Hermitage, em São Petersburgo

Henri Rousseau (1844-1910) foi um pintor francês, considerado como um representante maior da arte naïf, tendo influenciado vários outros artistas, sobretudo os surrealistas.

O tema “selva” talvez tenha sido um dos mais fecundos utilizados pelo pintor. Sua flora era exuberante e imaginativa, e a fauna representava quase sempre animais ferozes em combate, como o “Combate do tigre e do búfalo“, de 1891.

E chega a vez dos touros de Pablo Picasso (1881-1973).

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Onze litografias do “Touro”, de Pablo Picasso. 1945.

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“Touro”, de Picasso. 1953. Escultura em madeira.

Picasso, pintor catalão, evoluiu o seu “Touro” em onze etapas. Criado no Natal de 1945,  ‘Bull’ é um conjunto de onze litografias que se tornaram uma Master Class em como desenvolver uma obra de arte do acadêmico ao abstrato. Nesta série de imagens, todas resultantes de uma única peça, Picasso disseca visualmente a imagem de um touro. Cada imagem representa uma fase sucessiva de um processo tendo em vista encontrar o absoluto “espírito” da besta. É como se ele caminhasse de frente para trás, do acabado para o esboço.

Picasso também realizou diversas esculturas com este tema, utilizando vários materiais, como bronze, mármore e madeira. É notável o seu “Touro” feito em 1958.

Dos bisões das cavernas pré-históricas aos touros de Picasso, estes animais sempre representaram para o homem símbolos de força e poder. Milhares de anos separam as criações. Os símbolos permanecem os mesmos.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Krajcberg e o grito da madeira assassinada

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Frans Krajcberg

Frans Krajcberg (1921-2017), nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, foi um pintor, escultor, gravador e fotógrafo. Formado em Engenharia e Artes na Rússia, lutou na Segunda Guerra Mundial, tendo perdido toda a sua família. Por puro acaso, Krajcberg veio para o Brasil, em 1948, onde também não tinha amigos e não conhecia a língua. E, aqui, ele renasceu. Krajcberg viveu em Nova Viçosa, interior da Bahia, desde a década de 70, e confeccionou a maioria de suas obras com cipós e troncos de árvores destruídas pelo fogo.

Segundo a marchand Marcia Barrozo do Amaral, que representa as obras do artista, Krajcberg vivia 24 horas por dia pela incansável luta pela natureza e pelo planeta.  Na região de Itabirito, em Minas Gerais, o artista buscava os pigmentos naturais de origem ferrosa que utilizava em suas obras. Em Nova Viçosa, construiu a sua “Casa na Árvore”, pousada num pequizeiro.

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“Casa da Árvore”, em Nova Viçosa/BA

Neste dia de 15 de novembro, Frans Krajcberg partiu para outra dimensão. Mas sua obra continuará gritando a plenos pulmões: não destruam a natureza!

A seguir, a voz do artista…

Krajcberg12Nasci neste mundo que se chama ‘Natureza’. O grande impacto da natureza foi no Brasil que senti. Aqui eu nasci uma segunda vez. Aqui eu tive a consciência de ser homem e de participar da vida com minha sensibilidade, meu trabalho, meu
pensamento. Aqui me sinto bem“.

Eu andava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Descobria a vida. A vida pura. Ser, mudar, continuar, receber a
luz, o calor, a verdadeira vida“.

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A única coisa que me segura aqui é isso: a natureza”

Krajcberg10Krajcberg11A natureza me deu a grande possibilidade de continuar vivendo. Ela soube me dar a força e me deu o prazer de sentir,
pensar, trabalhar e sobreviver“.

Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta“.

A natureza coloca minha sensibilidade de homem e artista em questão”.

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O brasileiro em si não acordou pra ver a situação que está nesse país. Estamos completamente dominados pelo dinheiro. Ao
mesmo tempo o país está sendo destruído absolutamente. Então eu acho que precisamos dizer :  Basta, vamos salvar neste país o
resto de beleza que ainda possui: a Amazônia“.

É pena que o brasileiro não conheça o Brasil… é revoltante!

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 “Antes era a guerra do homem contra o homem; hoje, e é a guerra do homem contra a natureza“.

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Vídeo-documentário “O grito da natureza”, com Paula Saldanha

Krajcberg fez Arte da madeira calcinada. Da morte. Transformou troncos retorcidos pelo fogo em manifestações do belo. Por ter plantado uma floresta de obras contundentes nos corações e mentes daqueles que ainda sentem, sua voz de desespero e revolta continuará ecoando, cada vez mais, e mais forte.

 Autor: Catherine Beltrão

A arte com papel de Yulia Brodskaya

Qual é o papel do papel na Arte?

O que todo mundo sabe é que se usa o papel como suporte. Suporte para desenho. Suporte para pastel. Suporte para pintura.  Que, aliás, não é tão valorizado quanto a tela como suporte, por exemplo. Mas Yulia Brodskaya não faz arte em papel. Faz arte com papel. Ela é uma “paper artist“.

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Vídeo (em inglês) com entrevista de Yulia Brodskaya falando sobre a criação de sua obra para o Torneio de Wimbledon 2015

Yulia Brodskaya nasceu em Moscou, na Rússia, mas desde 2004 mora no Reino Unido, onde completou um mestrado em Comunicação Gráfica, na Universidade de Hertfordshire.

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“Moça com brincos de pavão”

Yulia Brodskaya começou a trabalhar como designer e ilustradora em 2006, mas rapidamente abandonou os programas de computador para se dedicar à arte com papel: “O papel sempre exerceu um fascínio sobre mim. Eu tentei vários métodos e técnicas diferentes para trabalhar com o papel, até eu encontrar a minha forma particular: agora eu desenho com o papel ao invés de desenhar sobre ele“.

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“Babushka”

A técnica utilizada é chamada de quilling e envolve o uso de tiras de papel que podem ser enroladas, torcidas ou espichadas, conforme o desenho a se criar. Essas tiras são coladas em um fundo de papel e compõem imagens impressionantes. Foi com essas ilustrações em papel inovadoras que Brodskaya ganhou reputação internacional.

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“Pombas de amor”

O material parece atuar sobre as percepções e ideias de maneira singular, de modo que a observação se torna uma parte importante da mensagem. Sendo um objeto tridimensional, a obra de Brodskaya oferece múltiplas visões. Dependendo do ângulo de observação, da intensidade e da direção da iluminação a mensagem emocional emitida pela obra a e a experiência visual do observador mudam significativamente.

Yulia4Yulia5Yulia Brodskaya é frequentemente convidada para falar em conferências de design e escolas de design no mundo inteiro.

Seus trabalhos originais em arte com papel pode ser encontrada tanto em museus como em eventos, campanhas publicitárias e clientes particulares. Museus como o Museu de Arte Moderna, eventos como o Torneio Mundial de Wimbledon e campanhas para Ferrero, Hermes e Paramount Pictures.

E por falar em papel, nada como terminar este post com o poema “Canivete de papel“, de Manoel de Barros:

Desde criança ele fora prometido para lata.
Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago.
Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel.
Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona.
Servia para não picar fumo.
Servia para não cortar unha.
Era bom para água mas obtuso para pedra.
Havia outro estrupício nos guardados de Bernardo.
Tratava-se de um Guindaste para Mosca.
Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar ligado por uma correia aos ventos da manhã.
Funcionava ao sabor dos ventos.
Imitava uma instalação.
Mas penso que seja um desobjeto artístico.