Arte anamórfica, um caso de micro versus macro?

Anamorfismo

Brócolis romanesco, exemplo de fractal na natureza

O conceito de anamorfose se refere ao retorno, à reiteração e à reversão da forma. Utilizado em vários áreas do conhecimento – matemática, óptica (com aplicações nas artes visuais), biologia e geologia – este conceito aplica-se a qualquer situação onde a base constitutiva transfere suas características para a constituição geral – tal como um fractal, estrutura geométrica complexa cujas propriedades, em geral, repetem-se em qualquer escala.

A arte anamórfica é um efeito de perspectiva, utilizado por artistas plásticos, forçando o observador a se colocar sob um determinado ponto de vista ou distância do objeto observado, capaz de fazê-lo ver este objeto de forma clara ou de uma nova forma inesperada. Nos tempos atuais, vários artistas se aventuram nesta forma de arte. Um exemplo notável é o francês Bernard  Pras (Roumazières-Loubert, 1952). Vivendo e trabalhando em Montreuil, França, tornou-se conhecido por apresentar, sob outras perspectivas, retratos clássicos e da arte pop, por meio de técnicas de aquagravura, por ele inventada, e de transformação de sucata em obra de arte.

Bernard Pras 1

Bernard Pras - reformação da obra “O Lago das Ninfeias”, de Claude Monet

São fantásticas as suas criações, reformando as obras “O Grito“, de Edvard Munch e “O Lago das Ninfeias“, de Claude Monet.

Bernard Pras 2

Bernard Pras –  reformação da obra “O Grito”, de Edvard Munch

 

Ivan - Cabanas

“Cabanas”, de Ivan Blin, ost.

 

Uma outra forma de tratar esta relação micro versus macro nas artes plásticas é o tratamento das imagens de obras. Esta experiência foi realizada com algumas obras do brasileiro Ivan Blin (1923-1979), por ocasião de uma exposição póstuma – “A Ciência pelo Caminho das Artes“, na Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, em novembro de 2013. Ao se tratar a imagem de uma determinada obra com zoom, várias outras imagens aparecem, totalmente inusitadas e inesperadas.

Ivan - Cabanas zoom e ceu

Ivan Blin – imagem reformada de uma pequena parte da obra “Cabanas”, com tratamento de zoom na imagem original

Ivan - Viela

Ivan Blin – “Viela”, ost

 

Na apresentação da exposição, as imagens de várias obras  foram tratadas e, após este tratamento, foram agrupadas em um vídeo e novamente tratadas, inserindo som e movimento. Ao final, o vídeo foi projetado na cúpula do Planetário. Resultado único e fantástico! Uma sublime dança de nebulosas…

 

Ivan - Viela_zoom com ceu

Ivan Blin – imagem reformada de uma pequena parte da obra “Viela”, com tratamento de zoom na imagem original

 

Afinal, quando se fala em fractal, quando se fala dos caminhos percorridos do macro ao micro, ou do micro ao macro (não importa, pois em sua grande maioria são os mesmos caminhos), onde inicia a Arte e acaba a Ciência, ou vice-versa? E de que maneira a arte anamórfica se insere neste contexto?

Gostaria muito de debater estas perguntas.

Autor: Catherine Beltrão

4 opiniões sobre “Arte anamórfica, um caso de micro versus macro?”

  1. Acho que você tocou no nervo da questão da tensão macro/micro, cuja melhor expressão na Cultura, até agora, dá-se na Matemática dos fractais de Mandelbrot. Alguns trechos de um estudo (Da Physis):
    • A abordagem de Mandelbrot, baseada em equações deterministas relativamente simples, com o elemento número irracional, é extraordinariamente abrangente, de um modo que a Relatividade e a Quântica tornam-se “especializações” para determinadas escalas e apenas para a esfera da Physis. ..
    • Outros princípios que estão subjacentes nos Fractais são descontinuidade e concentração originalmente ligados à teoria do risco financeiro. Na verdade, a teoria do risco de Mandelbrot desvelou uma estrutura universal, comum ao desenho das nuvens, das árvores, dos mapas geográficos, dos desenhos de minerais, da densidade das galáxias, de como evoluem as produções de algodão em 200 anos e/ou 1 semana, como oscilam os preços de ações em 1 ano e/ou 1 semana… do mundo que vivemos, enfim, e que a Física tradicional (incluindo aqui à Relatividade e a Quântica) evita devido ao desconforto matemático. (Notem que a analogia no desenho macro/micro não é apenas visual-espacial, mas também temporal, com a música que flui num tema que varia, mas tem sua unidade).
    • A geometria fractal é uma geometria do acaso selvalgem (lida com modelos probabilísticos – como na Quântica) mas também é uma geometria do determinismo caótico (lidando com modêlos determinísticos – como na Relatividade). O curioso é que os Fractais não são propriamente uma teoria, antes um método. E o que quer o método, o de Sócrates, o de Descartes, qualquer método? Mandelbrot responde: “chercher des éléments d´ordre pouvant éclairer le chaos des messages que l´Homme reçoit de ses sens”. Como? A abordagem fractal tem uma poderosissíma propriedade que faltam às físicas relativista e quântica a self-similarity, isto é, a auto-homeogeneidade. A auto-homogeinedade é melhor explicada … vendo um fractal – de pertíssimo como de longíssimo os desenhos são comuns!

    1. Amei ler seu comentário, Michel! Bem, vamos lá.
      Talvez você não vá acreditar , talvez isso possa ser chamado de pedantismo, mas a verdade é que a cada vez que como brócolis ou couve-flor, penso em fractais. Acontece a mesma coisa quando me deparo com as samambaias do jardim aqui de casa. E se fôssemos fazer um diagrama de nossos pensamentos, o que daria? Aposto que seriam fractais também! Por que digo isso? Quando pensamos, usamos nosso raciocínio que, na maioria das vezes, se baseia em associações. E o que é uma associação? É uma rede que vai se formando – um grafo, para os entendidos em matemática – repleto de caminhos e ramificações destes caminhos. E isto não é fractal?
      Você citou a música em seu texto. Certamente, a maioria das composições de Bach, meu compositor preferido, são exemplos temporais de fractais. Suas fugas e as famosas Variações Goldberg mostram isso. Temas que se repetem e se contorcem para formar um todo. E ao ouvirmos, este todo se decompõe novamente para formar outros fractais em nossa mente…
      Valeu, Michel!

  2. Depois que descobri os fractais, suas implicações práticas e fundamentos conceituais tornei-me um admirador contido p/ não fazer o papel de chato. Nossa afinidade deve ser genética. E, falando em genética, de alma, não necessariamente da carne, os estímulos que recebi de longas tardes com meu tio Ivan e diariamente na convivência com meu pai, estimularam-me a “ver tudo” de modo simples e claro.

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