Krajcberg e o grito da madeira assassinada

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Frans Krajcberg

Frans Krajcberg (1921-2017), nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, foi um pintor, escultor, gravador e fotógrafo. Formado em Engenharia e Artes na Rússia, lutou na Segunda Guerra Mundial, tendo perdido toda a sua família. Por puro acaso, Krajcberg veio para o Brasil, em 1948, onde também não tinha amigos e não conhecia a língua. E, aqui, ele renasceu. Krajcberg viveu em Nova Viçosa, interior da Bahia, desde a década de 70, e confeccionou a maioria de suas obras com cipós e troncos de árvores destruídas pelo fogo.

Segundo a marchand Marcia Barrozo do Amaral, que representa as obras do artista, Krajcberg vivia 24 horas por dia pela incansável luta pela natureza e pelo planeta.  Na região de Itabirito, em Minas Gerais, o artista buscava os pigmentos naturais de origem ferrosa que utilizava em suas obras. Em Nova Viçosa, construiu a sua “Casa na Árvore”, pousada num pequizeiro.

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“Casa da Árvore”, em Nova Viçosa/BA

Neste dia de 15 de novembro, Frans Krajcberg partiu para outra dimensão. Mas sua obra continuará gritando a plenos pulmões: não destruam a natureza!

A seguir, a voz do artista…

Krajcberg12Nasci neste mundo que se chama ‘Natureza’. O grande impacto da natureza foi no Brasil que senti. Aqui eu nasci uma segunda vez. Aqui eu tive a consciência de ser homem e de participar da vida com minha sensibilidade, meu trabalho, meu
pensamento. Aqui me sinto bem“.

Eu andava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Descobria a vida. A vida pura. Ser, mudar, continuar, receber a
luz, o calor, a verdadeira vida“.

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A única coisa que me segura aqui é isso: a natureza”

Krajcberg10Krajcberg11A natureza me deu a grande possibilidade de continuar vivendo. Ela soube me dar a força e me deu o prazer de sentir,
pensar, trabalhar e sobreviver“.

Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta“.

A natureza coloca minha sensibilidade de homem e artista em questão”.

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O brasileiro em si não acordou pra ver a situação que está nesse país. Estamos completamente dominados pelo dinheiro. Ao
mesmo tempo o país está sendo destruído absolutamente. Então eu acho que precisamos dizer :  Basta, vamos salvar neste país o
resto de beleza que ainda possui: a Amazônia“.

É pena que o brasileiro não conheça o Brasil… é revoltante!

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 “Antes era a guerra do homem contra o homem; hoje, e é a guerra do homem contra a natureza“.

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Vídeo-documentário “O grito da natureza”, com Paula Saldanha

Krajcberg fez Arte da madeira calcinada. Da morte. Transformou troncos retorcidos pelo fogo em manifestações do belo. Por ter plantado uma floresta de obras contundentes nos corações e mentes daqueles que ainda sentem, sua voz de desespero e revolta continuará ecoando, cada vez mais, e mais forte.

 Autor: Catherine Beltrão

A arte com papel de Yulia Brodskaya

Qual é o papel do papel na Arte?

O que todo mundo sabe é que se usa o papel como suporte. Suporte para desenho. Suporte para pastel. Suporte para pintura.  Que, aliás, não é tão valorizado quanto a tela como suporte, por exemplo. Mas Yulia Brodskaya não faz arte em papel. Faz arte com papel. Ela é uma “paper artist“.

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Vídeo (em inglês) com entrevista de Yulia Brodskaya falando sobre a criação de sua obra para o Torneio de Wimbledon 2015

Yulia Brodskaya nasceu em Moscou, na Rússia, mas desde 2004 mora no Reino Unido, onde completou um mestrado em Comunicação Gráfica, na Universidade de Hertfordshire.

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“Moça com brincos de pavão”

Yulia Brodskaya começou a trabalhar como designer e ilustradora em 2006, mas rapidamente abandonou os programas de computador para se dedicar à arte com papel: “O papel sempre exerceu um fascínio sobre mim. Eu tentei vários métodos e técnicas diferentes para trabalhar com o papel, até eu encontrar a minha forma particular: agora eu desenho com o papel ao invés de desenhar sobre ele“.

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“Babushka”

A técnica utilizada é chamada de quilling e envolve o uso de tiras de papel que podem ser enroladas, torcidas ou espichadas, conforme o desenho a se criar. Essas tiras são coladas em um fundo de papel e compõem imagens impressionantes. Foi com essas ilustrações em papel inovadoras que Brodskaya ganhou reputação internacional.

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“Pombas de amor”

O material parece atuar sobre as percepções e ideias de maneira singular, de modo que a observação se torna uma parte importante da mensagem. Sendo um objeto tridimensional, a obra de Brodskaya oferece múltiplas visões. Dependendo do ângulo de observação, da intensidade e da direção da iluminação a mensagem emocional emitida pela obra a e a experiência visual do observador mudam significativamente.

Yulia4Yulia5Yulia Brodskaya é frequentemente convidada para falar em conferências de design e escolas de design no mundo inteiro.

Seus trabalhos originais em arte com papel pode ser encontrada tanto em museus como em eventos, campanhas publicitárias e clientes particulares. Museus como o Museu de Arte Moderna, eventos como o Torneio Mundial de Wimbledon e campanhas para Ferrero, Hermes e Paramount Pictures.

E por falar em papel, nada como terminar este post com o poema “Canivete de papel“, de Manoel de Barros:

Desde criança ele fora prometido para lata.
Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago.
Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel.
Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona.
Servia para não picar fumo.
Servia para não cortar unha.
Era bom para água mas obtuso para pedra.
Havia outro estrupício nos guardados de Bernardo.
Tratava-se de um Guindaste para Mosca.
Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar ligado por uma correia aos ventos da manhã.
Funcionava ao sabor dos ventos.
Imitava uma instalação.
Mas penso que seja um desobjeto artístico.

Quatro histórias

Algumas vezes em minha vida eu comprei Arte. Não é fácil. Pois o associar dinheiro a algo que nos é sublime nos deixa desconfortáveis. Preciso sempre de duas  histórias. Uma história de antes da aquisição e uma história da aquisição. E, é claro, sempre vai existir uma terceira história, a de depois da aquisição.

As histórias mais significativas se relacionam a compras de obras diretamente de quem as fez. Do artista. Sem intermediários, seja de galerias, marchands ou leilões. Neste post, vou citar três. Três histórias.

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Submersão”, de Píndaro Castelo Branco. Ost. Detalhe.

A primeira é a obra “Submersão“, do pintor Píndaro Castelo Branco. Já conhecia a obra do artista desde os anos 70 e já tinha comprado algumas obras com seu marchand  Cláudio Gil. Mas um dia fui conhecer o atelier do pintor. Logo ao entrar, uma obra se apossou de mim: “Submersão”.  Pertencia ao seu acervo particular. Não estava à venda. Mesmo assim, ousei perguntar qual valor a obra poderia custar. Ouvi um preço bastante alto, sobretudo para o meu padrão de renda na época. Não hesitei. Fiz a oferta. Após instantes de apreensão e ansiedade mútuas, eu havia comprado a obra, submersa em intensa felicidade. Uma verdadeira conquista!

Aqui neste blog, já escrevi um post sobre o artista: “Píndaro, uma tatuagem na alma“.

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“Marinha”, de Azamor. Ost.

A segunda obra é do artista Azamor. Silvio Azamor de Oliveira. É um artista conhecido por suas marinhas, feitos em pequenos pedaços de madeira. Eu já havia adquirido em leilões alguns daqueles “pedaços de mar”, quando um dia fui conhecer o seu atelier, situado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Lá, soube que ele havia desmontado um imenso armário e cortado em minúsculos pedaços para poder ter um suporte e pintar suas marinhas. Mas lá, encontrei também uma tela maior, totalmente glamurosa, com uma marinha soberba. Paixão ao primeiro olhar. Comprei.

A terceira e quarta história tiveram Van Gogh como fio condutor.

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“Van Gogh”, escultura de Chico Joy.

Há anos os personagens criados pelo artista Chico Joy percorrem minha casa. E meu jardim. Músicos, cientistas, pintores povoam salas e quartos. Poetas e escritores deixam seus versos e prosas nos canteiros do “Jardim dos Poetas“. Mas neste ano uma escultura me arrebatou: a de Vincent van Gogh. Impressionante a riqueza de detalhes e de sentimentos expostos em tão pouca matéria. Bendita seja a minha paixão pelas Artes!

Também escrevi um post (aliás, mais de um… ) neste blog sobre Chico Joy: “Chico Joy, o artesão que faz arte“.

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Releitura de “Noite Estrelada”, de Van Gogh. Por Miguel Arruda. Acrílica e nanquim sobre papel canson.

A quarta e quinta obra são uma aquisição recente. Ainda estou me acostumando. Sim, porque quando se compra uma obra, é preciso se acostumar. É mais uma paixão em nossa vida. É mais um pedaço deste quebra-cabeças gigantesco de relação com a Arte que a gente vai montando pela vida afora. Então, as obras são releituras das famosíssimas “Noite Estrelada” e “Lírios” de Vincent van Gogh. Um primor. Pertence à coleção “Impressões sobre Van Gogh“, feita pelo artista e engenheiro Miguel Arruda. Já tinha visto parte desta coleção em sua casa em Botafogo, no ano passado. Fiquei tão encantada que escrevi na ocasião um post de mesmo nome: “Impressões sobre Van Gogh“.

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Releitura de “Lírios”, de Van Gogh, por Miguel Arruda. Acrílica e nanquim sobre papel canson.

Aí, nesta semana ele resolveu vender as obras. Minha decisão foi instantânea. Vejo curvas de nível nas estrelas, nas montanhas, no cipreste.  Nas flores. Um primor e um esplendor. Aliás, dois primores, dois esplendores.

  Autor: Catherine Beltrão

A valsa de Camille Claudel

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Camille Claudel, em 1884.

Camille Claudel (1864-1943) , até alguns anos atrás, era conhecida como escultora, modelo, aluna, amante e colaboradora de Auguste Rodin, um dos maiores escultores da história da Arte, criador de “O Pensador” e de “O Beijo“.  Hoje, Camille caminha a passos largos para ser considerada maior que Rodin!

Durante quinze anos, de 1883 a 1898, os dois artistas criaram a maior parte de suas obras em conjunto, uma arte fecundando a outra. Corpos e almas se entregaram de forma voraz, produzindo obras repletas de sensualidade. Foi o caso de “A valsa“, produzida por Camille Claudel.

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“A valsa”. Vídeo feito no Museu Soumaia, no México.

Na época de sua criação, em 1892, a obra, encomendada pela Academia de Belas Artes, foi alvo de um escândalo, pois representava um casal de dançarinos nus enlaçados.  Camille recebeu a ordem de cobrir a nudez do casal, o que ela fez em 1901, vestindo a mulher com um véu de metal, o que só fez ampliar a graça ao movimento. “A valsa” foi editada em 25 exemplares, nenhum deles em mármore.

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“A valsa”. Detalhe.

claudel_valsa5Um desses exemplares, uma escultura em bronze ficou desaparecida por mais de cem anos. Esquecida em um armário de seu primeiro proprietário, recentemente foi descoberta e colocada à venda em um leilão que aconteceu em um castelo na França. Valor de arremate da peça? 1,46 milhões de euros!

É o recorde já alcançado por uma estatueta deste tamanho – ela mede 46,7cm -  de “A valsa“. Um outro exemplar, bem maior, com altura de 96cm, já tinha sido vendido em um leilão da Sotheby’s, em 2013, por 5,1 milhões de euros.

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“A valsa”. Detalhe.

E quem arrematou a peça? A sobrinha neta de Camille Claudel, Reine-Marie Paris, que disputou com vários concorrentes, inclusive dos Estados Unidos, o direito de adquirir a escultura, que já tem destino certo: o Museu de Camille Claudel, localizado em Nogent-sur-Marne, perto de Paris. Reine-Marie já doou ao Museu várias peças de sua coleção de sua tia-avó, que ela foi comprando durante a vida.

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“A valsa”. Detalhe.

Assim se expressou Louis Vauxelles, influente crítico de arte francês, acerca de “A valsa“: “O ritmo, a harmonia e a embriaguez da valsa estão aí, mas também a paixão e a concordância dos corpos. Ambos são energia atormentada e fineza nervosa. É um homem e uma mulher vacilando na paixão que os une numa sensualidade impetuosa. A Valsa é um poema de uma louca embriaguez: os dois corpos não são mais que um, o prestigioso torvelinho enlouquece-os, a bailarina morre de voluptuosidade”.

A Arte. O Amor. A Nudez. O que se aproxima mais de Deus do que uma criação como essa?

Autor: Catherine Beltrão 

 

Pedras macias feito poesia…

Nem sempre as pedras machucam. Algumas vezes elas ficam é preocupadas com a nossa tristeza… e mostram suas rugas. Outras vezes,  até choram… Quase sempre nos embalam em seu colo quente, pois de versos também são feitas.

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“Recorte de pele” – granito

José Manuel Castro López é um artista espanhol que utiliza e transforma pedras em objetos acariciáveis. Manoel (de Barros), Cecília (Meireles), (Carlos) Drummond (de Andrade) e Cora (Coralina) são poetas brasileiros que transformam versos que falam de pedra em ninho-colo.

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“Pedra-cérebro” – granito

“A Pedra”, de Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

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“Lágrimas de pedra”

Manoel de Barros também escreveu:  “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.

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“Beliscão” – quartzo

“No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

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“Paralelepípedos” – granito e aço inoxidável

Mais uma pedra-pensamento de Manoel de Barros: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.

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“Contratura” – pedra e óxido de ferro

Pedras”, de Cecília Meireles

Eu vi as pedras nascerem,
do fundo do chão descobertas.
Eram brancas, eram róseas,
- tênues, suaves pareciam,
mas não eram.

Eram pesadas e densas,
carregadas de destino,
para casas, para templos,
para escadas e colunas,
casas, plintos.

Dava a luz da aurora nelas,
inermes, caladas, claras,
- matéria de que prodígios? -
ali nascidas e ainda
solitárias.

E ali ficavam expostas
ao mundo e às horas volúveis
para, submissas e dóceis,
terem outra densidade:
como nuvens.

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“Contraste de personalidades” – pedra morceña e óxido de ferro

Daquele que deixou um pequeno príncipe fazer a volta de um asteróide, não podia deixar de também dizer o que achava das pedras:

Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral.” – Antoine de Saint-Exupéry

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“Lambida” – pedra morceña

“Das pedras”, de Cora Coralina

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida…
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Autor: Catherine Beltrão

A Alice de Dali

Qual a história que tem como personagens um chapeleiro maluco, uma lagarta, um coelho branco, uma tartaruga fingida, o gato de Cheshire e uma Rainha de Copas? Alguém aí não pensou em “Alice no País das Maravilhas“?

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Ilustração para a capa do livro “Alice no Paí das Maravilhas”, de Salvador Dali. Vídeo com as 14 heliogravuras.

 

A história escrita por Lewis Carroll – pseudônimo do escritor, poeta e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898) – foi publicada em 1865. Há mais de 150 anos, as peripécias de Alice encantam adultos e crianças pois, muito mais do que um conto de fadas, é uma história psicodélica, imaginativa, crítica e atemporal.

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Ilustração para a “Festa do Chá Maluco”, de Salvador Dali.

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Ilustração para o “Conselho de uma Lagarta”, de Salvador Dali

Certo dia, Alice adormece e sonha que entrou num outro país, o País das Maravilhas, onde tudo é muito estranho: ela encontra um Coelho Branco sempre atrasado, um Chapeleiro que toma um chá interminável com a Lebre de Março, ouve os conselhos de uma Lagarta Fumante e conhece a Rainha de Copas que quer cortar a sua cabeça…

Em 1969, quando a obra completava 104 anos, a editora de livros americana Random House – uma das maiores do mundo – decidiu que “Alice” merecia uma nova edição, algo especial. E quem mais psicodélico e surreal do que a própria história de Alice deveria fazer as novas ilustrações?

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Ilustração para a “Toca do Coelho”, de Salvador Dali. Vídeo (em inglês)apresentando a  publicação de 1969.

Preservando o texto original, a editora convidou o pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989)  para reinterpretar o visual da história. Ao todo, foram 14 heliogravuras incluindo capa e pós-capa.  As poucas edições publicadas tornaram-se relíquias. Em 2011, a Amazon anunciava a venda de uma delas por US$ 12,9 mil (cerca de R$ 20 mil, na época).

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Ilustração para o “Chão Croquetado da Rainha”, de Salvador Dali

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Ilustração para a “História da Tartaruga Fingida”, de Salvador Dali

Para aqueles que não conhecem a técnica usada por Dali, a heliogravura consiste em um processo fotomecânico destinado a obter uma gravura a partir da exposição à luz e transferência química para uma placa de estanho (ou cobre) derivado de um petróleo fotossensível. Dali usou uma camada de gelatina sensibilizada com bicromato de potássio e negativos, colocado em contato com a placa de metal recoberta pela gelatina que após ser exposta a luz tem as partes assim expostas endurecidas e insolúveis na água. As regiões onde a luz não reage com a gelatina (devido as zonas escuras do negativo) serão lavadas e derretidas. Assim, um ácido utilizado em parte do processo ataca apenas as partes expostas do metal, criando sulcos ou gravações que serão preenchidas com tinta.

Lewis Caroll e Salvador Dali, duas mentes criadoras e psicodélicas que ousaram na Literatura e na Arte, fazendo do País das Maravilhas de Alice um lugar para onde qualquer um de nós gostaria de viajar e conhecer…

Autor: Catherine Beltrão

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte II)

Após as monumentais bibliotecas (clique aqui) do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, do Clementinum,  em Praga e do Mosteiro Beneditino, na Áustria, é a vez de apresentar três magníficas livrarias.

Começo pela famosa Livraria Lello, localizada na cidade do Porto, em Portugal. Esta livraria ostenta uma estilo arquitetônico único, combinando neogótico com “art nouveau” e “art déco”.

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Livraria Lello, no Porto/Portugal. Escadaria principal.

A história da livraria Lello é também a história dos irmãos Lello. José e António Lello nasceram na Casa de Ramadas, freguesia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, filhos de um proprietário rural. José Lello é o primeiro a vir para o Porto. Homem de cultura, amante da leitura, dos livros e da música, sonha tornar-se livreiro, o que vem a acontecer com a abertura da primeira livraria e editora em 1881 com o seu cunhado. Após o falecimento deste, José Lello constitui a sociedade José Pinto de Sousa Lello & Irmão, com o irmão Antônio Lello, 9 anos mais novo.

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Livraria Lello.

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Livraria Lello. Fachada externa.

Os irmãos Lello estabelecem-se na Rua do Almada, desconhecendo ainda que o edifício que levaria o seu nome até ao próximo milênio se encontrava a poucos quarteirões. A atividade editorial da Lello e Irmãos era marcada por uma paixão pelos livros e pela cultura. Este amor à arte deu origem à criação de edições especiais, editadas em número reduzido, com a colaboração de artistas plásticos, como ilustradores e pintores, e com enorme cuidado gráfico.

É em 1894 que José Pinto de Sousa Lello compra a Livraria Chardron aos então donos, juntamente com todo o seu espólio. Embora estivesse já  em outras mãos, esta livraria tinha feito o seu nome pela mão do francês Ernesto Chardron. Este influente editor era um motor do setor, tendo publicado as primeiras edições de obras eternamente sonantes como as de Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco, por exemplo. Esta ambiciosa ampliação da Lello e Irmãos precisava de ser acompanhada de um quartel condizente com a renovada importância no setor. O edifício da Rua das Carmelitas é então moldado pela visão suntuosa do engenheiro Francisco Xavier Esteves. E é em 1906 a inauguração do espaço como hoje é conhecido.

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Livraria El Ateneo, em Buenos Aires/Argentina.

Em 2008, a livraria Ateneo Grand Splendid, uma das mais conhecidas de Buenos Aires, foi classificada pelo jornal britânico “The Guardian” como a segunda mais bonita do mundo.

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Livraria El Ateneo.

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Livraria El Ateneo

O edifício foi projetado pelos arquitetos Peró e Torres Armengol e aberto como um teatro em 1919. Palco de diversos espetáculos de tango feitos por artistas como Carlos Gardel e Roberto Firpo no passado, ela possui estilo eclético, com afrescos pintados pelo artista italiano Nazareno Orlandi, no teto, e cariátides esculpidas por Troiano Troiani. O teatro acabou sendo fechado e, em 2000 foi comprado pela cadeia de livrarias Yenni. Atualmente, a Ateneo Grand Splendid conta com 120 mil exemplares de livros, um bar e um café, localizados no palco do antigo teatro.

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Livraria Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen, em  Maastricht/Holanda

A livraria que foi considerada campeã na lista do “The Guardian” é a holandesa Boekhandel Selexyz Dominicanen, localizada na cidade de Maastricht. O nome pomposo faz jus ao ambiente: a livraria foi montada em 2007 dentro de uma exuberante igreja dominicana do século XII que há anos encontrava-se abandonada, servindo de depósito de bicicletas. O contraste da estrutura gótica da igreja com a decoração interior moderna dá um charme extra à ideia que, por si só, já atrai curiosos.

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

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Livraria Boekhandel Selexyz Dominicanen

A igreja Dominicana original foi construída em 1294, cerca de 80 anos após São Domingos ter formado a Ordem dos Pregadores. O fechamento é geralmente creditado a Napoleão Bonaparte. Seu exército fechou o edifício durante a invasão de 1794, apesar do respeito de Napoleão e seu carisma com a religião católica, forma de manter a ordem social.

A igreja não caiu em ruínas, mas passou os próximos dois séculos abandonada e negligenciada. A imponente igreja dominicana do século XII foi restaurada, resultando num contraste incrível entre a estrutura gótica externa e a decoração interior moderna, um charme para poucos. Hoje, a estrutura tem uma estante de três andares completa, com passarelas, escadas e elevadores.

Quando os livros se mesclam à beleza e à imponência de um lugar, não há limite para a nossa imaginação e nem mesmo para a nossa felicidade.

 Autor: Catherine Beltrão

 

Bibliotecas e livrarias que são obras de arte (Parte I)

Estamos em plena Bienal Internacional do Livro. É a 18ª e acontece no Rio de Janeiro. É inevitável a lembrança das mais belas bibliotecas e livrarias que existem pelo mundo afora. O tema merece dois posts: um para as bibliotecas, outro para as livrarias. Três bibliotecas e três livrarias.

Começo pelas bibliotecas. E começo pela brasileira. O Real Gabinete Português de Leitura fica situado no Rio de Janeiro e é a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822.

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Real Gabinente Português de Leitura, Rio de Janeiro/Brasil

Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro reuniu-se na casa do Dr. António José Coelho Lousada, na antiga rua Direita (hoje rua Primeiro de Março), nº 20, e resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. É possível que os fundadores do “Gabinete” tenham sido inspirados pelo exemplo vindo da França, onde, logo seguir à revolução de 1789, começaram a aparecer as chamadas “boutiques à lire”, que nada mais eram do que lojas onde se emprestavam livros, por prazo certo, mediante o pagamento de uma determinada quantia.

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Real Gabinete Portuguêsde Leitura

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Real Gabinete Português de Leitura. Fachada externa.

Nas comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880), a sede do Gabinete irá ocupar um terreno na antiga rua da Lampadosa.  A sua nova sede, construída em estilo neomanuelino e que foi inaugurada pela Princesa Isabel em 1887, guarda cerca de 350.000 volumes (milhares de obras raras).  Esse acervo maravilhoso está disponível a qualquer um do povo, pois o Real Gabinete é uma biblioteca pública, a partir de 1900.Em 1906, o rei D. Carlos atribui o título de “Real” ao Gabinete e tem lugar, no Salão dos Brasões, uma grande exposição de pinturas de José Malhôa, a cuja inauguração comparece o Presidente Rodrigues Alves.

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Biblioteca Clementinum, Praga/República Tcheca

Construída em 1722, o edifício da Biblioteca Clementinum é uma obra da arquitetura barroca de Praga, capital da República Tcheca. A Biblioteca abriga mais de 20.000 volumes sobre literatura, medicina e teologia. Por muito tempo foi considerada o maior colégio jesuíta do mundo. Seu teto é repleto de afrescos do pintor Jan Hiebl.

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Biblioteca Clementinum. Fachada externa.

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Biblioteca Clementinum.

Sua história remonta à existência de uma capela dedicada a São Clemente, no século 11. Um mosteiro dominicano foi fundado no período medieval, sendo depois transformado, em 1556, em um colégio jesuíta. Em 1622, os jesuítas transferiram a biblioteca da Charles University para o Klementinum, e o colégio foi absorvido pela Universidade em 1654. Os jesuítas permaneceram até 1773, quando o Klementinum foi estabelecido como um observatório, biblioteca e universidade  pela imperatriz Maria Theresa da Áustria.Além dos afrescos que decoram o teto, a biblioteca abriga retratos de santos jesuítas, antigos patronos da biblioteca e outras pessoas proeminentes e  também uma preciosa coleção de globos geográficos e relógios astronômicos, na sua maioria, feitos por padres jesuítas.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino, em Admont/Áustria.

A Biblioteca do Mosteiro Beneditino fica situada em Admont, na Áustria.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Fachada externa.

Foi fundada em 1776 e está integrada num Mosteiro Beneditino.O salão biblioteca, construída em 1776 e  projetada pelo arquiteto Joseph Hueber, em estilo rococó, é de 70 metros de comprimento, 14 metros de largura e 13 metros de altura. É a maior biblioteca monástica do mundo. Possui mais de 180.000 obras, incluindo 1,4 mil manuscritos (o mais antigo do século 8) e os 530 incunábulos (livros impressos antes de 1500), além de volumes antigos e edições originais de obras raras. O teto é composto por sete cúpulas e  tem afrescos do artista austríaco Bartolomeo Altomonte (1657-1745), pintados entre 1775 e 1776, que celebram a ciência e a fé. A luz penetra  por 48 janelas e é refletida pelo esquema de cores originais de ouro e branco.

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Biblioteca do Mosteiro Beneditino. Sala de leitura.

Quando se eleva a leitura ao nível de uma prece, o homem chega perto de Deus.

Para ler a segunda parte deste texto, apresentando as livrarias Lello, na cidade do Porto, El Ateneo, em Buenos Aires e Boekhandel Selexyz Dominicanen, na Holanda, clique aqui.

 Autor: Catherine Beltrão

Pablos e Ediths

Em muitos de meus posts, gosto de colocar lado a lado pintura e poesia. Cores, formas e palavras. As cores ganham significado e as palavras ganham forma.

Neste post, vou além. Escolhi dois nomes. Pablo e Edith. Um Pablo da pintura e outro da poesia. Uma Edith da pintura e outra da canção.

A primeira dupla: Pablo Picasso e Pablo Neruda…

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“Guernica”, de Pablo Picasso. Painel a óleo, 7,77m X 3,49m. 1937.

Pablo Picasso (1881-1973) foi um pintor, escultor e desenhista espanhol.
Minha mãe me dizia: Se queres ser um soldado, serás general. Se queres ser um monge, acabarás sendo Papa. Então eu quis ser um pintor e agora sou Picasso.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno e um dos mais importantes da língua castelhana do século XX.

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Pablo Picasso

“Saudade”, de Pablo Neruda (vídeo com Aldo Bastos)

Pablo NerudaSaudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Picasso_maternidade

“Maternidade”, de Pablo Picasso. Ost, 1905.

A segunda dupla: Edith Blin e Edith Piaf…

Edith_Maquis

“Maquis”, de Edith Blin. Osm. 1945.

Edith Blin (1891-1983) foi uma pintora francesa.
Sou espontânea. Minha técnica é completamente livre. Depende de meu estado de espírito. Sinto mais atração pela forma do que pela cor. Não aprecio os detalhes. Somente os essenciais. É o que importa realmente. Sou uma pintora da alma“.

Edith Piaf (1915-1973) foi uma cantora francesa e, segundo pesquisa da BBC, considerada a 10ª maior francesa de todos os tempos.

Piaf

Edith Piaf

Edith

Edith Blin

“Rien de rien”, de (Charles Dumont e Michel Vaucaire). Clique aqui para ver o vídeo com Edith Piaf.

 

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
C’est payé, balayé et oublié.
Je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
J’ai allumé le feu.
Mes chagrins, mes plaisirs.
Je n’ai plus besoin d’eux.
Balayé les amours
Avec les trémolos.
Balayé pour toujours.
Je repars à zéro.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu’on m’a fait ni le mal.
Tout ça m’est bien égal.

Non, rien de rien.
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies aujourd’hui,
Ça commence avec toi!

Edith_katiaeseusamigos

“Katia e seus amigos” (detalhe), de Edith Blin. Pastel sobre cartolina, 1955.

Uma curiosidade: Pablo Picasso (1881-1973) e Edith Blin (1891-1983) passaram ambos 92 anos neste nosso planeta. Quando Edith nasceu, Pablo tinha dez anos. Quando Edith morreu, Pablo tinha morrido fazia dez anos…

 Autor: Catherine Beltrão

Mosaicos brasileiros

Até chegar ao Brasil, a arte do mosaico passeou pela antiguidade greco-romana, bizantina, portuguesa… Nos tempos modernos, com certeza quando se fala em mosaico o nome que se vem à mente é Antoni Gaudi, o arquiteto e artista catalão que deixou sua genialidade florescer em prédios e parques da cidade de Barcelona.

BurleMarxp

“As ondas” do calçadão de Copacabana. Burle Marx.

No Brasil, grandes artistas plásticos também utilizaram a técnica das tesselas para expressar sua arte. Grande parte deles, em seus últimos anos de vida. Como se fosse o último degrau de suas trajetórias…

BurleMarx_NY

Painel abstrato em jardim de Nova York. Burle Narx. 1991.

Burle Marx talvez seja o mais conhecido mosaicista brasileiro. É dele a criação do logotipo internacional do calçadão de Copacabana.
O paisagista refez os desenhos originais dos calceteiros portugueses, realçou sua sensualidade na medida da ampliação do calçamento e manteve o paralelismo com as ondas do mar, que fora implantado na reforma de 1929 pelos calceteiros já habilitados no Brasil.  No canteiro central da Avenida Atlântica e no piso junto aos edifícios, Burle Marx aplicou novos desenhos, com pedras pretas e vermelhas (basalto) e brancas (calcáreo).

Burle Marx também projetava mosaicos abstratos para seus jardins. Em 1991, ele participou de uma exposição de jardins em Nova York . Em um deles, uma composição de 2,4 x 5 metros formada por 1.325 azulejos de cerâmica pintada, ficou suspenso sobre o lago da estufa das palmeiras, cercado por orquídeas de cores variadas.

LygiaClark

Painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana. Lygia Clark. 1951.

Lygia Clark, uma das maiores artistas brasileiras da arte contemporânea, também deixou um legado em mosaicos é dela o painel do Edifício Mira Mar, em Copacabana, RJ. Em 1951, ela assinava a obra, talvez a menos conhecida de sua produção artística.

AldemirMartins

Painel no condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Aldemir Martins. 2003.

Aldemir Martins, conhecido por seus gatos e galos, realizou belíssimos painéis em mosaico. Em 2003, fez o painel do Condomínio New Horizons, no Alto da Lapa, em São Paulo. Trata-se de uma obra de muitas cores fortes, que segue o mesmo padrão típico de sua vasta produção pictórica, revelando uma força muito expressiva e instigante, sobretudo se levarmos em conta que já era um homem octogenário. Mas o que se vê na obra é a mesma força e domínio plástico de seus anos de juventude. Aldemir faleceu em 2006, ou seja, três anos depois da inauguração deste painel.

Portinari

Detalhe do painel “Bandeirantes”, no Hotel Comodoro, em São Paulo. Cândido Portinari. 1957.

O nosso maior pintor, Cândido Portinari, realizou três obras em mosaico em vida. A terceira obra em mosaico que Portinari concluiu foi o painel “Bandeirantes”, aplicado em uma parede
interna de um hotel no centro de São Paulo, o Hotel Comodoro. Na época de sua inauguração, em 1957, o hotel era um dos mais
luxuosos que existia. Após décadas, a degradação da área urbana ao seu redor relativizou sua proeminência e o estabelecimento precisou de novos investimentos. O proprietário então decidiu promover um leilão para a venda do painel. Quem fizesse o maior lance ficaria com o encargo da retirada da obra, mas ninguém fez qualquer oferta acima do lance mínimo, provavelmente por temer as dificuldades inerentes à retirada de um painel em pastilhas, que é uma empreitada custosa, demorada e de risco.

TomieOhtake

Painel na Escola Imaculada em São Paulo. Tomie Ohtake. 1992.

Tomie Ohtake, uma das principais representantes do abstracionismo informal no Brasil e no mundo, fez vários painéis em mosaico, entre eles o painel na Escola Imaculada em São Paulo, realizado em 1992.
Pela importância do nome de Tomie no panorama artístico internacional e por sua sintonia com o que há de mais avançado em matéria de artes visuais, o fato de ter escolhido a linguagem das tesselas para apresentar suas obras plásticas em áreas de visibilidade pública ao longo de quase toda a década dos 90 engrandece e empresta um significado novo à esta arte.

PauloWerneck

Painel em uma agência do Banco do Brasil, em Copacabana. Paulo Werneck.

Paulo Werneck foi o responsável pela introdução da técnica do mosaico no Brasil, contribuindo com murais e painéis para projetos de diversos arquitetos. Uma de sua belas obras foi um painel encontrado por trás de uma parede forrada de gesso, por ocasião de uma reforma das instalações de uma agência do Banco do Brasil, no Posto Seis de Copacabana.

 Autor: Catherine Beltrão

No blog ArtenaRede são postados textos sobre impressões artísticas de seus colaboradores, que poderão servir de pretextos para comentários e discussões dos leitores, pois a Arte nunca foi unânime.