Ateliers e versos… (Parte IV)

Eis que chega a parte IV, a derradeira. Desta vez, os ateliers são de artistas brasileiros. E os versos, mais antigos, de quando eu ainda era adolescente. Por isso mesmo, mais puros, mais botões em flor.

Atelier_Guignard

Atelier de Alberto da Veiga Guignard

Dar ao mundo (maio de 1966)

A gente nasce. Nasce pro mundo
E cresce. A gente vai crescendo,
Mas não pensa que é preciso dar,
Que é preciso trazer qualquer coisa
Pra esta terra tão criança… tão nossa!
Que é preciso sentir com vontade,
Desejando muito ser amada,
Mas dando mais amor do que recebe;
Que é lutando que se consegue
Entregar-se toda, à paz de um todo;
Que ao se rir, dá-se vida ao amigo
Que pensa da vida um sofrimento;
E ter piedade dos que não merecem,
Pois se dá demais aos que precisam;
Ver que o céu não é pra se morar
E sim pra se olhar e pra pensar…

Gente que nasce, gente que cresce:
Quem foge, não vence. Só se sente
Feliz por um instante de sonho,
E o nada se segue… Fica-se oco.
Ah, se se pensasse um pouco antes
De não ferir, não se mataria.
Gente, é preciso voltar, trazendo
Um desejo que vibra nas mãos;
Deixar a flor morta em um túmulo,
E seguir em frente, contra o vento;
Seguir com os olhos limpos de dor
E gritar, mesmo sem voz: “Venci!”
E pegar a mão do velho amigo,
Sorrindo, vendo-se tão sincero;
E dar ao mundo a própria vida,
Sem nunca deixar de ser jovem!

Atelier_Ibere

Atelier de Iberê Camargo

Vento e sal (junho de 1966)

Só, terrivelmente só,
O peito mudo de dor,
O coração já sem fé,
Caminho pelo sal branco…
Ando até que o sal se acabe,
Mas nem mesmo este sal todo
Dá pra que eu volte sorrindo
E abrace o mar, de alegria;
O sol já não mais enfeita
O céu que passo a sentir:
Pequeno, pobre e incolor,
Céu sem poesia pra dar.
Se chego a olhar pra cima,
É pra que Deus veja um rosto
Em que não há mais desejo,
Em que não há mais sentimento;
Mas Deus não me reconhece…
E continuo meu caminho.
Meu pés só procuram paz,
E como não a encontro,
Deixo-me cair sem forças,
E morro sem mesmo ver…
O vento vem de mansinho
E canta suave pra mim…

Há vento em meus olhos…
Há sal em mi’as mãos…
Há uma saudade na tarde…

Atelier_BrunoPedrosa

Atelier de Bruno Pedrosa

Impressões em estudo (agosto de 1966)

A respiração é amorfa
E é tudo tão natural
Que a monotonia se instala.
Procura-se um sentido,
Quer-se uma explicação absoluta
Mas não há nada completo
Não há nada que satisfaz plenamente.
Às vezes o riso transborda
E a razão, qual é?
Já se ultrapassa o soluço
E, querendo chegar à histeria,
Só se aborda uma resignação idiota.
Tudo tão parado, tão cansado…
Mas cansado de quê?
Cansado da ignorância involuntária?
Cansado de querer ser livre?
Cansado de gritar: “Ajuda-me!”?
E a compreensão humana?
Será útil, uma vez pelo menos?
E ainda por cima, precisa-se viver:
Questão de se adaptar…
Há amor nisto tudo?
Ou simples hábito de obedecer?
Há alegria em ser jovem?
Ou desespero de ser o “meio” de nada?
Luta-se contra uma ideia
E aceita-se uma conclusão.
Vive-se por obrigação.
Há mesquinhez até no amor
E, para se convencer, é dado chorar…

Atelier_Portinari

Atelier de Cândido Portinari

Não há depois (setembro de 1966)

Não há depois,
Há sempre um antes
De uma criação qualquer.
O depois do olhar,
O depois da chuva,
O depois do amor…
Há o sorriso
Há a terra
Há o silêncio;
Tudo vem antes
Do rosto
Do sol
Do cansaço…
O pensar no depois
É a preguiça do jovem
É o consolo do velho.
Nasça, ande,
Corra, criança!
E o correr virá antes
Do que você mais desejar…
O que faço hoje
Não é porque o fiz ontem
E sim porque o farei amanhã.

Atelier_Volpi

Atelier de Alfredo Volpi

Tempo e certeza (setembro de 1966)

O vento a cortar
A estrada vazia
E eu…
Uma folha cai
No meio de todas as outras
Mas essa eu amo
Porque ela caiu pra mim
E chorei ao vê-la sem vida.
Ah, se o amor fosse assim tão simples
De folha e lágrima…
Na solidão de meus passos
Vejo a inutilidade de prosseguir.
Neste momento, daria a vida
Por uma certeza qualquer.
Assim como piso nestas folhas
Secas e irresponsáveis,
Sinto o sentimento frágil,
A compreensão em dúvida.
O sentido da própria vida
Parece fugir e perder-se
No vazio de uma realidade suposta.
A estrada perde-se também
Quando subimos demais…
A noite chega e
Estrelas caem de todos os lados.
As folhas irão descansar,
Mas eu viverei pelo caminho
Porque o tempo não acabou.

Guignard, Iberê, Portinari, Pedrosa e Volpi: brasileiros na arte, brasileiros na vida. Como cada um de nós. Sofridos. Perseverantes. Grandiosos.

Autor: Catherine Beltrão

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