Clarice, Nélida e os vasos comunicantes

Lispector - Carlos Scliar, 1972

Retrato de Clarice Lispector, por Carlos Scliar. 1972

Quase todo mundo conhece a Clarice Lispector ( 1920-1977) escritora. Minha primeira incursão em seus escritos foi quando cursava o ginásio, no início dos anos 60, ao ler “Perto do coração selvagem“. Não foi amor à primeira leitura. Precisei ler e reler o livro várias vezes para que nossas almas se ajustassem.

Com o passar do tempo, e com o passar das leituras, entendi a máxima: não se concebe o espanhol sem Cervantes, o inglês sem Shakespeare e o português sem Clarice.

Mas este post versará sobre o que pouca gente sabe: a Clarice Lispector pintora.

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“Explosão”, de Clarice Lispector. 1975

Clarice pintou vinte e dois quadros, sendo dezenove sobre madeira, principalmente pinho-de-riga, e três sobre tela.

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“Escuridão e luz centro da vida”, de Clarice Lispector. 1975

Um dia, ela se perguntou: “Quem sabe escrevo por não saber pintar?

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“Luta sangrenta pela paz”, de Clarice Lispector. 1975

Em “A descoberta do mundo“, Clarice registrou:

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“Pássaro da liberdade”, de Clarice Lispector. 1975

Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho.

Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas”.

Ou ainda:

Antes de mais nada, pinto pintura.
Acho que o processo criador de um pintor
e do escritor são da mesma fonte.

Quando eu escrevo,
misturo uma tinta a outra e nasce uma nova cor”.

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“O Sol da meia-noite”, de Clarice Lispector. 1975

Nélida Piñon e Clarice Lispector foram grandes amigas. Grande escritora e primeira presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida, nascida em 1937, continua nos fustigando com registros antológicos, como:

Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças”.

Ou esse:

Pensar é um dos atos mais eróticos na vida de uma pessoa“.

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“Eu te pergunto por quê”, de Clarice Lispector. 1975

E onde entra os “vasos comunicantes” entre Clarice e Nélida?

Então.

Em 11 de julho de 2019, no leilão de Soraia Cals, no Rio de Janeiro, Nélida arrematou um dos raros quadros de Clarice Lispector. Em acirrada disputa com o Instituto Moreira Salles, a obra “Sem título“, com um primeiro lance de R$ 8 mil, saiu pelo valor de R$ 220 mil.

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“Sem título”, de Clarice Lispector. 1976

Esta obra, de pequenas dimensões, 30 X 40cm, datada de 1976, pintada a óleo sobre madeira, apresenta uma inscrição na frente: “Olhe o que está escrito atrás“,  e outra no verso: “Você já conheceu, como eu, o desespero. Mas é um erro. Tudo vai dar certo.”

A obra “Sem título“, agora, precisa mudar de título. Sugiro “Vasos comunicantes“, em homenagem à amizade entre duas escritoras monumentais: Clarice Lispector e Nélida Piñon.

Autor: Catherine Beltrão