Livros em monumentos

Transformar livros em monumentos? Um dia, alguém tentou. Quem? Como? Um dia, resolvi pesquisar. Aqui está o resultado.

O monumento que mais me impressionou foi o “Parthenon de livros“, criado pela argentina Marta Minujin, como uma réplica em grande escala do Parthenon de Atenas. Este monumento foi construído a partir de livros censurados como símbolo da resistência à repressão política.

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“Parthenon de livros”, em Kassel, na Alemanha

E que livros censurados são esses? Pesquisadores da Universidade de Kassel , na Alemanha, fizeram a lista. Pasmem! Na lista de livros censurados havia  “O Pequeno Príncipe”, censurado na  Argentina e “Alice no País das Maravilhas”, censurado na China.

Em 2017, no festival de arte Documenta 14 em Kassel, os cem mil livros que compõem o monumento foram obtidos exclusivamente de doações.

Um outro monumento amplamente fotografado e divulgado pelo mundo afora é o intitulado “Impressão Moderna de Livros“, criado  em 2006, na Bebelplatz, em frente à Universidade de Humboldt de Berlim.

São 17 livros sobrepostos numa torre de 12 metros, pesando cerca de 35 toneladas.

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“Impressão Moderna de Livros”, na Bebelplatz, em Berlim, na Alemanha.

E quais os dezessete nomes homenageados? Além de Goethe, o nome mais consensual dentro da cultura das letras alemãs, temos: Bertolt Brecht, Thomas Mann, Theodor Fontane, Hermann Hesse, Gotthold Ephraim Lessing, Friedrich Schiller, Heinrich Böll, Karl Marx, Irmãos Grimm, Friedrich Hegel, Anna Seghers, Immanuel Kant, Martin Luther, Heinrich Heine, Hannah Arendt e Günter Grass.

Você concorda? Claro que não! Nenhuma lista de 17 nomes, seja em que área for, irá coincidir com nossas escolhas…

O terceiro monumento não é tão imponente como os dois anteriores. São os degraus das “Escadas do Conhecimento“, pintados em 2017 junto à Biblioteca da Universidade de Balamand no Líbano. Cada degrau, um livro. Estes livros foram escolhidos, segundo a responsável pelo projeto, pelo seu impacto em quatro diferentes áreas — Literatura, Filosofia, Política e Ciência — e estão organizados de baixo para cima em ordem cronológica, começando com a mais antiga obra escrita, “Épico de Gilgamesh” e terminando com o livro de Bill Gates de 1997.

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“Escadas do Conhecimento”, na Universidade de Balamand, Líbano

O objetivo do projeto é apresentar aos alunos e à comunidade, clássicos que, ao longo da nossa civilização, transformaram a nossa maneira de pensar.

Como o monumento abrange “degraus” que representam toda a cultura escrita mundial, ao longo de quase cinco mil anos, é impossível contentar a todos. Interessante é o fato de encontrarmos, junto à “Divina Comédia“, de Dante, “O Príncipe“, de Maquiavel e “O Discurso do Método“, de René Descartes, alguns autores que são praticamente desconhecidos no ocidente. Obras como “Diwan“, uma coleção de poemas de Al-Mutanabbi (915-965), considerado um dos maiores poetas da língua árabe, e “A Epístola do Perdão” de Abul ‘Ala Al-Ma’arri (973-1057), considerado um dos grandes filósofos e poetas do mundo clássico árabe, sendo esta obra considerada uma espécie de percursora da Divina Comédia.

Além destes três monumentos, existem vários outros. Vale a pena destacar “A Cidade dos Livros“, uma biblioteca pública em Aix-en-Provence, na França. Sua entrada é feita através três livros enormes: “O Pequeno Príncipe“, de Antoine de Saint-Éxupéry, “O Doente Imaginário“, de Molière e “O Estrangeiro“, de Albert Camus.

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“Cidade dos livros”, em Aix-en-Provence, na França

Outro monumento interessante é a Biblioteca Pública em Kansas, Estados Unidos. O atual prédio da biblioteca foi concluído em 2004 e sua fachada se assemelha à uma prateleira de estante, formada por lombadas de vinte e duas obras literárias enfileiradas. Cada título representado tem cerca de 7 metros de altura e 2,70 de largura.

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Biblioteca pública em Kansas City, no Missouri, Estados Unidos.

Eis a lista dos vinte e dois livros escolhidos para estarem representados na fachada da biblioteca: “Histórias da Cidade de Kansas”, de vários autores; “Ardil 22″, de Joseph Heller; “Histórias de Crianças”, de vários autores; “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson; “O Pioneers!”, de Willa Cather; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez; “Seus Olhos Viam Deus”, de Zora Neale Hurston; “Fahrenheit 451″, de Ray Bradbury; “A República”, de Platão; “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain; “Tao Te Ching”, de Lao Tzu; “The Collected Poems of Langston Hughes”, de Langston Hughes; “Black Elk Speaks: Being the Life Story of a Holy Man of the Oglala Sioux”, de Black Elk; “Por Favor Não Matem a Cotovia”, de Harper Lee; “Homem Invisível”, de Ralph Ellison; “Journals of the Expedition”, de Meriwheter Lewis e William Clark; “Undaunted Courage”, de Stephen Ambrose; “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien; “A Tale of Two Cities”, de Charles Dickens; “Charlote’s Web”, de E. B. White; “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare e “Truman”, de David McCullough G.

E quanto a você? Qual seria a sua lista de 15 livros a serem representados em um monumento?

Autor: Catherine Beltrão

Reciclando arte

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Vídeo sobre a artista Suzanne Jongmans

Suzanne Jongmans nasceu em 1978, na cidade de Breda, na Holanda. É holandesa, como o foram artistas como Rembrandt, Jan van Eick e Johannes Vermeer.

Suzanne é uma artista interdisciplinar. Ela é escultora, costureira, figurinista e fotógrafa. Formou-se em Desenho Têxtil e Fotografia e,  desde cedo, ela era intrigada pelos pequenos detalhes. E são eles, exatamente, que tornam sua obra tão cativante.

Suzanne recriou, em fotografias, as pinturas de grandes mestres holandeses, além de outros mestres do renascimento como o alemão Holbein e o belga Rogier van der Weyden.

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Obra de Suzanne Jongmans

Para fazer cada fotografia, ela cria o figurino da personagem utilizando materiais inusitados como embalagens, plástico, isopor e cobertores reciclados.

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Obra de Suzanne Jongmans, baseado em detalhe da obra de Jan van Eick, “Retrato de Giovanni Arnolfini e a mulher dele”.

É incrível o resultado. Só é possível perceber o uso do material quando se olha realmente de perto, com um olhar mais analítico.

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Obra de Suzanne Jongmans

Ela explica:

Quando você presta atenção nos quadros dos grandes mestres, percebe o quão trabalhosos eles eram”, diz a artista. “E é exatamente este mesmo método que empreguei, que demanda tempo”.

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Obra de Suzanne Jongmans

As fotografias de Suzanne Jongmans dão vida nova a resíduos descartados. Segundo ela, sua intenção é que esses materiais “contem uma história”. A série de imagens é chamada de “Mind
over Matter” (“Mente sobre matéria“).

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Obra de Suzanne Jongmans

A ideia de criar algo do nada muda nosso olhar sobre a realidade”, afirma. “Um pedaço de plástico com texto impresso, usado para embalar uma máquina de café ou uma televisão, pode parecer um pedaço de seda. E a tampa de uma lata de molho de tomate pode parecer um anel”.

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Obra de Suzanne Jongmans, baseada em “Retrato de uma dama”, de Rogier van der Weyden

E foi o que fez a fotógrafa em de seus trabalhos, colocando uma tampa de uma lata de tomate no dedo de uma de suas personagens, em contraponto ao anel usado pela personagem de “Retrato de uma Dama”, de Rogier van der Weyden, de 1460. “As duas jovens separadas por cerca de meio milênio, posam de maneira semelhante com os dedos entrelaçados e rostos com expressões modestas e olhos castigados. Eles também compartilham os enfeites de cabeça em forma de cone plissados e visivelmente presos. A diferença está nas marcas vermelhas e pretas do retrato contemporâneo estampadas na espuma, instruções sobre reciclagem e avisos”, ela explica.

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Obra de Suzanne Jongmans

O que surpreende na obra de Suzanne Jongmans é que, apesar de o material ser reciclado, as roupas são muito delicadas. Ela transforma plástico em tecido, rendas e drapeados. Lenços de cabeça parecem feitos de seda e o plástico bolha vira uma  linda gola e mangas de um vestido. E bolinhas de isopor flutuam no ar como um véu…

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Obra de Suzanne Jongmans

Quando a arte é nossa estrela guia, transformamos um descarte em parte de uma noite estrelada… lembrando de outro mestre holandês, Vincent van Gogh!

Fonte: clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Natais eternizados

De onde vem a tradição de uma árvore de Natal?

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Árvore de Natal da rainha Victoria

A tradição de usar árvores para decorar as casas é bem antiga. Os egípcios, celtas, romanos e até mesmo os vikings traziam árvores para dentro de casa. As árvores eram usadas como decoração no solstício de inverno e acreditava-se que, ao final dessa estação, o sol iria reaparecer e as plantas voltariam a crescer.

Mas foi por volta do século XVI que as árvores de natal tornaram-se um costume cristão. A tradição da árvore de Natal não se espalhou rapidamente pela Europa. Foi somente em 1846, após a publicação de uma ilustração da rainha Victória e do príncipe Albert com seus filhos em volta de uma árvore de natal cheia de presentes, que pessoas de outros países passaram a utilizá-la.

No Brasil, o costume de enfeitar árvores de Natal entre os cristãos só apareceu no começo do século XX.

E, como seria de se esperar, pintores e poetas expressaram o Natal, seja com árvores , seja com meninos em manjedouras…

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“Silent Night”,1891
Viggo Johansen (Dinamarca, 1851-1935)
óleo sobre tela

Manoel de Barros escreveu:

Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos ,pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado !

Poema de Natal“, de Vinicius de Moraes

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“Arbre de Noël”, 1956
Edith Blin (França, 1891-1983)
pastel sobre cartolina

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

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“Festa de Natal”, 1943
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela

Canto de Natal“, de Manuel Bandeira:

“O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.”

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“Manhã de Natal”, 1916
Henry Mosler (EUA, 1841-1920)
óleo sobre tela

O Que Fizeram do Natal“, de Carlos Drummond de Andrade

“Natal.
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.”

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“A árvore de Natal”, 1911
Albert Chevallier Tayler (GB, 1862-1925)
óleo sobre tela

História Antiga“, de Miguel Torga

“Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.”

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“A árvore de Natal”
Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859–1912)
óleo sobre tela

Natal…“, de Fernando Pessoa

“Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!”

Na manjedoura“, de Clarice Lispector

“Na manjedoura estava calmo e bom. Era de tardinha, ainda não se via a estrela. Por enquanto o nascimento era só de família. Os outros sentiam, mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizara. O destino da criança era o de nascer. E o dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E, antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.

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“Armando a árvore”
Elena Khmeleva (Rússia, 1966)
óleo sobre tela

A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, os seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante. Também as crianças, os pobres de espírito e os que amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.

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“Oh, árvore de Natal”
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875 – 1941)
óleo sobre tela

Tudo tão vago“, de Mário Quintana

Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…
São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia

Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem dor
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago…Sei que havia um rio…
Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
O menino dormira…Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…

Eras tu…que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

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“A árvore de Natal”
Alexei Mikhailovich Korin (Rússia, 1865 – 1923)
óleo sobre tela

Para muitos de nós, as árvores de Natal são pedaços de nossa infância. Que teimamos em perpetuar em nossos filhos. Lembranças de crianças para crianças. Não há necessidade de mais presentes.

Autor: Catherine Beltrão

Arte a partir de livros

Ah, os livros! Fonte de nossa alma, onde sempre podemos beber, seja com sofreguidão ou delicadeza, os pensamentos de nossos pares…

Hoje conheci mais um artista. Mike Stilkey. Um artista californiano que cria sua arte ao amontoar e pintar livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como assim? Ele não lê os livros? Não sei. Só sei que ele cria incríveis “pinturas” utilizando livros velhos como telas.

Mas isso é um sacrilégio! Será? E os livros que apodrecem nos sótãos, devorados por cupins? E os livros vendidos aos kilos como lixo?

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Mike Stilkey pintando…

Mike Stilkey é um artista estadunidense que usa livros para produzir obras de arte que ficam entre a pintura e a escultura. Seu belo trabalho já lhe rendeu exposições em vários países.

Seus personagens misteriosos, melancólicos, antropomórficos e impressionantes, que parecem saídos de algum filme.

Mike Stilkey refere que as suas pinturas são influenciadas por vários estilos: “adoro ilustração figurativa, expressionismo alemão e surrealismo”. Quantos aos protagonistas, tanto animais como pessoas são apenas situações recorrentes do dia-a-dia: representam qualquer um, mas não identificam ninguém em particular.

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Obra de Mike Stilkey

E, por falar em livros, vamos também falar de poesia. De poesia que fala de livros…

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Obra de Mike Stilkey

Humildade“, de Cecília Meireles

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Obra de Mike Stilkey

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.

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Mike Stilkey pintando…

Um dia, Fernando Pessoa escreveu:

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

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Obra de Mike Stilkey

Castro Alves também gostava de poemar…

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

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Obra de Mike Stilkey

E como não se deliciar com estes versos de Mario Quintana?

Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.

Ou esta sua “Dupla Delícia“?

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

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Obra de Mike Stilkey

Os ” Livros e flores“, de Machado de Assis, perfumam nossos pensamentos:

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

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Obra de Mike Stilkey

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

E Jorge Luis Borges…

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

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Obra de Mike Stilkey

Como não podia ser diferente, René Descartes foi cartesiano:

A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

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Obra de Mike Stilkey

E, finalmente, Arthur Schopenhauer, lacrou:

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

Os livros estão aí. Para serem lidos. Relidos. Enfeitados. Restaurados. Abraçados. Beijados. Amados. Transformados. Em Arte.

Autor: Catherine Beltrão

As cinzas do Museu Nacional

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Museu Nacional em chamas, na noite de 02/09/2018

Na noite do dia 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ardia em chamas.  O fogo destruiu quase a totalidade do acervo histórico e científico construído ao longo de duzentos anos, com cerca de vinte milhões de itens catalogados.

O que se faz após uma tragédia desta magnitude? Cabe a cada um de nós refletir, planejar e agir. Foi o que Vik Muniz fez. Vik Muniz, brasileiro, um dos maiores nomes da arte contemporânea  mundial, que trabalha com materiais inusitados, como lixo, restos de demolição e componentes como açúcar, chocolate, café e … cinzas.

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“Museu Nacional”, de Vik Muniz, feito com suas cinzas.

Desta vez, o artista utilizou cinzas do Museu Nacional para produzir algumas obras que estão atualmente em exposição em uma Galeria de Nova York. Trabalhando com cinzas dos milhões de itens destruídos no incêndio, Vik reproduziu alguns deles: a Luzia, um dinossauro, sarcófagos, múmias, borboletas, vasos…

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O dinossauro Maxakalisaurus topai, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Este trabalho mostra o esqueleto reconstituído do dinossauro   Maxakalisaurus topai , uma das maiores atrações que o Museu Nacional apresentava…

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Um dos crânios de Luzia, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, achado em 1974, também fazia parte do acervo do Museu. Magnífico trabalho de Vik Muniz!

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O sarcófago de Sha-Amun-en-su, de Vik Muniz, feito com cinzas do Museu Nacional

O artista também reproduziu o sarcófago de Sha-Amun-en-su. Ele, com sua múmia e todos os artefatos votivos conservados em seu interior, também se transformaram em cinzas no incêndio.

Palavras de Vik Muniz, acerca da exposição: “Nós já vivemos com um crescente deficit de realidade. Então, ver a História em chamas naquele momento, me fez sentir sem chão, preso a um presente infinito. Só é possível ser criativo num mundo de fatos e realidades tangíveis.”

Quando nos deparamos com as cinzas do passado, precisamos transformá-las no caminho do presente em direção ao futuro.

Fonte: matéria da GloboNews. Clique aqui.

Autor: Catherine Beltrão

Weiwei e as raízes da liberdade

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Ai Weiwei

Ai Weiwei nasceu em 1957. É um artista chinês, designer arquitetônico, artista plástico, pintor, comentarista e ativista social.

Na Arquitetura, ele Ai Weiwei foi o assessor artístico na construção do Ninho de Pássaro – Estádio Nacional de Pequim – onde foram celebrados os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008.

Como artista plástico, e considerando a América Latina, Weiwei realizou algumas exposições artísticas marcantes, com foco nos refugiados internacionais da atualidade e sua origem chinesa, em três países: Argentina, Chile e Brasil.  No Brasil, montou sua exposição de maior acervo, até agora: “Raiz: Ai Weiwei“, que passou por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Como consequência de ser ativista político e extremamente crítico em relação à postura do Governo Chinês sobre a democracia e os
direitos humanos, Weiwei já teve estúdios demolidos, foi preso e espancado pela polícia e em 2010, foi colocado em prisão
domiciliar sob suposta investigação de crimes econômicos.

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“Forever Bicycles” (“Bicicletas Forever”), de Ai Weiwei

Ai Weiwei é conhecido por realizar grandes instalações. Um exemplo é a instalação “Forever Bicycles” (“Bicicletas Forever“).
Composta por mais de mil bicicletas de aço inoxidável, a obra monumental representa para o artista, que passou a infância em
exílio com sua família durante a Revolução Cultural Chinesa, a ideia de liberdade.

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“Martin” e “Level” (“Nível”), da série “Seven Roots” (“Sete Raízes”), de Ai Weiwei

Martin” e “Level” (“Nível“) fazem parte da série “Seven Roots” (“Sete Raízes“), criadas a partir de raízes encontradas desenterradas na região de Trancoso/BA.

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“FODA”, de Ai Weiwei

FODA” é uma obra criada por Ai Weiwei especialmente para suas exposições no Brasil.
 É composta por peças de porcelana produzidas a partir de moldes de frutas brasileiras, em colaboração com um ateliê de cerâmica local. Esse projeto nasceu de uma conversa de Ai Weiwei com
o curador Marcello Dantas.
 Ai perguntou a Dantas o que lhe vinha à mente quando pensava no Brasil, e a resposta foi: frutas. Em seguida, Weiwei perguntou o termo em português que correspondia à palavra inglesa “fuck”: “foda”. A partir daí, o artista buscou uma fruta para cada uma
das letras dessa palavra: “f” de “fruta do conde”; “a” de “abacaxi”, que ele adora; “d” de “dendê”, pois estavam na Bahia; e “o” de “ostra”, um fruto do mar.

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“Sementes de girassol”, de Ai Weiwei

Sunflower Seeds” (“Sementes de Girassol“) é um trabalho impressionante que teve milhões de sementes de girassol feitas de
porcelana e pintadas à mão por 1600 artesãs chinesas – em sua maioria mulheres.

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“Lei da Jornada (Protótipo B)”, de Ai Weiwei

Par realizar a instalação gigante “Lei da Jornada (Protótipo B)”, que representa um barco usado para fuga de refugiados, ele visitou 40 campos de refugiados em 23 países como Líbano, Grécia, Quênia, Bangladesh, além da fronteira entre o México e os Estados Unidos.

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“Duas Figuras”, de Ai Weiwei

Duas Figuras“, obra criada em 2018, mostra uma mulher nua, deitada sobre um colchão ao lado do corpo do artista também nu. Ormosias Arbóreas – sementes brasileiras vermelhas em profusão – contornam a cabeça do artista. Weiwei e a modelo não se conheceram, mas a instalação revela o cheiro de fantasia e turismo sexual baratos. Pode-se imaginar sonhos eróticos que orbitam o imaginário dos estrangeiros que vêm ao Brasil, de forma vulgar. Por ironia, a legenda da obra exposta é: “ a ostensiva sexualidade na cultura brasileira”.

Ai Weiwei é hoje considerado um dos principais nomes da cena contemporânea internacional.

Autor: Catherine Beltrão

Oito ícones, seis museus

Mesmo quem não sabe quase nada de artes plásticas, já ouviu falar de “Mona Lisa“, certo? E, com quase  toda certeza, de “A Noite Estrelada” e, talvez, até de “O Grito“…

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“Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci

E quem teria pintado estas obras? Essa também é fácil! Leonardo da Vinci, Vincent van Gogh e Edward Munch…

Mas e se a pergunta fosse: Onde estão situadas estas obras? Aí, a coisa complica, não é?

Bem, o post de hoje fala destes e de outros ícones da pintura e dos museus que as abrigam. Vamos lá:

A “Mona Lisa“, obra pintada por Leonardo da Vinci entre 1503 e 1506, encontra-se no Museu do Louvre, na França, desde 1797.

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Museu do Louvre, em Paris

O Museu do Louvre, é o maior museu de arte do mundo e fica situado em Paris, França. Ele possui aproximadamente 380.000 itens, da pré-história ao século XXI, que são exibidos em uma área de 72.735 metros quadrados. Inaugurado em 1793, é o museu mais visitado do mundo.

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“A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh

E “A Noite Estrelada“, onde fica?

A Noite Estrelada“, obra de Vincent van Gogh, pintada em 1889,  faz parte da coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, desde 1941.

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“Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso

Mas neste museu também se encontram dois outros ícones da pintura, “Les Demoiselles d’Avignon” e “A Persistência da Memória“.

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“A Persistência da Memória”, de Salvador Dali

Les Demoiselles d’Avignon” é uma obra de Pablo Picasso, feito em 1907. Levou nove meses para ser feita, e sua importância se deve ao fato de ser uma das obras responsáveis por revolucionar a história da arte, formando a base para o cubismo e a pintura abstrata.

Quanto ao ícone “A Persistência da Memória“, esta obra foi pintada por  Salvador Dalí, em 1931. A pintura está localizada no MoMA desde 1934. Para quem tiver interesse, vale a pena pesquisar um pouco sobre os significados dos vários símbolos presentes na tela: relógios derretidos, formigas, caricatura do pintor…

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MoMA, em Nova Iorque

O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, mais conhecido como MoMA, foi fundado no ano de 1929 como uma instituição educacional. Atualmente é um dos mais famosos e importantes museus de arte moderna do mundo.  Possui mais de 150.000 pinturas, esculturas, desenhos, maquetes, imagens, fotografias e peças de design. E também contém uma livraria e arquivo com cerca de 305.000 livros e ficheiros de mais de 70.000 artistas.

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“A Moça do Brinco de Pérola”, de Johannes Vermeer

E essa? Quem não conhece?

Também conhecida como “A Mona Lisa do Norte” ou “A Mona Lisa Holandesa“,  “A Moça com o Brinco de Pérola“  é uma pintura do artista holandês Johannes Vermeer, feita em 1665. A pintura está no Museu Mauritshuis, desde 1902.

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Museu Mauritshuis, em Haia

O Museu Mauritshuis ( ou Casa de Maurício) é um rico museu de Haia, um dos mais importantes da Holanda. Seu nome se deve ao fato de ter sido construída por ordem de João Maurício de Nassau, que foi governador do Brasil holandês no século XVII, e hoje é a sede da Real Galeria de Pinturas de Maurishuits. Possui um importante acervo de arte, com mais de 800 obras, incluindo obras de Rembrandt e Rubens.

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“As Meninas”, de Diego Velázquez

Um outro ícone importante da pintura mundial é a obra “As Meninas“, de Diego Velázquez.  Pintada em 1656, esta obra foi intensamente analisada e reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. Ela está atualmente no Museu do Prado em Madrid.

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Museu do Prado, em Madri

O Museu do Prado, localizado em Madri, é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo. Inaugurado em 1819, sua coleção é baseada principalmente em pinturas dos séculos XVI a XIX. Entre seus quadros, conta com obras-primas de pintores como Velázquez, El Greco, Rubens, Bosch e Goya.

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“O beijo”, de Gustav Klimt

Essa aqui é fácil!

O quadro “O beijo“, de Gustav Klimt, pintado entre 1907 e 1908, é uma das obras mais reproduzidas da arte mundial. Pertence à chamada “fase dourada” do artista, que utilizou folhas de ouro na composição dos trabalhos nesta fase. O quadro está exposto em Viena, na Galeria Belvedere da Áustria.

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Galeria Belvedere da Áustria, em Viena

Veja que beleza de palácio!

A Galeria Belvedere da Áustria é um museu situado no Palácio Belvedere, em Viena, Áustria. Inaugurado em 1905, sua coleção inclui obras-primas da arte, desde a Idade Média e o Barroco até o século XXI. O acervo inclui obras de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka.

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“O Grito”, de Edward Munch

Esse ícone é barbada! Mas talvez você não saiba que “O Grito” não se resume a uma só obra: é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, pintada em 1893.  Dois dos quadros da série, “A Ansiedade” e “O Desespero“, se encontram no Museu Munch, em Oslo, outra na Galeria Nacional de Oslo e outra em coleção particular.

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Museu Munch, em Oslo

O Museu Munch é um museu de arte situado em Oslo, albergando mais da metade das obras de Edvard Munch, deixadas em testamento à comuna de Oslo em 1940. O museu foi inaugurado em 1963, cem anos após o nascimento do pintor.

Oito ícones. Seis museus. Que tal um roteiro artístico percorrendo estes museus? Mais alguém se habilita?

Autor: Catherine Beltrão

Nossa Senhora Aparecida

Nossa Senhora. Nossa Senhora Aparecida. Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Padroeira do Brasil.  E também das grávidas e recém-nascidos, dos rios e mares, do ouro, do mel, da beleza, dos rodeios, dos peões e dos vaqueiros.

Tudo isso sendo mulher. E negra.

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Nossa Senhora Aparecida, mosaico de Gerson Portella

Muitos foram os artistas que representaram esta mulher. A mais venerada brasileira.

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Nossa Senhora Aparecida, de Djanira

Cabe neste post, sem dúvida, a letra da música “Nossa Senhora“, de Roberto Carlos:

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Nossa Senhora Aparecida, de Aleijadinho

Cubra-me com seu manto de amor
Guarda-me na paz desse olhar
Cura-me as feridas e a dor me faz suportar
Que as pedras do meu caminho
Meus pés suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos me ajude a passar

Se ficaram mágoas em mim
Mãe tira do meu coração
E aqueles que eu fiz sofrer peço perdão
Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim minha mãe junto a Jesus

 

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Nossa Senhora Aparecida, de Romero Britto

Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida do meu destino
Do meu caminho
Cuida de mim

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Nossa Senhora Aparecida, de Andreza Katsani

Sempre que o meu pranto rolar
Ponha sobre mim suas mãos
Aumenta minha fé e acalma o meu coração
Grande é a procissão a pedir
A misericórdia o perdão
A cura do corpo e pra alma a salvação

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Nossa Senhora Aparecida, de Antonio Poteiro

Pobres pecadores oh mãe
Tão necessitados de vós
Santa Mãe de Deus tem piedade de nós
De joelhos aos vossos pés
Estendei a nós vossas mãos
Rogai por todos nós vossos filhos meus irmãos

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Nossa Senhora Aparecida, de Ronaldo Mendes

Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida do meu destino
Do meu caminho
Cuida de mim

Bendita seja a diversidade! Assim como a natureza assume a forma de cada folha que possa existir, a fé também se expressa na criação de cada um de nós…

 Autor: Catherine Beltrão

Velásquez e o Museu do Prado

O foco de hoje é a Espanha.

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“Autorretrato”, de Diego Velázquez. 1640.

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (1599-1660) foi um pintor espanhol e principal artista da corte do rei Filipe IV de Espanha. Era um artista individualista do período barroco contemporâneo, importante como um retratista. A este respeito, alguns críticos o consideram o maior retratista que o mundo já conheceu.

A obra de Velázquez também foi um modelo para os pintores realistas e impressionistas, em especial Édouard Manet que chegou a afirmar que Velásquez era o “pintor dos pintores“. Ele também influenciou artistas mais modernos, incluindo os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí, bem como o pintor anglo-irlandês Francis Bacon, que o homenageou recriando várias de suas obras mais famosas.

A grande maioria dos seus quadros estão no Museu do Prado, como:

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“O Triunfo de Baco”, de Diego Velázquez. 1629 – 165 X 225cm.

“O Triunfo de Baco”,  obra pintada para Filipe IV de Espanha. Baco é representado como o deus que recompensou ou presenteou o ser humano com o vinho. Na literatura barroca, Baco é considerado uma alegoria sobre libertação humana da escravidão da vida diária.

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“A Rendição de Breda”, de Diego Velázquez. 1634 – 307 X 367cm

A Rendição de Breda“, sua única obra com tema histórico. Também conhecida como “As lanças“, a obra é considerada por grande parte dos críticos como a mais perfeitamente equilibrada do artista.

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“As Meninas”, de Diego Velázquez. 1656 – 318 X 276cm

As Meninas“, a obra-prima de Diego Velázques, que foi reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental.

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“As Fiandeiras”, de Diego Velázquez. 1657 – 222 X 293cm

E “As Fiandeiras“, primeiro quadro na história da arte dedicado ao trabalho. Esta obra constitui um dos quadros em que é mais fácil identificar a personalidade estética do Museu do Prado.

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Fachada frontal do Museu do Prado, com a estátua de Diego Velázquez.

O Museu do Prado é o mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo.

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Interior do Museu do Prado.

Foi concebido por Juan de Villanueva, o arquiteto do rei Carlos III, sendo esta a maior e mais ambiciosa obra do neoclassicismo espanhol.

Após várias interrupções em sua construção, o museu foi inaugurado a 19 de novembro de 1819. Contendo coleções de pintura e escultura provenientes das coleções reais e da nobreza, o museu detinha, aquando da sua inauguração, cerca de 311 obras de arte, todas elas de autores espanhóis.

Atualmente, a coleção de pintura é bastante completa e complexa, existindo neste museu coleções de pintura espanhola, francesa, flamenga, alemã e italiana. Além de Velázquez, encontram-se neste museu milhares de obras de dezenas de pintores como El Greco, Goya, Georges de La Tour, Watteau, Bruegel, Bosh, Rubens, Rembrandt, Durer, Fra Angelico, Botticelli e Caravaggio, entre muitos outros…

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Interior do Museu do Prado. Sala onde se encontra “as Meninas”, de Diego Velázquez.

 Autor: Catherine Beltrão

Primavera de flores e versos

É na primavera que o ciclo recomeça. Que o tempo vira criança. Que a luz clareia a angústia. Que a alma se percebe plena.

Não é nada difícil escrever sobre a Primavera. Basta que tenhamos flores e versos. Ou poesia sem versos. Dá no mesmo.

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Vincent van Gogh

Comecemos por Cecília. A Meireles. Tem outra?

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

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Odilon Redon

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

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Pierre-Auguste Renoir

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

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Claude Monet

O Drummond bem que podia ser o segundo. Eu acho.

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa,
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera? Então eu topo,
e no verso e na prosa, eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu São Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Meier e na Rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom neste setembro)
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
E prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.

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Alberto da Veiga Guignard

Após este boato da primavera de Drummond, Manoel de Barros faz a festa!

(…)

Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra.
Nas minhas palavras ainda vivíamos meninos do mato,
um tonto e mim.
Eu vivia embaraçado nos meus escombros verbais.
O menino caminhava incluso em passarinhos.
E uma árvore progredia em ser Bernardo.
Ali até santos davam flor nas pedras.
Porque todos estávamos abrigados pelas palavras.
Usávamos todos uma linguagem de primavera.
Eu viajava com as palavras ao modo de um dicionário.
A gente bem quisera escutar o silêncio do orvalho
sobre as pedras.

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Marc Chagall

Vale agora Mario Quintana primaverescendo…

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

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Edith Blin

Com o Vinicius, de Moraes, morre-se de primavera!

O meu amor sozinho,
É assim como um jardim sem flor,
Só queria poder ir dizer a ela,
Como é triste se sentir saudade.

É que eu gosto tanto dela,
Que é capaz dela gostar de mim,
Acontece que eu estou mais longe dela,
Do que a estrela a reluzir na tarde.

Estrela, eu lhe diria,
Desce à terra, o amor existe,
E a poesia só espera ver nascer a primavera,
para não morrer,
Não há amor sozinho,
É juntinho que ele fica bom,
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho,
Eu queria ter felicidade.

É que o meu amor é tanto,
Um encanto que não tem mais fim,
No entanto ela não sabe que isso existe,
É tão triste se sentir saudade.

Amor,eu lhe direi,
Amor que eu tanto procurei,
Ah! quem me dera eu pudesse ser,
A tua primavera e depois morrer.

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Nivouliés de Pierrefort

E Clarice Lispector põe o ponto final.

Sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores.

No blog ArtenaRede são postados textos sobre impressões artísticas de seus colaboradores, que poderão servir de pretextos para comentários e discussões dos leitores, pois a Arte nunca foi unânime.